A sogra e o filhinho dela esqueceram num instante todos os escândalos.
Só que já era tarde demais.

— Talvez você devesse ir embora daqui de uma vez? — Raisa Nikolaevna estava na porta da sala, com os braços cruzados sobre o peito.
— O que você ainda está fazendo aqui?
Você precisa do Roman ou do apartamento?
Polina ficou imóvel com a xícara nas mãos.
O café ainda soltava fumaça, mas ela perdeu imediatamente a vontade de beber.
— Mãe, não começa de manhã cedo, — veio a voz do quarto.
— É você que não deve começar! — a sogra elevou a voz.
— Eu olho para você e penso: para que meu filho precisa de uma esposa dessas?
Uma que nem sequer consegue lhe dar um filho.
Já se passaram cinco anos!
Polina pousou a xícara na mesinha.
As mãos tremiam levemente, mas ela tentou se controlar.
Aquela conversa se repetia com invejável regularidade havia pelo menos seis meses.
— Raisa Nikolaevna, eu e o Roma já conversamos sobre tudo.
Os médicos disseram…
— Os médicos! — interrompeu a sogra.
— Sempre há desculpas.
E o filho da Svetlana Ivanovna se casou e, depois de um ano, a esposa já tinha dado à luz gêmeos.
Uma esposa jovem, bonita, prendada.
Polina mordeu o lábio.
Aquelas comparações, aquelas indiretas: tudo havia se tornado parte de sua rotina diária desde que se mudaram para o apartamento do Roman.
Ou melhor, para o apartamento da mãe dele, que generosamente lhes permitiu ocupar dois dos três quartos, ficando ela com o maior.
Roman saiu do quarto com calças de ficar em casa e uma camiseta amarrotada.
O cabelo estava despenteado em todas as direções, o rosto ainda marcado pelo sono.
— Mãe, já basta.
Nós vamos resolver isso sozinhos.
— E o que vocês vão resolver? — bufou Raisa Nikolaevna.
— Você, no seu trabalho, ganha uma miséria, e ela, naquele museu, fica mexendo em papéis por vinte mil rublos.
Que família vocês pensam em construir?
Polina se levantou.
O coração batia na garganta, mas ela se obrigou a olhar a sogra nos olhos.
— Eu vou para o trabalho.
— Vá, vá, — fez um gesto com a mão Raisa Nikolaevna.
— Mas primeiro lave a louça, já estou lembrando isso há três dias.
No banheiro, Polina jogou água fria no rosto.
E no espelho viu um rosto muito cansado.
Houve um tempo em que não era assim.
Roman lhe dava flores sem motivo, beijava-a quando voltava do trabalho, fazia elogios.
E agora… agora se calava durante os escândalos com a mãe, se escondia no silêncio, fingia que nada estava acontecendo.
O museu a recebeu com o silêncio habitual e o cheiro de papel velho.
Polina trabalhava como conservadora do acervo em um pequeno museu privado da história da cidade.
O salário era realmente modesto, mas ela gostava do trabalho.
Ali, entre documentos e fotografias de anos passados, era possível esquecer os problemas do presente.
— Polia, a diretora quer falar com você, — disse a colega Jênia, aparecendo na porta.
Polina levantou a cabeça, surpresa.
Ela mal tivera tempo de tirar o casaco e chegar à sua mesa.
O gabinete da diretora, Ekaterina Sergeevna, ficava no segundo andar.
— Polina, entre, por favor, — fez um sinal a diretora.
— Este é o senhor Grechko, tabelião.
Ele quer falar com você.
O tabelião lhe estendeu a mão para cumprimentá-la.
A palma dele era seca e quente.
— Polina Mikhailovna Vorontsova?
— Sim, sou eu.
— Sente-se, por favor. — Ele abriu uma pasta de couro.
— Fui encarregado de encontrá-la em relação à abertura de um processo sucessório.
Sua madrinha, Elizaveta Markovna Sokolova, faleceu há um mês em Nice.
Polina deixou-se cair na cadeira.
Tia Liza…
Ela não a via havia sete anos, talvez oito.
Depois do casamento, elas acabaram perdendo contato, embora, quando criança, tivesse sido justamente a madrinha quem substituíra a mãe, que morrera quando Polina tinha dez anos.
