“Agora vai ter orçamento separado — entendeu?”

“Você enlouqueceu?”

o marido deu uma risada nervosa.

“Eu não tenho um centavo!”

“Então você vai ter dias de desintoxicação.”

Tatyana abriu a porta e entendeu na hora: Pavel estava em casa.

Não porque, no corredor, estivessem os tênis dele número 45, nos quais ela vivia tropeçando.

Mas pelo som.

Clic.

Clic-clic.

Pausa.

Uma pancada furiosa no teclado.

Esse som, nos últimos seis meses, tinha virado o fundo constante da vida dela.

Era assim que soava a “busca de si mesmo”.

Ela foi para a cozinha sem tirar os sapatos.

A sacola de compras marcava os dedos, mas ela não queria colocá-la no chão — ali estava pegajoso.

Na bancada havia uma montanha de louça: pratos com manchas secas de ketchup, canecas com crosta de chá, migalhas espalhadas como areia de praia.

“Tan’, é você?”

a voz do marido veio do quarto, sem se afastar do monitor.

“E por que demorou tanto?”

“Eu aqui, por sinal, já grudei o estômago na coluna.”

Tatyana, em silêncio, colocou na mesa um pacote de tvorog, kefir e duas maçãs.

“E a comida de verdade, cadê?”

Pavel apareceu no vão da porta.

Ele estava com o seu moletom favorito, todo esticado, com uma barba rala que ele chamava de “brutal” e que a Tanya, por dentro, chamava de “miserável”.

Ele olhou dentro da sacola e depois lançou o olhar para a frigideira vazia no fogão.

“Eu não entendi.”

“E o jantar?”

“Você prometeu carne à francesa.”

“Ou pelo menos almôndegas.”

“Eu sou homem, Tan’, eu preciso de proteína.”

“Com o estômago vazio eu não consigo pensar.”

“E hoje você pensou muito?”

Tatyana finalmente tirou o casaco.

Os ombros doíam.

Ela trabalhava como administradora numa clínica odontológica, e aquele dia tinha sido de pacientes escandalosos.

“Quantos currículos você mandou?”

“Cinco?”

“Dez?”

Pavel revirou os olhos, sofrido.

“Lá vem você de novo.”

“Eu estou monitorando o mercado.”

“Agora é época morta.”

“Não tem vagas para gestores do meu nível.”

“E eu não vou vender celular em barraquinha.”

“Eu não me encontrei no lixo.”

“Mas você come como se trabalhasse no corte de madeira,”

disse Tanya, baixo.

“Pasha, não tem dinheiro.”

“O meu salário mal dá para a hipoteca e as contas.”

“Só isso.”

“Você tinha uma reserva, eu sei,”

ele semicerrrou os olhos.

“Não se faça de coitada.”

“Você tem pena de gastar com o marido?”

“Família é quando se divide o último ao meio.”

Tatyana olhou para ele.

Atentamente, como para um estranho.

Lembrou de seis meses atrás, quando o “dispensaram” do cargo de subchefe do depósito, e ela teve pena.

Fazia carinho na cabeça dele, dizia: “Descansa, a gente dá um jeito.”

E ele descansou.

E, ao que parecia, gostou.

Ela pegou da mesa um marcador permanente preto.

Foi até a geladeira, abriu a porta e traçou com decisão uma linha preta grossa bem no meio da prateleira de vidro.

“O que você está fazendo?”

Pavel ficou sem reação.

“Dividindo o último ao meio, como você pediu.”

“A prateleira de cima é sua.”

“A de baixo é minha.”

“Eu pago as contas e o teto sobre a cabeça.”

“A minha comida eu compro sozinha.”

“E você — sozinho.”

“Agora vai ter orçamento separado — entendeu?”

“Você enlouqueceu?”

ele deu uma risada nervosa.

“Eu não tenho um centavo!”

“Então você vai ter dias de desintoxicação.”

“Faz bem para o trabalho analítico do cérebro.”

Ela colocou o seu tvorog na prateleira de baixo e foi para o banheiro.

Atrás dela veio, lançado com mágoa:

“Olha no que você virou, Tanya.”

“Vou ligar para a minha mãe e contar como você maltrata o seu marido!”

A “artilharia pesada” chegou dois dias depois.

Tatyana voltou do trabalho e, ainda no prédio, sentiu o cheiro.

Cheirava a cebola frita, alho e a algo pesado, de carne.

Aquele cheiro escapava pela fechadura.

