Eu parei de alimentar ele e de cozinhar.
— Então é o seguinte, Lena, já decidi tudo.

A partir deste mês eu não coloco mais o meu salário no caixa comum.
A minha mãe precisa de um carro, a lata-velha dela está caindo aos pedaços, ontem ela deixou mais um monte de dinheiro na oficina.
Ela precisa ir para a dacha, levar compras, e as pernas dela doem.
Então comida, contas e hipoteca — agora isso fica por tua conta.
Tu és uma mulher econômica, vais dar um jeito.
Eu continuava a limpar a mesa da cozinha, mas o pano já não deslizava só pela superfície: rangia, como se cravasse na bancada.
Eu esfregava a mesma mancha com tanta raiva, como se esperasse abrir um buraco direto para o inferno, para onde naquele momento eu queria mandar o meu “querido” marido.
— Um carro para a tua mãe? — eu soltei o ar devagar, tentando manter a voz estável.
— Serguei, e a hipoteca de vinte anos e o Saška indo para a escola este ano, isso não conta?
Preparação, uniforme, livros…
Tu tens ideia de quanto custam hoje produtos decentes, se a gente não quiser viver só de macarrão?
— Ai, não começa, — o Serguei fez um gesto e esticou a mão para o prato de biscoitos que eu tinha comprado de manhã.
— Tu sempre faz drama.
Mãe é sagrada.
Ela me criou sozinha, eu devo ajudar.
E tu trabalhas, até recebeu um bônus no mês passado.
Enfim, Lena, não sejas mercenária.
Somos uma família.
Eu olhei para o rosto satisfeito dele.
Família, então.
Que palavra bonita.
Só que, nessa “família”, ultimamente as regras eram ditadas exclusivamente pelo Serguei — e sempre a favor dele.
As noites no nosso apartamento de um quarto no bairro-dormitório normalmente seguiam o roteiro de sempre.
O barulho da TV, onde alguém vivia discutindo ou atirando, o cheiro de batata frita — a preferida do Serguei — e as minhas tentativas de ao mesmo tempo checar as lições do Saška e ligar a máquina de lavar.
Dessa vez, aos sons habituais somou-se a mastigação ritmada do meu marido.
Ele estava terminando o último biscoito de aveia sem nem perguntar se alguém mais queria.
— Olha, Serguei, — eu joguei o pano na pia.
— Se tu não entras no orçamento, então as despesas aqui vão ser… separadas.
Tu juntas dinheiro para o carro da tua mãe, e eu, com o meu salário, sustento a mim e ao nosso filho.
— Como assim? — ele até parou de mastigar.
— Tu estás me propondo ficar a pão e água?
— Não, por que eu proporia isso.
Tu vais comprar tudo o que quiser.
Com o teu salário.
Com aquele mesmo salário que agora tu estás guardando para a tua mãe.
— Lena, não fales besteira, — ele franziu a testa, e o rosto dele ficou teimoso como o de um touro.
— Tu és esposa ou o quê?
A tua obrigação é alimentar o teu marido.
Eu não te peço caviar.
Faz uma sopinha, frita umas almôndegas, como sempre.
Não é nada demais.
— Almôndegas, Serguei, são feitas de carne.
E carne custa dinheiro.
Aquele dinheiro que no nosso orçamento comum agora falta: trinta mil a menos.
Então as almôndegas agora são só para quem paga por elas.
Eu me virei e fui para o quarto do meu filho.
O Saška estava sentado sobre o livro de colorir, com a língua de fora de tanto esforço.
Meu Sashok, meu Sashulja…
Por ele eu aguentei esse circo por tanto tempo.
Eu achava que uma criança precisava de pai.
Mas olhando para como esse “pai” transferia calmamente todos os problemas financeiros para as minhas costas por causa do capricho da sogra, eu senti que alguma coisa dentro de mim finalmente queimou até o fim.
Sabe como é: fica ardendo, ardendo por muito tempo, e depois — pum — e só sobra cinza fria.
Na manhã seguinte eu não preparei o ovo com bacon de sempre para dois.
Fiz mingau de aveia para mim e para o Saška, e acrescentei frutas vermelhas.
O Serguei rastejou até a cozinha, esfregando os olhos sonolentos.
— E o meu café da manhã? — ele encarou a frigideira vazia.
— Na loja, Sergueizinho.
Na prateleira.
Naquela mesma que eu não paguei com o teu dinheiro, — eu tomava café com calma, olhando pela janela para os prédios cinzentos.
— Tu estás falando sério? — ele até levantou a voz.
— Por causa de dinheiro tu decidiste me deixar com fome?
Que vadia, Lena.
Tá bom, eu como alguma coisa no trabalho.
Ele saiu, batendo a porta com força.
E eu me sentei e comecei a contar.
Hipoteca — vinte e cinco mil.
Contas — sete.