— Eu… eu não sabia, — sussurrou.
— De acordo com o testamento, redigido há três anos, você é a única herdeira de todos os bens dela. — O tabelião tirou alguns documentos.
— Trata-se de uma villa na Côte d’Azur, um apartamento em Moscou, nos Patriarshie Prudy, e contas bancárias.
No gabinete fez-se um grande silêncio.
Polina ouvia o tique-taque do relógio na parede.
— Quanto? — conseguiu dizer.
— O valor total dos bens é estimado em cerca de quinze milhões de euros.
Além das contas em um banco suíço.
Ekaterina Sergeevna soltou um pequeno suspiro de espanto.
— Isso é um erro, — Polina balançou a cabeça.
— A tia Liza trabalhava como tradutora, não podia ter todo esse dinheiro.
— Sua madrinha se casou com um empresário francês há vinte anos.
Após a morte dele, herdou toda a fortuna.
Eles não tinham filhos. — O tabelião deslizou os documentos em sua direção.
— Você precisa assinar os papéis de aceitação da herança.
Tem seis meses para concluir o processo, mas recomendo que comece o quanto antes.
Polina pegou a caneta mecanicamente.
A mão se movia sozinha, traçando uma assinatura ampla.
Era irreal.
Como se estivesse assistindo a um filme sobre a vida de outra pessoa.
— Dentro de uma semana, um advogado entrará em contato para ajudá-la com a documentação.
E, enquanto isso… — o tabelião tirou um envelope.
— Elizaveta Markovna pediu que eu entregasse isto em mãos.
O envelope era pesado, cor de creme, com um monograma.
Polina o abriu apenas depois que o tabelião foi embora.
“Minha querida Polinka, — escrevia tia Liza com sua familiar caligrafia arredondada.
— Perdoe-me por termos perdido o contato.
Acompanhei sua vida de longe e vi que você escolheu um caminho difícil.
Agora você terá a chance de mudar tudo.
Não desperdice sua vida com quem não a valoriza.
Viva como você quer.
Lembre-se: liberdade não é apenas dinheiro, mas também a coragem de recomeçar do zero.
Sua madrinha.”
Polina dobrou a carta e a guardou na bolsa.
As mãos já não tremiam mais.
Polina voltou para casa na hora do almoço.
No apartamento havia cheiro de cebola frita e de alguma outra coisa que Raisa Nikolaevna estava cozinhando na cozinha.
Roman estava sentado no sofá da sala.
— Você já voltou, tão cedo? — perguntou ele.
— Pedi dispensa.
Precisamos conversar sobre uma coisa.
Raisa Nikolaevna saiu da cozinha enxugando as mãos num pano de prato.
Seu olhar era desconfiado.
— O que aconteceu?
Foi demitida?
Polina entrou na sala e se sentou na poltrona diante do marido.
O coração martelava no peito, mas ela tentou falar com calma.
— Minha madrinha morreu.
A tia Liza.
— E daí? — Raisa Nikolaevna deu de ombros.
— Você não falava com ela há cem anos.
— Ela me deixou uma herança.
Roman finalmente tirou os olhos do notebook.
A sogra ficou imóvel com o pano na mão.
— Que herança? — a voz de Roman ficou cautelosa.
— Uma villa na França, um apartamento em Moscou e dinheiro.
Muito dinheiro.
— Tem certeza? — Raisa Nikolaevna deu um passo à frente.
— Não será golpe, não?
Hoje em dia inventam de tudo.
— O tabelião foi ao museu.
Os documentos são autênticos.
O valor total é de cerca de quinze milhões de euros.
Fez-se silêncio.
Raisa Nikolaevna sentou-se lentamente no sofá.
Roman abriu a boca, depois a fechou.
Depois a abriu de novo.
— Quinze… milhões… de euros?
— Além dos imóveis.
— Meu Deus… — Raisa Nikolaevna levou a mão ao peito.
— Romotchka, você ouviu?
Nós vamos ter todo esse dinheiro!
Polina fez uma careta com esse “nós”.
Mas não disse nada.
— Quando você vai resolver isso? — perguntou Roman em tom prático.
