— Agora, de repente, eu te faço falta? — meu marido foi morar com a amante, mas depois pediu para voltar para casa.

Serguei pousou a xícara na mesa com tanta força que o café respingou na toalha.

Irina olhou para a mancha marrom se espalhando devagar pelo tecido branco e, por algum motivo, foi justamente aquela mancha que lhe pareceu, naquele instante, a coisa mais importante do mundo.

Não as palavras do marido, que ele já vinha dizendo havia uns cinco minutos, mas aquela mancha difusa, sem forma.

— Você está me ouvindo? — a voz de Serguei soou irritada.

— Ira, eu estou falando sério.

Eu preciso conversar com você.

— Estou ouvindo, — ela ergueu os olhos.

O rosto do marido estava tenso, as maçãs do rosto travadas.

Cinquenta anos vividos juntos — não, não juntos, vinte e oito anos juntos, e cinquenta para cada um deles.

E ela aprendera a ler cada ruguinha naquele rosto.

— Eu conheci uma mulher, — ele soltou o ar, e Irina entendeu que as próximas palavras destruiriam tudo.

— O nome dela é Alina.

Ela tem trinta.

Eu… eu me apaixonei.

Estranho, mas o primeiro pensamento foi: «Trinta? A pele dela ainda é firme».

Irina, sem perceber, passou a mão no próprio pescoço, onde já se desenhavam algumas dobras.

— Você entende, — continuou Serguei, e na voz dele havia algo parecido com alívio, — nós dois nos acostumamos um ao outro.

Como um móvel velho.

Confortável, familiar, mas… isso é vida?

Nós dois temos cinquenta, Ira.

A gente precisa começar a viver de novo, enquanto ainda dá tempo.

— A gente? — ela repetiu, baixinho.

— Bem, eu com certeza.

Com a Alina eu me sinto jovem.

Entende?

Eu estou vivo de novo.

E aqui… — ele fez um gesto envolvendo a cozinha, a cozinha deles, onde ela preparava o café da manhã para ele todas as manhãs, onde comemoravam aniversários, onde os filhos já crescidos vinham visitar.

— Aqui tudo parece um museu.

A gente é como duas peças de exposição.

Irina ouvia e não reconhecia o homem à sua frente.

Ou, ao contrário, conhecia bem demais?

Serguei sempre fora egoísta; antes, ela é que não via.

Ou não queria ver.

— O que você quer? — perguntou ela.

— Eu quero tentar.

Com ela.

Vou sair de casa.

Já aluguei um apartamento.

Amanhã eu pego minhas coisas.

— Amanhã?

— Pra que enrolar? — ele deu de ombros.

— Somos adultos.

Não vamos fazer cena.

E de fato não houve cena.

Irina assentiu, levantou, foi para o quarto.

Deitou na cama e ficou olhando para o teto.

As lágrimas só vieram uma hora depois, quando ela ouviu a porta de entrada bater.

Serguei tinha ido embora.

Assim, simplesmente.

Depois de vinte e oito anos.

Nas primeiras semanas, ela existiu no piloto automático.

Levantava, tomava café, olhava pela janela.

A filha, Lena, ligava todos os dias, vinha com comida, tentava animá-la.

— Mãe, ele é que é um idiota, — dizia ela.

— Crise de meia-idade aos cinquenta, fala sério.

— Não é meia-idade, — respondia Irina.

— É uma amante jovem.

— Que vai largar ele assim que ele deixar de ser uma fonte de diversão.

Talvez Lena estivesse certa.

Mas Irina não se importava.

Ela se sentia como uma coisa jogada fora.

Inútil.

Velha.

Uma manhã, um número desconhecido ligou.

O tabelião se apresentou, seco e educado: «Irina Viktorovna, a senhora precisa comparecer ao nosso escritório.

Trata-se de uma herança».

— Que herança?

— Da sua tia, Ekaterina Vassílievna Sokolova.

Tia Katia.

Irina mal conseguiu lembrar o rosto dela — uma velhinha ressequida que morava sozinha num velho apartamento de dois quartos na periferia e com quem elas se viam uma vez a cada alguns anos.

A tia nunca se casou, trabalhou a vida toda, economizava cada copeque.

— Ela morreu?

— Há dois meses.

Procuramos a senhora por muito tempo.

A senhora é a única herdeira.

No escritório, o tabelião lhe entregou os documentos e, quando Irina viu a quantia, ficou sem ar.

Seis milhões de rublos.

Tia Katia economizou a vida inteira, não gastava com nada, e tudo isso foi para a sobrinha que ela tinha visto, no máximo, umas dez vezes.

— Mãe, você está rica! — gritou Lena quando soube.

— Vamos fazer uma reforma pra você!

Vamos renovar o apartamento!

— Pra quê? — Irina olhava para o papel de parede descascado, para os móveis velhos.

