Eu não fui contratada para montar um espetáculo para vocês todas as manhãs!
Eu e meu marido temos direito à nossa vida privada.

— Devolva-me as chaves do nosso apartamento agora mesmo!
Eu não fui contratada para montar um espetáculo para vocês todas as manhãs!
Eu e meu marido temos direito à nossa vida privada, e não às suas visitas repentinas às sete da manhã para fazer inspeções! — gritava a nora, enrolando-se convulsivamente no cobertor, porque a sogra mais uma vez abrira a porta com a própria chave, sem tocar a campainha, e entrara direto no quarto do casal enquanto eles dormiam, sob o pretexto de lhes trazer panquecas fresquinhas.
O clique brusco do interruptor rasgou o silêncio da manhã, e o lustre de cinco braços no teto acendeu-se com uma luz impiedosa, quase cirúrgica.
Nastya apertou os olhos por causa da ardência, sentindo o coração, depois de perder uma batida, começar a martelar em sua garganta com uma velocidade nauseante.
Os restos do sono desapareceram instantaneamente, substituídos por uma sensação pegajosa e humilhante de total desamparo.
Era como um interrogatório, quando um prisioneiro é despertado com um holofote no rosto, só que, em vez do investigador, no meio do quarto deles estava Larisa Dmitrievna.
Ela estava ali de forma monumental, com as pernas afastadas, sem se dar ao trabalho sequer de tirar os sapatos de rua.
As botas pesadas e sujas deixaram no laminado claro uma trilha de marcas pretas e úmidas, que se estendia desde a soleira até os pés da cama de casal.
Vestia o mesmo sobretudo bege que usava o ano inteiro, e uma boina puxada até a testa.
Nas mãos, a sogra segurava uma tigela funda esmaltada, coberta com um pano de prato xadrez.
Da tigela saía um vapor denso e pesado, e o cheiro de óleo de girassol queimado demais encheu imediatamente o pequeno quarto, expulsando o ar quente e sonolento.
Aquele cheiro era agressivo, pesado, entrava pelas narinas e provocava não apetite, mas um espasmo no estômago.
— Por que você está guinchando como um porco sendo abatido? — perguntou calmamente Larisa Dmitrievna, até com certo nojo, abafando o som do grito de Nastya com sua voz baixa e de peito.
— São sete da manhã, gente normal já está de pé faz tempo, cuidando da vida.
E vocês ainda estão aí deitados, apodrecendo vivos.
Ela deu um passo à frente e colocou a tigela com estrondo sobre a cômoda, bem em cima do ноутбук fechado de Nastya e de uma pilha de documentos de trabalho.
O pano escorregou, revelando uma montanha de panquecas gordurosas e brilhantes.
— Larisa Dmitrievna, saia daqui! — Nastya sentou-se na cama, puxando o cobertor até o queixo.
Ela tremia não de frio, mas de fúria, que fervia por dentro como lava.
— A senhora enlouqueceu?
Nós estamos dormindo!
É sábado!
Que diabos a senhora faz entrando no nosso quarto?
A sogra ignorou a pergunta de forma demonstrativa.
Lançou lentamente o olhar pelo quarto, demorando-se nos jeans de Artyom jogados na poltrona e na lingerie de renda de Nastya, que ela não guardara na gaveta na noite anterior.
O rosto de Larisa Dmitrievna se contorceu numa expressão de repulsa, como se estivesse vendo uma pilha de lixo.
— Não dá nem para respirar, — constatou ela, puxando o ar ruidosamente pelo nariz.
— As janelas estão fechadas, está tudo abafado, há um cheiro pesado no ar…
Dá para entender logo com o que vocês ficaram ocupados a noite inteira, em vez de manter uma rotina.
Aqui cheira a libertinagem, não a família.
É preciso ventilar, Nastya, ventilar.
Embora, de onde você ia saber alguma coisa sobre higiene, se seus sutiãs ficam pendurados nas cadeiras como bandeiras.
Ao lado de Nastya, o cobertor se mexeu.
Artyom, que até aquele momento fingira estar morto, tentando esperar a tempestade passar, finalmente entendeu que aquilo não se resolveria sozinho.
Ele se sentou, semicerrando os olhos por causa da luz, e esfregou o rosto com as mãos.
Estava com um ar lamentável: cabelo desgrenhado, olhos vermelhos, e na bochecha a marca da dobra da fronha.
