«Querida, onde estás? E quem vai cozinhar?» — indignou-se o marido, depois de chamar a família.

Ele não sabia que a esposa já estava a embarcar num avião.

As rodinhas de plástico da mala batiam surdas nas placas caneladas do terminal.

Sofia encostou-se ao vidro frio da janela panorâmica, observando como aproximavam a escada de embarque do avião atarracado.

Na mala de mão, entre o passaporte e o cartão de embarque, o telemóvel vibrava sem parar.

No ecrã aparecia o nome do marido.

Sofia, sem pressa, tirou uma pastilha de menta, pôs na boca e só depois deslizou o botão verde no ecrã.

— Sonya, estás a gozar comigo?! — a voz do Oleg descambou num guincho tão forte que ela teve de afastar o altifalante do ouvido.

— Tenho o corredor cheio de gente!

A mãe chegou, e a tia Valya veio arrastada da província com dois netos.

Eles vêm de viagem, estão cansados.

Onde é que andas?

E o mais importante: porque é que o frigorífico está vazio?!

Onde está o pato que a mãe estava à espera?

Sofia trincou a pastilha.

— Na prateleira de baixo do congelador, Oleg.

Lá no fundo, no canto.

Rijo como pedra, tal e qual a tua consciência.

— O que quer dizer no congelador?! — ao fundo ouviu-se uma criança a choramingar, e o Oleg mandou-a calar.

— Sonya, não me tires do sério.

As pessoas vieram dar-te os parabéns pelo aniversário!

E tu nem as saladas cortaste.

Apanha um táxi já e vem para casa a correr.

— Querida, onde estás? E quem vai cozinhar? — troçou Sofia, imitando o tom dele daquela manhã.

— A secção de comidas prontas do supermercado da esquina está aberta até às dez da noite.

Comprem pelmeni.

Eu vou viajar.

O embarque é daqui a cinco minutos.

Ela não ficou para ouvir o marido encher o peito para mais uma tirada e desligou.

Durante esses seis anos de casamento, ela fechou os olhos com cuidado ao modo como o Oleg disfarçava a avareza e o egoísmo doméstico com a palavra da moda “racionalidade”.

A ela, então com trinta anos, ele parecia incrivelmente fiável.

Um homem cinco anos mais velho, com a vida planeada, sem vícios e sem gastos tolos.

Os primeiros sinais de alarme começaram ainda na chamada lua de mel.

— Sonya, mas que Emirados? Quem é que nós lá não vimos? — argumentava o Oleg, arrumando cuidadosamente os talões do supermercado em montinhos na mesa da cozinha.

— Pagar mais para suar na praia?

Vamos à aldeia da minha mãe.

Ela tem lá casa, e um rio a dois passos.

E ainda ajudamos a pessoa.

Ela concordou.

Pareceu-lhe uma prova de cuidado com a geração mais velha.

Logo no primeiro dia, a sogra, Raisa Pavlovna, deu à nora um robe desbotado com florzinhas e levou-a para a estufa.

As férias transformaram-se numa galera.

O cheiro das folhas apodrecidas, os joelhos a zumbir de esforço e as unhas sempre sujas.

Sofia lavava frascos com bicarbonato, cortava curgetes, esterilizava tampas.

As mãos ficaram a cheirar a vinagre de tal modo que dava náuseas.

E o Oleg, nesse tempo, estava sentado no alpendre, de t-shirt limpa, a mexer no telemóvel.

— Hoje combinei com os homens daqui: vão trazer-nos orgânico baratinho — anunciava ele, orgulhoso, ao jantar.

— Vês, mãe, que organizador eu sou?

Sem mim pagavas o triplo.

Depois veio a remodelação do apartamento deles.

Sofia suplicou para contratarem uma equipa, pelo menos para as obras de base.

Mas o Oleg foi inflexível.

— Não dou um cêntimo a estranhos.

Fazemos nós.

Sofia ainda se lembrava daquele cheiro pegajoso e desagradável do primário.

Trabalhou até à exaustão a arrancar o velho papel de parede soviético, que só saía com pedaços de reboco.

Carregava sacos de argamassa enquanto o marido, com ar entendido, encostava o nível à parede e estalava a língua: “Aqui há um desvio de dois milímetros, refaz”.

Mas a gota de água caiu no inverno passado.

Oleg anunciou de repente que os colegas o chamavam para uma pescaria de inverno com pernoita numa base turística.

Sofia, que tinha passado duas semanas a trabalhar sem folgas a fechar o relatório anual, pediu-lhe que ficasse em casa.

— Sonya, eu já entrei com dinheiro para a gasolina — despachou o marido.

— Descansa em casa, dorme.

Mas dormir não deu.

Às sete da manhã de sábado, ligou a Raisa Pavlovna.

A voz, fraca e entrecortada.

— Sonyenka… caí no alpendre.

A coluna dói tanto que não consigo respirar.

Ligo ao Oleg — o número está indisponível.

Sofia saltou, vestiu as calças de ganga por cima das calças do pijama, agarrou no volante e disparou pela estrada gelada rumo à aldeia.

O corpo tremia-lhe o caminho todo.

Imaginava lesões graves, enfermarias, uma reabilitação longa.

Entrou na casa da sogra sem bater.

O nariz foi-lhe invadido por um aroma denso de chá acabado de fazer e de bolos fofos com requeijão.