Na cozinha estava quente e muito abafado.

Tamara Pavlovna, a sogra, estava no fogão usando o avental da Tanya, que estalava no seu busto monumental.

Pavel estava sentado à mesa devorando uma enorme almôndega fumegante, e o rosto dele brilhava de gordura e prazer.

“Até que enfim,”

rosnou a sogra no lugar de um cumprimento, sem se virar.

Ela virava com habilidade pedaços de carne chiando.

“Perdeu a vergonha de vez, menina.”

“Fez o homem ficar transparente.”

“Não sei como ele ainda se mantém de pé!”

“Boa noite, Tamara Pavlovna,”

Tanya sentou exausta no banquinho.

“O que está acontecendo?”

“Está acontecendo uma operação de resgate!”

a sogra bateu a concha na panela.

“Se a esposa é uma víbora, a mãe vai alimentar.”

“Eu fiz borsch, de verdade, com osso de tutano.”

“Enrolei golubtsy.”

“Comprei banha caseira.”

Ela abriu a geladeira de modo demonstrativo.

A prateleira de cima, o “território do Pavel”, estava abarrotada de potes, marmitas e panelas.

Tinha de tudo: de aspic a repolho fermentado.

A prateleira de baixo, miserável, clareava com um pacote de tvorog desnatado e dois pepinos.

“Come, Pavlushka, come,”

arrulhava Tamara Pavlovna, servindo mais ao filho.

“A mãe não abandona.”

“Você, Tanya, olha e aprende.”

“O homem é provedor por natureza.”

“Mas se o leão está ferido, a leoa tem que levar os melhores pedaços, e não mostrar desaforo.”

“E você enfia o nariz dele nisso como se fosse um gatinho.”

“Egoísta.”

Pavel mastigava olhando para a esposa com superioridade triunfante.

No olhar dele dava para ler: “Viu?”

“Eu valho.”

“Eu sou amado.”

“E você é a serviçal que se rebelou.”

“Você está deixando um homem morrer de fome!”

continuou a sogra, cortando a banha em fatias grossas.

“De nervoso, ele deve até estar com problema no estômago.”

“Não tem nada, filho.”

“Agora eu vou vir sempre.”

“Não vou deixar você se perder.”

A semana seguinte Tanya viveu no inferno.

O apartamento ficou impregnado do cheiro de comida alheia.

Pavel parou até de fingir que procurava trabalho.

Para quê?

A geladeira estava cheia, a internet paga, teto garantido.

Ele passava o dia inteiro jogando “Tanks”, parando só para esquentar os golubtsy da mãe.

A louça suja ele deixava, por princípio, na pia — “não é coisa de nobre.”

Tatyana esperava em silêncio.

Dentro dela, uma corda fina e vibrante se esticava.

O desfecho veio na sexta-feira.

Tanya entrou no mercado de rede perto de casa para comprar água.

Na fila do caixa, à frente dela, estava uma mulher de casaco caro.

Perfil conhecido.

Era Inna Sergeevna, a chefe da contabilidade daquela mesma empresa de onde Pavel tinha sido “cortado”.

Tanya quis se esconder atrás do expositor de chocolates, mas Inna Sergeevna se virou.

“Tanya?”

“Ah, oi!”

A mulher parecia surpresa, mas, felizmente, não parecia debochada.

“Quanto tempo.”

“Como vocês estão?”

“Olá.”

“Indo.”

“O Pasha está procurando trabalho…”

“Diz que é crise, que não contratam.”

Inna Sergeevna fez um som estranho.

Olhou para Tanya por cima dos óculos e baixou a voz, embora não houvesse ninguém conhecido por perto.

“Procurando?”

“Bom, desejo sorte para ele, claro.”

“Com uma avaliação dessas, é difícil.”

“Escuta, Tanya, eu sempre gostei de você…”

“Você acredita mesmo nessa história de crise?”

“Ele disse que foi corte de pessoal.”

A chefe da contabilidade balançou a cabeça.

“Ele foi demitido de um dia para o outro, Tanya.”

“E que agradeça por o diretor não ter feito boletim na polícia.”

“Ele roubava gasolina.”

“Dos cartões corporativos de combustível.”

“E não era pouco, era em escala industrial.”

“Bolou um esquema: combinava com os motoristas, sacava em dinheiro…”

“Mesquinho, sujo.”

“Calcularam um prejuízo do valor de um carro importado usado.”

“O diretor só teve pena, disse: ‘Que ele peça demissão e suma da minha frente’.”

