«Vendi a minha parte, amanhã você vai embora!» — zombou meu marido.

Mas ele não sabia quem exatamente abriria a porta para ele um mês depois.

— Vendi a minha parte, amanhã você vai embora! — essa frase soou de modo corriqueiro, enquanto Vadim remexia com desprezo os cabides com as camisas.

O som do zíper de plástico da bolsa de viagem se fechando parecia artificialmente alto.

Nina estava parada no batente do quarto, sentindo o laminado frio sob os pés.

Da janela entreaberta vinha um cheiro de umidade e gases de escapamento do caminhão de lixo que passava pela avenida.

— Vadim… você está brincando agora? — Nina engoliu em seco com dificuldade.

— Que parte?

Nós tínhamos combinado.

Você prometeu que simplesmente iríamos nos divorciar e colocar o apartamento à venda.

Eu coloquei nele o dinheiro da casa da minha avó.

Vadim deu um puxão irritado com o ombro.

Dele exalava aquele perfume pesado e adocicado que ele tinha comprado um mês antes por conselho da sua nova jovem amante.

— Nina, chega desse choramingo.

No papel, o proprietário sou eu.

O que você colocou aí um dia — é problema seu.

Devia ter pensado com a cabeça, em vez de bancar a esposa perfeita.

Encontrei um comprador, o dinheiro já está comigo.

E você pode juntar suas coisinhas e ir para a casa da sua mãe.

Ou alugar um quarto.

Estou pouco me lixando.

Ele fechou a bolsa com força, jogou-a no ombro e, sem sequer olhar para a ex-mulher, saiu para o corredor.

A pesada porta metálica bateu.

Nina ficou parada no meio do quarto, olhando para as prateleiras vazias do armário.

Sentiu-se péssima, como se por dentro tudo tivesse sido preenchido por uma pedra gelada.

À noite, na cozinha, a velha geladeira zumbia.

Zhanna, amiga dela desde os tempos da faculdade, estava sentada à frente de Nina, raspando com raiva com uma colher de chá uma mancha seca na toalha plástica da mesa.

Nas xícaras esfriava um chá preto forte com cheiro de bergamota barata.

— Então é o seguinte, — Zhanna levantou os olhos, e neles não havia uma gota de compaixão, só uma irritação surda.

— Você não vai ficar sentada aí murchando.

Ele fez isso de propósito, para você desmoronar de vez.

Arranjou um caso com aquela estagiária novinha e agora se acha o dono da vida.

Você não sai daqui, entendeu?

Este apartamento é tão seu quanto dele.

Que o novo morador venha.

Vamos ver quem expulsa quem.

— Zhanna, e se for… sei lá, algum marginal? — a voz de Nina tremia.

— Eu não vou conseguir dormir.

Nem trocar a fechadura eu posso, já que ele vendeu a parte oficialmente.

— Você compra um trinco para a porta do quarto.

Amanhã mesmo a gente instala.

Nina, pare de ser tão conveniente para os outros!

O novo vizinho apareceu dois dias depois.

Era cedo, numa manhã de sábado.

A campainha tocou de forma breve, mas insistente.

Nina vestiu um roupão grosso de felpa, tateou as pantufas com os pés e, sentindo tudo por dentro se contrair de nervoso, foi abrir a porta.

Na soleira estava um homem.

Alto, curvado, usando uma jaqueta grossa impermeável de cor cáqui.

Nas mãos, ele carregava uma mochila enorme, daquelas que geralmente se levam para longas trilhas.

Dele vinha um cheiro forte de vagão de trem, lã úmida e tabaco.

— Bom dia.

Gleb, — o homem estendeu uma pasta grossa com documentos.

— Comprei aqui a metade.

Não se preocupe, estou só de passagem.

Um mês no turno, duas semanas aqui.

Já aviso: não me meto na vida dos outros, dividimos a geladeira e não vou ficar demorando no banheiro.

Nina recuou em silêncio, dando-lhe passagem para entrar.

Gleb tirou as botas pesadas, colocou-as com cuidado sobre o tapete de borracha e entrou no antigo quarto de Vadim.

A primeira semana passou em silêncio tenso.

Nina se sobressaltava com cada rangido do assoalho.

Ela estava acostumada ao fato de Vadim sempre exigir atenção: ora a camisa não estava passada, ora o jantar estava sem gosto, ora ela respirava alto demais enquanto ele via televisão.

Ela esperava alguma armadilha.

Mas Gleb se revelou quase invisível.

Acordava às seis, fazia bastante barulho com a água no chuveiro e depois ligava a chaleira na cozinha.

Quando Nina saía para preparar seu mingau de aveia, a mesa estava impecavelmente limpa, a pia seca e a janela ligeiramente aberta para ventilação.

Na quinta-feira, Nina voltou tarde do trabalho.

Lá fora caía uma chuva outonal irritante, e o casaco estava encharcado.

Ao entrar na cozinha, viu uma frigideira de ferro fundido sobre o fogão.

Ao lado, havia um post-it amarelo: «Fritei batatas com cogumelos. Coma, senão estraga».

Ela levantou a tampa com hesitação.

Um aroma apetitoso de cogumelos silvestres com alho e endro fresco encheu a cozinha.

Nina serviu um pouco para si, sentou-se à mesa e de repente percebeu que seus lábios tremiam.

A última vez que alguém cozinhou para ela… nunca.

Vadim considerava a cozinha uma responsabilidade exclusivamente feminina.

Quando Gleb entrou para pegar um copo de água, ela ainda estava sentada diante do prato.

— Obrigada, — disse Nina roucamente.

— Está muito gostoso.

— De nada, — Gleb apoiou o ombro no batente.

Ele vestia uma camiseta cinza simples, e em seu braço direito se via uma antiga marca de acidente de trabalho.

