— Cheguei me arrastando de um turno de doze horas, minhas pernas estão caindo aos pedaços, e você exige que eu vá agora para o fogão fritar almôndegas para você.

— Olha, Olya, frita rapidinho umas almôndegas, porque essa tua sopa… enfim, eu não quero! E eu volto para o computador! — disse Serguei, recebendo a esposa na porta, e logo correu de novo para o computador.

— Cheguei me arrastando de um turno de doze horas, minhas pernas estão caindo aos pedaços, e você exige que eu vá agora para o fogão fritar almôndegas para você, porque a sopa de ontem você não quer comer?

E você, um grandalhão saudável, ficou o dia inteiro estirado no sofá e nem sequer lavou a sua xícara!

Eu não sou sua criada nem sua escrava para ficar te servindo ao primeiro estalar de dedos! — protestava Olga, tirando do ombro a bolsa pesada, que caiu com um baque surdo no linóleo empoeirado do corredor.

A bolsa escorregou pela parede, deixando à mostra a borda de um uniforme médico azul impregnado com o cheiro do hospital — cloro, álcool e a doença alheia.

Olga estava parada na porta, apoiada com as costas no batente, e sentia o sangue pulsando nas têmporas.

As pernas, inchadas dentro das botas de inverno, pareciam grilhões de ferro fundido, e na lombar, forçada naquele dia ao transferir um paciente corpulento na UTI, pulsava uma dor surda e insistente.

Do fundo do apartamento, mergulhado na penumbra das janelas cobertas por cortinas, não veio uma única palavra de compaixão.

Em vez de uma saudação, ouviram-se apenas os cliques furiosos do mouse e um resmungo indistinto.

O ar no corredor estava abafado, pesado como um velho cobertor de algodão.

Cheirava a roupa suja, a cebola frita impregnada no papel de parede, e àquele azedume específico que existe em tocas masculinas onde raramente se abre a janela.

— Olya, para de resmungar logo na entrada, hein? — arrastou Serguei com preguiça, sem nem virar a cabeça do monitor.

A voz dele soava abafada, porque ele usava um fone em apenas uma orelha.

— Você me lembra uma motosserra.

Mal entrou e já está me serrando.

Eu te disse em bom russo: esse borsch eu não vou comer.

Está ralo, só água e repolho.

Homem precisa de carne, de proteína, para ter energia, não desse silo.

Olga, sem nem tirar os sapatos, deu alguns passos pelo corredor.

A sujeira das solas das botas deixava manchas pretas e úmidas no chão, mas ela não se importava.

Entrou na sala, que o marido chamava orgulhosamente de “escritório”, embora na prática aquilo fosse um chiqueiro.

A única fonte de luz ali era um enorme monitor curvo, lançando reflexos azulados no rosto inchado de Serguei.

Ele estava instalado numa cadeira de computador cujo estofamento há muito perdera a cor e, em alguns pontos, já se gastara até a espuma amarela.

Vestia uma calça de moletom cinza frouxa, com os joelhos deformados, e uma camiseta regata encardida, na barriga da qual havia uma velha mancha alaranjada de ketchup.

Ao redor dele, como uma muralha, amontoavam-se canecas vazias com marcas secas de chá, pacotes amassados de batatas fritas e pratos com restos endurecidos de comida.

— Energia? — repetiu Olga, sentindo que, por dentro, em algum lugar na região do plexo solar, começava a ferver uma raiva escura e espessa.

— Energia para quê, Seryozha?

Para clicar o mouse?

Hoje você ao menos uma vez tirou a bunda da cadeira?

Pelo menos levou o lixo para fora?

— Estou ocupado com algo importante, — retrucou ele, continuando a encarar a tela, onde um tanque desenhado se movia.

— Estou elaborando estratégias, comandando um clã.

Isso, aliás, também é trabalho.

Intelectual.

E, no geral, eu também estou monitorando vagas de emprego em paralelo.

Você acha que eu gosto de ficar em casa?

É só que existe uma crise no país, profissionais bons não são valorizados, e em todo lugar querem que a pessoa trabalhe por migalhas, como um escravo.

— Eu é que trabalho feito condenada, — disse Olga baixinho, olhando para o pescoço gorduroso dele coberto por barba rala.

— Hoje eu fiquei doze horas em pé.

Tirei pessoas das garras da morte.

Nem consegui comer, porque estávamos num caos completo.

