O marido chamou a esposa de estéril diante dos convidados, e ela tirou do armário o laudo dele.

Eu estava sentada no sofá e observava Oksana tirar as taças de cristal do armário.

O cristal tilintava.

Fino, agudo.

Como um som antes da tempestade.

Oksana se virou para mim e sorriu.

Maquiagem perfeita.

Dentes branquíssimos.

Perfume caro — eu sabia exatamente qual era.

Eu mesma tinha dado a ela de presente no aniversário passado.

Dez anos de amizade.

Só que meu marido dorme com a minha amiga.

Eu os vi ontem.

Shopping, estacionamento subterrâneo.

O carro de Pasha na esquina.

Ele beijava o pescoço dela.

Ela ria e jogava a cabeça para trás.

Eu estava parada perto do elevador com sacolas nas mãos e não conseguia sair do lugar.

— Verun, por que você está aí sentada?

— Oksana me estendeu uma taça.

— Dez anos de casamento, isso é bonito!

Minha garganta apertou.

— Sim, — eu disse.

— Bonito.

Levantei-me e fui para a cozinha.

Precisava fazer chá.

Ocupar as mãos.

Fazer qualquer coisa, contanto que não olhasse nos olhos dela.

Sobre a mesa havia uma pasta azul com a inscrição “Consultório ginecológico”.

Nove anos de idas ao médico.

Nove anos de perguntas: “Então, quando vai acontecer?”

A primeira vez que fui ao médico foi um ano depois do casamento.

Minha sogra, Valentina Petrovna, insinuava isso com cada vez mais insistência.

Pasha ficava em silêncio.

Eu decidi me examinar.

Exames.

Ultrassom.

Hormônios.

Exames de novo.

— Está tudo normal com você, — diziam os médicos.

— Espere.

Eu esperei.

Depois de dois anos, Valentina Petrovna já não insinuava mais.

Ela dizia diretamente:

— Para que ele se casou com você?

— Para quê?

— Nem ajuda em casa, nem dá netos.

Pasha se calava.

Eu culpava a mim mesma.

Mais três anos depois, comecei a evitar parques infantis.

Desviava o olhar dos carrinhos nas lojas.

Saía das redes sociais quando via fotos dos bebês dos outros.

Eu me sentia defeituosa.

Na primavera, Pasha finalmente concordou em fazer exames.

No trabalho começaram as demissões.

Nova direção.

Estresse.

Ele estava irritado com todo mundo.

— Está bem, — disse ele.

— Eu vou, só me deixa em paz.

Duas semanas de espera.

Eu estava sentada diante da médica — uma mulher cansada de uns cinquenta anos, com o esmalte rachado nas unhas.

Ela lia o papel e balançava a cabeça.

— Azoospermia, — disse.

— Seu marido não poderá ter filhos.

Nunca.

Pensem em adoção.

Cheguei em casa tarde.

Pasha estava sentado na cozinha com uma taça de conhaque de cinco mil.

— E então?

— perguntou.

Olhei para o rosto dele.

Vermelho.

Raivoso.

Cansado.

— Está tudo bem, — eu disse.

— Comigo está tudo normal.

Ele assentiu e serviu mais um pouco.

Escondi o laudo no armário.

Na prateleira mais distante.

Embaixo dos suéteres velhos.

Para que ele precisava saber?

Ele já estava mal o suficiente.

Passaram-se seis meses.

— Polina!

— Oksana apareceu na cozinha.

— Onde estão os guardanapos?

Eu mostrei.

Ela se abaixou para pegá-los.

A saia se esticou sobre os quadris.

Imaginei meu marido acariciando-a.

Senti enjoo.

— Por que você está tão pálida?

— perguntou Oksana.

— Estou bem.

Só estou com dor de cabeça.

— Toma um comprimido.

Os convidados já vão chegar.

Os convidados chegaram às sete.

Colegas de Pasha.

Meus parceiros de negócios.

Vizinhos.

Minha irmã Tanya ligou no último momento:

— Verka, meu marido está com suspeita de apendicite.

Não vamos.

Mas Valentina Petrovna veio.

Seca como um pau.

Lábios finos.