Já tinha fechado o notebook e se aproximado.
— O que precisa ser feito?
— Os advogados vão cuidar disso.
O processo vai levar tempo.
— Não importa, nós esperamos, — Raisa Nikolaevna sorriu pela primeira vez em meses.
— Sabe, Polinochka, eu estava pensando… talvez tenhamos sido injustos com você.
Você é uma boa moça, trabalhadora.
E quanto às crianças… não é uma tragédia, podemos fazer fertilização assistida numa boa clínica.
— No exterior, — acrescentou logo Roman.
— Em Israel, dizem que há os melhores especialistas.
Ou na América.
Polina olhava para eles e sentia um frio se espalhar por dentro.
Naquela mesma manhã, para eles, ela era um peso, uma fracassada, um nada.
E agora?
— Temos que comemorar, — Raisa Nikolaevna deu um salto.
— Vou correndo ao mercado, comprar alguma coisa especial.
Talvez champanhe?
— Ainda é cedo para comemorar, — disse Polina.
— Nada foi formalizado ainda.
— Ah, isso são só formalidades! — Roman se aproximou e tentou abraçá-la pelos ombros.
— O importante é que agora tudo vai dar certo.
Finalmente poderemos viver como se deve.
Ela se afastou.
O toque do marido lhe causava apenas irritação.
— Preciso pensar.
— Pensar em quê? — espantou-se Raisa Nikolaevna.
— Temos que decidir onde investir o dinheiro.
Romotchka, talvez abramos um negócio nosso?
Você sonhava com isso há tanto tempo.
— Ou compramos um apartamento maior, — disse Roman, sonhador.
— No centro, com uma boa reforma.
E um carro.
Eu sempre gostei de BMW.
— E eu preciso de uma datcha, — acrescentou a sogra.
— Em um lugar decente, não em algum vilarejo perdido.
Onde os vizinhos sejam gente culta.
Polina se levantou.
— Vou sair para caminhar um pouco.
— Espere, — Roman segurou seu braço.
— Vamos falar disso agora.
Quanto pegamos para viver, quanto investimos?
Eu já fiz umas contas, se administrarmos tudo direito…
— Solte-me.
Algo em seu tom de voz o fez soltá-la.
Polina vestiu a jaqueta e saiu de casa sem olhar para trás.
Lá fora garoava.
Ela caminhava sem rumo, passando por casas conhecidas, lojas e pontos de ônibus.
Na cabeça, havia só confusão.
Quinze milhões de euros.
O número parecia irreal, inventado.
Mas ainda mais reais eram os rostos de Roman e de sua mãe.
A maneira como a atitude deles mudara tão depressa.
Como, num instante, ela passara de fardo a fonte de bem-estar.
O telefone vibrou.
Roman mandava uma mensagem atrás da outra:
“Pol’, onde você está?”
“Não fica chateada, a gente só ficou emocionado”
“Vamos conversar com calma”
“A mamãe está preocupada”
Polina silenciou o aparelho e o enfiou no bolso.
Entrou numa cafeteria na esquina da Tverskaia.
Pediu um cappuccino e se sentou perto da janela.
Do outro lado do vidro corria a vida moscovita de sempre: as pessoas apressadas, os carros buzinando no trânsito, alguma publicidade piscando ao longe.
— Posso? — uma voz desconhecida a obrigou a levantar os olhos.
Ao lado dela estava um homem de uns quarenta anos, com um casaco caro e um rosto agradável, porém cansado.
— Não há outros lugares, — explicou, apontando para a cafeteria lotada.
— Pode sentar.
Ele se acomodou diante dela, pousando sobre a mesa uma xícara de espresso.
— Você tem a aparência de alguém cuja vida mudou de repente, — observou ele depois de uma pausa.
Polina sorriu com amargura.
— Dá para notar tanto assim?
— Sou psicólogo.
Deformação profissional: ler as pessoas. — Ele estendeu a mão.
— Konstantin.
— Polina.
Eles apertaram as mãos.
A palma dele era quente e firme.
— Quer falar sobre isso?
— Com um desconhecido numa cafeteria? — ela ergueu uma sobrancelha.