E você me fala de crise?

Faz um ano que você está pendurado no meu pescoço, Serguei.

Um ano!

E ainda tem a cara de pau de exigir almôndegas frescas?

Serguei finalmente se dignou a se afastar do jogo.

Apertou pausa, girou com a cadeira, que rangeu lastimosamente sob seu peso, e olhou para a esposa.

No olhar dele não havia culpa nem constrangimento.

Havia apenas a irritação de um senhor incomodado, distraído de uma refeição importante por moscas insistentes.

— Lá vem de novo, — ele revirou os olhos e coçou demonstrativamente a barriga por baixo da regata.

— Jogar na cara um pedaço de pão é tão baixo, Olya.

Eu achei que você fosse melhor do que isso.

Família é apoio, não contabilidade.

Hoje você trabalha, amanhã eu trago milhões.

Mas, por enquanto, você não me apoia, só fica me atormentando.

E, além disso, você é mulher, aconchego é sua obrigação.

Chegou do trabalho — mude a chave, crie ambiente.

E você fica aí parada de botas sujas, cheirando a remédios.

— Eu cheiro a remédios porque sou eu que ganho o dinheiro para essas batatas fritas que você enfia goela abaixo! — a voz de Olga estourou num grito, mas logo caiu para um sussurro rouco.

— E para a internet, e para a luz que você deixa acesa dia e noite.

— Não faça escândalo, — fez uma careta Serguei.

— Melhor seria se você cuidasse da casa com a mesma atenção com que conta dinheiro.

Olha para a televisão — dá para desenhar na poeira com o dedo.

E no banheiro as toalhas já não estão mais frescas.

Hoje fui lavar o rosto — foi nojento me enxugar.

Você largou completamente a casa, Olga.

Diz que trabalha demais…

Todo mundo trabalha, mas as mulheres normais conseguem agradar o marido e ainda lavar o chão.

Ele estendeu a mão para o maço de cigarros em cima do teclado, tirou um, e, sem se levantar, acendeu ali mesmo no quarto, sacudindo a cinza numa lata vazia.

A fumaça azulada subiu imediatamente para o teto, misturando-se ao cheiro de suor.

— Então, vai ter almôndegas ou eu vou pedir delivery no seu cartão? — perguntou em tom prático, soltando uma corrente de fumaça na direção da esposa.

— Em vinte minutos eu tenho uma batalha, uma guerra de clã.

Preciso me reforçar, senão meus reflexos não são os mesmos.

E anda logo, porque eu estou mesmo com fome, desde o almoço não comi nada decente, só sanduíches secos.

Olga olhava para ele e não o reconhecia.

Onde estava o homem com quem ela se casara?

Onde estava aquele que lhe dava flores e prometia carregá-la nos braços?

Diante dela estava sentado um ser degradado ao nível das necessidades mais primitivas: comer, dormir e jogar.

Ele nem entendia o que dizia.

Para ele, ela era apenas uma função, um aparelho doméstico que de repente começara a falhar.

— Agora eu vou para a cozinha, — disse Olga lentamente, sentindo que o cansaço estava sendo substituído por uma determinação fria e calculista.

— Espero muito, Serguei, que pelo menos a pia esteja vazia.

Que pelo menos você tenha lavado aquela montanha de louça que ficou desde a manhã.

— Ah, vai logo, fiscalzinha de araque, — bufou ele, virando-se de novo para a tela e recolocando os fones.

— Vai inspecionar a louça…

Melhor você cuidasse de si mesma, porque está parecendo uma mariposa pálida.

Homem precisa de uma mulher bonita ao lado, não de uma égua exausta.

Frita as almôndegas, está ouvindo?

Com crostinha!

Olga não respondeu.

Virou-se sobre os saltos, deixando no chão rastros sujos de neve derretida, e caminhou em direção à cozinha.

O coração batia em algum lugar na garganta, e as mãos, acostumadas a colocar cateteres e aplicar injeções, fecharam-se involuntariamente em punhos.

Ela sabia o que veria na cozinha.

Sabia disso com a mesma precisão com que conhecia os diagnósticos de seus pacientes.

E esse conhecimento a queimava por dentro mais do que qualquer fogo.

A cozinha recebeu Olga não com o aconchego do lar, mas com o cheiro de uma lixeira azeda, que ninguém esvaziava havia pelo menos três dias.

