Um minuto depois, ninguém se ria, ao ver o livrinho vermelho.
— Desliga o motor.

E os documentos aqui, já.
Uma mão pesada bateu com força na moldura da janela aberta do meu “Logan” bege de serviço.
Com aquele estalo, o vidro velho tremeu queixosamente dentro da porta.
Não olhei para o relógio, mas o sol batia com tanta força que o plástico escaldante do painel queimava os dedos.
O ar condicionado daquele carro velho tinha avariado ainda em maio.
Eu tinha escolhido de propósito o carro mais discreto da garagem da nossa direção — vinha de uma inspeção não oficial do distrito vizinho e levava no banco de trás uma pasta cheia de material sobre um certo apreciador de subornos “fora de patente”.
O habitáculo encheu-se logo do cheiro espesso de asfalto a derreter, poeira da berma e menta agressiva de pastilha elástica, que se sentia claramente no agente da polícia rodoviária que estava ao lado.
— Boa tarde, — disse eu, num tom firme, sem tirar as mãos do volante pegajoso por causa do calor.
— Pode dizer-me o motivo da paragem?
— Eu sou o motivo e sou também a consequência, — rosnou o inspetor, limpando a testa brilhante de suor com a manga da camisa fardada.
Pela aparência, tinha uns quarenta anos.
Rosto vermelho, inchado, olheiras escuras sob os olhos.
Atrás dele, atravessada e a bloquear-me a saída para a estrada, estava uma viatura patrulha com os sinais especiais desligados.
Lá dentro, no banco do passageiro, via-se a silhueta de um segundo agente.
Tenho quarenta e seis anos.
Destes, vinte trabalho na Direção de Segurança Interna.
O nosso trabalho é apanhar precisamente aqueles homens de farda que confundem o serviço público com um negócio pessoal.
Estou habituada a identificar este tipo de personagem pelas primeiras frases, pelo olhar fugidio, pela postura descarada.
Naquele momento eu usava umas calças de linho comuns e uma simples t-shirt cinzenta.
Nem um grama de maquilhagem, o cabelo apanhado num nó desleixado.
Para ele eu era apenas uma mulher cansada num carro modesto.
Um alvo perfeito.
— Passe os documentos, eu disse, — o inspetor bateu impaciente com os dedos na porta.
— Carta, livrete.
Não atrasamos.
— O senhor mandou-me parar fora de um posto fixo, — a minha voz manteve-se calma, sem qualquer entoação.
— Não se identificou, não mostrou a credencial de serviço.
O que se passa?
Uma operação especial?
O inspetor parou de mastigar a pastilha de menta.
Os olhos duros semicerraram-se.
Ele estava claramente habituado a outra reação: normalmente, naquele troço isolado, os condutores começavam a mexer-se nervosos, a bajular, a justificar-se.
A minha calma tirava-o do sério.
— Então é assim, espertinha, — apoiou os cotovelos na porta, quase enfiando a cabeça no carro.
— Parece-me que vem de si um cheiro forte.
Ontem, aposto, bebidas fortes com amigos, e hoje ao volante?
Eu sorri por dentro.
O esquema velho e gasto.
Contava com o susto.
A pessoa fica nervosa, jura que só bebeu kefir, e o inspetor suspira com ar de quem sabe tudo e propõe “resolver sem auto”.
— Eu não bebo, — olhei-o diretamente nos olhos.
— Nunca.
Nem em festas, nem ao fim de semana.
Mas se tem suspeitas, vamos formalizar o afastamento da condução.
Faça o auto, arranje duas testemunhas, traga um aparelho certificado.
Vamos soprar com gravação de vídeo.
O rosto dele encheu-se de manchas vermelhas irregulares.
Testemunhas, naquela estrada vazia e queimada pelo sol, não havia onde arranjar.
— Sabemos as leis, não é? — rangeu os dentes, cuspindo no asfalto junto à minha roda dianteira.
— O aparelho está em verificação.
Agora chamo o reboque, o teu carro vai para o parque, e nós os dois vamos ao hospital do distrito fazer análise ao sangue.
Perdes meia jornada e um monte de nervos.
Estás pronta?
— Chame o reboque, — encolhi os ombros.
— E não se esqueça de pôr no auto que o aparelho não está disponível.
Ele expirou ruidosamente pelo nariz, como um bicho enfurecido.
O plano estava a ruir.
Estendi a mão para a mala no banco ao lado, tirei o smartphone e toquei no ícone da câmara.
Pousei o telemóvel no painel, com a lente voltada para a janela.
