Veronika estava parada à janela, observando as primeiras folhas de outono girarem no pátio.
Ela tinha comprado aquele apartamento de dois cômodos com o próprio dinheiro, ainda antes de conhecer o marido.

Durante três anos, guardou parte de cada salário de engenheira projetista, economizando em férias e entretenimento.
Mas, em compensação, agora tinha a sua própria casa — não alugada, não financiada, mas totalmente sua.
Pavel apareceu na vida dela mais tarde.
Um programador calmo, de olhos bondosos.
Um ano depois, eles se casaram.
A única coisa que ofuscava a vida familiar era a relação com a sogra, Larisa Yurievna.
Desde o primeiro encontro, ela decidiu que a nora tinha enfeitiçado o filho por interesse.
— Pasha, sua mãe ligou de novo, — Veronika se afastou da janela.
— Perguntou quando vamos ao almoço de domingo.
— E o que você respondeu?
— Que já temos planos.
Não quero ouvir de novo aquelas indiretas de que eu não cuido bem da sua comida.
Pavel suspirou e abraçou a esposa.
Ele entendia perfeitamente do que ela estava falando.
No fim de outubro, Veronika fez trinta e dois anos.
Pavel reservou uma mesa num aconchegante restaurante italiano.
Reuniram-se amigos próximos e colegas do marido.
A sogra e a cunhada, Yulia, também apareceram.
— Feliz aniversário, querida! — Pavel tirou do bolso uma caixinha de veludo.
Dentro havia um elegante anel de ouro com uma pequena, mas impecavelmente lapidada, safira.
Veronika soltou uma exclamação e se jogou no pescoço do marido.
Larisa Yurievna observava a cena com uma expressão azeda no rosto, cutucou a filha com o cotovelo e sussurrou algo no ouvido dela.
Quando chegou a vez do presente da sogra, Larisa Yurievna estendeu um pacote colorido.
— É nosso, meu e da Yulechka.
Escolhemos juntas.
Dentro havia um kit de banho — gel de banho e xampu.
Veronika reconheceu a marca: vendiam em qualquer supermercado em promoção.
— Obrigada, — ela sorriu de forma forçada, lembrando-se de como tinha presenteado a cunhada com um caro cachecol de caxemira e a sogra com brincos de ouro no jubileu.
— É um presente muito prático, — acrescentou Larisa Yurievna.
— Melhor algo útil do que bugigangas inúteis.
Veronika percebeu o olhar solidário da amiga e deu de ombros quase imperceptivelmente.
Não valia a pena estragar a festa por causa de uma ninharia.
Dois meses se passaram.
Em janeiro, Pavel voltou do trabalho mais tarde do que o normal.
Veronika percebeu na hora que o marido estava preocupado.
— Pediram Yulia em casamento.
O namorado dela, Dmitri.
Mamãe ligou a noite toda, transbordando de entusiasmo.
— É uma boa notícia.
— É.
Só que mamãe já está planejando o casamento do século.
Diz que a família do noivo é muito rica, dona de uma rede de concessionárias.
Temos que estar à altura.
Veronika franziu a testa.
A sogra trabalhava como enfermeira numa policlínica.
De onde viria o dinheiro para um casamento luxuoso?
Duas semanas depois, Pavel chegou em casa ainda mais sombrio.
— Veronika, precisamos conversar.
Ela deixou o ноутбук de lado.
— Mamãe disse que você não vai ao casamento da Yulia.
Veronika recostou-se lentamente no encosto do sofá.
— Motivo?
— Ela acha que você estraga o clima das festas de família.
Que fica afastada de todo mundo.
Durante três anos, ela suportou as implicâncias da sogra, tentou ser educada, deu presentes caros — e esse foi o resultado.
— Tudo bem.
Se não querem me ver, não vou me impor.
— Você não ficou magoada?
— Fiquei.
Mas não pretendo fazer escândalo.
O casamento foi marcado para o fim de abril.
À medida que a data se aproximava, Larisa Yurievna ligava para o filho cada vez mais.
Qual restaurante escolher, qual fotógrafo contratar, quais flores encomendar.
Veronika ouvia essas conversas em silêncio.
Continuava trabalhando e, à noite, ela e Pavel assistiam a filmes ou passeavam no parque.
— Mamãe quer um complexo fora da cidade, — contava Pavel.
— Tem um salão de festas magnífico lá.
— Deve ser caro.
— Muito.
Mas ela cismou que não podemos passar vergonha diante dos consogros ricos.
Numa noite de março, a campainha tocou.
Pavel ainda estava no trabalho.
Na porta estava Larisa Yurievna.
