Ela teve que desligar o forno.
— Mas o que é isso, Mikhalytch!

Lá em casa a Lenka está aprontando cada coisa, a mesa vai ficar abarrotada!
Pato, kholodets gelando desde a noite, caviar, tudo como manda a tradição.
E como poderia ser diferente?
Eu sou quem provê, fui eu que garanti tudo, a função dela é dar um toque de beleza.
A voz do marido vinha da sala, cobrindo o barulho da água.
Valera falava alto, de modo retumbante.
Com aquela satisfação presunçosa de dono da casa, que surgia nele depois da segunda dose “para abrir o apetite” ou antes da chegada dos convidados.
**Turno de cozinha**
Eu estava em pé, com a lombar apoiada na bancada.
Minhas mãos cheiravam a cebola crua e peixe.
Aquele cheiro penetrante, ao que parecia, tinha me impregnado por completo ao longo de vinte anos de casamento.
No relógio era uma da tarde.
Meu “turno” tinha começado às seis da manhã: pôr a massa para crescer, cozinhar os legumes, deixar as frutas secas de molho.
As costas já doíam com aquela dor surda de sempre, como se tivessem enfiado ali um prego em brasa.
Sobre a mesa se empilhava uma montanha de batatas ainda por descascar.
Ao lado, numa bacia, o pato descongelava, parecendo uma carcaça pálida e enregelada.
Valera apareceu na cozinha.
Corado, com uma camiseta limpa que eu tinha passado para ele meia hora antes.
— Len, por que você empacou? — ele apontou com desagrado para uma saladeira vazia.
— O Mikhalytch com a mulher chegam lá pelas nove.
Anda logo.
E outra… nos sanduíches com caviar não economiza, passa uma camada mais grossa.
Enxuguei as mãos molhadas no avental.
— Valer, me ajuda a descascar as batatas.
Eu não vou dar conta a tempo.
Ele ficou imóvel.
Como se eu tivesse pedido que ele se agachasse em cima da mesa e começasse a dançar.
O rosto se alongou, as sobrancelhas subiram — um espanto sincero, verdadeiro.
— Você está louca, Len?
Eu trabalhei o ano inteiro feito um condenado.
Trouxe dinheiro para casa, comprei todos esses produtos.
Meu dever foi cumprido.
O seu é garantir o conforto e a festa.
Você é mulher.
— Eu também trabalhei o ano inteiro, Valera.
E hoje também é folga para mim.
Pelo calendário oficial.
**Ultimato**
— Ah, não começa, tá? — ele fez uma careta, como se estivesse com dor de dente.
— Você sempre estraga o clima.
As esposas dos outros são esposas de verdade, se mexem, se esforçam, e você… Enfim.
Escuta com atenção.
Ele se aproximou, pairando sobre mim.
Dele vinha o cheiro de colônia cara — meu presente — e daquela certeza de que o mundo girava em torno dos seus desejos.
— Se até as seis da tarde não tiver na mesa “arenque sob casaco”, prato quente e kholodets, eu arrumo minhas coisas e vou passar o Ano-Novo na casa da minha irmã.
E depois, quem sabe, até me divorcio.
Para que eu preciso de uma mulher que não consegue alimentar o marido na festa?
Você ficou preguiçosa, Lenka.
Velha e preguiçosa.
Ele se virou e foi para a sala, ligando a televisão bem alto.
Lá alguém cantava sobre felicidade e programa especial de Ano-Novo.
E eu fiquei parada.
Por dentro estava tudo em silêncio.
Estranhamente em silêncio.
Normalmente, depois de palavras assim, eu começava a me apressar, sentindo culpa: “E realmente, o que deu em mim?
O homem está cansado, preciso agradá-lo”.
Normalmente eu engatava a quinta marcha, bebia copos e mais copos de água para acalmar as batidas do coração e, à meia-noite, caía com o rosto na salada, mas com a sensação de dever cumprido.
Mas hoje alguma coisa se quebrou.
Ou se encaixou no lugar.
Olhei para o pato.
Imaginei como agora eu iria esfregá-lo com temperos, enfiar maçãs dentro dele, depois vigiar o forno, pingando suor.
Imaginei a montanha de louça suja às três da manhã.
Imaginei a cara satisfeita de Valera, que diria a Mikhalytch: “Olha só, a minha se esforçou mesmo, uma dona de casa de mão cheia!”.
**Estalo**
Aproximei-me do forno.
Simplesmente girei o botão para a esquerda.
Até ouvir o clique.
A luz indicadora apagou.
O zumbido do ventilador cessou.
O pato continuou deitado na assadeira — cru, frio, inútil para qualquer pessoa.
Peguei os legumes ainda por terminar de cortar, joguei tudo num saco e guardei na geladeira.
Enfiei a faca no suporte.
O aço tilintou de forma fria e breve.
— Vá para a casa da sua irmã, — eu disse ao vazio.
— As chaves estão sobre o criado-mudo.
Valera não me ouviu.
Estava novamente ao telefone:
— Sim, mamãe!
Sim, está tudo ótimo!