Uma insatisfação eterna no rosto.

— Por que tem tão pouca carne?

— perguntou assim que entrou.

Eu não respondi.

Começaram os parabéns.

Os brindes.

As piadas banais sobre dez anos de vida em comum.

Eu sorria no automático.

Tudo passava por mim como um borrão.

Pasha estava perto da janela com um copo de uísque.

Terno novo.

Caro.

Eu comprei para a ocasião.

Ele nem agradeceu.

Oksana estava sentada no sofá, rindo de alguma piada.

Eu pensava: “Há quanto tempo?”

“Um mês?”

“Seis meses?”

Pasha se aproximou de mim.

Abraçou-me pelos ombros.

Cheirava a uísque e à colônia dele.

Um cheiro conhecido.

De casa.

— Então, querida, — disse ele em voz alta.

— Dez anos.

Um arrepio frio desceu pela minha espinha.

Ele começou a falar.

Sobre paciência.

Sobre amor.

Sobre as dificuldades que superamos.

Os convidados assentiam.

Eu olhava para a mão dele no meu ombro.

Essa mão tocava nela.

Ontem.

Anteontem.

Talvez até hoje de manhã.

— Bem, filhos nós não temos, — disse de repente.

— E eu queria tanto.

Na sala, todas as conversas pararam.

— Família não é família sem filhos, — acrescentou.

O rosto dele se cobriu de manchas escuras.

Por causa da bebida.

E por outra coisa também.

Dor.

Ou raiva.

Valentina Petrovna assentiu.

Apertou ainda mais os lábios:

— Verdade.

Pasha tirou a mão do meu ombro.

Esse gesto foi como um choque elétrico.

— Você é estéril, Polina, — disse ele.

— Não consegue nem dar à luz um filho, nem me fazer feliz.

Silêncio.

A vergonha se espalhou pela sala como uma fumaça espessa e pegajosa.

Eu via os rostos dos convidados.

Surpresos.

Constrangidos.

Curiosos.

Oksana olhava para o prato.

Eu queria desaparecer.

Levantei-me.

Os saltos batiam no parquet.

Eu não olhei para trás.

Passei pelo quarto.

Abri o armário.

Tirei a pasta de debaixo dos suéteres.

O plástico estalava nas minhas mãos.

Voltei para a sala.

Coloquei dois papéis sobre a mesa.

O primeiro laudo era antigo, com as bordas amareladas.

“Nenhuma patologia detectada”.

O segundo era de seis meses atrás, com o cheiro forte de papel hospitalar.

“Azoospermia.

Prognóstico desfavorável”.

— Aqui, — eu disse baixinho.

— Leia.

O rosto de Pasha ficou pálido.

Ele agarrou os laudos.

Os dedos tremiam.

Os lábios corriam pelas linhas.

— Você… sabia?

— perguntou com a voz rouca.

— Há seis meses, — respondi.

— Não te contei — para quê?

Naquela época você já estava com problemas no trabalho.

— Mas…

— Então explique a todos, — olhei para os convidados, — qual de nós é estéril.

O silêncio caiu sobre a sala como um cão raivoso.

Oksana levantou-se num salto:

— Polina, talvez não precise… na frente de todo mundo…

Encontrei os olhos dela.

— Senta, Oksana.

Ou vai embora.

Aqui cada um está por si.

Ela se sentou.

Valentina Petrovna pegou o laudo.

Leu.

O rosto dela endureceu como pedra.

Olhou para o filho.

Depois para mim.

Não disse nada.

Pasha afundou na cadeira:

— Eu não sabia, Polina, eu realmente não sabia…

— Sabia, — eu disse.

— Você viu que a pasta estava no parapeito da janela.

Só não quis olhar.

Peguei a bolsa.

— A festa acabou.

Podem continuar comendo sem mim.

Convidados, me desculpem.

Mas não fui eu que comecei essa conversa.

E fui embora.

Tanya abriu a porta, olhou para o meu rosto e simplesmente me abraçou.

Não perguntou nada.

Aquele abraço foi como uma boia salva-vidas.

De manhã eu estava sentada na cozinha, tomando café, olhando pela janela.

