— Você vai me dizer agora, falando sério, que isso é “normal”? — Nastya segurava um molho de chaves na mão e o sacudia bem diante do rosto de Oleg. — Eu estou parada na minha própria varanda como uma estranha e não consigo entrar na minha própria casa!
Oleg abriu a porta com a corrente, espiou, como se o tivessem apanhado no corredor com sacolas de outra pessoa.

— Fala mais baixo, vai… os vizinhos…
— Os vizinhos? — Nastya soltou um riso seco. — Vamos falar a verdade: foi você ou a sua mãe que decidiram que eu só posso entrar aqui “em horário marcado”?
Do fundo da casa ouviu-se:
— Quem está gritando de novo aí?
Galina Nikolaevna.
A voz dela era como uma colher raspando no esmalte: não muito alta, mas capaz de irritar os nervos.
Nastya deu um passo à frente e apoiou a palma da mão no batente da porta.
— Oleg, tira a corrente.
Agora.
— Nastya, espera um pouco…
— Eu não vou “esperar”.
Eu trouxe sacolas do mercado por essa lama de neve e sal, meus braços estão caindo, e vocês aí aprontando isso tudo?
Oleg tirou a corrente e deu um passo para trás.
Nastya entrou, colocou as sacolas no chão — o som foi seco e surdo, como um ponto final.
Galina Nikolaevna saiu da cozinha com o seu avental de sempre, como se não estivesse morando ali havia apenas três meses, mas fosse a dona da casa a vida toda.
— Ah, chegou.
Graças a Deus.
Já estávamos achando que você ia ficar por aí até tarde da noite de novo.
— Por aí? — Nastya se virou para ela. — Eu não sou nenhuma adolescente para vocês ficarem “me esperando”.
E este não é o seu apartamento.
Nem é do Oleg.
Esta é a casa do meu pai.
Galina Nikolaevna fez uma expressão como se estivesse ouvindo um capricho.
— Casa é casa.
Mas casa não é um pedaço de papel, Nastya.
Casa é ordem.
— Ordem? — Nastya ergueu as chaves. — Então isto aqui é o quê?
Decoração?
Por que as minhas chaves não servem mais?
Oleg pigarreou.
— Nós… trocamos o cilindro da fechadura.
— Nós — repetiu Nastya. — Escuta como isso soa bonito.
“Nós trocamos”.
E esse “nós” quem é?
Você e a mamãe?
Galina Nikolaevna suspirou de modo teatral, como se Nastya estivesse atrapalhando a vida dela.
— Não precisa fazer drama.
A fechadura era velha, estalava, emperrava.
Escurece cedo lá fora, é fevereiro, você sabe.
Aqui não é nenhum resort.
— Aham — Nastya assentiu. — E a salvação para a escuridão de fevereiro é deixar a dona da casa trancada do lado de fora na varanda?
Oleg tentou sorrir.
— Mas você chegou, nós abrimos…
— Abriram? — Nastya olhava para ele como para um desconhecido. — Eu fiquei dez minutos tentando abrir, com os dedos congelando, as sacolas na neve, e vocês sentados aí dentro.
Nada apertou aí dentro de vocês?
Ele desviou o olhar.
— Eu só… não queria escândalo.
— E o que aconteceu então? — Nastya falou com tanta calma que ela mesma se assustou com a própria voz. — Aconteceu que vocês não me quiseram.
Galina Nikolaevna aproximou-se mais e parou no caminho de Nastya para o quarto.
— Vamos fazer assim.
Você se acalma e tira o casaco.
Seu rosto está azul.
O chá está no fogão.
— Eu não quero chá.
Eu quero entender por que vocês mandam aqui.
E por que você, Oleg, fica calado.
Oleg ergueu as mãos, como se estivesse se rendendo.
— Eu não estou calado.
Só que… a mamãe está preocupada, está sendo difícil para ela, você sabe.
— Está sendo difícil para ela? — Nastya virou-se para Galina Nikolaevna. — Está sendo difícil para a senhora?
E para mim é fácil?
Eu trabalho, pago as contas, conserto tudo aqui que está caindo aos pedaços, e ainda tenho que aguentar a senhora mudando os móveis de lugar e me ensinando a viver?
Galina Nikolaevna apertou os lábios.
— De novo os móveis.
