Mas os amigos ficaram em silêncio quando a esposa trouxe um petisco especial.
No hall de entrada, o ar estava carregado com cheiro de peixe seco, coisas abafadas e lúpulo.

Yúlia fechou com cuidado a porta de entrada atrás de si, tentando não fazer as chaves tilintarem.
A chuva sob a qual ela ficara no ponto de ônibus por uns quarenta minutos havia encharcado completamente o trench coat fino, e agora gotas frias escorriam por suas pernas.
Da sala vinha uma gargalhada masculina, sonora e arrastada.
— …e eu falei na cara dela: se não está gostando, faça as malas! — discursava o barítono conhecido e levemente rouco de Kóstia.
— E para onde ela vai?
O apartamento é meu, o carro é meu.
Vai chorar no banheiro e depois voltar para o fogão.
Alguém dos presentes deu uma risadinha incerta.
Ouviu-se o tilintar de vidro.
Yúlia tirou as botas molhadas.
O tecido do trench coat grudava de forma desagradável em seus ombros.
Ela atravessou o corredor, tentando não pisar nas manchas pegajosas do laminado, e parou no vão da porta.
À mesa nova de madeira clara, que a própria Yúlia havia escolhido no catálogo, estavam sentados três homens.
Kóstia estava largado na cabeceira, de pernas cruzadas.
Na frente dele, Paixa — colega da oficina — estava curvado, e havia ainda outro sujeito desconhecido com um moletom cinza esticado.
Sobre a mesa se amontoavam garrafas vazias, toalhas de papel amassadas e pedaços de escamas de peixe.
— Ora, ora, quem apareceu, — Kóstia a percebeu com o canto do olho e virou preguiçosamente a cabeça.
Ele nem tentou se endireitar na cadeira.
O rosto estava vermelho, o cabelo brilhando.
— O que você está parada aí?
Vai para a cozinha e arranja um petisco para os caras.
O queijo acabou.
Paixa tossiu sem jeito e fixou o olhar em seu copo vazio, fingindo estudar atentamente os desenhos nele.
Yúlia olhou para o marido.
Não havia tremor nos joelhos, nem lágrimas.
Apenas um peso insuportável.
Nos últimos oito meses, tudo havia despencado para algum tipo de abismo.
Kóstia perdera o emprego no centro, vivia de bicos e ficava cada dia mais insolente.
Parara de notar os horários dela, o cansaço após os turnos na clínica onde trabalhava como administradora.
Começara a beber com frequência bebidas fortes.
No início, só nos fins de semana, depois — conforme o humor.
E o humor dele azedava o tempo todo.
— Eu não vou preparar nada, — disse Yúlia, em tom firme.
— O quê? — Kóstia estreitou os olhos, como se não tivesse ouvido direito.
— Estou fazendo as malas.
Vou ficar um tempo na casa da Rita.
E na segunda-feira entro com os papéis para pôr fim ao nosso relacionamento, — ela se virou e foi para o quarto.
As travas da velha mala estalaram.
Yúlia abriu a porta do armário e puxou do cabide algumas blusas.
No corredor, ouviu-se um passo pesado.
Kóstia invadiu o quarto, quase arrancando a ombreira da porta com o ombro.
— Que divórcio que nada, amanhã é o aniversário da minha mãe! — rugiu o marido, bloqueando a saída.
— Você enlouqueceu?
Amanhã vai aparecer no restaurante a família inteira!
Ele respirava pesadamente.
O cheiro das bebedeiras do dia anterior saía dele tão forte que Yúlia precisou dar um passo para trás, em direção à janela.
— Nadejda Ilínitchna é uma mulher maravilhosa.
Pode levar a ela minhas desculpas, — Yúlia jogou a nécessaire dentro da mala.
— Diga aos convidados que eu passei mal.
Ou que fugi.
Tanto faz para mim.
Kóstia deu um passo à frente, e sua bota pesada pisou bem na borda da mala aberta.
— Você não vai a lugar nenhum, — ele abaixou a voz até um sussurro ameaçador.
— Agora você vai sair, preparar comida para nós e sorrir.
Eu não vou passar vergonha diante dos meus amigos.
Entendeu?
Yúlia olhou para o pescoço tenso dele, para as mãos pesadas.
Discutir com uma pessoa bêbada dentro de um quarto fechado era uma péssima ideia.
Na memória surgiu a conversa da manhã com a amiga Rita: «Yulka, você vai acabar se dando mal com ele.
Ele já perdeu completamente a consciência.
Não vá bater de frente, aja com mais esperteza».
— Está bem, — Yúlia afrouxou devagar os dedos, soltando o suéter.
— Tire o pé.
Eu faço uma salada.
Mas amanhã ao restaurante você vai sozinho.
Essa é a minha condição.
Kóstia sorriu com ar de superioridade.
Na cabeça dele, acabara de vencer.
Colocara a mulher rebelde no lugar dela.
— Assim que se faz, — ele bateu com a palma da mão no batente da porta.
— Estamos esperando uns dez minutos.
E não economize no molho.
Ele voltou para a sala.
Yúlia fechou a porta do quarto atrás dele, ficou parada por alguns segundos, ouvindo os pratos voltarem a tilintar do outro lado, e em seguida foi para a cozinha.
A geladeira estava meio vazia.