— Mãe… — rouquejou ele, sem olhar para Larisa Dmitrievna.
— Sério…
Por que tão cedo?
Nós pedimos.
— Vocês pediram, — bufou a sogra, aproximando-se da janela.
— Eu sou mãe, Artyom.
Levantei às cinco da manhã, preparei a massa, fiquei no fogão para trazer algo quentinho para vocês, ingratos.
Achei que fosse agradar.
E aqui me recebem como se eu fosse uma ladra.
“Devolva as chaves”, veja só!
Ela puxou bruscamente a cortina grossa, escancarando-a.
A luz cinzenta da manhã misturou-se à elétrica, tornando a atmosfera ainda mais desconfortável e surreal.
Nastya encolheu-se instintivamente contra a cabeceira da cama.
Parecia-lhe que a tinham exposto nua na praça da cidade.
— Eu não pedi que a senhora fizesse panquecas! — articulou Nastya, sentindo algo se romper por dentro.
Não havia mais vontade de ser educada, procurar compromissos ou amenizar o conflito.
— Eu pedi para a senhora não vir sem avisar.
Esta é a terceira vez no mês!
A senhora invade a nossa vida, pisa no nosso chão com essas botas sujas, me ofende dentro da minha própria casa!
Larisa Dmitrievna virou-se de corpo inteiro.
Sua figura maciça no sobretudo pairou sobre a cama como uma rocha.
— Na sua casa? — repetiu em voz baixa, com um sorriso venenoso.
— Menina, você não está confundindo as coisas?
Esta casa é do meu filho.
E, portanto, também é minha.
Eu ajudei com a entrada.
Então não é você quem vai me dizer quando eu posso vir e com que sapatos posso andar.
Eu sou dona desta casa tanto quanto você.
Ou talvez até mais, a julgar pela camada de poeira no parapeito da janela.
Ela passou o dedo pelo parapeito e, de forma demonstrativa, sacudiu uma poeira invisível no chão.
— Artyom! — Nastya virou-se para o marido, empurrando-o no ombro.
— Você vai ficar calado?
Ela está a um metro da nossa cama e está me jogando lama em cima!
Faça alguma coisa!
Artyom estava sentado, de cabeça baixa, olhando para as próprias mãos.
Parecia um colegial sendo repreendido por uma nota ruim, e não um homem de trinta anos em sua própria casa.
— Mãe, vai para a cozinha, por favor, — murmurou ele sem energia.
— Nós vamos nos vestir e já vamos.
Só nos dê cinco minutos.
— Cinco minutos, — repetiu Larisa Dmitrievna em tom de deboche.
— Para vocês se enfiarem de novo debaixo do cobertor?
Eu conheço os seus cinco minutos.
Levantem-se imediatamente.
As panquecas estão esfriando, o óleo vai ficar rançoso, não vai dar para comer.
Vou colocar a chaleira no fogo, já que a nora não tem juízo suficiente para dar café da manhã ao marido.
O rapaz está magro demais, dá até medo olhar, só tem os ossos.
Ela se virou, arrastando as solas sujas pelo laminado, e foi em direção à porta, mostrando com toda a sua atitude que a conversa estava encerrada.
Para ela, aquilo não era uma briga, mas um processo educativo.
Ela sinceramente acreditava ter direito àquele controle, àquela invasão, àquela grosseria.
— As chaves! — gritou Nastya atrás dela, a voz falhando num guincho.
— Deixe as chaves na cômoda e vá embora!
Eu não vou tomar chá com a senhora!
Larisa Dmitrievna parou na porta.
Virou-se por cima do ombro.
Em seus olhos não havia uma gota sequer de arrependimento, apenas um desprezo frio, de concreto armado.
— Histérica, — atirou ela, curta e grossa.
— Vá tratar a cabeça, Nastya.
E as chaves estão exatamente onde devem estar.
Na minha bolsa.
E lá continuarão.
Ela saiu para o corredor.
Um segundo depois ouviu-se o som da torneira sendo aberta na cozinha e o tilintar de louças.
A sogra começou a mandar na casa.
Nastya ficou sentada, olhando para o vão vazio da porta.
As têmporas latejavam.
Ela desviou o olhar para Artyom.
Ele finalmente levantou a cabeça e olhou para ela com um olhar culpado e acuado, como um cão espancado.