Até quando?
Eu só queria que não houvesse toda essa… tralha.
— Tralha? — Nastya entrou de repente na sala e apontou para a velha cômoda do pai. — É isso que a senhora chama de tralha?
— É pesada, volumosa.
Ocupa muito espaço.
E, além disso… é sombria.
— Sombria? — Nastya sorriu com ironia. — Ela não é sombria.
Ela é de verdade.
Ao contrário do seu perfume barato, que agora deixou a casa inteira com cheiro de lotação na hora do rush.
Oleg se encolheu:
— Nastya, para que isso…
— Para que a verdade? — ela se virou para ele. — É melhor você me dizer: vocês me avisaram sobre a fechadura?
Ou decidiram fazer uma surpresa?
Oleg ficou calado.
Aquele silêncio era pior do que qualquer resposta.
Galina Nikolaevna interveio:
— Eu falei para o Oleg.
Ele é um homem adulto.
Também é dono aqui.
— Dono? — Nastya olhou devagar para o marido. — Você é dono?
Oleg engoliu em seco.
— Nós somos uma família…
— Família não faz as coisas pelas costas — cortou Nastya. — Família não troca fechadura para “educar”.
Galina Nikolaevna levantou as mãos:
— Meu Deus, que palavras!
Ninguém está te educando.
É só que você… você está sempre como um ouriço.
A gente se aproxima como gente, e você espeta.
— Como gente? — Nastya foi até o armário da entrada e abriu. — Meu casaco está pendurado diferente.
A prateleira está vazia.
Onde está a minha pasta com documentos?
A azul, no envelope plástico?
Oleg ficou tenso.
— Que pasta?
— Não se faça de bobo.
Eu deixei aqui.
Lá estavam os papéis da casa, o seguro, os recibos… onde estão?
Galina Nikolaevna respondeu com calma:
— Eu guardei.
Não gosto de bagunça.
— Guardou onde?
— Na gaveta de cima da cômoda.
— Na cômoda? — Nastya sorriu com raiva. — Naquela mesma “tralha”?
Ela puxou a gaveta.
Vazia.
A segunda — vazia.
A terceira também.
Nastya ficou imóvel por um segundo e depois se virou bruscamente.
— Onde.
Estão.
Os meus.
Documentos.
Oleg deu um passo em direção a ela:
— Nastya, por favor, não começa.
— Eu já comecei, Oleg.
Quando vocês trocaram a fechadura.
Onde estão os documentos?
Galina Nikolaevna desviou o olhar para a entrada da cozinha, e isso bastou.
— A senhora levou eles para algum lugar — disse Nastya em voz baixa. — A senhora levou, não foi?
— Eu peguei para fazer cópias — disse a sogra rapidamente. — Por que está me olhando assim?
Era preciso esclarecer…
— Esclarecer o quê? — Nastya elevou a voz. — Esclarecer a minha herança?
Quem a senhora pensa que é?
Oleg cortou:
— A mamãe só queria ajudar!
— Ajudar? — Nastya se virou para ele. — Ajudar é perguntar.
Não é sair levando os meus papéis e trocando fechaduras.
Galina Nikolaevna deu um passo à frente, a voz ficou mais dura:
— Escuta, Nastya.
Você vive como se estivesse sozinha.
Para você tudo é “meu”.
Você encurralou o seu marido, ele não consegue dizer uma palavra.
— Ele não está encurralado.
Ele só escolheu ficar em silêncio para ser conveniente para todo mundo.
— E para você é conveniente? — Galina Nikolaevna semicerrrou os olhos. — É conveniente humilhá-lo na minha frente?
— É conveniente para mim estar na minha própria casa — cortou Nastya. — E a senhora está transformando este lugar em algo estranho para mim.
Oleg levou as mãos à cabeça.
— Meu Deus… o que é que vocês querem de mim?
Nastya apontou o dedo para ele:
— Eu quero que você diga: “Mãe, não se meta”.
E quero que os documentos voltem para o lugar.
E que a fechadura fique como era.
Hoje.
— Hoje eu não posso… — escapou de Oleg.
Nastya parou.
— Por que não pode?
Oleg hesitou, e aquela hesitação soou como uma confissão.
— Porque… o técnico vem amanhã.