— Que truques são esses? — o inspetor recuou, ao ver o indicador vermelho da gravação.
— Estou a registar a nossa interação, — levantei um pouco a voz para que o microfone captasse bem as palavras.
— O inspetor recusa identificar-se, faz acusações infundadas, ameaça com o parque sem lavrar auto.
Peço que diga o seu nome e posto.
Aquilo foi a gota de água.
Um homem embriagado da própria impunidade naquele pedaço de estrada simplesmente não conseguiu suportar uma recusa.
— Ah, sua… decidiste filmar-me?!
Deu um puxão brusco, enfiou o braço pela janela e arrancou-me a carta de condução, que eu segurava na mão esquerda.
— O que está a fazer?
Devolva o documento! — inclinei-me para a frente.
— Documento?
Já não há documento, — rosnou, a respirar pesadamente.
Agarrou o cartão de plástico com as duas mãos.
Tensionou os dedos.
E dobrou a minha carta ao meio com força.
No ar abafado e escaldante soou um estalo seco e nítido.
O plástico partiu.
Depois puxou as mãos em sentidos opostos, rasgando o documento de vez.
Amassou os pedaços e atirou-os com força por cima do ombro.
Os fragmentos rosados voaram para uma vala funda, coberta de cardos secos.
— Vai a pé, já que és tão esperta! — ria-se o inspetor, olhando-me de cima abaixo.
— Desaparece daqui sem carta.
E queixa-te a quem quiseres.
Vou dizer que foste tu que a estragaste quando eu te apanhei.
Nem um cão vai acreditar em ti.
Fiquei imóvel.
A garganta secou, mas não por causa do calor.
Lembrei-me do pai de uma colega, um reformado comum.
Há meio ano, numa estrada parecida, também lhe extorquiram o pouco dinheiro que tinha.
O homem idoso ficou mesmo muito mal, demorou a recuperar, e para a família foi uma provação.
Soltei o cinto de segurança.
O clique pareceu-me anormalmente alto.
Empurrei a porta, obrigando o inspetor a dar um passo atrás.
As solas dos meus ténis estalaram na gravilha quente.
Sem dizer nada, contornei o carro e desci pela encosta íngreme até à vala.
Os espinhos prendiam-se no tecido das calças.
Remexendo na poeira, encontrei as duas metades rasgadas do meu documento.
Subi de volta.
Aproximei-me do capô e coloquei os pedaços com cuidado, lado a lado, alinhados.
Peguei no telemóvel do painel e filmei o resultado bem de perto.
O inspetor estava ali, de mãos na cintura, a observar-me com desprezo aberto.
— Já fizeste o teu filme? — resmungou.
— Agora fechas o teu carro e vais a pé pela berma em direção à cidade.
Aproximei-me dele até ficar mesmo à frente.
— Qual é o seu apelido?
— E a ti que te importa, peão? — continuou a rir.
— Apelido.
E posto.
— Primeiro-tenente Ilia Savchenko.
Satisfeita?
E agora desaparece da minha frente.
Olhei para ele durante alguns segundos, gravando na memória cada detalhe do rosto.
Depois, devagar, abri o fecho da bolsa de cintura.
Meti a mão lá dentro.
Toquei num livrinho compacto, cor de vinho escuro, com letras douradas.
Tirei-o e, com um gesto brusco, abri-o mesmo diante do rosto dele.
— Direção de Segurança Interna do Ministério do Interior.
Tenente-coronel Soboleva Svetlana Iurievna.
O brilho do sol na holografia deslizou-lhe pelo nariz.
Eu já tinha visto aquela mudança dezenas de vezes, mas nunca deixava de me surpreender.
Primeiro, os olhos dele correram pelas linhas, como se o cérebro recusasse aceitar a informação.
Depois, o significado da sigla entrou-lhe na cabeça.
O rosto de Savchenko ficou de repente cinzento e abatido.
O maxilar começou a tremer-lhe.
— Acabaste de destruir deliberadamente o documento de uma agente em serviço, primeiro-tenente Savchenko, — disse eu, martelando cada palavra.
— Abuso de poder.
Ameaças.
— Eu… eu… — as mãos dele caíram, sem força.
A voz desapareceu, virando um sussurro rouco.
— Svetlana Iurievna… camarada tenente-coronel… eu não sabia…
— Não sabias quem eu era.
Mas sabias perfeitamente o que estavas a fazer.
Quantas pessoas comuns já espoliaste aqui?
Quantas famílias deixaste sem dinheiro?
Da viatura patrulha saiu o segundo agente, desajeitado, tropeçando nos próprios pés.