Creche, cursos, comida…
Se eu tirar da dieta o apetite do Serguei (ele comia como se não houvesse amanhã, três vezes por dia e sempre com carne), ainda vai sobrar um pouco até para botas novas.
Caramba, eu não compro botas para mim há dois anos!
Tudo para o Serguei: ora peças para o carro velho dele, ora um telefone novo, ora para a mãe dele, Antonina Petrovna, dinheiro para os dentes.
Antonina Petrovna é outra história.
Uma mulher com rosto de anjo e a pegada de um pitbull.
Ela ligava para o Sergueizinho três vezes por dia.
— Filhinho, por que vocês compraram um casaco para a Lena?
O velho ainda está bom.
E eu queria ir para um resort, minhas costas doem.
E o Serguei, meu bom Serguei, obediente, levava o dinheiro para ela, tirando do nosso orçamento magrinho.
Passou uma semana.
Eu cozinhava só para dois.
Na geladeira apareceu “a minha” prateleira, onde ficavam iogurtes, frutas e frango assado para mim e para o Saška.
No começo o Serguei surtava, tentava pegar comida sem pedir.
— Ei, Lena, isso é uma armadilha? — ele sacudia um pacote de salsichas quase vazio.
— Por que tu compraste só três?
— Porque duas são para o Saša e uma é para mim.
Tu não tens lugar nessa lista, Serguei.
Tu estás juntando dinheiro.
Então aproveita o processo de economizar.
— Tu… tu és maluca! — ele gritava, cuspindo saliva.
— Minha mãe vai ficar em choque quando souber como tu estás maltratando teu marido!
— Liga, reclama, — eu nem levantei a sobrancelha.
— Quem sabe ela te manda marmitas.
Aproveitam e “batizam” o carro.
Sinceramente, foi difícil.
Morar no mesmo apartamento com uma pessoa que te olha como inimiga do povo não é nada agradável.
No ar ficava o tempo todo uma tensão grossa, pegajosa.
O barulho da TV ficou insuportável; eu simplesmente saía com meu filho para passear no parque, só para não ouvir aquele resmungo eterno sobre política e futebol.
O ponto de ruptura chegou na sexta-feira.
Eu cheguei do trabalho exausta, sonhando só com um banho e uma xícara de chá.
Entro na cozinha — e estava tudo revirado.
O Serguei resolveu “tomar conta da casa”.
Na pia, uma montanha de louça; no chão, manchas de molho; e o meu precioso pote de plov caseiro, que eu tinha feito por duas horas, estava vazio.
— Oh, chegaste? — o Serguei estava sentado à mesa, cutucando os dentes com um palito de fósforo.
— Olha, teu plov dessa vez ficou meio seco.
E no geral, Lena, acaba com esse circo.
A mãe disse que tu só estás com raiva porque agora ela vai andar de carro e tu vais a pé.
Inveja é um sentimento feio.
Eu me aproximei da mesa em silêncio.
Peguei o prato vazio dele e, devagar, despejei nele o resto do chá frio da minha caneca.
— O que tu estás fazendo? — ele saltou na cadeira.
— Umidificando a tua dieta, — eu respondi, encarando-o nos olhos.
— Então a Antonina Petrovna acha que eu estou com inveja?
Ótimo.
Eu fui para o corredor, peguei a minha bolsa e comecei a procurar o comprovante.
De manhã eu tinha passado no banco — precisava pegar um extrato para a creche.
E lá, no aplicativo, eu vi por acaso uma operação estranha.
A nossa conta de poupança conjunta, que abrimos “para um dia ruim” e na qual eu, todo mês, colocava cinco a dez mil dos meus bicos, estava vazia.
Zero.
— Serguei, e os cento e cinquenta mil da nossa conta, onde estão? — eu perguntei bem baixo, quase sussurrando.
Ele parou na porta da cozinha.
Os olhos dele correram de um lado para o outro; ele começou a ajeitar a camiseta, nervoso.
— Bom… eu… A mãe não tinha o suficiente para aquele modelo que ela queria.
Eu pensei que era dinheiro comum, e a mãe prometeu que às vezes ia nos dar carona…
Naquele momento eu entendi: acabou.
Fim.
Ele roubou o dinheiro que eu guardava para a operação da minha mãe (a visão dela está piorando, eu falei isso para ele mil vezes!) e para a escola do nosso filho, para comprar para a Antonina Petrovna um carro importado mais novo.
— Entendi, — eu soltei o ar devagar.
— Então presta atenção, Igor… ops, Serguei.
Tu tens exatamente meia hora para juntar as tuas coisas.
— O quê? — ele arregalou os olhos.
— Tu estás me expulsando do apartamento?
Do meu apartamento?
— O apartamento está no meu nome; a entrada foi paga com a herança da minha avó, — eu disse isso já tirando a mala dele do armário.
— Tu aqui só tens registro.