— Técnico? — Nastya virou-se para Galina Nikolaevna. — Que técnico?
— Das janelas — respondeu a sogra rapidamente. — Queríamos vedá-las melhor.
— Em fevereiro? — Nastya sorriu com desdém. — Vedá-las?
Ou “vedar” mais alguma coisa?
Oleg apertou os lábios.
— Nastya, não fica desconfiando.
— Desconfiando? — Nastya foi rapidamente para a cozinha, abriu a gaveta da mesa onde normalmente ficavam os papéis das contas. — E isto?
Onde estão os recibos?
Galina Nikolaevna respondeu com calma demais:
— Eu os coloquei numa pasta separada.
— E onde está a pasta?
— Comigo.
Nastya virou-se devagar.
— A senhora pegou os recibos… e os meus documentos… e trocou a fechadura… — ela já falava sem gritar, como se por dentro tudo estivesse sendo tomado pelo gelo. — O que a senhora está fazendo?
Está me expulsando da minha própria vida?
Oleg respondeu bruscamente:
— Ninguém está te expulsando!
— Então diz: por quê? — Nastya olhava direto para ele. — Por que vocês querem os meus papéis?
Ele ficou em silêncio.
Galina Nikolaevna suspirou, como uma professora.
— Porque você não pensa.
A casa é velha.
O telhado vaza.
A cerca está torta.
Não há dinheiro.
Nós encontramos uma solução.
— “Nós” de novo — Nastya sorriu de lado. — Que solução?
Oleg finalmente conseguiu dizer:
— Um empréstimo.
— Empréstimo? — Nastya nem entendeu de imediato. — Para quê?
Galina Nikolaevna começou a falar rápido, como se ensaiasse aquilo havia muito tempo:
— Para reforma.
Para uma vida normal.
O Oleg tem dificuldade para conseguir um trabalho decente, você mesma vê, hoje em dia está tudo… você sabe.
E dá para pegar usando a casa como garantia.
É razoável!
Depois você mesma ia agradecer.
— Usar a minha casa como garantia? — Nastya ergueu as sobrancelhas. — E para isso vocês saíram carregando os meus documentos?
— Não é nada demais — a sogra fez um gesto com a mão. — Só precisavam de cópias.
— Não cópias — disse Nastya em voz baixa. — Não minta.
Vocês não teriam trocado a fechadura por causa de cópias.
Oleg explodiu:
— Chega!
Você sempre procura uma armadilha!
— Armadilha? — Nastya deu um passo mais perto dele. — Agora me responde honestamente: você já assinou alguma coisa?
Oleg empalideceu.
Não respondeu — e aquilo já era uma resposta.
Nastya assentiu para si mesma, como se finalmente tivesse montado o quebra-cabeça.
— Entendi.
Ela pegou as sacolas, foi para a saída, vestindo o casaco enquanto andava.
Oleg se lançou:
— Você vai aonde?
— Ao advogado.
E se eu descobrir que vocês enfiaram a minha casa em algum lugar sem mim, os dois vão voar daqui tão depressa que a neve não vai nem ter tempo de derreter.
Galina Nikolaevna levantou a voz:
— Você enlouqueceu de vez?
Isto é uma família!
Nastya parou na soleira e se virou.
— Família não é “vamos assinar por ela, depois ela se acostuma”.
Família não é me deixar trancada do lado de fora.
Eu vou voltar — e a conversa vai ser outra.
Ela saiu para a rua.
O ar de fevereiro bateu no rosto dela — úmido, frio, com cheiro de asfalto molhado.
Nastya caminhava para o ponto de ônibus pensando numa única coisa: como tinha conseguido suportar aquilo por tanto tempo.
O telefone vibrou.
Oleg.
— Nastya, não precisa…
— Precisa, Oleg. — Ela falava com firmeza. — Me manda a foto do que você assinou.
Agora.
— Eu não posso.
— Então eu mesma vou descobrir.
E saiba de uma coisa: se ali tiver a minha assinatura, eu vou fazer da vida de vocês um inferno que vocês vão lembrar por muito tempo.
— Você está me ameaçando?
— Estou te avisando.
Uma hora depois ela estava sentada no pequeno escritório do advogado — cheirava a café de máquina e papel velho.
O homem de óculos folheava os impressos, olhando para Nastya como se já tivesse visto centenas de histórias daquelas.