— Não faz sentido cozinhar para uma pessoa só.

Só se desperdiçam os ingredientes.

— Por que você… quer dizer, comprou essa parte? — a própria Nina não esperava que faria essa pergunta.

— Afinal, é um imóvel problemático.

Gleb deu de ombros e sentou-se no banco à frente dela.

— Há um ano, voltei do norte um dia mais cedo.

E lá… enfim, minha mulher não estava sozinha.

Arranjou um caso.

Nós nos divorciamos.

Deixei o apartamento para ela, para não ir à justiça.

E o dinheiro que eu tinha juntado resolvi investir em alguma coisa.

Não dava para um imóvel inteiro, então comprei uma parte.

Eu só preciso de um canto onde possa largar a mochila e dormir.

Ele falava de forma simples, sem dramatizar, olhando para as próprias mãos grandes e calejadas.

Nina o ouvia, e seu medo daquele homem grande e desconhecido foi aos poucos se dissolvendo.

Eles começaram a conversar.

Sem longas conversas íntimas, apenas frases curtas durante o chá da manhã.

Gleb consertou a torneira que vazava na cozinha, aquela que Vadim ignorara por seis meses.

Em resposta, Nina começou a fazer sopas para dois.

No apartamento, onde antes pairava um ar denso de reclamações e censuras constantes, de repente ficou tranquilo.

Passou-se um mês.

Gleb arrumava a mochila para mais um turno de trabalho.

No hall de entrada havia cheiro de graxa para sapatos e agitação de viagem.

Nina estava ao lado, sem saber onde colocar as mãos.

Ela não queria que ele fosse embora.

Com ele, sentia-se segura.

— Volto em quatro semanas, — disse ele, jogando a mochila no ombro.

— Ontem troquei a fechadura da porta de entrada, as chaves novas estão sobre o aparador.

Se alguma coisa quebrar, me mande mensagem, chamo um técnico.

Ele foi embora.

O apartamento voltou a ficar vazio, mas agora essa solidão já não pesava.

Pela primeira vez em muito tempo, Nina comprou para si um vestido novo — simples, azul-escuro, em vez das habituais golas altas sem forma.

Ela começou a notar o cheiro agradável da padaria perto do metrô, o som das folhas sob os pés no pequeno parque.

Ela estava recuperando a si mesma.

Na noite de quarta-feira, quando Nina regava a ficus no parapeito da janela, a campainha tocou com insistência.

A fechadura estalou, e ela entreabriu a porta, deixando-a presa pela corrente curta.

No patamar da escada estava Vadim.

Ele tinha uma aparência péssima.

A jaqueta da moda estava amassada, havia sombras escuras sob os olhos, e seu olhar era nervoso, inquieto.

— Abre, — resmungou, tentando puxar a maçaneta.

— Que palhaçada é essa com as fechaduras?

— O que você quer? — Nina o olhava pela fresta e, com surpresa, percebia que já não tinha medo.

Ele lhe parecia patético.

— Vim buscar os pneus de inverno, estão na varanda.

E além disso… — Vadim hesitou, desviou o olhar.

— Como você está aqui?

Os vizinhos estão te expulsando?

Eu te avisei.

Nina entendeu: nada tinha dado certo para ele.

Sua nova vida tinha rachado.

Muito provavelmente, a jovem amante tinha arrancado dele todo o dinheiro que podia e o posto para fora assim que começaram as dificuldades domésticas.

Ele viera ali esperando encontrar Nina abatida e chorosa, para se reafirmar.

— Ontem eu deixei os pneus no patamar, perto da lixeira, — respondeu Nina calmamente.

— Alguém já pegou.

E eu estou ótima.

Ela quis fechar a porta, mas Vadim conseguiu enfiar a ponta da bota na fresta.

— Ei, não se ache demais.

Me deixa entrar, preciso mexer em umas coisas, — sua voz tornou-se estridente.

Nesse momento, o elevador parou no andar com um zumbido.

As portas se abriram.

Gleb saiu para o patamar.

Ele só deveria ter viajado no dia anterior, mas o voo foi cancelado por causa de uma nevasca, e ele decidiu voltar sem avisar.

Gleb aproximou-se lentamente de Vadim.

O corredor ficou muito silencioso.

— Cara, tira o pé daí, — a voz de Gleb soou abafada, mas esse tom fez o pomo de Adão de Vadim se mover por reflexo.

— E você, quem é? — Vadim se virou, tentando parecer confiante, mas diante de Gleb, com sua jaqueta surrada e o olhar pesado, parecia um adolescente pego aprontando.

— Eu moro aqui.

Quem bateu na porta errada foi você, — Gleb simplesmente se colocou entre Vadim e a porta, afastando-o com o ombro.

— Tira o pé.

Vira as costas.

E vai para o elevador.

Vadim engoliu em seco convulsivamente.

Olhou para Nina, buscando apoio, mas ela apenas cruzou os braços sobre o peito.

Nem piedade, nem medo.

— Vão pro inferno, — cuspiu Vadim e, curvado, desceu rapidamente pela escada, sem sequer esperar pelo elevador.

Gleb o observou ir embora, depois voltou-se para Nina.

Seu rosto suavizou.

— O voo foi cancelado, — disse simplesmente, tirando a mochila.

— Posso entrar?

Nina tirou a corrente e escancarou a porta.

— Entra.

Eu fiz borsch.

Ela o observava tirar os sapatos, colocar as botas no tapete, e sentia algo quente e vivo se abrindo dentro dela.

Vadim pensou que tinha destruído a vida dela ao vender aqueles metros quadrados.

Mas, na verdade, sem perceber, ele lhe deu o presente mais valioso.

Ele abriu espaço.