— Precisamos conversar, — ela entrou no apartamento sem esperar convite.
A sogra sentou-se na poltrona e lançou um olhar avaliador pela sala.
— Você sabe que a família do Dmitri é muito rica.
O pai dele é dono de uma rede de concessionárias.
É importante causar uma boa impressão.
Mostrar que nós também não somos qualquer um.
Veronika assentiu, embora ainda não entendesse aonde a sogra queria chegar.
— O casamento tem que ser de altíssimo nível, — continuou Larisa Yurievna.
— Complexo fora da cidade, música ao vivo, decoração dos melhores floristas, vestido de estilista…
— Larisa Yurievna, o que isso tem a ver comigo?
A sogra encarou a nora.
— Eu sei que você tem economias.
Pasha comentou que vocês estão guardando dinheiro para o futuro.
Cerca de dois milhões, certo?
Veronika ficou petrificada.
— Nós precisamos desse dinheiro, — declarou Larisa Yurievna num tom que não admitia objeções.
— Para o casamento.
Depois devolvemos.
Talvez.
O sangue subiu ao rosto de Veronika, traindo a indignação que mal conseguia conter.
— Não me convidam para o casamento, mas o meu dinheiro vocês querem? — zombou ela.
Larisa Yurievna se sacudiu como se tivesse levado um tapa.
— Você está entendendo tudo errado!
A lista de convidados é limitada, e…
— Tão limitada que a esposa do seu filho não cabe nela.
Mas o meu dinheiro cabe perfeitamente.
— Isso é uma questão de prestígio!
Temos que mostrar que podemos bancar um casamento à altura!
Veronika inclinou a cabeça de lado, como se tivesse ouvido algo inacreditável.
— Vocês querem impressionar os consogros ricos às minhas custas?
E depois?
Fingir que são ricos a vida toda?
— Como você se atreve a falar assim comigo! — a sogra levantou-se da poltrona num salto.
— Eu sou a mãe do seu marido!
— E daí?
Isso lhe dá o direito de exigir o meu dinheiro?
— Você é egoísta!
— Não, — Veronika apontou para a porta.
— Eu penso na minha família.
Em mim e no Pavel.
E a senhora vai embora.
Agora mesmo.
Larisa Yurievna ficou vermelha de raiva.
— Você ainda vai se arrepender!
Vou contar tudo ao Pasha!
Ele vai te largar!
— Conte.
E agora, para fora do meu apartamento.
A sogra agarrou a bolsa e saiu correndo, batendo a porta com força.
Veronika se encostou à parede e, por alguns minutos, apenas respirou, tentando se recompor.
Quando Pavel voltou do trabalho, Veronika contou tudo.
Ele ouviu em silêncio, e o rosto foi endurecendo aos poucos.
— Ela exigiu dois milhões?
— Palavra por palavra.
Pavel pegou o telefone e discou para a mãe.
— Mãe, você passou de todos os limites.
Humilhou a minha esposa, exigiu o dinheiro dela e ainda por cima não a convidou para o casamento.
Eu também não vou.
Do outro lado da linha, ouviu-se um grito estridente.
— Não, mãe.
Essa é a minha decisão.
Enquanto você não pedir desculpas à Veronika, nós não vamos nos falar.
Ele desligou e abraçou a esposa.
— Me desculpa pelo jeito como ela se comportou.
Veronika ficou grata por ele ter ficado do lado dela.
O casamento aconteceu no fim de abril.
Pavel e Veronika passaram o dia sozinhos — foram para fora da cidade, caminharam pela floresta primaveril e jantaram num pequeno restaurante à beira do rio.
Mais tarde, souberam por conhecidos os detalhes da festa.
Larisa Yurievna insistiu mesmo assim no complexo fora da cidade.
Para isso, tiveram de fazer um grande empréstimo pessoal.
A sogra convenceu a filha e o futuro genro a assumirem parte da quantia em seus nomes, explicando que assim seria melhor em termos de juros.
— A festa foi luxuosa, mas a noiva passou a noite inteira estranha, — contou uma conhecida.
— Dava para ver que estava nervosa.
Veronika apenas balançou a cabeça.
Começar a vida em família com uma dívida enorme era um prazer bem duvidoso.
Três meses depois do casamento se passaram.
Yulia e Dmitri se instalaram no apartamento que os pais do noivo haviam comprado.
Aparentemente, era só viver e ser feliz.
Mas a felicidade não vinha.
As prestações mensais do empréstimo consumiam uma parte significativa do salário de Yulia.
Ela trabalhava como gerente numa agência de turismo.
Dmitri ajudava, mas os pais dele expressavam descontentamento cada vez mais frequentemente.