— Nast, não começa, tá? — pediu ele em tom lamentoso.
— Ela só quer o melhor…
É uma pessoa idosa, está entediada…
Nastya jogou o cobertor de lado em silêncio, sem mais se envergonhar da própria nudez diante do marido.
A vergonha havia queimado.
Restara apenas uma raiva gelada, cristalina.
Levantou-se da cama, vestiu rapidamente a calça de casa e a primeira camiseta que encontrou, sem sequer olhar para o marido.
— Entediada? — repetiu Nastya em voz baixa, prendendo o cabelo num rabo de cavalo apertado.
— Não, Artyom.
Ela não está entediada.
Ela gosta de poder.
Mas hoje esse circo acaba.
Ou ela devolve as chaves, ou eu faço as malas.
E acredite em mim, eu não estou brincando.
Ela se virou bruscamente e saiu descalça para a cozinha, de onde já vinham cheiro de gás e o som de xícaras sendo mexidas.
A batalha estava apenas começando.
Na cozinha reinava uma agitação diligente que fazia as mandíbulas de Nastya se contraírem.
Larisa Dmitrievna sentia-se ali como uma comandante num ponto estratégico conquistado.
Já tivera tempo de mudar o açucareiro do lugar habitual para o parapeito, empurrar o suporte de facas para um canto que considerava “mais ergonômico”, e agora inspecionava com estrondo o conteúdo dos armários suspensos.
As portinhas batiam uma após a outra, como disparos.
Nastya parou no batente da porta, de braços cruzados.
Tinha vontade de gritar, de agarrar aquela mulher pesada pelos ombros e jogá-la no corredor, mas entendia que a força física não ajudaria ali.
Larisa Dmitrievna não era apenas uma pessoa, era um elemento da natureza, convencida da própria infalibilidade.
— Chá verde, camomila, algum chá para emagrecer… — murmurava a sogra, mexendo nas caixas e afastando-as com nojo.
— Meu Deus, nesta casa existe chá de verdade?
Preto, forte, de gente?
Ou vocês aqui vivem só de mato, como bodes?
Ela se virou para a nora, segurando um pacote já aberto de müsli como se fosse uma prova num processo criminal.
— Nastya, me explica uma coisa.
Um homem trabalha doze horas por dia, ele precisa de energia.
E o que você enfia nele?
Aveia?
Faltava só colocar feno no cocho dele.
Não é de admirar que a gastrite dele tenha piorado.
Eu vejo como ele faz careta depois de comer.
— Artyom não tem gastrite, — respondeu Nastya em tom glacial, dando um passo para dentro da cozinha.
— E ele mesmo compra esse müsli.
Larisa Dmitrievna, coloque tudo no lugar.
Imediatamente.
A senhora não tem o direito de mexer nos nossos alimentos.
A sogra ignorou suas palavras como se fossem apenas um ruído irritante de interferência no rádio.
Jogou o pacote de volta no armário e caminhou decidida até a geladeira.
A porta branca se abriu, e Larisa Dmitrievna mergulhou no exame das prateleiras, inclinando-se de tal modo que seu volumoso casaco bege, que ela nem tirara, ocupava metade da passagem.
— Vazio… — comentou com sombria satisfação.
— Meio limão, queijo ressecado e… o que é isso?
Entrega?
De novo pediram sushi?
Ela puxou um recipiente plástico com restos do jantar da noite anterior e o cheirou com uma expressão de extremo desgosto no rosto.
— Cheira a vinagre de longe.
O arroz está cru.
Vocês ao menos entendem que estão se envenenando com o próprio dinheiro?
Quando eu vinha para cá, pensava: “Bem, talvez pelo menos no fim de semana a nora se dê ao trabalho de fazer uma sopa”.
Mas aqui não tem nada.
Se não fossem as minhas panquecas, o Artyom teria ido trabalhar com fome ou se engasgaria com os seus sanduíches secos.
Nastya aproximou-se e bateu a porta da geladeira com força bem diante do nariz da sogra.
Larisa Dmitrievna deu um passo para trás, não de susto, mas de indignação.
— Não se atreva a bater a porta! — berrou ela, e pela primeira vez surgiram notas estridentes em sua voz.
— Você vai quebrar o eletrodoméstico!
Isso aqui, aliás, é um Bosch, custa dinheiro, não as suas moedinhas!
— Esta.
É.
A minha.