Raisa Pavlovna estava sentada à mesa da cozinha, corada, cheia de energia, a ver um programa matinal na televisão.

— Ai, vieste! — alegrou-se a sogra.

— Já me passou!

Usei pomadas, parece que se resolveu.

Mas já que estás aqui, vamos pôr as janelas no modo de verão, que entra corrente.

E também é preciso mudar as cortinas: eu não vou subir ao banco.

Sofia sentou-se lentamente na cadeira.

Percebeu tudo de imediato.

Que o Oleg certamente estava em contacto com a mãe.

E que ele tinha ido de propósito, deixando a mulher a resolver os problemas domésticos da sogra.

Não foi um acaso: era um esquema bem ensaiado.

Ela levantou-se em silêncio, saiu da casa, entrou no carro e foi-se embora.

Em casa, entrou no site da companhia aérea e comprou um bilhete para Kaliningrado.

Com todo o dinheiro das férias.

Ao Oleg não disse nada — deixou apenas um bilhete em cima da mesa da cozinha.

Quando ele voltou, fez um escândalo.

Gritou sobre o orçamento familiar, sobre egoísmo.

— Trocaste a família pelos teus caprichos!

A mãe ficou lá sozinha a lutar com as cortinas! — indignava-se ele, a andar de um lado para o outro.

Mas Sofia, nessa altura, limitou-se a beber chá em silêncio, olhando através dele.

E agora aproximava-se o seu trigésimo sexto aniversário.

Não era um número redondo, mas Sofia queria desesperadamente uma festa.

Uma coisa simples, humana.

Comprou um vestido bonito de seda grossa azul-escuro e reservou uma mesa para dois num restaurante de peixe acolhedor.

— Oleg, na sexta-feira à noite não marques nada — avisou ela uma semana antes.

— Jantamos os dois.

Estou tão cansada da confusão.

Nada de cozinhar, só sentamos um pouco.

O marido desviou o olhar.

Raspou com a unha uma mancha no tampo da mesa.

— Olha, houve um imprevisto.

Os rapazes do trabalho já andavam há muito a planear uma ida à base.

Banho turco, churrasco.

E há um desconto enorme precisamente neste fim de semana.

Eu já aceitei.

Sofia ficou imóvel.

— Vais embora no dia do meu aniversário?

— Sonya, mas o que é isso, pareces uma criança!

Não é nenhum jubileu.

Ao restaurante vamos depois, quando pagarem o salário.

Para quê pagar mais num fim de semana?

Além disso, eu tratei de ti!

Oleg abriu um sorriso, convencido da sua genialidade.

— Convidei a mãe!

E a tia Valya.

Elas já não se viam há muito.

A tia Valya vai trazer os netos.

Vêm a nossa casa na sexta ao fim da tarde.

Vocês ficam em família, num círculo de mulheres!

A mãe pediu muito que assasses o teu pato “de assinatura”.

E faz também o aspic: o teu fica transparente.

Sofia olhou para o rosto do marido.

Nem uma sombra de dúvida.

Ele acreditava sinceramente que lhe tinha feito um favor.

Atirou-lhe a parentela para cima para não sentir culpa por ir embora.

— Então, o pato? — repetiu ela, baixinho.

— Sim!

E pica umas saladas.

Só compra a maionese em promoção, na loja ao lado.

Pronto, combinado!

Durante toda a semana Sofia foi a esposa perfeita.

Ela acenava com a cabeça quando o Oleg lhe ditava a lista de compras.

Foi buscar à lavandaria o fato dele para a viagem.

E na quinta-feira, um dia antes da festa, ela fez as malas.

Na sexta de manhã, Oleg correu para o trabalho, dizendo que ia buscar as coisas e seguir para a base turística diretamente do escritório.

A família devia aparecer por volta das seis da tarde.

Ao almoço, Sofia chamou um táxi.

No frigorífico havia apenas um pacote solitário de margarina e meia cebola.

Em cima da mesa, deixou o recibo impresso do pagamento das contas.

…A rapariga no balcão do check-in sorriu, estendendo-lhe o cartão de embarque.

O telemóvel voltou a ganhar vida.

Chegou uma mensagem do Oleg: «Tu és maluca! A mãe está completamente sem perceber nada. As crianças têm fome. Encomendámos pizza, mas tu vais devolver-me o dinheiro! Afinal, é o teu aniversário!»

Sofia sorriu de lado e bloqueou o número.

Daqui a algumas horas, ela vai sair do avião noutra cidade.

Vai ficar num quarto pequeno de hotel com vista para a baía.

Vai beber chá quente com espinheiro-marítimo, passear pela marginal e saborear o ar frio e salgado.

Ela vai voltar dentro de uma semana.

Vai juntar calmamente as coisas que faltam e vai pedir o divórcio.

O apartamento foi comprado durante o casamento, a hipoteca foi paga por ambos, por isso a divisão de bens vai ser longa e desagradável.

Oleg vai gritar, Raisa Pavlovna vai tomar medicamentos e ligar a todos os parentes, a queixar-se da nora ingrata.

Mas isso tudo será depois.

Agora ela simplesmente subia a escada do avião, ouvindo o ronco das turbinas e sentindo que, a cada passo, a alma ficava surpreendentemente calma e leve.