Ela apertou o interruptor, e a luz amarela de uma lâmpada barata iluminou sem piedade a dimensão do desastre.

Aquilo não era apenas louça suja — era um monumento à preguiça e à imundície humana.

A pia estava entupida até o topo.

Sobre os pratos sujos, cobertos de gordura seca e ketchup, equilibrava-se uma panela de macarrão, em cujas paredes haviam ficado grudados restos de massa ressecada.

O ralo estava obstruído por folhas de chá e cascas indefinidas, de modo que na pia acumulava-se uma água turva e ferruginosa, com pedaços de pão encharcado boiando nela.

Olga aproximou-se da bancada sonhando apenas em servir para si um copo d’água.

A sede a atormentava havia duas horas antes do fim do turno, mas não houvera tempo sequer para um gole.

Encontrar um copo limpo, porém, revelou-se uma tarefa impossível.

Todas as canecas estavam ali: algumas com mofo no fundo, outras com pontas de cigarro boiando no café inacabado.

A mesa estava pegajosa.

Na toalha plástica tinham grudado migalhas, manchas de chá doce e marcas circulares de canecas quentes.

No meio dessa natureza-morta, Olga atravessou a soleira da cozinha e congelou, sentindo subir à garganta um enjoo nauseante.

Se no quarto havia apenas desordem, ali reinava uma verdadeira catástrofe doméstica.

A pia parecia prestes a desabar sob o peso da montanha de louça empilhada.

Pratos sujos com bordas ressecadas, frigideiras engorduradas, uma panela com macarrão grudado — tudo isso se erguia numa pirâmide instável, cujo topo era coroado por uma caneca com kefir pela metade, já começando a se separar em camadas.

Do ralo vinha um cheiro de mofo e podridão.

Sobre a mesa, coberta por uma toalha plástica barata com flores, não havia um único pedaço limpo: migalhas, manchas de chá doce, às quais a mão certamente grudaria se alguém arriscasse apoiar-se, e uma lata aberta de sardinhas defumadas espalhando ao redor um pesado cheiro de peixe.

O chão sob os pés fez um som viscoso.

Olga abaixou os olhos: bem na entrada havia se espalhado e já começava a secar uma poça de algo marrom — talvez café, talvez refrigerante.

— Então, por que ficou parada? — a voz de Serguei soou bem junto ao ouvido dela.

Arrastando os chinelos gastos, ele veio atrás, claramente decidido a supervisionar o processo de preparo do jantar.

— Vamos, mais rápido, Olya.

Tempo é dinheiro, e no meu caso, experiência no jogo.

Olga virou lentamente a cabeça.

O marido estava encostado com o ombro na geladeira e remexia os dentes com um palito, tirando restos do lanche que fizera durante o dia.

Sua postura exprimia o máximo grau de relaxamento e expectativa.

Ele olhava para a esposa não como para uma pessoa que voltara de um trabalho exaustivo, mas como para uma máquina de refrigerante que começara a falhar.

— Você acha isso normal? — perguntou ela em voz baixa, indicando com a mão o espaço da cozinha.

— Seryozha, você esteve aqui o dia inteiro.

Veio aqui beber água, fazer sanduíches.

Era tão difícil ao menos enxaguar a sua xícara?

Ou guardar o pão no saco para ele não ressecar?

— Lá vem você de novo, — fez uma careta contrariada Serguei, tirando o palito da boca e lançando-o com um estalo na direção da lixeira transbordante.

O palito não chegou até lá e caiu no chão pegajoso.

— Eu já te expliquei: vida doméstica não é comigo.

Meu tipo de mente é outro, estratégico.

Eu não posso me dispersar com panos e esponjas, isso atrapalha meu foco.

Você é mulher, isso devia estar nos seus genes — fazer ninho, criar aconchego.

E o que temos aqui?

Você entra na cozinha e parece que caiu num muquifo.

E de quem é a culpa?

Da dona da casa.

— Dona da casa? — Olga deu um passo em direção à mesa, sentindo as mãos tremerem.

Ela queria beber, mas a única xícara limpa estava na prateleira de cima, e ela não tinha forças para abrir caminho até ela por entre os montes de louça suja.

— Eu não sou a dona da casa aqui, Serguei.

Eu sou a patrocinadora deste banquete.

Eu pago pelos alimentos que você devora, pago pela água que você desperdiça, e ainda sou eu que devo limpar as consequências da sua existência?