Geladeira, — disse Nastya pausadamente, olhando-a diretamente nos olhos.
Suas pupilas estavam dilatadas pela adrenalina.
— Eu a comprei com o meu bônus.
E a comida nós compramos juntos, eu e o Artyom.
E nós mesmos vamos decidir o que comer — sushi, aveia ou pregos.
Isso não diz respeito à senhora.
Larisa Dmitrievna sorriu com desdém, ajeitando a gola do casaco.
Havia tanta condescendência naquele sorriso que Nastya teve vontade de bater nela.
— Ouvindo você falar, parece que tudo aqui é seu.
Só que os documentos do apartamento estão no nome do meu filho.
E a reforma foi feita por nós quando você ainda nem existia no projeto.
Você chegou com tudo pronto, menina.
Trouxe suas calcinhas numa mala e decidiu que virou dona da casa?
Não.
Dona da casa é quem mantém o lar aceso, quem alimenta o marido, quem mantém a casa limpa e em ordem, não quem só colocou um carimbo no passaporte.
Ela demonstrativamente voltou-se para a pia, onde havia uma caneca suja deixada por Artyom desde a noite anterior.
Abriu a água com toda a força, espalhando respingos por toda parte.
— Olha só, admire-se, — discursava ela, sobrepondo-se ao barulho da água, enquanto pegava a esponja.
— Uma caneca ficou aqui desde ontem à noite.
Já secou.
Era tão difícil enxaguar?
Dois segundos de trabalho.
Não, melhor criar bactérias.
Estão esperando baratas?
Elas virão.
Vou lavar tudo agora, já que suas mãos não cresceram do lugar certo.
Nastya deu um passo em direção à pia e, num movimento brusco, fechou a torneira.
A água silenciou na mesma hora, e no silêncio que se seguiu tornou-se audível a respiração pesada de ambas as mulheres.
— Não precisa lavar nada, — disse Nastya em voz baixa.
— Eu não preciso da sua ajuda.
Eu não preciso das suas panquecas.
Eu não preciso das suas inspeções.
Eu preciso das minhas chaves.
Ela estendeu a mão, com a palma voltada para cima, esperando que aquele gesto colocasse um ponto final na questão.
Mas Larisa Dmitrievna apenas enxugou as mãos molhadas no próprio casaco, deixando manchas escuras no tecido bege, e olhou para a palma estendida como se fosse um espaço vazio.
— Não me dê ultimatos, — disse calmamente, mas havia ameaça naquela calma.
— As chaves me foram dadas pelo meu filho.
Para o caso de incêndio, inundação ou se acontecesse alguma coisa com vocês dois, idiotas.
E só ele pode tirá-las de mim.
E você… você está aqui hoje, e amanhã — quem sabe?
Talvez Artyom finalmente abra os olhos e arrume uma mulher de verdade.
Uma que saiba fazer mais do que dar ataques histéricos, que saiba cozinhar um borsch.
— Artyom! — gritou Nastya, sem tirar os olhos do rosto da sogra.
— Vem aqui!
Larisa Dmitrievna bufou com desprezo, pegou um pano da mesa e começou a esfregar furiosamente uma mancha na bancada que estava perfeitamente limpa.
— Chame, chame.
Vá se queixar.
Que ele veja que psicopata você é.
Fez um escândalo por causa de uma caneca suja.
Eu já dizia faz tempo que você tem problema nos nervos.
Você devia tomar um calmante, ou melhor ainda, ir ao médico fazer um exame.
E depois vocês ainda vão querer ter filhos, e você vai transformar a criança num louco.
Nastya sentiu o chão fugir sob seus pés.
Aquilo já não era só uma violação de limites, era a destruição metódica da sua personalidade.
A sogra não tinha simplesmente vindo sem pedir licença — tinha vindo para mostrar a Nastya o seu lugar.
O lugar de uma empregada que desempenha mal seus deveres numa casa que não lhe pertence.
— A senhora não vai devolver as chaves de boa vontade? — perguntou Nastya, sentindo a voz vacilar traiçoeiramente, mas imediatamente se recompondo.
— As chaves estão na minha bolsa, — articulou Larisa Dmitrievna, continuando a esfregar a mesa com fúria.
— E eu não tenho a menor intenção de pegá-las.
Só faltava eu ter que prestar contas a qualquer pirralha.
Eu sou a mãe.
Eu conheço esta casa melhor do que você.
