— Pântano? — Marina virou-se lentamente do fogão, onde fritava batatas para o jantar.
— Esse pântano sustentou sua mãe durante vinte anos, enquanto ela vivia indo de médico em médico.

Esqueceu?
— O que a minha mãe tem a ver com isso? Não ouse tocá-la!
— Tem tudo a ver, Vítia, porque enquanto você fazia seus “grandes negócios” na capital, eu fiquei aqui cuidando da sua mãe paralisada.
Trocava fraldas, para começar.
Vítia estava parado na porta do apartamento de dois cômodos da velha khruschovka, com um terno novo e a mala aos pés.
Marina não o via tão bonito havia muito tempo — elegante, bronzeado, cheirando a perfume caro.
Não como antes, quando chegava da fábrica todo sujo de óleo de máquina.
Ela se lembrava de como se conheceram.
Dança no clube da fábrica, ele — um jovem serralheiro, ela — do setor de contabilidade.
Rodopiava com ela ao som de “Um Milhão de Rosas Escarlates”, sussurrando bobagens em seu ouvido.
Depois veio um casamento simples, uns trinta convidados, salada Olivier e “champanhe soviético”.
A sogra chorava de felicidade, abraçava Marina: “Obrigada, minha filha, por ter domado o meu Vitinha.”
Domado.
Viveram juntos vinte e dois anos.
Criaram a filha, Lenka.
Agora ela estuda no instituto de medicina, vivendo da bolsa e dos trabalhos extras da mãe.
Vítia não dava dinheiro havia três anos — investia tudo em “negócios”.
Que negócios eram esses, Marina nunca entendeu.
Ora queria abrir uma oficina mecânica, ora se meter com transporte de cargas.
Tudo fracassava.
— Você simplesmente não entende — Vítia acendeu um cigarro nervosamente ali mesmo no corredor.
— O Serguei me ofereceu para ir morar em Moscou.
Ele tem uma rede de lava-jatos lá, vai me contratar como gerente.
No começo, vai alugar um apartamento.
— Vai sozinho? — Marina enxugou as mãos no avental.
As mãos tremiam, mas a voz permanecia firme.
— Não vou sozinho.
— Vítia desviou o olhar.
— Com a Alena.
Ela… ela me entende.
Acredita em mim.
Alena.
Marina sabia dela havia uns três meses.
Vira as mensagens no celular quando Vítia estava no banho.
“Meu gatinho”, “coelhinho”, “estou com saudades”.
O “gatinho” tinha vinte e oito anos.
Gerente em uma concessionária de carros onde Vítia foi escolher um automóvel.
Escolher a crédito, aliás, que Marina ainda paga até hoje com o seu salário de professora.
— E a Lenka? — perguntou Marina.
— Sua filha.
Daqui a um ano ela defende o diploma.
— Ela vai crescer e entender.
Eu não consigo mais viver assim.
Tenho quarenta e cinco anos, Marina.
Ainda sou jovem, ainda posso mudar tudo.
Marina se aproximou da janela.
No pátio, a vizinha Zinaida pendurava roupas no varal.
Viu Marina na janela e acenou.
Zinaida sabia de tudo.
Sabia da Alena e de que Vítia, nos últimos seis meses, só vinha para casa dormir.
Tinha pena dela como boa vizinha, trazia tortas: “Força, Marinka.”
— Você se lembra — disse Marina em voz baixa — quando a Lenka ficou doente aos cinco anos? Pneumonia, os médicos não sabiam o que fazer.
Você não saía do trabalho para ganhar dinheiro para os remédios.
E eu ficava dia e noite ao lado da cama dela.
Você então disse: “Nós somos uma família, Marina.
Vamos superar tudo.”
— Isso foi há muito tempo.
— Apenas quinze anos atrás.
Ou quando sua mãe teve um derrame? Quem corria com ela pelos hospitais? Quem não dormia à noite, virando-a a cada duas horas para não criar escaras? Eu, Vítia.
E você sempre arrumava desculpas — trabalho, compromissos.
Que compromissos? Você já estava correndo atrás desses seus negócios.
Vítia apagou o cigarro no parapeito da janela.
Marina fez uma careta — o parapeito era novo, instalado no mês passado.
Ela mesma economizou para isso.
— Você sempre lembra de tudo — disse ele com irritação.
— Só do negativo.
E as coisas boas? E quando eu te levei ao mar?
— Levou há dez anos.
Para Anapa.
Por uma semana.
— Nunca nada te basta!
Marina virou-se para ele.
Havia lágrimas em seus olhos, mas ela não as deixava cair.
Ele não teria esse prazer.
— Sabe de uma coisa, Vítia? Vai embora.
Vai para a sua Alena.
Mas vou te dizer uma coisa.
Eu cuidei da sua mãe até o fim.
Dois anos ela ficou de cama conosco, dois anos eu a alimentei com colher, dei banho, dei remédios.
E você estava onde? Trabalhando fora? Onde, Vítia?
Você não trabalhou direito em lugar nenhum nos últimos cinco anos.
Só sonhava em ficar rico.
— Eu tentei! Eu fiz isso pela família!
— Pela família? — Marina sorriu com ironia.
— A Lenka, no último ano da faculdade, trabalha como enfermeira em turnos noturnos para conseguir comprar livros.
Porque o pai resolveu virar empresário.
Eu peguei dois turnos na escola e ainda dou aulas particulares.
Para quem você estava se esforçando?