A Lenka já está quase terminando, o cheiro tomou o apartamento inteiro!
Saí da cozinha.
Passei pela sala sem virar a cabeça e me tranquei no banheiro.
A fechadura fez clique.
Foi o som mais agradável do dia inteiro.
**Beleza em vez de lágrimas**
No banheiro estava quente.
Abri a água para abafar o resmungo da televisão e a voz do meu marido.
Olhei para mim no espelho.
Uma mulher cansada de cinquenta e dois anos.
Com o rosto acinzentado e um coque improvisado na cabeça.
“Preguiçosa”, ele tinha dito.
“Velha”.
Peguei da prateleira de cima o potinho de patches que eu guardava “para uma ocasião especial”.
Abri um esfoliante novo.
Tirei o modelador de cachos.
Do outro lado da porta, Valera continuava seu espetáculo de um homem só.
— Lenka!
Você dormiu aí dentro?
Onde estão os pratos bonitos?
— Len!
Ainda temos maionese ou eu vou correndo comprar?
Eu não dizia nada.
Passava creme no rosto.
Devagar, com movimentos de batidinhas, como ensinava a cosmetóloga num vídeo.
Cada toque dos dedos na pele parecia gravar em mim uma nova verdade: eu não queria mais ser conveniente.
Passou uma hora.
Depois a segunda.
Valera começou a ficar nervoso.
Ia até a porta do banheiro, mexia na maçaneta.
— O que é isso aí, ficou ofendida?
Len, para com esse circo.
O pato vai queimar!
“Não vai queimar”, pensei enquanto passava rímel.
“O que não está vivo não queima.”
**Eu me demito**
Às 18h00 desliguei o secador.
Eu vestia um vestido de veludo azul-escuro.
Tinha comprado aquele vestido três anos antes para o aniversário de uma amiga, mas Valera na época dissera: “Para que se arrumar assim?
Tem que ser mais discreta”.
Hoje ele assentava perfeitamente.
Saí para o corredor.
No apartamento não havia cheiro de tortas nem de carne assada.
Havia o cheiro do meu perfume e de uma leve inquietação suspensa no ar.
Valera estava sentado no sofá, já de camisa, mas sem calças — só de cueca.
Esperava que eu passasse a calça dele.
Ao me ver, ele quase engasgou com o ar.
— Você… o que significa isso?
Os convidados chegam em duas horas.
E na cozinha não foi feito nada!
Eu entrei lá — está tudo vazio!
O forno está frio!
Você enlouqueceu?
Passei por ele e fui para a cozinha.
O som do salto no piso laminado parecia a contagem regressiva para uma explosão.
Abri o congelador.
Tirei de lá um pequeno pacote preto, elegante.
Pelmeni de luxo, de um supermercado caro.
Doze unidades.
Preço: 1200 rublos.
Eu os tinha comprado às escondidas no dia anterior.
Simplesmente porque quis provar como era quando a comida custa mais do que uma hora do meu trabalho.
Atirei o pacote no meio da mesa vazia.
Ele bateu seco na madeira.
— Cozinha, — eu disse.
A voz saiu baixa, mas no silêncio soou como um trovão.
— As instruções estão no verso.
A água está na torneira.
— Você está… — Valera se levantou, puxando a cueca para cima.
Seu rosto ficou rosado.
— Que pelmeni?
É Ano-Novo!
O Mikhalytch vem!
Eu prometi para a minha mãe!
Você está acabando com a minha festa?!
— Eu me demiti, Valera.
Sentei-me numa cadeira, cruzei as pernas e ajeitei a barra do vestido.
— Do cargo de cozinheira, lava-louças e criadora de aconchego.
Sem indenização.
Então hoje teremos um bufê.
Autoatendimento.
— Você enlouqueceu? — sibilou Valera.
— Que bufê?
As pessoas chegam em duas horas!
— Então liga para elas. — fiz um gesto para o telefone que ele ainda apertava na mão.
— Diz que ficamos doentes.
Ou que temos uma noite romântica.
Inventa qualquer coisa.
Você é o chefe da família, não é?
O estrategista.
Valera parou.
Nos olhos dele se debatia o pânico.
Olhou para o relógio, depois para o pacote preto de pelmeni, depois para mim.
Naquele momento ele resolvia o problema mais difícil da vida dele.
O que era pior: confessar ao amigo que a esposa “saiu do controle” ou realmente ir para a casa da irmã?
E então eu entendi que ele não iria a lugar nenhum.
A irmã dele, Gália, tinha viajado para o Egito anteontem.
Ele mesmo tinha se gabado para mim de como ela conseguira um pacote de última hora.
Ele mentia.
Só estava me assustando, como assustam crianças com o bicho-papão, certo de que eu me assustaria e correria para o fogão.
— Então? — perguntei em voz baixa.
— Vai ligar?
Ou quer que eu ligue?
**Retirada estratégica**
Valera xingou.
Cuspiu até no chão e, agarrando o telefone, saiu para a varanda.
Através do vidro eu o via agitar os braços.
Explicava ao invisível Mikhalytch por que a “mesa farta” tinha sido cancelada.