Tudo aquilo lembrava Serguei.

— Porque está na hora de começar a viver!

Ele começou uma vida nova?

Então começa você também!

E por que não?

Sim.

Sim, está na hora.

A reforma se estendeu por três meses.

Irina escolheu tons claros, jogou fora todos os móveis antigos, comprou um sofá novo, uma cama nova.

Trocou o papel de parede, substituiu a parte hidráulica, colocou luminárias diferentes.

O apartamento se transformou — ficou claro, leve, nada parecido com o lugar onde ela vivera com Serguei.

Depois, cuidou de si.

Se matriculou na academia, marcou com uma esteticista, foi ao cabeleireiro.

Corte curto, luzes suaves, roupas novas — não aqueles suéteres sem forma que ela usava nos últimos anos, mas vestidos bonitos, jeans, blusas.

— Mãe, você parece ter quarenta! — Lena admirava.

Irina se olhava no espelho e não se reconhecia.

Não, reconhecia — era ela, só que esquecida, escondida sob uma camada de obrigações, rotina, cansaço.

Uma mulher que passou a vida inteira se adaptando ao marido, cozinhando, limpando, servindo, e esqueceu de si mesma.

Por insistência da filha, ela criou um perfil e começou a postar fotos do apartamento renovado, das caminhadas, dos looks novos.

Os seguidores não eram muitos, mas os likes iam chegando, e isso era gostoso.

Uma noite, quando ela estava sentada num café novo perto de casa com um livro, um homem se aproximou da mesa dela.

— Com licença, este lugar está livre?

Ela levantou os olhos.

Alto, grisalho, com um sorriso agradável.

Uns cinquenta e cinco anos, no mínimo.

— Está, — ela assentiu.

— Dmitri, — ele se apresentou.

— A senhora vem sempre aqui?

Eu não a tinha visto antes.

— Irina.

Não, é a primeira vez.

Eles começaram a conversar.

Dmitri era arquiteto, tinha voltado recentemente para a cidade depois de um longo período de trabalho em São Petersburgo.

Divorciado, filhos adultos.

Gosta de ler, ir ao teatro, viajar.

— E a senhora? — perguntou ele.

— Eu também… me libertei recentemente, — Irina sorriu.

Quando se despediram, ele pediu o número dela.

E ligou no dia seguinte.

O primeiro encontro foi no teatro.

O segundo, num restaurante.

O terceiro, apenas uma caminhada pela orla.

Dmitri era atencioso, interessante, engraçado.

Não tentava parecer mais jovem, não ficava dizendo que ainda estava “com tudo”.

Ele era simplesmente ele mesmo, e com ele Irina se sentia leve.

— Desculpa ligar tão tarde.

A voz de Serguei no telefone veio inesperada, e Irina nem entendeu de imediato quem era.

Ela tinha acabado de voltar de um encontro com Dmitri e estava trocando de roupa para colocar o pijama.

— O que aconteceu? — ela perguntou, neutra.

— Eu posso… ir até aí?

Pra conversar?

— Serguei, já são onze da noite.

— Então amanhã?

Por favor, Ira.

É importante.

Ela suspirou.

— Está bem.

Amanhã, às duas.

De manhã, ela demorou para escolher o que vestir e riu de si mesma.

Pra quê?

Por causa dele?

Mesmo assim, escolheu um vestido bonito, uma maquiagem leve, o perfume preferido.

A campainha tocou exatamente às duas.

Serguei estava na porta com um buquê de rosas e um ar perdido.

Ele a olhou dos pés à cabeça, e nos olhos dele passou um lampejo de surpresa.

— Você… você está ótima, — murmurou.

— Obrigada.

Entre.

Ele entrou, olhou ao redor — e parou, imóvel.

— O que aconteceu aqui?

— Reforma.

— Eu estou vendo!

Mas isso… isso é outro apartamento!

— Exatamente, — Irina foi até a cozinha.

— Vai querer café?

— Quero.

Ele se sentou devagar na cadeira nova, ainda olhando em volta.

— Ira, aqui tudo mudou.

E você… você está diferente.

— As pessoas mudam, — ela colocou uma xícara na frente dele.

— Você mesmo dizia que era preciso começar a viver de novo.

Ele segurou a xícara com as duas mãos, sem levantar os olhos.

— Eu errei.

— Em quê, exatamente?

— Em tudo.

A voz dele falhou.

— Com a Alina acabou.

Ela… não era nada do que eu imaginava.

Ela só queria dinheiro, diversão.

E quando entendeu que eu não sou milionário, simplesmente foi embora.

Com outro.

Irina tomou o café em silêncio.

— Eu vi o seu perfil, — ele continuou.

— A Svetka Vorônina me disse que você se renovou toda.

No começo eu não acreditei.

Achei que era Photoshop.

Mas você realmente… — ele finalmente a encarou.