Você virou um porco.

— Olha essa língua! — berrou ele, desgrudando-se da geladeira.

O rosto dele ficou manchado de vermelho.

— Eu sou seu marido, não um vizinho cachaceiro.

Estou passando por dificuldades temporárias, uma crise criativa, e você, em vez de me apoiar, só sabe me humilhar.

Acha que para mim é fácil?

Ficar trancado entre quatro paredes enquanto você fica lá dando risadinhas com os médicos jovens?

Talvez você chegue tarde porque não está trabalhando, mas rebolando por aí?

E depois volta para casa e descarrega sua raiva no marido, porque não tem consciência.

Olga o olhava com os olhos bem abertos.

O cansaço acumulado durante o turno de repente se transformou em uma calma glacial.

Era exatamente aquele momento em que o absurdo do que estava acontecendo atinge o auge, e as emoções se desligam, cedendo lugar à lógica fria.

— Eu não dou risadinhas, — disse ela lentamente, marcando cada palavra.

— Eu lavo pacientes acamados, Serguei.

Troco fraldas de homens adultos que não conseguem se levantar.

E depois eu chego em casa e vejo outro homem adulto que consegue se levantar, mas não quer.

E que também, francamente, precisaria que lhe trocassem a fralda, porque sujou tudo à volta de si.

— Você… não confunda as coisas! — Serguei deu um passo em direção à mesa, pairando sobre ela.

Dele vinha um cheiro de suor azedo e desodorante barato.

— Me comparou com inválidos?

Eu sou um homem saudável!

Sou o chefe da família!

Só que agora é uma fase assim!

E você… você é só uma mulher preguiçosa que largou a casa ao abandono.

Olha para esta mesa!

Sujeira, migalhas!

Você mesma não sente nojo?

Ele passou o dedo sobre a toalha plástica grudenta, fez uma careta de desgosto e limpou demonstrativamente o dedo na barra do avental médico de Olga, que estava pendurado no encosto da cadeira.

— Está vendo?

Tudo gruda!

Porque você não limpa!

Você chega em casa e desaba na cama.

E eu tenho que comer neste chiqueiro?

Olga olhava em silêncio para a mancha suja em seu jaleco branco.

Aquilo não era apenas sujeira.

Era um cuspe.

Um cuspe no seu trabalho, na sua profissão, nas suas tentativas de preservar ao menos alguma aparência de família.

Seu olhar caiu sobre o prato com pão, colocado na beira da mesa.

O pão estava cortado em fatias irregulares, já ressecado, mas ainda perfeitamente comestível.

— Tira esse pão daí, — resmungou Serguei, acompanhando o olhar dela.

— Está seco.

Eu não vou comer isso.

Compra um pão fresco, macio, e uma manteiga decente, porque essa pasta não desce pela garganta.

E, no mais, anda logo com as almôndegas.

Meu estômago está se contraindo de fome.

— O pão está bom, — disse Olga, em voz surda.

— Come esse.

— Eu disse que não vou comer! — guinchou Serguei.

Com um movimento brusco, ele bateu no prato com o dorso da mão.

O prato saltou com estrondo, virou, mas, por azar, não quebrou: apenas começou a girar pelo chão com um tinido.

Os pedaços de pão se espalharam por toda a cozinha, caindo na sujeira, na poeira, naquela mesma poça pegajosa junto à entrada.

Um pedaço caiu bem na ponta da bota de Olga.

— Assim mesmo! — declarou Serguei, triunfante, olhando para a obra das próprias mãos.

— Agora eu certamente não vou comer.

Isso é lixo.

Pega e joga fora.

E quero que, em dez minutos, haja um jantar decente na mesa, entendeu?

Aprende a ser esposa, enquanto eu ainda estou de bom humor.

Ele se virou para sair, seguro de sua vitória total e incontestável.

Estava acostumado ao silêncio de Olga.

Acostumado a que ela suspirasse, juntasse o que ele espalhava e fizesse o que ele mandava, só para não ouvir suas lamúrias.

Mas, desta vez, o silêncio atrás dele era diferente.

Era denso, eletrizado, como o ar antes de uma tempestade, quando os pelos dos braços se arrepiam.

Olga olhava para o pedaço de pão sobre sua bota.

Em sua cabeça, alguma coisa estalou secamente, como uma corda esticada demais se rompendo.

Ela ergueu lentamente os olhos para a panela sobre o fogão.

