— Vou para a casa da Oksana, — Denis limpou a boca com um guardanapo e o atirou sobre a mesa.
— Ela está grávida.

Nina segurava a frigideira com os ovos fritos.
Tinha acabado de preparar o café da manhã para ele.
Como sempre.
Como por quinze anos seguidos.
— Ouviu?
Ela está no terceiro mês.
Vai ser um menino.
E você não conseguiu me dar um filho em todos esses anos.
Nina colocou a frigideira no fogão.
Os dedos se abriram sozinhos.
— Faça as malas e saia até o fim do mês, — Denis se levantou e pegou a jaqueta.
— O apartamento é meu.
Eu é que trazia dinheiro para casa, e você fazia o quê?
Cozinhava borsch e lavava meias.
Então desocupe o lugar.
A Oksana vai precisar.
A porta bateu.
Nina ficou parada no meio da cozinha.
Lá fora, os corvos gritavam.
Os ovos esfriavam no fogão.
A vida terminou entre o primeiro e o segundo gole do café da manhã.
A fila da consulta de ginecologia se estendia até a escada.
Nina estava sentada numa cadeira dura, olhando para o chão.
A cabeça rodava havia três dias.
De manhã, vinha a náusea.
Ela atribuía tudo aos nervos.
— Moça, você está tão pálida, — sentou-se ao lado uma mulher de cabelo curto e olhos inteligentes.
— Quer que eu traga água?
— Obrigada, já vai passar.
— Eu sou Svetlana Borisovna, — a mulher tirou um lenço da bolsa e o estendeu para Nina.
— Vejo que há algo sério com você.
Quer que eu apenas fique aqui ao seu lado?
Às vezes ajuda.
Nina não sabia por que começou a falar.
Talvez porque aquela mulher fosse uma estranha.
Talvez porque não houvesse mais com quem conversar.
As palavras saíram sozinhas — sobre Denis, sobre como ela era culpada por não terem filhos, sobre como estavam expulsando-a da própria casa.
Svetlana Borisovna ouviu e assentiu.
E então disse:
— Sabe, eu já vi muita coisa na vida.
E percebi uma coisa: as acusações mais barulhentas caem sobre quem menos tem culpa.
Você vai ver — logo tudo vai virar de cabeça para baixo.
— Onze semanas, — o médico olhava para Nina e sorria.
— Parabéns.
Nina ficou em silêncio.
Havia um zumbido nos ouvidos.
Onze semanas.
Por todas aquelas semanas ela carregara um bebê no ventre, enquanto Denis a tratava como um vazio.
Enquanto ele dormia com Oksana e fazia planos para uma vida nova.
Enquanto ele a expulsava de casa.
— Você precisa se cadastrar no pré-natal, — o médico anotava algo no prontuário.
— E o principal: nada de estresse.
Sua gravidez não é simples, você precisa se poupar.
Nina saiu para o corredor com as pernas bambas.
Svetlana Borisovna ainda a esperava no banco.
— E então? — ela se levantou para encontrá-la.
— Eu estou grávida, — Nina disse em voz alta e sentiu que por dentro algo se quebrava e se recomponha.
— Onze semanas.
E ele… ele me chamou de estéril e foi embora.
Svetlana Borisovna a abraçou pelos ombros.
— Vamos.
Precisamos conversar seriamente.
Num cafezinho em frente à clínica, Nina tomou chá doce e ouviu.
— Eu tenho um advogado conhecido, — Svetlana Borisovna anotou um número num guardanapo.
— Muito bom.
Você precisa agir rápido.
Seu marido acha que você desmoronou.
Mas nós vamos mostrar uma coisa para ele.
Três dias depois, ligou Masha, uma amiga antiga.
— Nina, você está sentada? — a voz tremia.
— Eu encontrei por acaso na internet uma loja.
Eles vendem velas.
As suas velas.
Nina não entendeu de imediato.
— Como assim, as minhas?
— Olha aqui, — Masha clicava algo no telefone.
— Essa com o desenho de rosas.
E aquela que você fez no Ano-Novo, lembra, com flocos de neve?
Eles estão vendendo por uma fortuna.
E mandam até para fora do país.
Nina abriu o link que Masha enviou.
