Na fechadura havia um rangido áspero.
A minha chave entrava na ranhura, mas não girava, como se alguém segurasse o mecanismo por dentro com a mão.

Apertei a campainha.
Do outro lado da porta ouviu-se um alvoroço, passos arrastados, e depois a voz descontente de Valentina Petrovna:
— Quem foi que apareceu por aqui agora?
Oleg, você pediu alguma entrega?
A porta se escancarou.
A minha sogra estava no corredor de entrada usando um roupão de casa.
O meu, felpudo, aquele que eu havia comprado especialmente para as longas noites de inverno.
Nos pés, ela usava as minhas pantufas, e nas mãos tinha uma concha da qual pingava alguma coisa gordurosa direto no laminado claro.
— Marina? — Valentina Petrovna parou imóvel, sem abaixar a concha.
— Por que você chegou tão cedo?
Oleg disse que você só voltaria no domingo.
Atravessei a soleira, afastando minha sogra com o ombro.
Um cheiro pesado e abafado bateu no meu nariz.
Não cheirava à minha casa.
Em vez do aroma habitual de limpeza e café, ali fedia a cebola queimada, tabaco barato e uma coisa rançosa, como se o apartamento não fosse arejado havia uma semana.
— Adiantaram o voo, — respondi secamente, pousando a mala.
— E o que está acontecendo aqui, Valentina Petrovna?
E por que a fechadura emperra?
— Nós trocamos o cilindro, — minha sogra pôs as mãos na cintura, passando instantaneamente da defesa para o ataque.
— A sua chave não funcionava direito, o Oleg se cansava com isso.
Aí ele, homem prático que é, resolveu.
Entrei na sala e parei.
O meu interior perfeitamente calculado, o meu minimalismo escandinavo que eu havia montado peça por peça durante três anos, tinha sido destruído.
O sofá estava empurrado para a parede.
No meio do cômodo se amontoavam caixas, trouxas de roupas e um velho berço de criança com a lateral descascada.
Na minha mesa de trabalho, onde antes havia apenas o notebook, agora estavam empilhadas montanhas de fraldas, talcos e roupas de bebê.
Mas o pior era o guarda-roupa embutido.
As portas estavam escancaradas, e os meus vestidos não estavam mais lá.
No lugar deles, pendiam dos cabides blusas enormes, roupões e camisas masculinas xadrez.
— Onde estão as minhas coisas? — perguntei, muito baixo.
— Na varanda, — respondeu Valentina Petrovna calmamente, entrando atrás de mim.
— Juntei os teus trapos em sacos, a Svetochka precisa dos armários.
Ela vai dar à luz de um dia para o outro, onde é que ela vai guardar o enxoval?
E você tem roupa demais, aguenta um tempo.
Pode ficar nos sacos.
Oleg saiu da cozinha.
Ele tinha uma aparência amarrotada, caseira.
Vestia calça de moletom com os joelhos deformados e uma camiseta regata.
Quando me viu, encolheu a cabeça entre os ombros.
— Marin?
Oi…
Nós aqui…
— Eu estou vendo, — eu olhava para meu marido e tentava encontrar dentro de mim ao menos uma gota daqueles sentimentos que ainda existiam uma semana antes.
Mas por dentro estava tudo vazio.
Como se tivessem apagado a luz.
— A Sveta se mudou para cá?
— Mas por que você já vai logo assim? — Oleg começou a torcer as mãos.
— A situação da Sveta é horrível.
O marido dela, aquele canalha, voltou a beber e a expulsou de casa.
Ela vai dar à luz em breve, para onde ela vai?
Para a casa da mamãe, naquele apartamento de um cômodo?
Lá é apertado.
E nós temos três quartos, somos só nós dois, espaço de sobra.
Do quarto saiu Sveta, arrastando os pés.
A barriga enorme vinha na frente dela.
Ela mastigava uma maçã.
— Ah, Marinka, — disse ela de boca cheia.
— E por que você não ligou?
Pelo menos a gente teria dado uma arrumada.
Mãe, eu te disse que era preciso guardar logo o casaco dela no depósito, agora ela vai começar a dizer que amassou.
— Não vai dizer nada, — cortou Valentina Petrovna.
— A família deve ajudar a família.
Estamos passando por uma desgraça, e a Marina é uma mulher inteligente, vai entender.
Vamos nos apertar um pouco.