Aquela mesma panela com o “borsch de ontem”, que tinha sido chamado de “lavagem”.

A tampa estava torta sobre a panela.

— Espera, — disse ela.

Sua voz não tremia.

Estava morta.

Serguei parou na porta, mas não se virou.

— O que foi agora?

Procura a carne moída no congelador, eu não sei onde ela está.

— Eu encontrei, — disse Olga.

— Eu encontrei tudo.

Ela segurou as alças da panela.

Estavam frias e pegajosas de gordura.

A panela era pesada, devia ter uns três litros, cheia de sopa grossa e encorpada, que ela cozinhara anteontem à noite, caindo de cansaço, para que o amado marido tivesse comida.

Olga a ergueu sem sentir o peso.

Agora aquilo já não era comida.

Era um argumento.

O último e o mais pesado.

O peso da panela esmaltada de três litros puxava agradavelmente seus braços para baixo.

Olga não sentia nem a dor nas costas lesionadas, nem o latejar nas pernas inchadas.

Todas as sensações físicas se embotaram, cedendo lugar a uma estranha clareza vibrante na cabeça.

Ela olhava para a película turva, avermelhada e gordurosa na superfície da sopa fria, onde ilhotas de gordura branca de porco haviam endurecido, e não sentia nem piedade nem dúvida.

Aquilo se parecia com um estado de afeto, mas estendido no tempo, frio e calculado.

Olga saiu lentamente da cozinha.

No corredor estava escuro; apenas o brilho azulado vindo do quarto do marido arrancava da penumbra pedaços do papel de parede descascado e o mesmo pedaço de pão que ele derrubara da mesa.

Ela passou por cima dele sem olhar.

Seus passos eram pesados, firmes, como a marcha de um carrasco indo ao cadafalso.

A panela em suas mãos balançava levemente, e o líquido grosso batia nas paredes com um chapinhar surdo e pesado.

Serguei nem sequer se virou quando ela entrou no quarto.

Ele tinha certeza do próprio condicionamento que impusera.

Se a esposa tinha ido à cozinha e começado a fazer barulho com as panelas, isso significava que o processo estava em andamento.

Significava que em breve haveria comida quente, haveria chá, haveria limpeza.

Ele já tinha colocado seus enormes fones de gamer com microfone e agora falava animadamente com seus invisíveis companheiros de batalha virtual.

— Vai, vai, pressiona o meio! — gritava ao microfone, cuspindo saliva no monitor.

— Lekha, cobre a ala direita, pelo amor de Deus, por que você está aí feito um caranguejo?

Agora eu acabo com eles, só preciso recarregar minha energia, minha mulher já está trazendo comida.

Ele estava sentado de costas para ela, esparramado na cadeira, com as pernas abertas.

Seus dedos corriam pelo teclado com uma velocidade inacreditável — caro, mecânico, com luzes coloridas, que ele comprara três meses antes com o cartão de crédito de Olga, dizendo que era “um investimento nos e-sports”.

As teclas estalavam ritmadas e altas, como uma rajada de metralhadora.

Aquele som fora a trilha sonora da vida conjugal deles no último ano.

Olga se aproximou até ficar bem perto.

De Serguei vinha uma onda de cheiro de corpo rançoso e vape adocicado.

Ela via sua nuca, os poucos fios de cabelo grudados na pele suada, as dobras do pescoço.

Ele estava totalmente absorvido pelo jogo, absolutamente indefeso em sua arrogante certeza de que o mundo inteiro girava em torno de seus desejos.

— Sérioja, — chamou ela, baixinho.

Ele não ouviu.

Ou fingiu não ouvir.

Continuou martelando as teclas, entrando numa curva com seu tanque desenhado.

— Estou morrendo de fome! — berrou ele no chat, rindo.

— Minha mulher lá está se mexendo como uma tartaruga.

Nada, agora a gente educa ela.

Aquilo foi o sinal.

Olga ergueu a panela acima da cabeça dele, deslocando ligeiramente o centro de gravidade para a frente.

Ela não derramou a sopa na cabeça dele — isso seria banal demais, e depois daria trabalho demais para limpar.

Seu alvo era pior e mais doloroso para ele.

Ela mirou naquilo que ele tinha de mais precioso.

Naquilo que ele amava mais do que a esposa, mais do que o próprio respeito, mais do que a própria vida.

Olga inclinou a panela de repente.