— Às vezes é justamente com desconhecidos que é mais fácil, — sorriu Konstantin.
— Eles não conhecem sua história, não têm expectativas.
E sairão da sua vida assim que a conversa terminar.
Polina olhou para a janela.
Talvez ele tivesse razão?
Talvez ela realmente precisasse falar com alguém que não soubesse nada de sua vida?
— Hoje de manhã eu era uma fracassada, — começou lentamente.
— E na hora do almoço já tinha me tornado uma rica herdeira.
E sabe o que é mais terrível?
As pessoas que até ontem me consideravam um nada hoje me olham de um jeito completamente diferente.
Konstantin assentiu sem interrompê-la.
— Meu marido e minha sogra já planejaram como gastar meu dinheiro.
Carros, apartamentos, negócios…
E eu estou aqui sentada pensando: durante todo esse tempo fui apenas um peso para eles?
— E como você mesma se sente em relação a eles?
A pergunta a pegou de surpresa.
Polina ficou em silêncio, segurando a xícara com as duas mãos.
— Não sei.
Antes eu achava que amava meu marido.
Que éramos uma família.
Mas agora… agora olho para eles e percebo que não quero dividir com eles nem a villa, nem o dinheiro, nem sequer o ar.
— Então a resposta você já tem.
Ela o observou com mais atenção.
Konstantin bebia o café olhando pela janela, e em seu rosto havia uma leve tristeza.
— Também aconteceu alguma coisa com você?
— Divórcio, — respondeu secamente.
— Dois meses atrás descobri que minha esposa me traía.
E não só me traía, como também planejava tomar na justiça meu apartamento e metade do meu negócio.
Agora estamos resolvendo isso com advogados.
— Sinto muito.
— Não precisa.
Foi uma lição.
Cara, mas necessária.
Ficaram sentados em silêncio.
Estranhamente, com aquele desconhecido Polina se sentia mais tranquila do que se sentia em casa havia meses.
— Sabe o que eu vou lhe dizer? — Konstantin terminou o espresso.
— Você tem agora uma oportunidade rara.
Recomeçar do zero.
Isso não acontece com muita gente.
— Mas eu sou casada…
— Isso não é uma sentença.
É uma escolha que pode ser revista.
Ele se levantou e vestiu o casaco.
— Desejo-lhe boa sorte, Polina.
E lembre-se: o dinheiro não muda as pessoas.
Ele apenas mostra como elas sempre foram de verdade.
Polina voltou para casa tarde da noite.
Havia luz em todos os cômodos do apartamento.
Assim que cruzou a soleira, Raisa Nikolaevna surgiu da sala.
— Finalmente!
Você nos deixou aflitos!
Roman já estava prestes a chamar a polícia!
— Eu só fui caminhar.
— Foi caminhar… — a sogra revirou os olhos.
— Num dia desses!
Nós aqui fazendo planos, discutindo.
Roman encontrou um apartamento de três quartos, num prédio novo, já reformado.
Só quatro milhões de rublos.
Roman saiu do quarto.
Tinha um ar culpado, mas os olhos brilhavam de excitação.
— Pol’, não fique brava.
Eu só queria ajudar.
Pelo menos veja as fotos.
Ele lhe estendeu o tablet com as imagens do apartamento.
Paredes brancas, janelas panorâmicas, móveis de design.
— Bonito, não é? — Raisa Nikolaevna se inclinou por trás do ombro dela.
— E o bairro é bom.
Poderíamos morar todos juntos lá, teria espaço para todos.
Polina devolveu o tablet.
— Precisamos conversar.
— Ótimo, — alegrou-se a sogra.
— Sente-se, vou fazer chá.
Ou abrimos o champanhe?
Afinal, eu acabei comprando.
— Sem a senhora, — disse Polina.
— Quero dizer: preciso conversar com Roman a sós.
Raisa Nikolaevna franziu a testa.
— Que segredos são esses?
Somos uma família.
— Mãe, sai um pouco, por favor, — pediu Roman.
A sogra bufou, mas saiu, batendo forte a porta.
Eles ficaram sozinhos.
Roman sentou-se no sofá, Polina se acomodou na poltrona à frente.
Entre eles caiu um silêncio tenso.