Eu lambi cada canto daqui quando a reforma estava sendo feita.
Portanto, fique quieta e espere o seu marido sair.
Ou melhor, coloque a chaleira no fogo de novo, já esfriou enquanto você fazia o seu show.
Nastya olhava em silêncio para as largas costas da sogra, cobertas pelo tecido bege.
Na sua cabeça girava um único pensamento: se Artyom não interferisse agora, se mais uma vez ficasse calado ou tentasse fazer piada, então o casamento não existia mais.
Existiam apenas aquela cozinha, o cheiro de óleo queimado e uma mulher estranha que se considerava a dona dali.
Artyom estava parado no vão da porta da cozinha.
Já tinha conseguido vestir um jeans e uma camiseta amassada, mas parecia alguém que acabara de sair de uma ressaca terrível, embora na véspera não tivesse havido álcool nem de longe.
Seu rosto estava cinzento, as mandíbulas cerradas com tanta força que os músculos saltavam.
Ele não esfregava os olhos, não bocejava, não se curvava.
Havia em sua postura uma rigidez nova e assustadora, que Nastya nunca tinha notado antes.
Era a postura de uma pessoa que suportou por tempo demais e agora chegou ao ponto sem retorno.
A cozinha mergulhou em silêncio, interrompido apenas pelo suave chiado da chaleira esfriando.
Larisa Dmitrievna, ao notar o filho, trocou instantaneamente a máscara de dona de casa arrogante pela imagem de mãe cuidadosa, porém severa.
Até tentou sorrir, mas o sorriso saiu torto e forçado.
— Ah, apareceu, — resmungou ela, sacudindo migalhas da toalha plástica.
— Sente-se, enquanto ainda está quente.
Sua esposa, ao que parece, é orgulhosa demais e torce o nariz para comida caseira.
Mas você coma.
Você precisa de força, é em você que pesa a hipoteca, não nela.
Artyom não se mexeu.
Olhava para a mãe com um olhar pesado e fixo, como se a estivesse vendo pela primeira vez.
— Vá embora, — disse ele baixinho.
Larisa Dmitrievna parou com o pano na mão.
Esperava que o filho começasse a balbuciar, a pedir desculpas pelo comportamento da esposa ou a tentar apaziguar a situação, como sempre fazia.
Mas aquela palavra — curta, seca, como um tiro — a deixou desnorteada.
— O que foi que você disse? — perguntou, fingindo surpresa.
— Você está expulsando a sua mãe?
Por causa de quê?
Porque eu vim ver se vocês estavam vivos?
Ou porque a sua histérica armou um circo do nada?
— Eu disse: vá embora, — repetiu Artyom mais alto.
Ele deu um passo para dentro da cozinha, e o espaço ao redor dele pareceu se contrair.
— Você passou de todos os limites.
Você invadiu o quarto.
Você insultou a minha esposa.
Você revira os meus armários.
Isso não é cuidado, mãe.
É ocupação.
— Ocupação? — guinchou Larisa Dmitrievna, jogando o pano na pia.
Respingos de água suja voaram para o casaco dela, mas ela nem percebeu.
— Escolha melhor as palavras!
Eu ajudei você a comprar este apartamento!
Entreguei minhas economias de enterro para que você tivesse um teto sobre a cabeça!
E agora você me chama de ocupante?
Se não fosse eu, você ainda estaria vagando por apartamentos alugados e comendo macarrão instantâneo!
Artyom aproximou-se dela até ficar bem perto.
Nastya, parada junto à geladeira, involuntariamente se comprimiu contra a superfície branca esmaltada.
Ela via as mãos do marido tremerem — não de medo, mas de um desejo contido de dar um soco na parede.
— Você deu dinheiro para a entrada, — disse Artyom, marcando cada palavra.
— E eu lhe devolvi.
Até o último centavo.
Trabalhei dois anos sem folga para quitar essa dívida com você.
Esqueceu?
Eu comprei de você o direito de viver em paz.
Mas, por algum motivo, você decidiu que tinha me comprado junto com os metros quadrados.
— Devolveu o dinheiro… — bufou a mãe, cruzando os braços sobre o peito, como se se defendesse da pressão dele.
— E a gratidão?
E o respeito?
Eu não peguei as chaves para espionar vocês, seu tolo.
Mas para ajudar!
E se um cano estourar?