Uma avalanche grossa, de cor bordô escura, de borsch frio que ficara três dias na geladeira, despencou para baixo.

O fluxo pesado, em que rodopiavam pedaços de beterraba cozida, batatas e fibras de carne, caiu com um som pastoso diretamente sobre o teclado iluminado, sobre o mousepad e, de ricochete, sobre as calças largas de Serguei, na altura da virilha.

O som foi impressionante.

Primeiro, um baque úmido, como se uma enorme água-viva tivesse caído no asfalto.

Depois, um chiado, quando o líquido penetrou no interior do equipamento caro.

A iluminação do teclado piscou, se manchou de vermelho, como numa agonia final, e apagou.

A massa gordurosa preencheu imediatamente o espaço entre as teclas, inundou o microfone, escorreu pela mesa em riachos escuros, pingando sobre os joelhos do “tanquista”.

Por um segundo, houve silêncio no quarto.

Serguei simplesmente congelou, olhando para o suco de beterraba escorrendo pelas mãos pousadas sobre o teclado.

Seu cérebro se recusava a processar a informação.

A imagem no monitor ainda se movia, o tanque andava, mas o controle estava perdido.

A realidade invadira seu mundinho virtual de forma brutal e impiedosa.

Então ele uivou.

Não foi um grito humano, mas o rugido de uma fera ferida a quem prenderam o rabo.

Serguei deu um salto na cadeira, arrancando os fones da cabeça, e eles caíram imediatamente numa poça de borsch sobre a mesa.

— A-a-a-a!

O que foi que você fez?! — gritou, saltando para longe da mesa e sacudindo as mãos, das quais voavam respingos gordurosos.

— O que você aprontou, sua desgraçada?!

Isso é uma Razer!

Ela custa vinte mil!

Ele olhava para a mesa com horror.

A cena era apocalíptica.

Havia borsch por toda parte.

Repolho pendia do monitor, um pedaço de carne jazia solitário sobre a tecla “Espaço”, e uma película gordurosa cobria tudo de maneira uniforme.

O líquido já pingava sobre o gabinete do computador, que ficava debaixo da mesa.

Olga estava parada com a panela vazia nas mãos, olhando para a obra que fizera.

Por dentro, ela estava vazia e silenciosa, como uma estepe queimada.

Nem medo, nem arrependimento.

Só repulsa.

— Você pediu borsch, — disse ela, com voz calma e reta, que se sobrepunha aos berros histéricos dele.

— Você disse que precisava de energia.

Come.

— Você é doente?!

É uma psicopata! — Serguei corria em volta da mesa sem saber no que pegar primeiro.

Tentou agarrar o teclado, virá-lo, sacudir o líquido para fora, mas dele só continuavam a escorrer rios de caldo de beterraba.

— Você alagou meu computador!

Você faz ideia de quanto dinheiro isso custa?!

Você estragou toda a minha partida!

Ele se virou para ela, o rosto deformado pela raiva, os olhos quase saltando das órbitas.

Em suas calças cinzentas se espalhava uma enorme mancha escura, fazendo-o parecer um bebê gigante que fizera nas calças.

— Eu vou te matar! — guinchava, cuspindo saliva.

— Agora você vai me reembolsar por tudo!

Cada centavo!

Me dá um pano!

Rápido, me dá um pano, idiota!

— O refeitório está fechado, Sérioja, — Olga baixou a panela, e ela bateu no chão com um estrondo metálico.

— Não vai ter pano.

Não vai ter almôndegas.

E não vai ter teclado novo.

Ela via como ele cerrava os punhos, como o rosto se enchia de sangue.

Ele estava pronto para bater.

Pela primeira vez em todo o casamento, ela via nele uma agressão verdadeira, aberta, não uma implicância preguiçosa, mas um desejo de destruir.

Mas isso já não importava para ela.

Ela estava cansada demais para ter medo.

Cansada demais para continuar sendo um móvel conveniente.

— Cai fora daqui, — sibilou ele, dando um passo em direção a ela.

— Limpa essa merda antes que eu enfie essa panela na tua cabeça!

Rápido!

— Não, — Olga não recuou um único passo.

Ela ergueu o queixo e olhou diretamente nos olhos dele, frenéticos e desvairados.

— Quem vai sair daqui é você.

Agora mesmo.

Do jeito que está.

Junto com o seu borsch.