— Eu quero me divorciar, — disse ela simplesmente.
Roman estremeceu, como se tivesse levado um golpe.
— O quê?
Do que você está falando?
— Do fato de que nosso casamento acabou.
Provavelmente faz tempo, só que eu não queria admitir.
— Por causa de quê? — ele se levantou num salto.
— Porque minha mãe às vezes fala demais?
Mas ela se preocupa conosco!
Com a família!
— Roman, olhe para você, — Polina passou cansadamente a mão pelo rosto.
— Hoje de manhã sua mãe dizia que eu era uma esposa inútil.
Que você precisava de outra.
E agora vocês já estão escolhendo apartamentos com o meu dinheiro.
— Não com o seu, com o nosso!
Somos marido e mulher!
— Éramos marido e mulher quando você ficava calado enquanto sua mãe me humilhava todos os dias.
Quando você não me defendia.
Quando fingia que nada estava acontecendo.
Ele ficou imóvel.
Nos olhos surgiu algo parecido com medo.
— Eu só não queria brigas…
— E eu não quero continuar vivendo assim.
— Espere, — Roman se aproximou, tentando pegar sua mão.
— Vamos conversar.
Podemos sair da casa da minha mãe, alugar um lugar nosso.
Ou comprar logo.
Agora temos possibilidades.
— Eu tenho possibilidades, — corrigiu Polina.
— E quero usá-las.
Sem você.
— Você não pode simplesmente ir embora assim! — a voz de Roman se quebrou num grito.
— Estamos juntos há cinco anos!
Eu investi nesta relação…
— O quê? — ela o interrompeu.
— O que você investiu, Roma?
O silêncio enquanto sua mãe me insultava?
A indiferença?
A falta de apoio?
A porta se escancarou.
Raisa Nikolaevna irrompeu no quarto, vermelha de raiva.
— Ouvi tudo!
Você ficou metida assim, foi?
Acha que porque o dinheiro caiu do céu agora pode empinar o nariz?
— Mãe, não se meta! — tentou detê-la Roman.
— Não, eu vou falar! — a sogra deu um passo em direção a Polina.
— Meu filho se casou com você quando você não tinha nada!
Nem apartamento, nem dinheiro, nem contatos!
Nós a acolhemos na família, lhe demos um teto!
— E eu devia pagar por isso com humilhações diárias?
— Que humilhações? — Raisa Nikolaevna abriu os braços.
— Eu só dizia a verdade!
Que você é uma péssima dona de casa, que não consegue ter filhos, que ganha uma miséria no trabalho!
— Exatamente, — assentiu Polina.
— E foi justamente essa sua verdade que me mostrou quem vocês realmente são.
Ela se levantou e foi ao quarto.
Pegou uma bolsa do armário e começou a colocar suas coisas dentro.
Não levou muito, só o essencial.
Roman ficou na porta.
— Você está falando sério?
Vai embora agora mesmo?
— Amanhã volto para buscar o resto.
— E para onde você vai?
— Para um hotel.
Depois veremos.
Talvez eu me mude para Moscou.
Agora tenho um apartamento nos Patriarshie Prudy.
— Polina, pare, — surgiram notas suplicantes em sua voz.
— Pelo menos vamos nos separar de maneira civilizada, com calma.
Vamos dividir tudo honestamente.
Ela fechou a bolsa e olhou para ele.
— Honestamente?
Está bem.
Você vai receber exatamente o que investiu na nossa relação.
Nada.
— Mas eu sou seu marido!
Por lei tenho direito à metade dos bens adquiridos durante o casamento!
— Herança não entra nos bens comuns do casal, — disse Polina calmamente.
— Eu já consultei um advogado.
Era mentira.
Ela ainda não tinha consultado ninguém.
Mas a expressão do rosto de Roman ficou tão cômica que Polina quase sorriu.
— Você… você já foi aos advogados? — sussurrou ele.
— Claro.
Acha que eu sou idiota?
Raisa Nikolaevna invadiu o quarto.
— Agora mostrou quem você é! — apontou o dedo para Polina.
— Uma ingrata miserável!
Durante cinco anos meu filho se matou de trabalhar por você, e agora você o abandona!