E se vocês esquecerem o ferro ligado?
Vocês são como crianças pequenas, é preciso vigiar tudo!
— As chaves, — Artyom estendeu a mão.
A palma estava aberta, os dedos esticados.
O gesto era exigente e definitivo.
— Me dê as chaves.
Agora mesmo.
Larisa Dmitrievna olhou para a mão dele, depois para o seu rosto.
Em seus olhos surgiu um medo verdadeiro — ela percebeu que as manipulações habituais já não funcionavam mais.
A alavanca de pressão tinha quebrado.
— Não, — cortou ela, recuando um passo em direção à janela.
— Não vou dar.
Você não está em si.
Essa aí… — ela fez um gesto na direção de Nastya, — encheu a sua cabeça.
Você vai se acalmar, depois conversamos.
Não tenho intenção de ceder aos seus caprichos.
As chaves vão ficar comigo.
Para o seu próprio bem.
Artyom não disse mais nada.
Agiu com rapidez e um silêncio assustador.
Deu um passo em direção à mãe, encurtando a distância ao mínimo.
Larisa Dmitrievna soltou um grito assustado e tentou cobrir o bolso do casaco com a mão, mas Artyom foi mais rápido.
Ele segurou bruscamente o pulso dela.
— Não me toque! — berrou ela, tentando se soltar.
— O que você está fazendo?!
Vai quebrar o meu braço!
Vou chamar a polícia!
Artyom não deu atenção aos gritos dela.
Não torcia o braço, apenas o mantinha preso com uma força de ferro, impedindo-a de bloquear o acesso ao bolso.
Com a outra mão, enfiou-se de forma brusca, sem o menor respeito, no bolso fundo do casaco bege dela.
Era uma cena horrível.
Um filho revistando a própria mãe.
Nastya desviou o olhar, sentindo náusea.
Não havia ali nenhuma vitória, apenas uma necessidade humilhante e suja.
Ouvia-se a respiração pesada de Larisa Dmitrievna e o som do forro rasgando.
— Solte!
Ladrão! — gritava a sogra, tentando chutar o filho com a bota pesada.
Artyom encontrou o molho.
Puxou a mão para cima, tirando as chaves junto com um recibo e um lenço de papel.
O molho tilintou, brilhando em metal sob a luz da cozinha.
Ele soltou o braço da mãe.
Larisa Dmitrievna recuou, esfregando o pulso.
Seu rosto ficou coberto de manchas vermelhas, os lábios tremiam.
— Que você seja amaldiçoado, — sibilou ela, olhando para ele com um ódio tão grande como se diante dela estivesse um assassino.
— Criei um filho… para a minha desgraça.
Levanta as mãos?
Contra a própria mãe?
Artyom apertou as chaves no punho com tanta força que as bordas afundaram em sua pele.
A dor o trouxe um pouco de volta à realidade.
Ele olhava para a mulher que o tinha colocado no mundo e não sentia nada além de vazio e repulsa.
— Foi você quem fez isso, — disse ele com a voz surda.
— Foi você quem me obrigou.
Eu pedi com educação.
Você não ouviu.
Ele se aproximou da porta de entrada, escancarou-a e parou no vão, apontando com a mão para a escada do prédio.
— Fora, — disse.
— E que seus pés nunca mais pisem aqui sem o meu convite pessoal.
E esse convite não vai acontecer por muito, muito tempo.
Larisa Dmitrievna arrumou a boina torta.
Alisou o casaco, tentando recuperar pelo menos um resto de dignidade, embora parecesse naquele momento patética e ridícula em sua raiva.
Passou por Nastya, lançando-lhe um olhar cheio de veneno.
— Está satisfeita? — atirou à nora.
— Conseguiu o que queria?
Destruiu uma família?
Alegre-se.
Só lembre-se, minha querida: ele é um traidor.
Hoje expulsou a mãe, amanhã joga você para fora.
A maçã não cai longe da árvore.
Nastya permaneceu em silêncio.
Não tinha nada a responder.
Olhava para Artyom, que estava junto à porta, pálido como um lençol, apertando na mão aquelas malditas chaves.
Larisa Dmitrievna saiu para o patamar.
Mas ir embora em silêncio não era algo que ela pretendesse fazer.
Virou-se na soleira para cuspir a última e mais dolorosa frase.
— Ele tomou as chaves… — riu ela, e essa risada ecoou com força pelas paredes de concreto da escada.