No pátio as crianças brincavam.

Gritavam.

Riam.

Corriam atrás da bola.

— E agora?

— perguntou Tanya.

Eu dei de ombros:

— Não sei.

O telefone não parava de tocar.

Pasha.

Oksana.

Valentina Petrovna.

Eu não atendia.

Pensava em dez anos investidos num homem que me chamou de estéril.

Que dormia com a minha amiga.

Doía.

Machucava.

Mas também havia um alívio estranho.

Como se tivessem tirado uma mochila pesada das minhas costas.

— Vai se divorciar?

— perguntou Tanya.

— Provavelmente.

Não sei.

Ainda não pensei nisso.

Uma semana depois, voltei para casa.

Pasha me recebeu no corredor.

Mais velho.

Abatido.

Tentou me abraçar.

Eu me afastei.

— Polina, me perdoa.

Eu estava bêbado.

Não pensei no que estava dizendo.

— Bêbado diz o que o sóbrio pensa.

Ele se calou.

Tentou dizer algo sobre Oksana.

Eu o interrompi:

— Não precisa.

Não quero ouvir.

Nem sobre você, nem sobre ela.

Entrei no quarto.

Comecei a arrumar minhas coisas na bolsa.

Pasha ficou parado na porta:

— Você vai embora?

— Ainda não sei.

Mas não posso viver com você no mesmo apartamento.

— Vou consertar tudo.

Eu juro.

Não respondi.

Porque eu sabia: ele não consertaria nada.

Não dá para consertar aquilo que já foi quebrado.

Confiança.

Respeito.

Amor.

Tudo isso evaporou no segundo em que ele me chamou de estéril.

Passaram-se dois meses.

Estou morando num apartamento alugado.

Pequeno.

Claro.

Com vista para um parquinho.

De manhã tomo café na varanda e observo a cidade acordar.

Os negócios vão melhor do que antes.

Apareceram tempo.

Forças.

Vontade.

Pasha liga.

Escreve.

Pede para me encontrar.

Eu não respondo.

Oksana também escreveu uma vez.

Uma mensagem longa pedindo desculpas.

Eu li e apaguei.

Algumas coisas não se perdoam.

Ontem eu caminhava pelo parque.

Frio.

Vento.

As folhas rodopiavam.

Na minha direção vinha uma mulher com um carrinho de bebê.

Jovem.

Cansada.

Com uma mancha na jaqueta.

Parou para arrumar a manta.

Eu vi o rosto do bebê.

Vermelho.

Enrugado.

Dormindo.

Algo me apertou no peito.

Mas eu continuei andando.

“E se?”

“E se ele não fosse doente?”

“E se houvesse filhos?”

Eu paro.

Porque a questão não é filhos.

A questão é como ele me tratou.

Me traiu.

Me humilhou.

Mentiu.

Filhos não teriam consertado isso.

Hoje de manhã chegou uma carta.

Pasha entrou com o pedido de divórcio.

Ele mesmo.

Eu li.

Deixei os papéis de lado.

Ri.

Ele se adiantou.

Pois bem.

Que seja.

Agora já tanto faz.

Estou sentada na varanda.

Tomo café.

Olho para a cidade.

Dezembro.

A neve acabou de cair.

Tudo está branco.

Limpo.

O telefone toca.

Número desconhecido.

— Polina Viktorovna?

— Aqui é Alexei.

Nós nos conhecemos na conferência de negócios no mês passado.

Eu me lembro.

Alto.

Olhos inteligentes.

Falamos sobre franquias.

Sobre expansão.

— Queria convidá-la para um café.

Para discutir um projeto.

E também… simplesmente para nos conhecermos melhor.

Fico em silêncio.

Olho para a neve do lado de fora da janela.

Penso: “Por que não?”

— Está bem, — eu digo.

— Amanhã, às duas.

Ele concorda com entusiasmo.

Diz o lugar.

Nos despedimos.

Desligo.

O que foi isso?

Aceitar um encontro?

Uma reunião de trabalho?

Ou algo mais?

Não sei.

Mas sei de outra coisa.

Eu não sou mais estéril.

Eu sou livre.

E isso é só o começo.