Na tela estavam os trabalhos dela.
Cada vela que ela esculpia à noite na cozinha, enquanto Denis assistia TV.
Dezenas, centenas de horas de trabalho.
Denis e a mãe dele, Zinaida Fiódorovna, sempre pegavam as velas prontas.
Diziam que iam dar de presente a conhecidos e parentes.
Nina acreditava.
Ela estava acostumada a acreditar.
Mas eles comercializavam.
Vendiam o trabalho dela como se fosse um “exclusivo”.
A loja estava no nome de Zinaida Fiódorovna, mas Nina reconheceu o estilo — as descrições dos produtos eram escritas por Denis.
— Isso é ilegal, — o advogado que Svetlana Borisovna trouxe espalhou impressões das páginas sobre a mesa.
— Usaram o seu trabalho intelectual sem consentimento.
Além disso, esconderam de você a renda.
Isso nos dá uma vantagem séria no tribunal.
Denis apareceu no tribunal com a mãe.
Zinaida Fiódorovna estava com um terno novo e olhava para Nina como se ela tivesse roubado a última coisa deles.
— Você vai se arrepender de ter se metido com advogados, — ela sibilou no corredor antes da audiência.
— Meu filho se matou de trabalhar por você a vida inteira, e agora você ainda processa ele.
Ingrata.
Nina ficou calada.
Antes ela teria se justificado, chorado, pedido desculpas por algo de que não tinha culpa.
Agora ela apenas esperava.
Na sala, o advogado falou com calma e clareza.
Extratos bancários.
Capturas de tela da loja.
Avaliações de clientes dizendo que velas artesanais maravilhosas tinham recebido.
Depois o advogado colocou sobre a mesa um atestado da consulta de pré-natal.
— A minha cliente está grávida, — ele olhou para a juíza.
— Com onze semanas.
O pai da criança é o réu.
No exato período em que ele a acusava de infertilidade e a expulsava de casa, ela já carregava o filho dele.
Denis se mexeu bruscamente na cadeira.
Zinaida Fiódorovna abriu a boca.
— Ela está mentindo! — Denis se levantou.
— Ela só quer arrancar dinheiro!
— Um teste de DNA depois do nascimento vai esclarecer tudo, — o advogado deu de ombros.
— Mas os documentos médicos são inequívocos: a concepção ocorreu durante o casamento.
A juíza proferiu a decisão uma semana depois.
A maior parte dos bens ficou com Nina.
Denis foi obrigado a pagar indenização pelo uso das obras dela e pensão para a criança.
Além disso, foi proibido de se aproximar da ex-esposa sem o consentimento dela.
Zinaida Fiódorovna chorava no corredor do tribunal.
— Você arruinou a gente!
Nós te colocamos “no mundo”, e você…!
Nina passou por ela.
Sem olhar para trás.
A velha dacha dos pais ficava num vilarejo isolado, a cinquenta quilômetros da cidade.
Nina foi para lá no sábado de manhã.
Ela precisava de silêncio.
Precisava apenas respirar e não pensar em tribunais, divórcios e traição.
A casa a recebeu com cheiro de madeira velha e folhas do ano passado.
Nina abriu as janelas, tirou a poeira, pegou no depósito os materiais para velas.
Talvez ali ela conseguisse recomeçar.
O vizinho, tio Piotr, trouxe leite num vidro e batatas num saco.
— Você está aqui sozinha agora? — ele olhou atento.
— Olha, se acontecer alguma coisa, eu estou perto.
Liga na hora.
Por aqui aparece gente estranha, principalmente nos fins de semana.
Acham que as dachas ficam vazias.
— Obrigada, tio Piotr.
Nina não deu importância às palavras dele.
À toa.
No domingo ela foi ao vilarejo comprar pão e grãos.
Voltou uma hora depois.
Ao se aproximar do portãozinho, viu um carro conhecido junto à cerca.
O carro preto de Denis.
O mesmo que ele comprara com o dinheiro da venda das velas dela.
Nina parou, gelada.
Abriu o portãozinho e entrou no quintal.
Na varanda estava Zinaida Fiódorovna com uma caixa nas mãos.
Denis tirava de dentro da casa um micro-ondas.