— Engasgue-se com elas!
Vivam aqui na sua sujeira!
Mas, quando você vier rastejando até mim para pedir dinheiro ou choramingar o quanto a vida é difícil, a porta vai estar fechada!
Está ouvindo, Artyom?
Você não tem mais casa comigo!
Você não é mais meu filho!
Artyom a encarou sem piscar.
— Está bem, — disse simplesmente.
— Adeus.
E bateu a porta com força bem na frente do rosto dela.
O estrondo do metal ecoou por todo o prédio, marcando um ponto final grotesco e horrível.
Ele girou a fechadura duas vezes e depois puxou a maçaneta mais uma vez, conferindo.
No apartamento instalou-se um silêncio vibrante.
Só se ouvia o zumbido da geladeira e a respiração pesada de Artyom, encostado com a testa na porta fria.
A batalha havia sido vencida, mas o campo de guerra parecia aquele onde ninguém sobreviveu.
Artyom afastou-se lentamente da porta.
Seu peito subia e descia como se tivesse acabado de correr uma maratona, mas o rosto permanecia assustadoramente imóvel, pétreo.
Ele abriu o punho, e o molho de chaves caiu no chão com um som surdo e desagradável.
O metal bateu no laminado, ricocheteou e parou junto ao pé sujo de Nastya — ela nem chegara a calçar nada, saíra do quarto descalça.
Aquele som deveria ter sido o símbolo da vitória, o acorde final da libertação.
Mas, em vez disso, soou como o ruído de um vaso quebrado.
Nastya olhou para as chaves e depois levantou os olhos para o marido.
Esperava que ele a abraçasse, dissesse que tudo havia acabado, que tinham conseguido.
Mas Artyom a olhava não como uma aliada, e sim como a causa da catástrofe.
Em seus olhos havia uma frieza turva, distante.
— E então? — perguntou Nastya, e sua voz no corredor vazio soou áspera demais, estridente demais.
— Vai ficar calado?
Ou talvez vá pegá-las?
Afinal de contas, esse é o seu troféu.
Artyom passou por ela, esbarrando grosseiramente em seu ombro, como se nem tivesse percebido sua presença no corredor estreito.
— Não me toque, — atirou entre os dentes, voltando para a cozinha.
— Simplesmente não me toque agora.
Nastya sentiu uma onda de mágoa misturada com adrenalina atingi-la de novo da cabeça aos pés.
Ela se abaixou, pegou as chaves — estavam quentes da mão do marido e pegajosas de suor — e as arremessou na mesinha.
As chaves atravessaram todo o corredor, bateram no espelho, deixando um risco no vidro, antes de caírem na prateleira.
— Não tocar em você? — gritou ela, correndo atrás dele.
— Artyom, você está falando sério?
Agora vai se fazer de vítima?
Sou eu quem deveria estar ofendida!
Foi a sua mãe que entrou na minha cama!
Foi a mim que ela chamou de porca e de miserável!
E você ficou aí engolindo tudo por dez minutos antes de se dignar a abrir a boca!
Ela entrou na cozinha como um furacão.
Artyom estava parado diante da mesa, olhando para as panquecas frias.
Os círculos gordurosos e amarelados de massa jaziam no prato em uma pilha murcha.
O cheiro do óleo já não parecia apetitoso — era nauseante, impregnado, como cheiro de doença.
— Eu expulsei a minha mãe de casa, — disse Artyom com voz surda, sem se virar.
Apoiava as mãos sobre a bancada, e os nós dos dedos estavam brancos.
— Eu usei força contra ela.
Revirei-a como se fosse uma criminosa.
Você ao menos entende o que fez?
Está satisfeita agora?
Conseguiu as suas malditas chaves, mas a que preço?
— A que preço? — Nastya quase sufocou de indignação.
Ela se aproximou da mesa e, com um gesto brusco, varreu o prato de panquecas.
A louça voou com estrondo para a lixeira, sem nem se quebrar, apenas afundando no saco plástico com um baque surdo.
As panquecas gordurosas espalharam-se sobre as cascas de batata.
— Ao preço do seu conforto?
Pobre Artyom, machucou a mamãe!
E o fato de ela nos devorar vivos há anos, isso não conta?
Você é homem, Artyom!
Ou é um trapo?
Por que eu tive que levar a situação até a histeria para que você finalmente agisse como homem?