— Você ficou mais bonita do que era.

Mais viva.

Sabe, eu entendi que tudo aquilo com que eu sonhava estava em casa.

Eu só fui um idiota cego.

— Uhum.

— Ira, eu quero voltar.

Eu cometi um erro terrível.

Eu te amo.

A gente ficou junto tantos anos!

Vamos começar do zero?

Eu mudei, de verdade.

Eu entendi que você é a minha família.

A minha vida.

Irina pousou a xícara na mesa e olhou para ele.

Para aquele homem que um dia tinha sido seu marido.

Que a abandonou por uma amante jovem, chamou a vida deles de museu, e ela mesma de hábito.

— Sabe, Serguei, — começou ela, calma, — eu esperei por essas palavras durante cinco meses.

Eu imaginava você voltando, pedindo perdão, e eu, claro, perdoando.

Porque vinte e oito anos é muita coisa.

Porque o hábito é forte.

Porque eu tinha medo de ficar sozinha.

Ele assentiu, e nos olhos dele acendeu uma esperança.

— Mas depois, — continuou Irina, — aconteceu uma coisa estranha.

Eu recebi uma herança, fiz uma reforma, me coloquei em ordem.

E entendi que, sem você, eu também fico bem.

Mais do que isso — sem você eu fico melhor.

— Ira…

— Deixa eu terminar.

Ela levantou a mão.

— A nossa vida toda juntos eu fui a sua empregada.

Eu cozinhava, limpava, lavava roupa, cuidava de tudo.

E você achava isso normal.

Você nunca perguntou o que eu queria.

Nunca se interessou pelos meus sonhos.

Eu só era conveniente.

E quando você decidiu que precisava de uma vida nova, nem passou pela sua cabeça que eu também podia precisar de uma vida nova.

Você simplesmente foi embora.

— Eu fui um idiota.

— Foi, — ela concordou.

— E agora você voltou porque te largaram, porque viu minhas fotos, porque ficou desconfortável.

Entende?

De novo, tudo é sobre você.

E eu, onde fico?

— Você está aqui, — ele estendeu a mão para a dela, mas ela se afastou.

— Eu estou aqui, sim.

Mas eu não sou mais aquela Ira que era sua sombra.

Eu comecei a viver, Serguei.

De verdade.

Eu tenho planos, interesses.

E tenho uma pessoa com quem eu gosto de estar.

O rosto de Serguei se alongou.

— Um homem?

Você tem alguém?

— Tenho, — ela respondeu, simples.

— E sabe o que é mais surpreendente?

Ele se interessa por mim.

Por mim mesmo.

Pergunta sobre o que eu sinto, sobre o que eu gosto.

A gente vai ao teatro, viaja.

Com ele eu me sinto uma mulher, não uma empregada doméstica.

Serguei empalideceu.

— Então você… você não vai me perdoar?

— Eu já perdoei, — disse Irina.

— Mas isso não significa que eu vou te aceitar de volta.

Você fez a sua escolha cinco meses atrás.

E eu faço a minha agora.

— Mas, Ira!

— Agora, de repente, eu te faço falta? — ela deu um sorriso irônico.

— Quando eu tenho reforma, um corte novo e um pretendente?

Onde você estava quando eu chorava toda noite?

Quando eu não conseguia dormir porque me sentia uma velha inútil, que não servia para ninguém?

Ele ficou calado.

— Eu não estou com raiva, Serguei.

Sério.

Eu até sou grata a você.

— Pelo quê? — ele perguntou, rouco.

— Por ter me libertado.

Se não fosse a sua partida, eu teria ficado naquela vida velha e triste.

E agora eu sei do que eu sou capaz.

Eu sei que mereço mais.

Eu sei que tenho algo a oferecer ao mundo.

Ele se levantou, cambaleando.

— Então é isso?

— É isso, — ela assentiu.

— Boa sorte pra você.

Eu realmente desejo que você encontre o que está procurando.

Só que não aqui.

Quando a porta se fechou atrás dele, Irina foi até a janela.

Viu como ele saiu para a rua, ficou um instante olhando para as janelas, e depois foi andando devagar.

Curvado, mais velho, perdido.

O telefone vibrou — mensagem do Dmitri: «Hoje à noite você está livre?

Quero te mostrar um lugar».

Irina sorriu e digitou rápido a resposta: «Estou livre.

Que horas?»

Ela olhou para o próprio reflexo no espelho.

Cinquenta anos.

Metade da vida vivida.

Mas a segunda metade só estava começando.

E ela seria do jeito que Irina quisesse fazer.

Não a esposa de alguém, não a sombra de alguém.

Apenas Irina.

Viva, livre, feliz.

Ela serviu mais café, sentou no sofá novo, abriu o livro.

Lá fora, o sol brilhava e a vida, finalmente, parecia bonita.