«Leve sua esposa a uma curandeira, senão vai acabar sozinho!» gritou a andarilha.

Duas semanas depois, ele viu a esposa rastejando pela lama.

Naquela manhã, Igor quase arrebentou a porta do gabinete do chefe do departamento.

Tudo estava no limite, a paciência tinha acabado.

— Vão dar alta? Para onde?! — gritava ele, apertando na mão um papel amassado.

— Ela está pior a cada dia!

Ela está definhando!

O médico, um homem corpulento de rosto vermelho, tirou os óculos com cansaço e esfregou a ponte do nariz.

Ele não olhava para Igor.

Olhava pela janela, onde caía uma chuva triste e monótona.

— Igor Petrovitch, não grite.

Fizemos tudo.

Os exames estão limpos, todos os testes foram feitos — poderia até ir para o espaço amanhã.

Mas o organismo… é como se tivessem desligado a corrente.

Como um mecanismo que simplesmente parou de funcionar.

Não somos onipotentes.

Leve Tatiana para casa.

Deixe que ela parta entre as paredes do lar, não em um quarto de hospital.

Igor saiu para o corredor.

As pernas não obedeciam, como se ele tivesse passado meio dia arando um campo.

Tânia tem quarenta e dois anos.

Só quarenta e dois.

Ainda no verão eles colavam papel de parede no quarto da filha e discutiam sobre a cor das cortinas, e agora ela estava deitada, olhando para o teto, sem nem perguntar onde estava a filha deles.

Ele precisava se aquecer.

Não queria bebida forte, não — só um café quente para voltar a si.

Foi até a lanchonete do outro lado da rua.

O cheiro de óleo e de roupas molhadas bateu em seu nariz.

Igor pediu um espresso duplo e algum sanduíche embalado em plástico.

Não queria comer, mas precisava colocar pelo menos alguma coisa para dentro.

Sentou-se perto da janela, rasgando mecanicamente a embalagem.

— Não consegue engolir um pedaço? — soou uma voz junto ao seu ouvido.

Igor se assustou.

À sua frente, sem convite, sentara-se uma mulher.

Não era uma cigana de cinema, mas uma simples andarilha: com uma jaqueta de tamanho errado e olhos escuros e penetrantes.

— Vai embora daqui, mãe, — disse Igor com voz abafada.

— Não estou para isso agora.

— E eu não estou pedindo, — ela assentiu para o sanduíche intocado dele.

— Você não vai comer mesmo.

Eu preciso mais.

Igor empurrou silenciosamente o prato para ela.

A mulher engoliu depressa metade do sanduíche.

Depois limpou a boca e de repente o encarou com um olhar pesado.

— Sua esposa não está doente, — resmungou ela.

— Ela apenas esqueceu por que precisa estar aqui.

Você a cercou de cuidados como se a mantivesse em cativeiro, dava tudo a ela, mas não via o principal.

Igor cerrou os punhos.

Teve vontade de pôr aquela mulher insolente para fora.

— O que você está dizendo?

Eu a adorava!

— E adorou até demais. — Ela se levantou, juntando as migalhas da mesa.

— Escute aqui, homem.

Os médicos não vão ajudar você.

Leve sua esposa a uma curandeira, senão vai acabar sozinho!

— Que curandeira?

Você está delirando?

— Em Zalessie.

Lá mora a velha Agáfia.

Se chegar antes da primeira neve, ela a tira dessa.

Se não, prepare-se para o pior.

Igor quis responder com grosseria, mas a andarilha já tinha saído correndo para a rua.

“Loucura”, pensou ele.

“Algum tipo de insanidade.

Sou um homem adulto, e estou ouvindo uma mendiga.”

Mas na manhã seguinte, quando entrou no quarto, Tânia nem virou a cabeça.

A mão dela estava fria como gelo.

— As forças estão indo embora, — disse a enfermeira, ajeitando o soro.

— O senhor devia chamar um padre, talvez…

E então alguma coisa estalou dentro de Igor.

— Pai, você enlouqueceu! — Dacha, sua filha de quinze anos, gritava tão alto que os vidros do carro tremiam.

— A mamãe precisa de ajuda, e você está levando ela para o meio do nada, para umas velhas!

Eu vou chamar a polícia!

— Larga o telefone! — rugiu Igor, sem tirar os olhos da estrada esburacada.

— Ou tentamos tudo, ou… ou simplesmente esperamos ela partir.

É isso que você quer?

Esperar?

Dacha se calou.

Uma lágrima escorria por sua bochecha.

Atrás, envolta em um cobertor de plumas, estava Tânia.

O carro sacudia nos buracos, mas ela nem fazia careta.

Zalessie revelou-se um par de casas no meio da floresta.

O sítio de Agáfia ficava isolado.

Uma cabana escurecida, uma cerca e silêncio.

Uma velha saiu para a varanda.

Forte, vestindo uma jaqueta acolchoada.

O rosto era severo.

— O que vieram fazer aqui? — perguntou ela.

— Disseram que a senhora pode ajudar.

Minha esposa está se apagando.

Agáfia se aproximou do carro e olhou pela janela.

Ficou muito tempo olhando para Tânia.

— Vazio por dentro.

Ela mesma se queimou por dentro, — cortou ela.

— Vai recebê-la? — Igor deu um passo na direção dela, cheio de esperança.

— Eu pago.

Quanto a senhora disser.

— Com esses papéis seus você acende o fogão, — respondeu a curandeira.

— Leve-a para dentro.

E vocês, vão embora.

— Como assim, vão embora? — indignou-se Dacha.

— Eu não vou deixar minha mãe!

— E ninguém perguntou nada a você.

Ela precisa de silêncio.