“Mas no banco de dados da segurança ficou uma marca bem grande.”

“Agora nem como almoxarife ele consegue um lugar decente.”

Os ouvidos da Tanya começaram a zunir.

Não de horror, mas de uma compreensão súbita e completa.

Seis meses.

Seis meses economizando até em meia-calça.

Seis meses ouvindo palestras sobre o “alto status” dele.

Seis meses aguentando a sogra com as panelas e as lições sobre o “leão ferido”.

E o “leão” era só um rato comum, que roubava dos próprios.

Ela foi para casa sem sentir as pernas.

No apartamento, o cheiro de sempre: sopa de repolho e abafamento.

Pavel estava na cozinha, cutucando o prato com o garfo.

Na mesa: migalhas, manchas de gordura.

“Ah, chegou,”

ele nem virou a cabeça.

“Escuta, Tanya, a internet está travando.”

“Você pagou?”

“Eu tenho uma raid em meia hora.”

Tanya, em silêncio, foi ao corredor.

Tirou do maleiro uma bolsa de viagem grande.

Empoeirada, xadrez.

Jogou no chão do quarto.

“Que barulho é esse?”

Pavel apareceu na porta com a boca cheia.

“Arruma suas coisas.”

“Como assim?”

ele parou de mastigar.

“A gente vai viajar?”

“Você vai.”

“Para a casa da sua mãe.”

“Para sempre.”

“Você está doida?”

ele tentou sorrir, mas o sorriso saiu torto.

“Por causa de um prato sujo?”

“Tá, eu lavo, eu lavo… depois.”

“Eu encontrei a Inna Sergeevna, Pasha.”

O sorriso escorregou do rosto dele como adesivo molhado.

Ele ficou cinza na hora.

Os olhos correram para a direita e para a esquerda.

Como baratas quando você acende a luz.

“Ela… ela está mentindo!”

gritou ele, esganiçado.

“Aquela velha bruxa sempre me odiou!”

“É armação!”

“Eu só estava me virando!”

“A gente precisava de dinheiro!”

“Você vivia reclamando que queria botas!”

“Eu uso essas botas há três temporadas,”

disse Tanya, baixo.

A voz era lisa, morta.

“Você roubava, Pasha.”

“E depois passou seis meses nas minhas costas e mentindo.”

“Você não procurava trabalho.”

“Você se escondia.”

“Você sabia que não iam te contratar em lugar nenhum e só esperou eu me acabar de tanto trabalhar.”

“Isso é bobagem!”

berrou ele, ficando vermelho.

“Gasolina, e daí?”

“Todo mundo rouba!”

“Eu fazia pela família!”

“E você…”

“Você é uma traidora!”

“No momento difícil…”

“Você tem cinco minutos,”

Tanya olhou para o relógio.

“Ou eu chamo a polícia.”

“Vou dizer que tem um estranho no apartamento.”

“A sua residência, se lembra, é na casa da sua mãe.”

Ela nunca tinha visto ele se arrumar tão rápido.

Ele enfiava na bolsa meias, controles, suéteres, tudo misturado com carregadores.

Ele resmungava, ameaçava, apelava para a pena (“eu vou sumir”, “eu estou deprimido”), mas Tanya ficou na porta, braços cruzados no peito, como uma sentinela.

Quando ele, bufando, puxou a bolsa para o corredor, ela viu que ele apertava contra o peito um vidro de três litros com os pepinos da mãe.

O troféu dele.

“Você ainda vai rastejar de volta,”

cuspíu ele, parado diante do elevador.

“Quem vai te querer, divorciada com hipoteca?”

“Você vai uivar de solidão!”

“As chaves,”

disse Tanya, simplesmente.

Ele jogou o molho no chão.

A porta bateu.

A fechadura rangeu.

Depois outra.

Depois o ferrolho clicou.

Tanya escorregou pela porta até o chão.

No apartamento, silêncio.

Nem cliques do mouse, nem a TV resmungando.

Só o zumbido da geladeira.

Ela foi à cozinha.

Abriu a porta.

Recolheu da “prateleira do Pasha” a panela de shchi, os potes de golubtsy gordurosos, a banha ressecada.

Tudo foi para o saco de lixo.

Um saco preto, pesado.

Ela levou até o duto do lixo, voltou e lavou a prateleira até ranger.

Depois se serviu um copo d’água, sentou à mesa limpa e vazia e deu um gole.

A água estava boa.