Quando a mãe morreu, o mundo da Katya, de quinze anos, desabou.
O câncer a consumiu em seis meses, deixando para trás um vazio e dívidas do tratamento.

O pai, Oleg Petrovich, tinha saído da família há muito tempo, quando Katya tinha cinco anos.
Ele tinha uma nova vida “correta”: uma esposa jovem, Angela, dois filhos pequenos e um emprego prestigioso no banco.
Ele pagava pensão em dia, mas não tinha contato com a filha — Angela era contra.
Depois do funeral, surgiu a questão: onde Katya iria morar?
Não havia avós.
Oleg apareceu no velório.
Katya, chorando, com um lenço preto na cabeça, olhava para ele com esperança.
Papai.
A única pessoa realmente da família.
— Pai, eu… posso morar com você? — perguntou baixinho.
— Eu não vou atrapalhar.
Posso cuidar das crianças, eu sei cozinhar…
Oleg desviou o olhar.
Ele mudava o peso de uma perna para a outra, mexendo nas chaves do carro.
— Katya, você entende… nosso apartamento é pequeno.
A Angela… ela não está pronta.
Nós temos nossos filhos, rotina.
Você já é grande, uma adolescente, temperamento difícil…
— Mas eu não tenho para onde ir!
O apartamento da mamãe vai ser tomado pelas dívidas!
Pai, por favor!
Eu sou sua filha!
— Não tente apelar para a pena! — gritou ele de repente.
— Eu paguei pensão por dez anos!
Eu cumpri o meu dever!
Por que eu preciso desse peso?
Eu tenho uma esposa jovem, eu não preciso de problemas!
Ele tirou um envelope.
— Aqui.
Tem dinheiro para o começo.
Eu falei com a assistência/guarda, vão te encaminhar para um bom internato.
Lá dão comida e roupa.
Você vai estudar, vai se firmar na vida.
E não venha se agarrar a mim.
Katya não pegou o envelope.
Ela apenas olhou para ele.
Nos olhos dela, a infância morreu.
— Vai embora, — disse ela com uma voz morta.
Oleg foi embora.
Katya foi parar no orfanato.
O orfanato não era “bom”.
Era uma escola de sobrevivência.
Batiam na Katya, roubavam as coisas dela.
Ela aprendeu a brigar, a fumar e a não confiar em ninguém.
Mas ela era inteligente.
Ela sabia: estudar era o único bilhete para sair dali.
À noite, debaixo do cobertor com uma lanterna, ela estudava línguas.
Ela entrou na universidade de línguas com bolsa.
Trabalhava como garçonete, lavava pratos, dormia quatro horas.
Dez anos depois, Ekaterina Olegovna era uma tradutora bem-sucedida numa empresa internacional.
Ela tinha seu próprio apartamento, um carro e um noivo estrangeiro.
Ela riscou o pai da memória.
Como se corta uma parte podre de uma maçã.
Com Oleg, tudo foi ladeira abaixo.
O banco fechou, ele foi demitido.
Ele tentou abrir um negócio — quebrou.
Começou a beber.
Angela não aguentou por muito tempo.
— Você é um fracassado! — disse ela quando ele bebeu o dinheiro guardado para as férias.
— Vou pedir o divórcio.
Vou ficar com as crianças.
O apartamento é meu, eu comprei antes do casamento.
Some para a sua mamãezinha… ah é, ela morreu.
Problema seu.
Aos 55 anos, Oleg foi parar na rua.
Sem casa, sem trabalho, com a saúde arruinada.
Ele ficou pulando de casa em casa de amigos, mas logo eles se cansavam das reclamações e da bebedeira dele.
E então ele se lembrou de Katya.
Ele a encontrou pelas redes sociais.
Viu uma foto: bonita, bem-sucedida, com a Torre Eiffel ao fundo.
“Ela é minha filha”, pensou.
“Sangue do meu sangue.
Ela não vai me abandonar.”
Ele foi até o escritório dela.
Sujo, com uma jaqueta velha, cheirando a álcool.
A secretária tentou impedir a entrada, mas ele fez um escândalo:
— Eu sou o pai dela!
Eu tenho direito!
Katya saiu para o saguão.
Reconheceu-o na hora.
— O que você quer? — perguntou friamente.
— Katyenka… filhinha… — Oleg tentou abraçá-la, mas ela recuou.
— Ajuda um velho.
Me expulsaram.
Eu não tenho onde morar.
Eu sou seu pai…
Eu sempre me lembrei de você…
— Lembrou? — Katya sorriu com ironia.
— Quando me entregou ao orfanato como se eu fosse uma coisa com defeito?
Quando eu passava fome e você levava sua nova família para o mar?
— Bem, eram tempos assim…
A Angela me pressionava…
Eu era jovem, burro…
Me perdoa, filha.
Quem lembra do passado…
Katya olhou para ele.
Dentro dela não mexeu nada.
Nem pena, nem raiva.
Só nojo.
Ela tirou a carteira da bolsa.
Puxou algumas notas.
— Aqui.
Dá para um hostel e comida por um tempo.
— E só isso? — Oleg apertou os lábios, ofendido.
— Eu achei que você ia me deixar morar…
Você tem um apartamento grande.
Eu ajudaria…
— Não, — cortou Katya.
— Eu não tenho pai.
Ele morreu há dez anos, quando disse que eu era um peso.
E você é só um estranho que bateu na porta errada.
Ela entregou o dinheiro ao segurança.
— Acompanhe o senhor para fora.
E não deixe entrar de novo.
Oleg foi embora, amaldiçoando a “ingrata”.
Ele viveu mais dois anos.
Dormia em abrigos noturnos, pedia esmola.
Morreu de cirrose hepática num hospital para moradores de rua.
Katya foi informada da morte dele — encontraram o telefone dela no bolso dele (ele mostrava a foto dela para todos, se gabando da “filha rica”).
Katya pagou o funeral mais barato.
Ela não foi.
Mandou um entregador com os documentos.
No túmulo dele não há lápide, apenas uma cruz de madeira com um número.
Katya se mudou com o marido para o Canadá.
Ela teve seus próprios filhos.
Ela os ama loucamente e nunca, em circunstância alguma, vai chamá-los de “peso”.
Ela é feliz.
Mas às vezes, ao ver famílias felizes no parque, o coração dela aperta.
Porque o buraco na alma deixado pela traição não se remenda nem com dinheiro nem com sucesso.
Ela apenas aprendeu a conviver com isso.
Moral: Filhos não são um investimento bancário para sacar na velhice, se na juventude você não colocou ali nem um centavo de amor.
A traição de um pai ou de uma mãe quebra um filho para sempre.
E não espere um copo d’água de quem, na infância, você teve pena até de dar um pedaço de pão.







