A família exigia que eu “entendesse a situação” e desse dinheiro.

Mas uma frase colocou um ponto final.

No casamento, quando a minha tia de segundo grau, Liússia, tentava discretamente enfiar da mesa para dentro da sua bolsa sem fundo fatias de esturjão e quase dois quilos de bombons, o meu recém-marido, Gleb, não fez escândalo.

Ele simplesmente se aproximou dela, estendeu com elegância uma sacola plástica da “Pyaterochka” e disse em voz alta, para o salão inteiro ouvir: “Ludmila Ivanovna, a senhora vai despejar o vinho nos bolsos ou quer que eu traga um pote?”.

O salão ficou em silêncio, a tia ficou vermelha como um tomate maduro demais, pronto para estourar com a própria importância, e eu entendi: atrás dessas costas dava para esconder não só os meus medos, mas toda a minha parentela insolente.

Antes de conhecer Gleb, eu era a clássica “coitada” com síndrome de aluna exemplar.

O meu “não” soava tão baixo que o tomavam por “talvez”, e o “talvez” por “claro, peguem tudo, eu não me importo”.

Os parentes se aproveitavam disso com maestria.

Minha prima morou no meu apartamento de um cômodo por seis meses porque “ela estava em crise criativa”, e o tio Valera pegava emprestado regularmente “até o pagamento” quantias com as quais seria possível comprar um avião usado, e, claro, esquecia de devolver.

Eu era para eles uma espécie de Wi-Fi grátis sem senha: conecte-se quem quiser, baixe recursos até o sinal desaparecer.

Gleb era diferente.

Ele lembrava um quebra-mar de concreto contra o qual as ondas se despedaçam sem chance alguma.

Rapidamente estabeleceu limites, como marcos de fronteira com arame farpado.

A família se recolheu.

Como uma matilha de ratos que, sentindo o cheiro de um gato, vai para o subterrâneo, esperando o momento certo.

E o momento chegou um ano depois.

Compramos um apartamento novo, fizemos reforma, e Gleb recebeu uma promoção.

Os parentes se ativaram imediatamente.

Primeiro começaram as ligações com perguntas do tipo “como vão as coisas?”, depois pequenos pedidos, e então caiu o trovão.

Na porta apareceu o sobrinho Páchka.

Filho daquela mesma tia Liússia.

Vinte e dois anos, ambições de império do Elon Musk, inteligência de um banquinho, e ainda por cima instável.

— Leninha, oi! — Páchka entrou no corredor sem tirar os sapatos. — Escuta, é um negócio de um milhão.

Literalmente.

Gleb saiu do escritório.

O rosto dele expressava o interesse educado de um funcionário de banco quando alguém lhe diz: “Essa dívida é um erro do sistema de vocês, na verdade eu sou uma pessoa honesta”.

— Fala, — disse meu marido, curto e seco.

Páchka hesitou, mas a cara de pau, como se sabe, é a segunda felicidade, e no caso dele era a primeira e a única.

— Resumindo, é o seguinte.

Vou abrir um negócio.

Revenda de tênis de luxo da China.

A margem é absurda.

Mas preciso de capital inicial.

Os bancos não me dão, eu tenho lá… bem, um histórico de crédito um pouco amassado.

Len, você pode pegar um empréstimo no seu nome?

Só um milhãozinho.

Eu vou pagar, juro!

Suspirei.

Era tão previsível quanto chuva em novembro.

— Pách, — comecei suavemente, — e qual é o teu plano de negócios?

Você estudou o mercado?

Logística, alfândega?

Páchka bufou, revirando os olhos:

— Ai, Len, você, como sempre, complica tudo.

Que plano?

Está tudo encaminhado.

O importante é entrar no fluxo.

O quê, você não acredita no sangue da família?

— Sangue é um líquido para transportar oxigênio, Pacha, não uma garantia de solvência financeira, — observei calmamente.

— E o “dente” que você está prometendo nem aceitariam numa casa de penhores.

Páchka se irritou:

— Por que você ficou tão atrevida?

Se acha, é?

Ricos de merda.

Tá com dó, é?

Eu vou devolver!

— Como devolveu aqueles trinta mil que pegou emprestados para consertar o notebook e no fim gastou em bebida? — esclareceu Gleb.

A voz dele era calma, mas foi como se a temperatura do cômodo tivesse caído dez graus.

Páchka ficou vermelho:

— Isso faz tempo e não é verdade!