Quando voltou, estava com o ar abatido.
— Cancelei, — resmungou sem me olhar nos olhos.
— Disse que um cano estourou.
Que vergonha… Que situação constrangedora diante dos outros.
— Pelo menos foi honesto. — eu sorri de canto.
— Aqui realmente alguma coisa estourou.
A paciência.
Valera entrou na cozinha, batendo os calcanhares com força.
Abriu a gaveta das panelas, fazendo as tampas estrondarem de tal maneira que eu fiz uma careta.
— Onde está uma panela decente?
Você vive na bagunça, nunca se acha nada!
Eu não me mexi.
Fiquei sentada, com as pernas cruzadas, observando.
Pela primeira vez em vinte anos, eu assistia à correria de pré-Ano-Novo como uma espectadora no teatro, não como um cavalo exausto na arena.
— Na gaveta de baixo, Valer.
À esquerda.
Ele encheu a panela de água, espalhando uma poça no chão.
Não enxugou.
Ligou o gás no máximo.
Jogou os pelmeni na água fervente sem nem salgar.
Os respingos voaram sobre o fogão perfeitamente limpo, que eu tinha esfregado até as duas da manhã.
Antes eu teria saltado na mesma hora.
Teria corrido para enxugar, baixar o fogo, salgar, mexer, dizendo: “Mas o que é isso, deixa que eu faço”.
Mas agora eu apenas ajeitei a pulseira no braço.
— Mexe, senão eles grudam, — sugeri calmamente.
— Eles são delicados.
Valera bufava.
Ficou em pé diante do fogão só de cueca.
Bravo, vermelho, com uma colher na mão.
E eu estava sentada com meu vestido de veludo e um copo de água mineral gelada.
As bolhas batiam no vidro de um jeito tão alegre e despreocupado.
**A festa mais silenciosa**
Às onze e cinquenta sentamo-nos à mesa.
A mesa estava vazia.
Nada de saladeiras, nada de frios, nada de torres de frutas.
Só dois pratos, garfos e uma garrafa gelada com bolhas.
Aquela mesma que Valera guardava “para os convidados”.
No centro da mesa, como o principal troféu, fumegavam os pelmeni.
A televisão murmurava os discursos de praxe.
Valera serviu-se, bebeu de uma vez só, sem brindar, e logo espetou um pelmeni com o garfo.
— Que ideia idiota essa sua, — resmungou de boca cheia.
— Ano-Novo, e nós aqui como estudantes num alojamento.
Se minha mãe soubesse, morreria de vergonha.
Eu olhava para ele e não sentia nada.
Nem mágoa, nem raiva, nem aquele desejo habitual de me justificar.
— Eu gosto, — disse, mordendo um pedacinho.
A massa era finíssima e, dentro, havia verdadeiro caldo de carne.
O sabor era rico, intenso.
Lembrei-me do ano passado.
De como eu estava sentada à mesma mesa, mas com as costas doendo e um dedo queimado.
Sonhando com uma coisa só: que os convidados fossem embora logo para eu poder me deitar.
Eu nem me lembrava do gosto daquele pato que tinha preparado durante dois dias.
Só me lembrava do cansaço.
E agora eu sentia o sabor da carne, da pimenta e da manteiga.
— Idiota, — repetiu Valera, mas estendeu a mão para pegar mais.
— Por mil e duzentos poderiam pelo menos ter posto mais carne.
É um roubo.
— Eu valho esse dinheiro, Valera.
Ele parou com o garfo no ar.
— O quê?
— Estou dizendo que o meu descanso, as minhas mãos e o meu humor valem mais que mil rublos.
E até mais do que a opinião do seu Mikhalytch.
**As badaladas**
As badaladas começaram a soar.
Uma.
Duas.
Três.
Ergui minha taça.
Valera, depois de hesitar por um instante, ergueu a dele.
Brindamos.
O som foi surdo, pesado.
Como uma pá batendo na terra congelada.
Nada de tilintar cristalino.
Entre nós não havia festa naquele sentido em que a publicidade de maionese costuma mostrar.
Entre nós havia um abismo, que naquele dia eu deixei de tentar preencher com minhas almôndegas.
Mas os pelmeni estavam realmente saborosos.
E, o mais importante, não fui eu quem os modelou.
Quando o hino acabou, Valera terminou em silêncio a sua porção, afastou o prato e ficou olhando para a televisão.
E eu me levantei, peguei minha taça e fui para a varanda ver os fogos de artifício.
Lá embaixo, no pátio, alguém os lançava.
Luzes coloridas explodiam no céu negro, iluminando os telhados cobertos de neve.
Eu me sentia leve.
Pela primeira vez em muitos anos, eu entrava no novo ano não com a sensação de dever cumprido para com alguém, mas com a sensação de uma dívida quitada comigo mesma.
— Len! — gritou Valera da cozinha.
— Ainda tem mais?
Está gostoso, danado.
Sorri para os fogos de artifício.
Ainda tinha.
Mas a segunda porção ele mesmo ia cozinhar.