Na prateleira de baixo havia três tomates grandes, um pepino e um balde plástico de creme azedo — um presente da sogra.
Yúlia pegou os legumes e os enxaguou na torneira.
A faca batia surdamente na tábua de madeira.
Aquele ritmo a acalmava.
Ela empurrou os pedaços de tomate cortados para uma tigela funda de vidro.
E então seu olhar caiu na prateleira de cima do armário, onde ficavam os remédios.
Um mês antes, Kóstia havia recebido indicação para exames — ele se queixava de peso no estômago.
O médico lhe receitara uma solução especial para limpeza profunda.
Era um produto muito forte, que eliminava tudo o que estivesse em excesso.
Kóstia bebera um pouco na ocasião, passara metade do dia isolado no banheiro, e depois declarara que não faria exame nenhum.
O frasco continuava ali, no canto.
Yúlia pegou aquele tubo pesado.
Leu as instruções.
«O efeito começa em 15–20 minutos».
O gosto do produto era levemente salgado, mas em comida espessa ele praticamente não era percebido.
Ela desenroscou a tampa.
As mãos se moviam com precisão.
Yúlia despejou generosamente no balde de creme azedo uma boa porção.
Misturou tudo cuidadosamente com uma colher.
A cor e o cheiro não mudaram.
Depois despejou aquele molho nos legumes, salpicou sal e pimenta.
A salada ficou com ótimo aspecto.
Fresca, apetitosa.
Pegando a tigela, Yúlia voltou para a sala.
— Bom apetite, — ela colocou o prato bem diante do marido.
Paixa se animou e estendeu a mão para o garfo:
— Opa, salada.
Obrigado.
— Não, Paixa, desculpe, — Yúlia empurrou a tigela com suavidade, mas com firmeza, para Kóstia.
— Essa é só para o meu marido.
Uma receita especial, para ele voltar a si.
Ele se cansou demais hoje.
O homem de moletom soltou um resmungo, e Kóstia abriu um sorriso satisfeito.
Ele gostava que a esposa lhe dispensasse atenção na frente dos amigos.
Espetou um enorme pedaço de tomate, bem coberto de creme azedo, e o mandou para a boca.
— Está bom, — deu seu veredito, espetando um pedaço de pepino.
— Só falta um pouco de sal.
Yúlia estava ali, com o ombro encostado na parede, observando em silêncio enquanto ele comia.
Ela não tinha pressa nenhuma.
Kóstia comeu metade da tigela e bebeu por cima o resto do que havia no copo.
Soluçou.
— Pronto, agora você pode ir terminar de arrumar as suas coisas, — ele fez um gesto de desdém, recostando-se no encosto da cadeira.
— Só deixe as chaves em cima da cômoda.
— Vou deixar, — concordou Yúlia, com calma.
— E de quebra vou te deixar as instruções daquele produto que você acabou de comer junto com o creme azedo.
Kóstia franziu a testa.
— Do que é que você está falando?
— Lembra das gotas que o médico te receitou? — Yúlia inclinou levemente a cabeça para o lado.
— Eu coloquei na salada.
Uma boa dose.
Considerando que você misturou isso com bebida forte e creme azedo gorduroso… acho que daqui uns dez minutos te esperam sensações inesquecíveis.
O cômodo ficou em silêncio absoluto.
Ouvia-se apenas o ruído dos pneus dos carros do lado de fora.
Paixa pousou lentamente o garfo sobre a mesa.
O rosto de Kóstia começou a perder a cor vermelha e empalidecer.
Ele se lembrava perfeitamente de como aquele produto havia agido da outra vez.
O estômago já começava a mandar os primeiros sinais.
No silêncio da sala, ouviu-se um som bastante revelador vindo de suas entranhas.
— Você… enlouqueceu de vez? — rouquejou Kóstia, agarrando a borda da mesa.
O suor lhe brotou na testa.
— Eu estou perfeitamente lúcida.
E quero continuar assim, — Yúlia se afastou da parede.
— Amanhã, no aniversário, não deixe de dizer à sua mãe que, no restaurante, é melhor escolher com cuidado as comidas.
Nunca se sabe.
Kóstia tentou se levantar bruscamente, mas foi tomado por uma cólica.
Curvou-se, batendo com o cotovelo nas garrafas vazias.
Elas rolaram pelo chão com estrépito.
— Paha… — soltou Kóstia, sem conseguir se endireitar.
— Escuta, chama um carro…
Eu vou para o quarto das reflexões.
Rápido!
Ele saiu desajeitadamente de trás da mesa e, arrastando os pés de meias, disparou pelo corredor.
Uma porta bateu, a tranca estalou.
Yúlia foi com calma para o quarto.
Fechou a mala, tirou do cabide um casaco seco.
Quando ela rolou as coisas para o hall de entrada, os amigos do marido já calçavam os sapatos às pressas, claramente sem vontade de assistir ao final daquela história.
Lá fora, a chuva tinha parado.
Cheirava a frescor e a asfalto molhado.
Yúlia finalmente sentiu como era fácil respirar, ajeitou a alça da mala na mão e seguiu em direção à avenida.
O telefone no bolso vibrou com a primeira mensagem da sogra sobre a comemoração do dia seguinte, mas Yúlia simplesmente a ignorou com um gesto.
O que a esperava era uma noite com a amiga, chá quente e uma vida completamente diferente, normal.