E amanhã mesmo eu dou entrada no divórcio e na tua retirada do registro.
— Tu não ousas!
Sem mim tu vais afundar!
Quem vai pregar prateleira?
Quem vai consertar a fechadura?
Eu não respondi.
Eu só comecei a jogar as coisas dele na mala.
Camisas, meias, aquela camiseta idiota com “Czar” escrito, que a mãe dele tinha dado.
— Vai embora, Serguei.
Para a tua mãe.
Para o carro novo.
Tu podes até dormir nele, se ela não te deixar entrar em casa.
Ele berrava.
Tentava arrancar a mala de mim, agarrava meus braços.
Mas eu naquele momento era um tanque.
Eu só empurrava ele em direção à porta.
No corredor ele tropeçou nos tênis do Saška e quase caiu.
— Tu ainda vais rastejar de volta! — ele gritou quando eu bati a porta na cara dele.
— Tu mesma vais implorar para voltar tudo ao que era!
Quem vai te querer com “bagagem”!
Eu tranquei a porta com as duas fechaduras.
Girei a tranca.
E encostei a testa no metal frio.
Dentro, silêncio.
Sem lágrimas, sem histeria.
Só uma sensação profunda, quase física, de alívio.
O Saška espiou do quarto.
— Mãe, o pai foi embora?
— Foi, Sashul’.
O pai foi ajudar a mãe dele.
Por muito tempo.
— E a gente vai jantar plov?
— Vamos, meu filho.
Eu já faço outro.
Ainda mais gostoso.
Claro, a noite foi pesada.
Eu fiquei sentada na cozinha, bebendo chá já frio e fazendo contas.
Agora a hipoteca é toda minha.
Vinte e cinco mil dos meus quarenta e cinco.
Sobra vinte.
Com isso eu preciso viver, alimentar a criança, pagar a luz.
Vai ser difícil?
Difícil é pouco.
Caramba, eu nem sei como vou me virar no mês que vem, quando chegar a conta do aquecimento.
Mas sabe de uma coisa?
Eu estava sentada no silêncio.
Ninguém gritava por causa de futebol.
Ninguém me jogava na cara cada salsicha comprada.
Na geladeira havia comida só para mim e para o meu filho.
E essa comida foi honestamente ganha.
Amanhã eu vou a um advogado.
Preciso saber como fazer o divórcio mais rápido e pedir pensão — embora que pensão dá para tirar do mínimo oficial dele, é até engraçado.
Mas tudo bem.
Eu vou pegar mais um bico; eu sei fazer sites, faz tempo que deixei isso de lado por causa das reclamações do Serguei, tipo “tu vives no computador e teu marido está sem comida”.
Agora eu vou viver no computador.
E o marido vai estar alimentado — só que outro, na casa da mamãezinha dele.
Eu entrei no quarto.
Do lado dele na cama ainda tinha o cheiro da colônia dele.
Eu arranquei a roupa de cama, amassei e enfiei na máquina.
Liguei o ciclo a 90 graus.
Que lave tudo.
O cheiro e as lembranças desse homem que achava que um carro para a mãe era mais importante do que o futuro do próprio filho.
De manhã eu acordei com o sol inundando a cozinha.
O Saška já estava mexendo no brinquedo de montar.
— Mãe, a gente vai hoje ao zoológico?
Tu prometeste.
— Vamos, meu gatinho.
Vamos sim.
Eu cozinhava o mingau e pensava que a vida, no fim das contas, continua.
Sim, agora eu sou uma “divorciada com bagagem”, como o Serguei gostava de dizer.
Sim, pela frente têm tribunais, partilha desse sofá infeliz e do guarda-roupa.
Mas eu tenho o principal: tranquilidade.
Eu não devo mais me justificar para ninguém por querer comprar botas para mim ou tintas novas para o meu filho.
A Antonina Petrovna já ligou umas dez vezes.
Eu não atendo.
Que conversem com o filho.
Agora eles têm muita coisa em comum — um carro novo inteiro.
Será que ela vai deixar ele sentar no banco da frente ou ele vai ficar no de trás, como um pajem fiel?
Eu olhei para as minhas mãos.
Elas já não tremiam.
Eu liguei para o chaveiro — preciso trocar as fechaduras hoje mesmo.
Não quero que ele tenha acesso à minha casa.
Ao meu pequeno, apertado, mas finalmente livre mundo.
A hipoteca não desapareceu, e as dívidas também não.
Mas não há medo.
Há apenas uma certeza clara e fria de que eu vou dar conta.
Mulheres são resistentes, especialmente quando as levam ao limite.
Somos como violetas no parapeito da janela: podem não nos regar, nos colocar na sombra, mas mesmo assim a gente rompe e floresce.
De pirraça para todos os Sergueis e as mães deles.
E você, o que teria feito no lugar da protagonista?