— A situação é desagradável — disse ele. — Mas resolvível.
A senhora é a proprietária.
Se a assinatura foi falsificada, aí já é outro campo.
— Eu quero que eles saiam — disse Nastya. — E que nunca mais se aproximem de mim.
— Isso é possível por via judicial.
Mas é preciso reunir os fatos.
A troca da fechadura, os impedimentos, os documentos.
Há testemunhas?
— A vizinha viu quando o técnico veio.
E eu gravei em vídeo a hora em que a chave não serviu.
— Ótimo.
Então vamos fazer a denúncia e preparar a ação.
Nastya assentia, ouvia, mas por dentro só existia uma coisa: eu não vou entregar.
O telefone vibrou de novo.
Mensagem de Oleg: “Em casa a gente conversa direito”.
Nastya sorriu com ironia.
— Direito já não vai ser mais — disse ela em voz alta, e o advogado levantou os olhos.
— Perdão?
— Nada.
Escreva — Nastya respirou fundo. — Escreva tudo.
Até a última letra.
E quando, à noite, ela se aproximou da casa, a neve caía fina sob o poste, e havia luz na janela, ela já sabia: agora começaria o segundo round — e ninguém mais seria gentil.
— Abre. — Nastya bateu à porta nem com o punho, mas com a lateral da mão, curto, sem pedir. — Oleg, abre, antes que eu chame a polícia.
De dentro ouviram-se passos.
Oleg abriu — sem a corrente, mas com o rosto de alguém que já tinha perdido antes mesmo de começar.
— Por que você está assim…
— Por que eu estou assim? — Nastya entrou e logo viu sobre a mesa da cozinha a pasta. A sua. A azul. — Ah, que milagre.
Os documentos voltaram de repente para casa.
Galina Nikolaevna estava sentada à mesa, com as mãos cruzadas, como numa reunião de pais.
— Nós colocamos tudo no lugar.
Não precisa de histeria.
— Isto não é histeria — Nastya sentou-se na frente dela e colocou a pasta diante de si. — Isto é uma conversa.
Longa.
E sem os seus “ah, não se exalte”.
Oleg sentou-se de lado, como sempre, para que, se fosse preciso, pudesse virar-se tanto para a mãe quanto para Nastya.
Nastya olhou para aquilo e até sorriu.
— Engraçado como você se ajeitou.
Como num balanço.
— Não começa — disse ele em voz baixa.
— Não, eu começo. — Nastya abriu a pasta. — Aqui está tudo.
E eu quero ver aquilo que você assinou.
Galina Nikolaevna imediatamente:
— Ele não assinou nada disso, acalma-te.
Nastya levantou o olhar:
— A senhora está mentindo de novo ou já é por hábito?
— Não ouse falar assim comigo!
— Eu vou falar do jeito que vocês mereceram — disse Nastya com calma. — Oleg.
Os papéis.
Oleg tirou do bolso uma folha dobrada.
Colocou-a sobre a mesa sem olhar.
Nastya a abriu.
Passou os olhos rapidamente.
E naquele instante, por dentro, nada “ferveu” — eriçou-se inteira, como o pelo de uma gata de rua.
— O que é isto? — ela apontou com o dedo. — “Consentimento da esposa”?
Você está falando sério?
Oleg empalideceu:
— É… uma formalidade.
— Formalidade é quando se marca uma caixinha.
Aqui tem o meu nome e uma assinatura parecida com a minha.
Só que eu não assinei.
Galina Nikolaevna explodiu:
— Ah, basta!
Você vive enfiando papéis em qualquer canto e depois não se lembra!
— Eu lembro de cada assinatura minha — Nastya olhou diretamente para ela. — E eu vejo que esta não é a minha mão.
De quem é?
Da senhora?
Oleg levantou-se de repente:
— A mamãe não tem nada a ver com isso!
— Então quem tem? — Nastya levantou a folha. — Você?
Foi você que fez isso?
Ele se sentou de novo, como se as pernas tivessem cedido.
— Eu… eu pensei… — conseguiu dizer. — A gente faria a reforma.
Você se acalmaria.
— Eu me “acalmaria”? — Nastya sorriu com ironia. — Você decidiu me enganar para eu me “acalmar”?