— Você enlouqueceu de vez, sua vaca?! — rugiu Serguei, tentando sacudir de si os pedaços de repolho cozido que haviam grudado na camiseta e agora escorriam, deixando trilhas gordurosas cor de bordô.

— Isso é mecânico!

É uma Razer!

Você faz ideia do que fez?

Você vai me transferir o dinheiro de um novo igual agora mesmo, ouviu?!

Ele pegou da mesa o teclado, de onde a polpa escura escorria em filetes, e o sacudiu no ar.

De dentro do dispositivo veio um miserável som de líquido chacoalhando.

Gotículas de caldo gorduroso se espalharam em leque, atingindo o papel de parede, o monitor e o próprio rosto de Serguei.

Ele parecia ao mesmo tempo patético e assustador: o rosto distorcido pela fúria, os lábios tremendo, e nos olhos um terror em pânico não pelo fato de a família estar ruindo, mas porque seu brinquedo favorito tinha morrido.

— Eu não vou te transferir nada, — a voz de Olga soava antinaturalmente reta, com um timbre metálico.

Ela sentia dentro de si uma onda de fúria primitiva subir, varrendo todas as barreiras de educação e decência.

— Eu te alimentei por um ano.

Eu te vesti.

Eu paguei essa internet em que você gastava a vida sentado.

E agora você exige dinheiro de mim porque eu estraguei a sua chupeta?

— Cala a boca! — Serguei arremessou o teclado molhado de volta sobre a mesa.

Os respingos voaram para todos os lados.

— Você é obrigada!

Nós somos uma família!

Temos um orçamento comum, quer dizer, o seu, enquanto eu não trabalho!

Você não tem o direito de me expulsar, eu estou registrado aqui… quer dizer, eu moro aqui!

Isso é arbitrariedade!

Ele tentou adotar um tom diplomático, mas soou miserável.

Seu olhar corria pelo quarto em busca de apoio, mas encontrava apenas sujeira, meias espalhadas e poças de borsch.

Ele estava acostumado a apelar para a pena, acostumado a manipular o sentimento de culpa, mas desta vez batera contra um muro.

Olga estava no meio do quarto, apertando a panela vazia na mão como uma arma do proletariado, e não havia uma gota de dúvida em sua postura.

— Rua, — disse ela, curta.

— Como assim “rua”? — ele piscou, estúpido.

— Para onde eu vou?

É noite lá fora!

Você enlouqueceu?

Olya, tudo bem, você surtou, acontece.

Vamos nos acalmar.

Eu limpo tudo.

Se você quiser, eu até lavo o chão.

Depois.

Amanhã.

Ele deu um passo em direção a ela, erguendo à frente as mãos sujas, com as palmas abertas, tentando encenar reconciliação.

Dele vinha cheiro de suor, vape e agora também o odor azedo da sopa.

Aquele fedor atingiu o nariz de Olga, despertando-a por completo.

— Eu disse: sai daqui! — berrou ela de tal forma que Serguei recuou e tropeçou no pé da cadeira.

Olga não esperou que ele inventasse outro argumento.

Ela avançou e agarrou-o pela camiseta no peito.

O tecido estava molhado e repugnante ao toque, encharcado de caldo gorduroso, mas o nojo tinha se desligado.

Em Olga despertara aquela mesma força que lhe permitia virar pacientes de cem quilos na reanimação.

Ela puxou o marido para si, fazendo-o perder o equilíbrio.

— O que você está fazendo, sua louca?! — guinchou ele, tentando firmar os pés no chão, mas seus chinelos gastos escorregavam no linóleo.

— Tira as mãos de mim!

Eu vou… eu vou te bater!

— Experimenta! — ela soprou na cara dele.

— Só experimenta, parasita!

Eu te reduzo a pó!

Ela o arrastava para a saída do quarto como um saco de lixo.

Serguei, atônito com aquela investida, resistia de forma fraca, mais se agarrando aos batentes e tentando não cair.

Era grande, mole, mas absolutamente inútil num confronto físico com uma mulher enfurecida que já não tinha nada a perder.

Eles foram parar no corredor.

Serguei esbarrou com o ombro no cabideiro, derrubando os casacos.

— Me deixa pelo menos pegar minhas coisas! — gritou, percebendo que estavam realmente o pondo para fora.

— O telefone!

O passaporte!

Me dá a jaqueta, está frio lá fora!

Você quer a minha morte?