Enfim, Len, minha mãe disse que você vai ajudar.

Amanhã esperamos vocês no jantar de família, lá vamos discutir tudo.

Recusa não é aceita.

Ele bateu a porta e foi embora.

— Então, — Gleb sorriu, me abraçando, — vamos para a toca do dragão?

Ou melhor, para o buraco dos suricatos?

— Temos que ir, — suspirei.

— Senão eles vão enlouquecer a gente com ligações.

O apartamento da tia Liússia nos recebeu com cheiro de peixe frito e naftalina.

Na cozinha apertada estava reunido o “círculo íntimo”: a própria tia Liússia, o marido dela, tio Vítia, uma criatura silenciosa e sempre mastigando, e Páchka, radiante.

Mas o que chamou minha atenção não foi isso.

Num canto, sobre uma manta suja, estava deitado um gato.

O velho Pérsik ruivo, de quem eu ainda me lembrava filhote e cheio de energia.

Agora ele parecia horrível: o pelo estava embolado, as costelas saltavam como uma tábua de lavar roupa, e dos olhos saía secreção.

— Xô, parasita! — tia Liússia chutou o gato com o chinelo quando ele tentou se aproximar da tigela de água.

— A única coisa que sabe fazer é pedir comida e sujar tudo.

Bem que podia morrer logo, só dá despesa.

Tudo se apertou dentro de mim.

— Tia Liússia, ele está doente, — eu disse baixinho.

— Ele precisa ir ao veterinário.

— Ah, sim, claro! — resmungou a tia, servindo-se de uma montanha de salada.

— Só o que me faltava era gastar dinheiro com essa criatura pulguenta.

O Páchka precisa de dinheiro para o negócio, e você falando do gato.

Senta, temos uma conversa.

Gleb puxou a cadeira em silêncio, me acomodou e sentou ao meu lado.

Ele não tocou na comida, apenas cruzou os braços no peito.

— Então, Lenotchka, — começou tia Liússia com uma voz afetuosa que dava vontade de ranger os dentes, — nós conversamos e decidimos.

Temos que ajudar o Pachenka.

Ele é um rapaz inteligente, promissor.

Você vai pegar o empréstimo, nós já calculamos tudo.

A parcela é uma mixaria, para vocês isso é troco.

— Ludmila Ivanovna, — interrompeu Gleb com educação, mas firmeza. — E por que o Pacha não ganha esse dinheiro sozinho?

Ele tem mãos, tem pernas.

A cabeça é que é questionável, mas para descarregar vagões isso não é crítico.

Páchka pulou da cadeira:

— Você chamou quem de burro?

Eu sou empreendedor!

Tenho faro!

— O único “fio” que você tem, Pacha, — retruquei, sentindo a raiva subir como uma onda, — é aquele com que você fica pendurado no pescoço dos seus pais.

Você nunca trabalhou em lugar nenhum por mais de um mês.

— Como você fala assim com ele?! — guinchou tia Liússia. — Nós somos família!

Temos que ajudar uns aos outros!

E você, ingrata, se esconde atrás do seu homem e late!

— Eu não estou latindo, tia Liússia, — sorri, e o sorriso saiu predatório.

— Estou apenas constatando fatos.

Ajuda é quando a pessoa não tem pão por causa de doença.

Patrocinar os caprichos de um marmanjo imprestável não é ajuda, é cumplicidade com a idiotice.

Tia Liússia encheu o peito de ar para desandar em maldições, mas Gleb levantou a mão.

— Muito bem, — disse ele. — Nós concordamos.

Eu me surpreendi.

Páchka abriu um sorriso parecido com uma rachadura no asfalto.

— Homem de verdade! — berrou ele. — Eu sabia que a gente ia se entender!

— Mas há condições, — continuou Gleb, tirando um bloco de notas do bolso.

— Lena pega o empréstimo.

Mas, como negócio é sempre arriscado, precisamos de garantias.

Vamos fazer um contrato de empréstimo em cartório entre Lena e Pavel.

Como garantia, a senhora, Ludmila Ivanovna, transfere a sua datcha para o nome da Lena.

Assim que Pacha quitar o empréstimo com o banco, a datcha volta para a senhora.

O sorriso escorreu do rosto de Páchka como tinta barata sob a chuva.

Tia Liússia congelou com o garfo na mão.

— Como assim… a datcha? — ela chiou. — Aquilo é o ninho da família!