— Não enganar — interveio a sogra. — Nós queríamos o melhor!
— Esse “melhor” de vocês foi o que destruiu a minha vida o tempo todo — Nastya inclinou-se para a frente. — Vocês entendem que isto já não é mais uma briga de família?
Isto… isto é outra coisa.
Isto é crime.
Galina Nikolaevna bateu a palma da mão na mesa:
— Não assuste com palavras!
O quê, vai fazer uma denúncia contra o meu filho?
— Se for preciso, faço — respondeu Nastya em voz baixa. — Porque ele deixa de ser só “filho” quando falsifica a assinatura da esposa.
Oleg explodiu:
— Eu não falsifiquei nada!
— Então quem? — Nastya não recuou. — Quem segurou a caneta?
Silêncio.
Pesado.
Nele dava para ouvir o radiador chiando por causa do ar nos canos.
De repente, Galina Nikolaevna falou mais suavemente — suave demais, e isso só deixava tudo mais repugnante.
— Nastya, mas por quê… Nós moramos juntos.
Nós brigamos.
Houve a fechadura.
Houve um papel.
Tudo isso pode ser resolvido como gente.
— Como gente dava para resolver antes de vocês meterem a mão nos meus documentos — Nastya levantou-se. — Eu dou a vocês a última chance: agora mesmo arrumem as coisas e saiam.
Os dois.
Oleg levantou a cabeça:
— Você está expulsando a gente?
— Eu estou recuperando a minha casa — respondeu Nastya. — E se você quiser ficar, amanhã vai comigo ao cartório, escreve uma declaração dizendo que não tem pretensão nenhuma e que não reivindica nada.
E separadamente, que a assinatura nesse papel não é minha.
— E se não? — Galina Nikolaevna estreitou os olhos.
— Então vai ser tribunal.
E polícia também — disse Nastya com firmeza. — Eu já estive com o advogado.
E ele me explicou tudo.
Oleg levantou-se de repente e foi para perto dela:
— Você já saiu correndo para reclamar?
— Eu saí correndo para me defender.
Sente a diferença.
— Você só… — ele travou, — você só ficou má.
— Eu fiquei lúcida — Nastya olhou-o nos olhos. — Durante muito tempo eu fui mansa.
Agora sou eu quem paga por isso.
Galina Nikolaevna respondeu bruscamente:
— Sem nós você vai afundar!
A casa vai desmoronar!
Sozinha você não vai dar conta!
— Melhor eu dar conta sozinha do que viver com gente que me tranca do lado de fora — Nastya virou-se e foi para o corredor. — Vocês têm duas semanas.
Oleg foi atrás dela:
— Nastya, espera…
— Não toca em mim — disse ela. — E não tente conversar “de coração aberto”.
Aqui já não existe alma faz tempo, Oleg.
Aqui só existe cálculo e medo.
Dois dias depois, a fechadura da casa foi trocada outra vez — desta vez por Nastya.
Com o técnico presente, com a vizinha Larisa Petrovna presente, para que houvesse quem confirmasse.
Galina Nikolaevna andava em círculos, comentando:
— Ah, que teatro…
Nastya não reagia.
Só disse ao técnico:
— Por favor, anote no recibo a data e que o cilindro antigo foi retirado.
Oleg ficou de lado, com as mãos nos bolsos, como se o tivessem trazido até ali.
À noite ele tentou de novo:
— Vamos pelo menos conversar direito.
Eu não sou seu inimigo.
— Inimigo não é quem vem com faca — Nastya estava sentada na cozinha organizando os recibos. — Inimigo é quem sorri e faz tudo pelas suas costas.
Me diz, Oleg, vocês realmente acharam que eu não descobriria nada?
— Eu achei que você… bem…
— Que eu engoliria?
Como sempre?
Ele ficou em silêncio.
— Sabe o que é mais nojento? — Nastya ergueu os olhos. — Não é a sua mãe se meter.
Ela é assim.
Isso está no sangue dela.
O nojento é que você… você concordou.
Você me entregou.
Oleg reagiu de repente:
— Eu não te entreguei!
— Você trocou a fechadura.
— Foi a mamãe…
— Você assinou os papéis.
— Isso…
— E você ficou calado quando ela chamou a cômoda do meu pai de “tralha”.
Oleg apertou os lábios.