Um rapaz muito novo, a farda pendia-lhe no corpo, o boné estava torto.
Ele alternava o olhar, apavorado, entre a minha credencial e o Savchenko pálido.
Peguei no telemóvel e liguei para o número direto do oficial de serviço.
— Central, em escuta.
— Tenente-coronel Soboleva.
Estrada, quilómetro quarenta e cinco.
Envie uma equipa com urgência.
Agente parou sem fundamento, destruiu documentos, tentativa de extorsão registada.
— Recebido.
Chegam em vinte minutos.
Guardei o telemóvel.
Estes vinte minutos de espera são sempre os mais reveladores.
Savchenko deixou-se cair no capô da patrulha.
O suor escorria-lhe em bicas.
— Camarada tenente-coronel… — levantou os olhos para mim, cheios de pavor.
— Eu imploro.
Tenho filhos pequenos.
A minha mulher tem problemas graves de saúde.
Vão despedir-me com desonra.
Eu compenso tudo.
Amanhã trago-lhe uma carta nova eu mesmo.
Cancele a chamada, foi o diabo que me tentou!
— O diabo tentou-te quando decidiste que a farda é uma licença para roubar, — dei um passo atrás para não sentir o cheiro dele.
— As pessoas que tu roubaste nesta estrada também têm filhos.
E também têm desgraças.
Pensaste nisso há meia hora?
Ele tapou o rosto com as mãos.
Virei-me para o jovem parceiro, que parecia colado ao metal da patrulha.
— Apelido?
— Tenente Roman Tumanov… — gaguejou ele, engolindo em seco.
— A escolha é simples, Roman.
Ou contas agora tudo o que acontecia aqui antes de eu chegar, ou vais como cúmplice.
Grupo de pessoas por acordo prévio.
Escolhe.
O rapaz abanou a cabeça.
— Eu não vi nada… estava no telemóvel…
— Não mintas, — cortei-lhe, dura.
— Tenho vinte anos de serviço.
Eu vejo como estás a tremer.
Queres estragar a tua vida por causa da ganância dele?
Savchenko tirou as mãos do rosto e lançou um olhar de ódio ao colega.
— Cala a boca, Tumanov!
Tu não viste nada!
— Mais uma palavra, Savchenko, e eu acrescento coação de testemunha, — disse eu num tom gelado.
— Então, Roman?
Tumanov respirou fundo.
Ele tremia.
— Ele faz isto em todos os turnos, — acabou por dizer, olhando para o asfalto a ferver.
— Escolhe carros mais simples.
Mulheres sozinhas, reformados.
Começa a pressionar, ameaça levar para exames, mandar a viatura para o parque.
As pessoas assustam-se.
Entregam o dinheiro por conta própria.
Eu pedi-lhe para parar…
E ele dizia que era preciso ensinar os parvos.
Ao longe ouviu-se o uivo das sirenes.
Dois micro-autocarros discretos surgiram na curva, levantando uma nuvem de poeira, e travaram bruscamente junto à nossa berma.
Os operacionais saíram depressa.
O chefe da equipa, Pavel, aproximou-se de mim.
— Tudo bem, Svetlana Iurievna?
— Tudo controlado.
Aqui estão as provas, — entreguei-lhe um saco plástico com os pedaços da carta.
— O suspeito está pronto.
O parceiro está a colaborar.
Pavel fez um sinal aos seus homens.
Savchenko nem se mexeu quando o metal das algemas estalou seco nos pulsos.
Arrastava os pés, pesado, como um velho.
Toda a insolência, todo o poder de que ele se embriagava naquela estrada vazia, evaporou-se sem deixar rasto.
Sentei-me ao volante do meu “Logan” abafado.
Liguei o motor.
No banco de trás continuava a pasta grossa com documentos.
As minhas mãos já não apertavam o volante, a respiração estabilizou.
Um mês depois, Savchenko foi afastado do cargo e foi instaurado um processo criminal.
Assim que a informação se espalhou, começaram a aparecer na direção pessoas com queixas — os mesmos condutores que antes tinham medo de falar.
Tumanov recebeu uma repreensão severa e foi transferido para outro departamento — a investigação teve em conta o seu depoimento.
E eu recebi novos documentos exatamente vinte e quatro horas depois.
E continuo a conduzir por estas estradas poeirentas com uma t-shirt velha.
Porque, às vezes, a melhor forma de apanhar quem perdeu a noção dos limites é deixá-los acreditar que têm à frente uma pessoa indefesa.