— Para que fazer um casamento tão caro, se vocês não podiam pagar? — perguntava a sogra de Yulia.
— Nós pensávamos que vocês tinham estabilidade financeira.
Yulia corava e se calava.
Larisa Yurievna havia prometido ajudar com os pagamentos, mas seu salário mal dava para viver.
No outono, o relacionamento do jovem casal sofreu uma séria rachadura.
Dmitri ficava até tarde no trabalho e, em casa, quase não conversavam.
— Você prometeu que a sua família era normal! — gritava ele durante uma das brigas.
— E no fim descobri que vocês se endividaram só para se exibir!
— Foi a mamãe que insistiu num casamento caro!
Eu não queria!
— E agora sou eu que tenho que pagar por isso?
Os pais de Dmitri colocavam mais lenha na fogueira.
Eles contavam com uma união equilibrada entre duas famílias ricas.
Quando descobriram a mentira, não esconderam a decepção.
Em novembro, os pais de Dmitri chamaram o filho para uma conversa séria.
— Nós fomos averiguar, — disse o pai.
— A mãe dela é uma enfermeira comum.
O irmão se afastou da família, não mantém contato.
Toda aquela ostentação no casamento foi puro engano.
Eles queriam te fisgar a qualquer custo.
— Pense bem: você quer passar a vida inteira sustentando a família dela e as dívidas deles? — acrescentou a mãe.
Dmitri pensou por alguns dias.
Lembrou-se das conversas constantes sobre dinheiro, do rosto descontente da esposa quando ele se recusava a pagar mais uma conta.
A decisão amadureceu por si só.
Seis meses depois do casamento pomposo, Yulia e Dmitri se divorciaram.
A divisão dos bens foi parar na Justiça — era preciso resolver a questão das obrigações do empréstimo.
O tribunal determinou que a dívida registrada no nome de Yulia permaneceria com ela.
Dmitri assinou todos os papéis e desapareceu da vida dela.
Larisa Yurievna ficou arrasada.
Todos os seus planos tinham ruído.
A filha estava sozinha de novo, e ainda por cima com uma enorme dívida.
O filho não falava com ela.
Os ricos consogros evaporaram junto com o genro.
— Tudo isso é culpa dessa sua Veronika! — gritava ela ao telefone para Pavel.
— Se ela tivesse dado o dinheiro, nada disso teria acontecido!
— Não, mãe, — respondeu Pavel, cansado.
— Isso aconteceu por causa da sua ganância e da sua vontade de impressionar os outros.
A Veronika não tem nada a ver com isso.
Enquanto isso, na vida de Veronika e Pavel aconteceu algo feliz.
Em dezembro, o teste de gravidez mostrou duas listras.
— Você está falando sério? — Pavel olhava para a esposa com os olhos arregalados.
— Muito sério, — Veronika sorria como não sorria havia muito tempo.
— Vamos ser pais.
Pavel a ergueu nos braços e girou com ela pelo quarto.
Os dois riam, sem acreditar na própria felicidade.
— Agora as economias vão mesmo ser úteis, — disse ele.
— Para o quartinho, para o carrinho, para todas essas coisinhas de bebê…
— Está vendo? — Veronika acariciou a face do marido.
— Fiz certo em não dar o dinheiro à sua mãe.
Nós mesmos precisamos dele.
A primavera veio quente e ensolarada.
Veronika já estava no sétimo mês, e ela e Pavel preparavam com todo empenho o apartamento para a chegada do bebê.
O quarto do bebê ficou claro e aconchegante.
As paredes foram pintadas de azul-claro — o ultrassom mostrou que seria um menino.
Pavel montou sozinho o berço e a cômoda.
— Às vezes penso na Yulia, — disse Veronika certa noite.
— Dá pena dela, para falar a verdade.
— Dá pena, — concordou Pavel.
— Mas foi escolha dela.
Ela podia ter dito não à mãe, podia ter parado essa loucura.
— Sua mãe nunca mais ligou?
— Não.
E graças a Deus.
Talvez, um dia, ela crie juízo.
Veronika encostou a cabeça no ombro dele.
Lá fora, o sol se punha, tingindo o céu de tons rosados e dourados.
Ela pensava em como a vida às vezes toma rumos estranhos.
Um ano antes, ela tinha sido humilhada.
E agora estava mais feliz do que nunca.
Ao seu lado havia um marido amoroso, em breve nasceria seu filho, ela tinha seu próprio apartamento e dinheiro para o futuro.
E aqueles que quiseram usá-la acabaram sem nada.
Talvez isso seja justiça.