— Mas vocês acreditam no sucesso do seu filho, não é? — Gleb fez uma expressão de surpresa sincera.

— A senhora mesma disse: “está tudo encaminhado”, “dou minha palavra”.

Ou a senhora duvida do sangue da família?

É só uma formalidade.

Se Pacha pagar, a datcha continua sendo sua.

E se não… bem, desculpe, nós precisamos cobrir os prejuízos.

— Vocês… vocês enlouqueceram! — gritou a tia. — Querem me jogar na rua?!

Vigaristas!

Mão-de-vaca!

— Quer dizer, arriscar o dinheiro da Lena pode, mas a sua horta com abobrinhas não? — perguntei eu.

— A matemática da senhora é curiosa, tia Liússia.

Um tanto unilateral.

Como jogo de um gol só.

— Vão para o inferno! — Páchka atirou o guardanapo sobre a mesa. — Engasguem com o dinheiro de vocês!

Vou pegar emprestado com os amigos!

— Com aqueles para quem você deve o dinheiro do videogame há três anos? — perguntou Gleb, impassível.

— Ou com os que estão te procurando no bairro por causa da Lada que você destruiu?

Eu me informei, Pacha.

Os bancos não te negam crédito por causa do histórico.

É porque você já tem três microempréstimos nas costas e duas execuções em andamento.

Páchka empalideceu.

Tia Liússia levou a mão ao coração.

— Rua! — sibilou ela. — Fora daqui!

Que eu nunca mais veja vocês nesta casa!

Vou amaldiçoar vocês!

Nós nos levantamos.

Gleb ajeitou o paletó com calma.

Eu olhei para Pérsik.

O gato estava deitado de olhos fechados, respirando com dificuldade.

— Nós vamos embora, — eu disse com firmeza.

— Mas vamos levar o gato.

— Quem? — a tia ficou atônita. — Esse trapo?

Levem!

Até agora mesmo para o lixo, menos fedor para mim!

Aproximei-me do canto, tirei o meu cachecol caro e envolvi com cuidado naquele tecido o gato sujo, cheirando a desgraça.

Ele miou fracamente e se encolheu contra mim com todo o seu corpinho leve, quase sem peso.

— Veja só, — lançou a tia com maldade nas nossas costas. — Vai estragar o cachecol.

Ricos, mas burros.

— Melhor sujar o cachecol do que a alma, — respondi, olhando diretamente nos olhos dela.

— A alma, tia Liússia, não dá para mandar para a lavanderia.

Saímos do prédio.

O ar fresco bateu no rosto, lavando o cheiro de mofo e ganância.

Gleb abriu o carro e me ajudou a entrar com o meu precioso fardo.

— Como você está? — perguntou ele, saindo do pátio.

Olhei para o meu marido, depois para o gato, que já havia se aquietado no meu colo, sentindo o calor, e sorri.

Passou-se um mês.

O “negócio” do Páchka nunca começou — os cobradores o encontraram, e agora ele trabalha como carregador em um depósito para pagar as dívidas.

Tia Liússia ligou algumas vezes, tentou apelar para a pena, mas o número dela agora está na lista de bloqueio.

Dizem que ela conta para todos os vizinhos que nós a roubamos, mas os vizinhos a conhecem melhor do que ela imagina.

E o Pérsik… o Pérsik acabou não sendo Pérsik.

O veterinário disse que era um gato singapura de raça, apenas levado à inanição.

Nós o chamamos de Graf.

Agora ele pesa três quilos, o pelo brilha como seda, e o olhar se tornou imponente e calmo.

Graf adora Gleb.

Quando meu marido trabalha no computador, o gato fica deitado ao lado, sobre a mesa, como um peso de papel felpudo.

Ontem à noite eu estava olhando para os dois e pensando como é bom que a vida às vezes nos traga provações na forma de parentes.

Porque é só diante da mesquinharia deles que você começa a valorizar de verdade quem está ao seu lado.

Lembrem-se, meninas: bondade sem dentes não é virtude, é alimento para predadores.

Aprendam a dizer “não” em voz alta e com clareza.

E se chamarem vocês de más, egoístas, cadelas depois que vocês pararem de permitir que limpem os pés em vocês, isso significa que vocês estão fazendo tudo certo.

E sim, é melhor alimentar um gato do que uma ninhada inteira de parentes sem-vergonha.

Pelo menos o gato vai ronronar em agradecimento, e eles só vão pedir mais.