— O seu telefone fui eu que paguei, ele fica aqui como compensação pela conta de luz e água! — cortou Olga.

— E o passaporte você não precisa, você não trabalha em lugar nenhum mesmo!

Ela o arrastou até a porta de entrada.

Serguei fincava os pés, agarrava-se às paredes, deixando marcas de gordura no papel de parede.

Ele choramingava, xingava, ameaçava, mas Olga era implacável.

Ela sentia a adrenalina queimar os últimos restos de cansaço.

Sentia-se leve.

Não ligava para o que os vizinhos pensariam, não ligava para o que aconteceria no dia seguinte.

O importante era limpar a sua casa daquela sujeira.

Ali mesmo.

— Olya, não faz isso! — uivou ele quando ela girou a chave e abriu de repente a pesada porta metálica.

— Para onde eu vou de calça de moletom?

Eu vou ficar doente!

Minha mãe vai me matar se souber!

— Então vai para a casa da sua mãe! — gritou Olga.

— Que seja ela a fritar almôndegas para você e limpar a sua bunda!

O meu turno acabou!

Ela o empurrou com força nas costas.

Serguei, sem esperar um empurrão tão forte, foi lançado para o patamar da escada.

Andou uns dois metros cambaleando, agitou os braços tentando se equilibrar e bateu com um baque surdo na parede em frente, quase caindo no chão de concreto.

Seus chinelos voaram, e ele ficou parado só de meias no piso gelado do prédio.

Ele tinha uma aparência grotesca: de calças frouxas com uma mancha na virilha, camiseta coberta de beterraba e repolho, descabelado, vermelho.

A vizinha do andar de cima, que estava levando o lixo para fora, congelou com o balde na mão, olhando para aquela cena.

— Você vai se arrepender! — gritou Serguei, virando-se para ela.

Seus lábios tremiam de ofensa e de frio.

— Você vai rastejar até mim!

Vai morrer sozinha com seus gatos!

Ninguém precisa de você, velha histérica!

Eu vou pedir o divórcio!

Vou tomar metade do apartamento!

— Pede, — disse Olga, calmamente.

— Mas antes arranja dinheiro para um advogado, “tanquista”.

— Me dá a jaqueta! — guinchou ele, dando um passo em direção à porta.

— Sua desgraçada!

Me dá a jaqueta!

Olga olhou para ele uma última vez.

Naquele olhar não havia ódio, apenas um desprezo infinito e frio, como o que se dirige a uma barata esmagada.

— O refeitório está fechado para sempre, Serguei.

Game over.

Ela bateu a porta com força bem na cara dele.

A fechadura estalou, girando duas vezes na lingueta.

Depois, o trinco também foi acionado.

Do outro lado ainda se ouviam pancadas surdas de punhos e xingamentos pesados, misturados a pedidos miseráveis para que abrisse, mas aqueles sons já não tinham importância.

Olga encostou as costas na porta e foi escorregando lentamente até o chão.

Ficou sentada no corredor semiescuro, com as pernas abertas, bem sobre o linóleo sujo.

No apartamento reinava o silêncio, interrompido apenas pelo zumbido da velha geladeira na cozinha.

Cheirava a borsch e a liberdade derramada no chão.

Suas mãos tremiam — agora, por causa do choque posterior.

Mas era um tremor agradável.

Ela olhou para as próprias mãos, que ainda cheiravam a cloro e agora um pouco também a beterraba.

Pela primeira vez em um ano, sentia que aquela casa lhe pertencia.

Que não precisava correr para o fogão.

Que não precisava ouvir lamúrias.

Que não precisava ser criada.

Do quarto veio um som — algo caiu da mesa, provavelmente o mesmo teclado encharcado, que finalmente escorregara para o chão por causa do próprio peso.

Olga sorriu de leve.

Amanhã ela chamaria uma equipe de limpeza.

Mas, naquela noite, iria apenas tomar banho, lavar de si aquele dia, aquela sujeira e aquela vida.

E, pela primeira vez em muito tempo, dormiria na diagonal, ocupando a cama inteira, e ninguém roncaria no seu ouvido exigindo que ela trouxesse um copo d’água.

Ela se levantou, passou por cima da jaqueta do marido caída no chão, que tinha sido derrubada do cabideiro, chutou-a para um canto e foi em direção ao banheiro.

O escândalo tinha acabado.

A vida estava apenas começando.