A piedade de vocês só a puxa mais para o fundo.

Volte em duas semanas, homem.

— Eu não posso deixá-la! — Igor agarrou a porta do carro.

— Então leve de volta para a cidade e deixe que tudo termine lá.

Comigo a conversa é curta.

Igor olhou para a esposa.

Para o rosto pálido dela.

Não havia mais nada a perder.

Aquelas duas semanas foram um verdadeiro tormento para Igor.

Mandou Dacha para a casa da sogra, e ele mesmo ficou por perto, na casa de um guarda-florestal.

Não encontrava paz.

Andava em círculos, sem saber o que fazer consigo mesmo.

De três em três dias, ele se aproximava às escondidas do sítio.

Observava de longe.

Via a velha levar Tânia para a varanda, enrolá-la em um casaco de pele.

Tânia ficava sentada imóvel, olhando para as árvores durante horas.

Depois ele viu o cachorro.

Um enorme cão peludo tinha aparecido por ali.

Deitava-se aos pés de Tânia.

E Tânia… Igor não acreditou nos próprios olhos… Tânia abaixava a mão e acariciava seu pelo espesso.

— O nome dele é Baikal, — disse o guarda-florestal naquela noite.

— É um cão da serraria, abandonaram ele.

E ele acabou se apegando à sua esposa.

No décimo dia veio a geada.

Igor acordou com uma forte angústia.

Não esperou o prazo.

Pulou no carro e correu para o sítio.

Ao se aproximar, viu o portão escancarado.

A porta da cabana estava aberta.

— Agáfia!

Tânia!

Silêncio.

Igor saltou para o quintal.

As pegadas na neve levavam até o barranco.

Como se alguém tivesse se arrastado pelo chão.

Tudo esfriou por dentro.

Ele correu seguindo os rastros.

— Tânia!

Chegou à beira do barranco.

Lá embaixo, o cão, Baikal, tinha caído em um buraco sob as raízes.

Estava preso por uma árvore.

A água batia em seu focinho como uma corrente gelada, ele arquejava, suas forças estavam acabando.

E pela encosta coberta de lama, Tânia rastejava.

Com apenas uma camisola, com os joelhos esfolados.

Ela não conseguia se levantar — as pernas ainda estavam fracas.

Agarrava-se à grama com as mãos, puxava-se para frente, rosnava de esforço.

— Aguenta… — a voz dela, rouca e quebrada, chegou até Igor.

— Não ouse… ouviu?

Não ouse ir embora!

Igor quis se lançar lá para baixo, mas parou.

Tinha medo de atrapalhar.

Tânia rastejou até a água.

Faltava um metro até a árvore.

Firmou os cotovelos na argila.

— Vamos! — gritou com toda a força.

— Meu Deus, ajuda-me!

Ela se lançou para frente, na água gelada.

Agarrou um galho, enfiou-o sob o tronco.

De onde vinha aquela força?

Era fúria.

Fúria de verdade.

Apoiou-se com todo o peso.

A árvore se levantou um pouco.

Baikal se soltou num impulso, pulou para a margem e imediatamente começou a lamber o rosto de Tânia.

— Vivo… — sussurrava ela.

— Vivo, seu bobo…

Igor desceu escorregando, pegou a esposa nos braços.

Ela estava gelada, molhada, mas seus olhos…

Neles já não havia vazio.

Havia vida.

— Igor? — ela olhou para ele.

— O que você está fazendo aqui?

Baikal vai congelar.

Temos que levá-lo para dentro.

No alto do barranco estava Agáfia.

— Então, — disse ela.

— Foi o cão que a despertou.

A dor de outro curou a dela.

Leve-a.

Agora ela vai viver.

— Pai, me passa o pão!

Dacha ria, contando sobre a escola.

Na cozinha havia cheiro de borsch e de pão fresco.

Aquele mesmo aroma de casa que não se confunde com nenhum outro.

Tânia estava em pé junto ao fogão.

Ainda mancava um pouco, mas se movia com segurança.

Debaixo da mesa, Baikal se mexeu.

O enorme cão ruivo apoiou a cabeça na pantufa da dona.

— Já vai, guloso, — sorriu Tânia, jogando-lhe um pedaço de carne.

— Sabe, Igor…

Ela se virou para o marido.

— Naquele momento, no barranco, eu entendi de repente: se ele se for, então eu também não tenho mais por quê…

E uma raiva tão grande tomou conta de mim!

Pensei: vocês não vão nos levar.

Nem ele, nem eu.

— Uma boa raiva, — assentiu Igor.

Ele se lembrou daquele dia no café.

Da andarilha.

E se naquele dia ele tivesse economizado no dinheiro da comida?

E se tivesse ouvido a lógica?

Igor pegou o telefone.

Encontrou aquele dia.

Só havia um débito: «Café “Minutka”, 340 rublos».

Os 340 rublos mais importantes da vida dele.

— O que foi, ficou parado por quê? — Tânia tocou seu ombro.

— Nada.

Estou pensando que devíamos ir a Zalessie.

Seria bom consertar o telhado da Agáfia.

Está vazando, eu notei.

— Vamos, — disse simplesmente a esposa.

— E levaremos o Baikal.

Ele sente falta dela.

Lá fora, a neve caía.

A vida continuava.

Difícil, diversa, mas real.

***Ela telefonou para a sogra na frente do marido.

Ligou o viva-voz.

«Serguei está aí com a senhora?»

A sogra se surpreendeu: «Não.

Faz umas duas semanas que não o vejo.

Que história é essa de todo fim de semana, Irochka?»

O marido estava sentado olhando para a mesa.

Havia vinte anos ele ia “visitar a mãe”.