Um ano, um ano e meio, até o bebê crescer um pouco.
— Um ano, um ano e meio? — repeti.
— E como você queria que fosse? — minha sogra sentou no braço do meu sofá.
— Eu não vou jogar minha filha e meu neto na rua.
Você, Marina, trabalha demais, em casa só dorme.
Que diferença faz para você?
Nós separamos um quartinho para você, colocamos um sofazinho lá.
E o quarto e a sala vamos deixar para a Sveta e para o bebê.
Eles precisam de espaço.
Eu olhava para eles.
Para Oleg, que escondia os olhos.
Para a cara insolente da minha cunhada.
Para minha sogra, que já tinha planejado a minha vida para os dois anos seguintes.
O mais engraçado é que eu sabia que seria assim.
Ainda um mês antes, quando Oleg começou a falar dos “parentes pobrezinhos”, eu entendi que aquilo não terminaria bem.
Naquela época eu disse um “não” firme.
Mas eles decidiram que o meu “não” não significava nada enquanto eu estivesse em viagem de trabalho.
Em silêncio, tirei o telefone do bolso.
— O que você está fazendo? — Oleg ficou tenso.
— Marin, vamos sem escândalo.
Mamãe fez borsch, vamos sentar e comer…
— Eu não estou com fome.
Disquei o número.
Os toques demoraram muito, uma eternidade inteira.
— Alô, Dmitri Sergueievitch?
Boa tarde.
Sim, estou no local.
Sim, surgiram obstáculos.
O apartamento não foi desocupado.
Sim, há terceiros aqui.
Estou aguardando.
Guardei o telefone no bolso.
— Para quem você está ligando? — a voz da minha sogra ficou esganiçada.
— Para o seu amante?
Resolveu expulsar o marido de casa?
— Eu estou ligando para o dono do apartamento, Valentina Petrovna.
O silêncio caiu no cômodo.
Sveta parou de mastigar a maçã.
— Que dono? — Oleg empalideceu.
— Do que você está falando?
Este é o nosso apartamento.
— Era meu, — corrigi.
— Comprado antes do casamento, Oleg.
Esqueceu?
E há três dias, enquanto eu estava em Moscou, assinei o contrato de compra e venda.
O registro eletrônico foi concluído anteontem.
O dinheiro já está na conta.
Eu vendi este apartamento com os móveis e os eletrodomésticos.
— Mentirosa! — gritou minha sogra.
— Você não podia fazer isso!
Sem o consentimento do marido não pode!
— Pode, se o bem não foi adquirido na constância do casamento.
Eu sentia, Oleg, que você ia arrastar o seu circo para dentro daqui.
Eu avisei: aqui moramos eu e você.
Nada de mães, nada de irmãs.
Você não me ouviu.
Você trocou a fechadura da minha casa.
Você jogou as minhas coisas na varanda.
— Nós não jogamos, nós guardamos! — guinchou Sveta.
— Isso já não importa.
Daqui a quinze minutos o Dmitri Sergueievitch vai estar aqui.
Ele é um homem sério, advogado.
Comprou este apartamento para o filho.
E no contrato está escrito que o imóvel deve ser entregue vazio.
Oleg desabou numa cadeira.
— Marin…
O que foi que você fez?
E agora, para onde a gente vai?
Nós alugamos o nosso apartamento pequeno…
Pegamos o dinheiro, quitamos as dívidas da Sveta…
— Esse é um problema de vocês, Oleg.
Economia de mercado.
A campainha tocou.
Fui abrir, passando por cima dos embrulhos com as coisas dos outros.
Na porta estava Dmitri Sergueievitch, um homem alto, seco, de óculos e com uma pasta na mão.
Atrás dele estavam dois rapazes fortes de uniforme de empresa de limpeza, mas com rostos que deixavam claro que esfregões não eram a principal arma deles.
— Marina Viktorovna, — ele me cumprimentou com a cabeça.
— O termo de entrega está pronto.
Mas, pelo que vejo, o imóvel não está pronto para ser entregue.
Ele entrou no apartamento, franzindo o nariz com repulsa por causa do cheiro de cebola.
Passou os olhos sobre a família emudecida.
— Boa tarde, cidadãos.
Eu sou o novo proprietário deste imóvel.
Estou com a certidão em mãos.
Vocês têm, — ele olhou demonstrativamente para o relógio caro, — exatamente duas horas para desocupar o local.