— Fiquem onde estão, — Nina disse baixo, mas a voz saiu firme.
Denis se virou.
Por um segundo o rosto dele se distorceu de susto, depois ele tentou sorrir.
— Nina, a gente só… bom, isso também era nosso.
Decidimos pegar algumas coisas, numa boa.
— Pela decisão do tribunal, vocês não têm nada aqui, — Nina pegou o telefone.
— Coloquem tudo de volta.
Agora.
— Você vai chamar a polícia? — Zinaida Fiódorovna deu um passo à frente.
— Para nós?
Para a família?
— Vocês deixaram de ser minha família no momento em que começaram a me roubar, — Nina discou para o policial da área.
— E agora fiquem aí e esperem.
Denis empalideceu.
Zinaida Fiódorovna colocou a caixa na varanda.
— A gente só estava brincando.
Não é, Denis?
A gente não…
— Eu vi o que vocês tiraram, — Nina assentiu na direção do porta-malas, que estava entreaberto.
— Eletrodomésticos, cera para velas, ferramentas.
Vocês arrombaram a fechadura e estavam me roubando.
Tio Piotr apareceu da esquina com mais dois vizinhos.
Eles ficaram em silêncio junto ao portão, bloqueando a saída.
A polícia chegou em quinze minutos.
O policial de área inspecionou a casa, o porta-malas do carro de Denis e ouviu as explicações.
— Certo, — ele tirou o boletim.
— Arrombamento.
Furto.
Violação da ordem judicial de não se aproximar da vítima.
Apresentem os documentos.
Denis murmurava algo sobre um mal-entendido.
Zinaida Fiódorovna de repente começou a chorar e levou a mão ao peito.
— Minha pressão!
Estou passando mal!
— Chamo uma ambulância? — o policial olhou para ela sem muita compaixão.
— Não precisa, — Zinaida Fiódorovna enxugou os olhos.
— Já… já vai passar.
O policial lavrou o boletim.
Denis assinou sem levantar os olhos.
Zinaida Fiódorovna ficou calada, olhando para o chão.
A maquiagem escorreu, o terno novo amassou.
Ela já não parecia a sogra ameaçadora que por quinze anos dizia a Nina como viver.
— Vamos encaminhar o boletim ao tribunal, — o policial guardou os papéis.
— Isso já é crime.
Preparem-se para explicar.
E se aparecerem aqui de novo, vão direto para a delegacia.
Denis entrou no carro.
Ligou o motor.
As mãos tremiam.
Zinaida Fiódorovna sentou no banco do passageiro e, de repente, desabou num choro alto.
Alto, feio.
O carro arrancou e foi devagar pela estrada esburacada.
Torrões de lama voavam das rodas.
Tio Piotr se aproximou de Nina.
— Você fez certo em não se atrapalhar.
Muito bem.
Nina assentiu.
Por dentro não havia triunfo nem satisfação.
Apenas vazio.
Leve, quase sem peso.
Como se tivessem tirado dos ombros um saco que ela carregava havia quinze anos e nem percebia o quanto era pesado.
Ela entrou na casa.
Caminhou pelos cômodos, conferindo o que eles tinham conseguido levar.
Quase nada.
Só o micro-ondas e algumas caixas de cera.
Todo o resto estava no lugar.
Nina sentou no velho sofá que ainda guardava a memória da infância dela.
Pôs a mão na barriga.
Ali dentro batia um coraçãozinho minúsculo.
O filho dela.
Ele nunca vai saber como o pai expulsou a mãe de casa.
Como a avó roubava o trabalho dos outros e o vendia.
Ele vai crescer aqui, nesta casa com cheiro de maçãs e madeira fresca.
Onde os vizinhos trazem leite e batatas.
Onde dá para não ter medo.
Nina se levantou e foi até a janela.
Do lado de fora, os galhos da velha cerejeira-brava balançavam.
O sol atravessava as nuvens.
Em algum lugar na grama, os gafanhotos estridulavam.
Ela abriu a janela um pouco mais.
O ar fresco invadiu o cômodo.
Pela primeira vez em muitos anos, Nina sentiu que podia respirar de peito cheio.