Artyom virou-se bruscamente.
Seu rosto se deformou.
Já não era cansaço, era ódio puro, sem nenhuma névoa.
— Porque você não sabe esperar! — berrou ele na cara dela, cuspindo saliva.
— Porque você quer tudo e quer agora!
Você podia ter falado com ela com calma, de mulher para mulher!
Encontrado um jeito!
Mas não, você tinha que fazer guerra!
Tinha que humilhá-la, esfregar na cara, mostrar o seu poder!
Você é igual a ela, Nastya!
Não é melhor!
Vocês duas são duas vadias egoístas que me disputam como se eu fosse um pedaço de carne!
— Ah, então eu sou a vadia? — Nastya riu, e aquela risada era terrível, quase um latido.
— Eu sou a vadia porque quero dormir na minha casa sem plateia?
Porque não quero que comentem as minhas calcinhas?
Você é patético, Artyom.
Simplesmente patético.
Agora você não está com raiva de mim, está com raiva de si mesmo.
Porque sabe que eu tenho razão.
Sabe que você deixou isso acontecer.
Foi você quem deu essas chaves a ela!
Foi você quem se calou quando ela vinha!
A culpa é sua!
— Cala a boca! — rugiu ele, batendo o punho na mesa.
A caneca com o chá pela metade pulou e tombou, uma poça escura começou a se espalhar pela toalha, pingando no chão.
— Cala a boca antes que eu diga algo de que vou me arrepender.
— Então diga! — Nastya se aproximou até ficar colada nele, olhando-o de baixo para cima.
Em seus olhos não havia medo, apenas desprezo.
— Vamos!
Diga que se arrepende de ter se casado!
Diga que a mamãe tinha razão!
Vai, corre atrás dela!
Talvez ela ainda não tenha ido muito longe!
Devolva as chaves, ajoelhe-se, peça perdão!
Seja um bom menino!
Artyom olhou para ela por alguns segundos, respirando pesadamente.
Algo em seu olhar se apagou.
A chama da raiva foi substituída por um vazio gelado.
De repente, viu diante de si não a mulher que amava, mas uma pessoa estranha e hostil, com quem nada mais o ligava, exceto a hipoteca e um carimbo no passaporte.
— Você me dá nojo, — disse baixinho, quase num sussurro.
— Não consigo olhar para você.
Toda essa sujeira…
Você se banha nela.
Você gosta disso.
Escândalos, gritos, discussões…
Você é uma vampira, Nastya.
Sugou tudo de mim.
Ele a empurrou para o lado — não com força, mas o bastante para demonstrar desprezo — e saiu da cozinha.
Nastya ficou parada no meio da destruição.
O chá pingava no chão: tic, tic, tic.
O cheiro de óleo rançoso estava no ar como uma parede espessa.
— Para onde você vai? — gritou atrás dele, mas sua voz já não tinha o ímpeto de antes.
Havia apenas cansaço e amargura.
— Nós ainda não terminamos!
— Vou dormir na sala, — veio a voz dele do corredor, seca e sem vida.
— Não entre lá.
Eu não quero ver você.
Nem ouvir também.
A porta da sala bateu com força.
Ouviu-se o clique da fechadura — não a da porta de entrada, mas a interna — e aquele som pareceu a Nastya mais alto que um disparo de canhão.
Ela ficou sozinha na cozinha que defendera com tanta fúria.
Nastya olhou ao redor.
A louça suja na pia, a poça de chá sobre a mesa, a lixeira cheia de panquecas feitas ao amanhecer por uma mulher estranha.
A vitória havia sido conquistada.
O território fora limpo.
As chaves estavam na mesinha.
A sogra tinha ido embora.
Mas, junto com ela, algo mais também tinha deixado o apartamento.
Tinha ido embora a sensação de “nós”.
Restavam apenas duas pessoas trancadas numa caixa de concreto, cheias de mágoas mútuas e ressentimentos nunca ditos.
Nastya sentou-se num banco e ficou olhando para a parede.
Ela não chorava.
Não havia lágrimas.
Havia apenas a compreensão clara e nítida de que a fechadura tinha sido trocada, mas que a casa, por isso, não se tornara mais segura.
Agora o inimigo não estava do lado de fora, mas dentro, atrás da parede fina do quarto ao lado.
E já era impossível encontrar a chave para esse problema.