Tudo o que permanecer aqui depois desse prazo será descartado como lixo.
— O senhor não tem esse direito! — guinchou Valentina Petrovna, levando a mão ao coração.
— Aqui tem uma grávida!
Nós vamos chamar a polícia!
— Chamem, — Dmitri Sergueievitch pegou o telefone.
— Eu também vou chamar.
Violação de domicílio.
Mais exercício arbitrário das próprias razões.
Mais dano ao patrimônio — estou vendo o laminado encharcado de gordura.
Vocês querem um processo criminal ou preferem simplesmente ir embora?
Minha sogra arregalou os olhos.
Ela olhou para Oleg, buscando proteção.
Mas Oleg estava sentado, com a cabeça entre as mãos.
Ele entendia: o jogo tinha terminado.
— Arrumem as coisas, — disse ele, em voz baixa.
— Vitya!
Você vai deixar?!
— Mãe! — ele gritou tão alto que Sveta deu um pulo.
— Esta não é a nossa casa!
Acabou!
Ela vendeu!
Junta as suas tralhas antes que acabem mesmo nos botando na cadeia!
A meia hora seguinte pareceu a reprodução acelerada de um filme ruim.
Minha sogra corria pelo apartamento, arrancando seus roupões dos cabides e me amaldiçoando até a sétima geração.
Sveta chorava sentada numa caixa e gritava que estava tendo contrações, mas, quando viu que Dmitri Sergueievitch realmente estava discando para a ambulância, calou-se na mesma hora.
As minhas coisas da varanda — cinco sacos pretos de lixo — os rapazes de Dmitri Sergueievitch trouxeram de volta para dentro.
Colocaram tudo com cuidado num canto.
— Marina Viktorovna, um táxi já foi chamado para a senhora, — disse o novo proprietário.
— Ele a levará para onde a senhora quiser.
Por conta da empresa.
Peço desculpas pelo transtorno.
— Obrigada, Dmitri Sergueievitch.
Peguei a minha mala.
Olhei em volta.
O apartamento parecia um campo de batalha.
Fraldas espalhadas, cadeiras viradas, manchas de gordura no chão.
Mas eu não me importava mais.
Aquela já era uma batalha alheia.
Saí para a rua.
O vento fresco de outono bateu no meu rosto.
Na entrada do prédio, no banco, estava sentada toda a companhia.
Ao redor deles se amontoavam bolsas xadrez, sacolas, caixas e embrulhos.
Sveta enxugava o nariz com um lenço de papel.
Valentina Petrovna apertava furiosamente o telefone, provavelmente ligando para parentes distantes.
Oleg estava um pouco afastado, fumando.
Quando me viu, jogou o cigarro fora e deu um passo na minha direção.
— Marin… — os olhos dele estavam vermelhos, miseráveis.
— Não dá para fazer assim.
Isso é cruel.
Nós éramos uma família.
Eu errei, fui idiota.
Vamos desfazer isso?
A gente devolve o dinheiro, anula o negócio?
Eu mando a mamãe… para algum lugar.
Olhei para ele e me surpreendi com o fato de ter conseguido viver com aquele homem por três anos.
Dividir a cama, planejar férias, sonhar com filhos.
Diante de mim estava um estranho, um homem fraco que queria ser bom às minhas custas.
— O negócio está fechado, Oleg.
Não há volta.
E nós não somos mais uma família.
Você fez a sua escolha quando colocou os meus vestidos em sacos de lixo.
— E eu vou para onde agora? — ele abriu os braços, perdido.
— Eu me descadastrei para vender o apartamento… aquele da minha avó.
— Para a casa da sua mãe, Oleg.
No apertamento de um cômodo.
Todos juntos, felizes.
Como você queria.
Entrei no táxi que acabava de chegar.
— Para o aeroporto? — perguntou o motorista.
— Não, — sorri, sentindo pela primeira vez, naquele dia interminável, os ombros se abrirem.
— Para o hotel Riviera.
E amanhã — para uma nova vida.
O carro arrancou.
Pelo retrovisor eu via Oleg caminhando lentamente de volta para o banco onde a mãe dele estava sentada, e via Valentina Petrovna começando a gritar alguma coisa, agitando os braços.
Mas já não se ouvia som nenhum.
Fechei a janela do carro.
No interior havia cheiro de couro e de perfume caro.
Lembrando-me do meu futuro.