Vítia ficou em silêncio, apertando a alça da mala.
— E sabe o que é mais engraçado? — continuou Marina.
— Sua mãe, antes de morrer, me disse: “Perdoa ele, minha filha.
Ele é fraco.
Sempre foi fraco.
Obrigada por ter aguentado.”
Na época eu não entendi.
Agora entendo.
— Não ouse! — explodiu Vítia.
— Não ouse dizer que eu sou fraco!
Eu estou sufocando aqui!
Neste apartamento, nesta cidade, com você!
Você vai me levar para o túmulo com a sua correção!
— Com a minha correção? — Marina de repente riu.
Um riso seco, amargo.
— Eu passei os últimos anos apenas calada.
Calada quando você chegava bêbado.
Calada quando o dinheiro desaparecia do esconderijo — para mais um “projeto” seu.
Calada quando você cheirava a perfume estranho.
Eu pensava: vai passar, ele vai cair em si.
Afinal, somos uma família.
Ela foi até o armário e tirou uma pasta.
Vítia ficou tenso.
— O que é isso?
— Os documentos do divórcio.
Preparei há um mês.
Só estava esperando você tomar coragem.
Ou eu.
Mas você foi o primeiro — parabéns.
Assine.
Vítia olhava atônito para os papéis.
— Você… você sabia?
— Eu não sou idiota, Vítia.
Eu só te dava uma chance.
E a mim mesma — talvez eu estivesse enganada.
Não estava.
— O apartamento… — começou ele.
— O apartamento é meu.
Estava no nome da minha mãe, herdei.
Você é registrado aqui, mas não tem direito algum.
Pode tentar na justiça, mas tem um detalhe — nos últimos três anos você não trabalhou oficialmente.
Vai pagar pensão para a Lenka?
— Ela já é maior de idade…
— Estudante em tempo integral.
Até o fim dos estudos é devido.
Artigo 85 do Código da Família, só para constar.
Vítia pegou a caneta e assinou os documentos com um gesto largo.
Jogou a pasta sobre o aparador.
— É isso? Está satisfeita? Vinte e dois anos jogados fora?
Marina olhou para ele atentamente.
Cabelos grisalhos nas têmporas, rugas ao redor dos olhos.
Alguém que um dia foi amado.
Alguém que um dia foi família.
Agora — um estranho.
Completamente estranho.
— Não foram jogados fora, Vítia.
Nós temos uma filha maravilhosa.
Inteligente, bondosa, trabalhadora.
Puxou a mim — ela sorriu tristemente.
— E obrigada por esses anos.
Houve momentos bons.
Só que em algum ponto você se desviou.
Ou talvez sempre tenha sido assim, e eu não via.
Vítia levantou a mala.
Ficou parado na porta.
— Você ainda vai se arrepender.
Vai ficar sozinha.
— Não vou.
Eu tenho a Lenka.
Tenho trabalho.
Amigas.
E sabe de uma coisa?
Finalmente vou me matricular em aulas de dança.
Sempre sonhei em aprender tango.
Você ria, dizia que vacas não dançam tango.
Vamos ver.
Vítia bateu a porta.
Marina ficou em silêncio por um momento, depois foi para a cozinha.
As batatas haviam queimado.
Jogou a frigideira na pia e abriu a janela para ventilar.
O telefone tocou.
Lenka.
— Mãe, como você está? A Zinaida Petrovna ligou, disse que o papai saiu com uma mala.
— Estou bem, filhinha.
Vai jantar?
— Mãe… você está chorando?
— Não — Marina realmente não chorava.
— Estou cortando cebola.
Fazendo uma salada.
— Eu vou aí agora.
Depois do turno vou direto para sua casa.
— Não precisa, Len.
Você tem prova amanhã.
— Mãe, não seja boba.
Já estou indo.
E mãe… eu te amo.
Você é a mais forte de todas.
Marina desligou.
Tirou da geladeira uma garrafa de vinho — presente do Dia do Professor, guardada para uma ocasião especial.
Serviu meio copo, ergueu-o em direção à janela, onde o sol do entardecer dourava os telhados.
— À nova vida — disse para si mesma.
Lá embaixo, no pátio, a porta de um táxi bateu.
Vítia colocava a mala no porta-malas, e do carro uma jovem loira acenava para ele.
Alena.
Marina a tinha visto algumas vezes perto da concessionária — nada de especial.
Apenas jovem.
Zinaida gritou lá de baixo:
— Marinka! Estou levando uma torta para você! De repolho, como você gosta!
Marina sorriu.
Pela primeira vez em meses, sorriu de verdade.
Sobre a mesa ficaram os documentos do divórcio e, ao lado, o molho de chaves que Vítia deixara.
Ela pegou as chaves, pesou-as na palma da mão.
Amanhã vai trocar as fechaduras.
E se matricular nas aulas de dança.
E talvez ir ao salão — há tempos queria cortar o cabelo em um chanel.
Hoje, porém, vai beber vinho com a Zinaida, comer torta e não pensar no que vem pela frente.
Porque à frente está a vida.
A vida dela.
Sem olhar para trás, para quem a traiu.
O telefone tocou novamente.
Número desconhecido.
— Marina Sergeevna? Aqui é do decanato do instituto de medicina.
Sua filha foi indicada para uma bolsa nominal.
Parabéns! A Lenka é o nosso orgulho!
Marina finalmente chorou.
Mas eram lágrimas de felicidade.