— Mas o que a cômoda tem a ver…
— Tem tudo a ver — disse Nastya em voz baixa. — Era a minha casa.
O meu ar.
A minha memória.
E vocês decidiram que podiam reescrever tudo.
Uma semana depois chegou a intimação: Nastya entrou com uma ação para cessação dos impedimentos de uso do imóvel e despejo.
Além disso, uma petição separada para averiguação da assinatura.
Oleg segurava o papel como se estivesse quente.
— Você realmente foi até o fim — disse ele.
— Sim — respondeu Nastya. — Porque vocês teriam ido até o fim por mim.
Só que não na direção que eu precisava.
No tribunal tudo era como numa série ruim: um corredor estreito, rostos estranhos, paredes secas.
Oleg estava sentado, curvado.
Galina Nikolaevna mantinha-se orgulhosa, mas os dedos dela tremiam.
O juiz perguntou:
— Autora, quais são os seus pedidos?
Nastya levantou-se.
— Eu sou a proprietária.
Trocaram as fechaduras sem o meu consentimento.
Levaram documentos.
Apresentaram um papel com a “minha assinatura”, que eu não coloquei.
Eu peço a cessação dos impedimentos, a expulsão dos réus e que seja restituído o acesso e as chaves.
Galina Nikolaevna levantou-se de repente:
— Isso é ingratidão!
Nós queríamos fazer uma reforma para ela!
O juiz, seco:
— Ré, sente-se.
A fechadura foi trocada?
Oleg, baixinho:
— Foi.
— Com anuência da proprietária?
— Não.
— Levaram os documentos?
Galina Nikolaevna:
— Eu peguei cópias…
— Com autorização?
— Bem… ela não teria dado.
Alguém na sala soltou uma risadinha abafada, mas o juiz nem levantou a cabeça.
— Ou seja, a senhora admite que agiu sem o consentimento da proprietária — disse o juiz. — Quanto à assinatura, haverá verificação separada.
Quanto ao presente processo, o tribunal decide…
Nastya ouvia palavras como “determinar”, “cessar”, “desocupar no prazo”, e por dentro havia apenas uma coisa: acabou.
Chega.
No corredor, Oleg a alcançou.
— Nastya, será que não podia ter sido de outro jeito?
Ela parou.
— Podia.
Naquele dia em que você poderia ter dito à sua mãe: “Chega”.
— Eu tive medo.
— Então viva com esse medo — disse Nastya em voz baixa. — Só não na minha casa.
Galina Nikolaevna aproximou-se, o rosto contorcido:
— Você ainda vai voltar correndo.
Sozinha você não vai conseguir.
Nastya olhou para ela com atenção, sem raiva.
— Eu já carreguei para fora o mais pesado de tudo: a “família” de vocês.
O resto é só trabalho e tempo.
Duas semanas depois, eles carregavam as malas.
Fevereiro ainda resistia: neve cinzenta, poças geladas, as mãos congelavam mesmo dentro das luvas.
Oleg se movia de um lado para o outro entre as caixas, como se quisesse dizer alguma coisa, mas as palavras não apareciam.
Antes de fechar o porta-malas, ele se aproximou de Nastya:
— Eu… sinceramente… não achei que fosse terminar assim.
— Eu achei — respondeu Nastya. — Só demorei muito para admitir isso para mim mesma.
Galina Nikolaevna lançou uma última frase:
— Pois viva.
No silêncio.
Nastya assentiu.
— No silêncio fica mais fácil ouvir a si mesma.
E eu fazia tempo que não me ouvia.
O carro saiu do pátio, as rodas faziam um som úmido na neve molhada.
Nastya ficou parada na varanda e não sentia triunfo.
Só cansaço — e um alívio estranho, quase vergonhoso.
Ela entrou em casa.
Parou diante da cômoda.
Passou a mão pela madeira — como se estivesse verificando que ela continuava ali.
— Então, pai — disse baixinho para o vazio. — Eu não deixei.
Na cozinha, o interruptor estalou.
A luz se espalhou de forma uniforme.
Na casa já não havia cheiro alheio, ordens alheias, nem aqueles “nós” alheios.
Nastya tirou do bolso as chaves novas e as colocou sobre a mesa — como um ponto final que finalmente tinha sido posto no lugar certo.