— Que miserável, mãe, — disse Roman, cansado.
— Não precisa.
— Como não precisa?
Ela vai embora agora, vai arranjar algum ricaço, e você vai ficar sem nada!
Polina vestiu a jaqueta e jogou a bolsa no ombro.
— Adeus.
Ela saiu do apartamento sem olhar para trás.
Atrás dela ficaram os gritos da sogra e o silêncio perdido do marido.
O patamar da escada lhe pareceu extraordinariamente claro e espaçoso.
Lá fora caía uma chuva fina.
Polina pegou um táxi e deu o endereço de um hotel no centro.
O motorista ficou calado durante todo o trajeto, e ela lhe foi grata por isso.
No quarto, desfez a bolsa, tomou banho e se deitou na cama larga e limpa.
O telefone explodia em mensagens: Roman escrevia uma atrás da outra, pedindo que ela voltasse, prometendo que tudo mudaria, que mandaria a mãe embora, que passariam a viver separados.
Polina desligou as notificações e olhou pela janela.
Em algum lugar naquela Moscou noturna estava o apartamento nos Patriarshie Prudy.
A villa na Côte d’Azur.
Uma nova vida com a qual ela não tinha sonhado, mas que tinha recebido.
E, pela primeira vez em muitos anos, sentiu-se livre.
Três meses depois, Polina estava na varanda da villa, olhando o mar turquesa.
A Côte d’Azur a recebera com sol e o perfume das mimosas em flor.
A casa revelou-se ainda mais bonita do que nas fotografias: paredes brancas, janelas altas, um jardim com laranjeiras.
O telefone vibrou.
Uma mensagem do advogado: “O divórcio foi formalizado.
Roman não recebeu nada.
Raisa Nikolaevna tentou entrar com ação judicial, mas seu pedido foi rejeitado.”
Polina sorriu de lado.
A sogra realmente tentara provar que tinha direito a uma parte da herança — dizia que ajudara a nora, que contribuíra para a família.
Ridículo.
Chegou outra mensagem, da Jênia, colega de trabalho: “Vi o Roman ontem.
Anda sombrio, emagreceu.
Dizem que a mãe agora não larga do pé dele e exige que encontre uma noiva rica.”
Polina guardou o telefone.
A vida deles já não lhe dizia respeito.
— O café está pronto, — Konstantin saiu para a varanda com duas xícaras.
Eles se reencontraram um mês depois daquela conversa na cafeteria.
Por acaso, no museu, numa exposição.
Depois vieram os jantares, as conversas, as viagens.
Ele não teve pressa, não pressionou, apenas ficou ao lado dela.
— Obrigada.
— Em que está pensando?
— Em como às vezes tudo se organiza de modo estranho, — Polina pegou a xícara.
— Até pouco tempo atrás eu lavava a louça dos outros e ouvia insultos.
E agora estou aqui.
— Você mereceu esta vida, — Konstantin a envolveu pelos ombros com um braço.
Em algum lugar mais abaixo, ao pé da colina, ouvia-se o ruído das ondas.
As gaivotas gritavam sobre a água.
O ar era morno e salgado.
— Sabe o que é mais importante? — Polina se apoiou nele.
— Não o dinheiro, não a villa, não as contas bancárias.
Mas o fato de que finalmente entendi uma coisa: não se pode ficar onde não somos valorizados.
Não se pode sacrificar a si mesma por quem precisa apenas das suas possibilidades e não de você como pessoa.
— A tia Liza era uma mulher sábia.
— Sim.
Ela me deu não apenas uma herança.
Ela me deu liberdade.
Eles ficaram na varanda olhando o mar.
Em algum lugar distante, em Moscou, Roman e a mãe continuavam vivendo a própria vida — procurando vantagens, contando o dinheiro dos outros, fazendo planos.
Mas aquela já não era mais a história dela.
Polina tomou um gole de café e sorriu.
Diante dela se abriam tantas possibilidades.
As viagens que planejava.
A fundação beneficente que queria criar em memória da tia Liza.
Uma nova relação construída sobre respeito e amor, e não sobre interesse.
A vida estava apenas começando.
E, desta vez, a verdadeira.







