Para mim, a dívida da hipoteca por trinta anos.
E quem vai morar no apartamento será ele.

Um ótimo plano…
Viktor pousou cuidadosamente a xícara no pires, tentando não fazer a porcelana tilintar.
O som poderia quebrar o frágil equilíbrio que se instalara na cozinha com a chegada da mãe.
Galina Stepanovna estava sentada à sua frente, alisando dobras inexistentes na toalha de mesa.
Seu olhar vagueava pelas paredes, avaliando o frescor do papel de parede e o valor do conjunto de móveis.
Ela raramente visitava o filho mais velho, e cada visita sua lembrava uma inspeção da repartição de finanças, só que, em vez de declarações, verificava-se o nível de sua obediência filial.
— Artiôm está completamente esgotado, — começou ela de longe, sem nem tocar nas guloseimas.
— Está apertado para ele no nosso apartamento de dois cômodos, Vítia.
O rapaz é jovem, precisa de espaço, de vida pessoal.
Viktor assentiu, mantendo uma expressão suave no rosto.
Estava acostumado.
Desde a infância, fora o saco de pancadas para as ambições dela e o para-raios para a sua irritação.
— Os apartamentos estão caros agora, mãe, — observou ele com calma.
— O Artiôm está trabalhando?
Galina Stepanovna apertou os lábios, como se tivesse engolido uma casca de limão.
— Está, está se procurando.
Lá não o valorizam, aqui pagam pouco.
Ele é uma natureza criativa, para ele é mais difícil.
Você é mais pé no chão, para você é mais fácil.
Mas o rapaz tem uma organização emocional delicada.
Ele precisa de um começo.
Svetlana, sentada ao lado do marido, apenas soltou um breve suspiro, mas permaneceu calada.
Ela sabia que qualquer palavra sua seria interpretada como uma declaração de guerra.
Galina Stepanovna ignorava a nora por princípio, considerando-a um obstáculo incômodo no caminho para a carteira do filho mais velho.
— E que tipo de começo você tem em mente? — perguntou Viktor com cautela, já pressentindo para onde a conversa iria.
A esperança de que a mãe tivesse vindo apenas para saber como ele estava derretia mais rápido do que açúcar na água fervente.
— Hipoteca, — declarou a mãe com firmeza.
— Encontramos uma ótima opção.
Prédio novo, andar alto, janelas panorâmicas.
Eu já tenho a entrada.
Só falta fazer o financiamento.
Viktor soltou um suspiro de alívio.
— Bem, se há a entrada, isso é maravilhoso.
Que o Artiôm apresente os documentos.
Hoje em dia há muitos programas para jovens.
Galina Stepanovna olhou para ele como para uma criança tola que não aprendeu a lição.
— Vítia, você não está me ouvindo?
Não vão aprovar para o Artiôm.
Ele não tem comprovante formal de renda, ainda é freelancer.
Tem que ficar no seu nome.
Autora: Vika Trel © 4106
A cozinha ficou abafada, como se o oxigênio tivesse sido sugado de repente por uma bomba potente.
Viktor sentiu aquela amargura familiar subir por dentro — o gosto de velhas mágoas e decepções.
Esperava que essa fase tivesse ficado para trás.
Que sua família tivesse se acostumado com a ideia de que ele era uma pessoa separada, e não um apêndice do irmão.
— Não, — disse ele com firmeza.
— Eu não vou fazer uma hipoteca no meu nome para o Artiôm.
Eu e a Sveta temos nossos próprios planos.
Nós também queremos crescer.
Os olhos da mãe se estreitaram.
A máscara de mãe cuidadosa escorregou, revelando o rosto predatório de uma mulher acostumada a conseguir o que quer a qualquer preço.
— Planos, eles têm planos! — bufou ela, voltando-se para Svetlana como se buscasse apoio, só para rejeitá-la no mesmo instante.
— Uma mãe sacrificou a última gota de saúde para te criar.
Passou noites sem dormir, largou a faculdade por causa das suas doenças.
E agora “planos”?
Egoísta.
Igualzinho à sua falecida avó.
A menção à avó feriu-lhe o coração.
A tia, irmã da mãe, havia deixado escapar ao telefone, dias antes, algo sobre a casa da avó.
A velha e sólida casa de madeira no subúrbio, onde Viktor passara os anos mais felizes da sua vida, fora vendida um mês antes.
— De onde você tirou o dinheiro da entrada, mãe? — perguntou Viktor em voz baixa, olhando-a diretamente nos olhos.
Galina Stepanovna deu de ombros, ajeitando o penteado.
— Que diferença faz?
Juntei.
— A tia Nádia disse que você vendeu a casa.
A casa da vovó.
A mãe nem sequer se constrangeu.
Ao contrário, uma convicção maldosa apareceu em seu olhar.
— Vendi!
E tinha esse direito.
Eu sou a única herdeira.
O Artiôm precisa de moradia.
E você já se ajeitou, arranjou uma encostada, trabalha.
Ainda quer mais?
Viktor apertou a beirada da mesa.
A raiva, densa e quente, começou a ferver em seu peito.
A avó sempre dizia que a casa ficaria para os netos, dividida igualmente.
Mas o testamento “casualmente” se perdeu, ou talvez nunca tenha existido — agora já não dava para saber.
— Então, a herança da vovó vai para o Artiôm.
Meu histórico de crédito e a dívida de trinta anos vão para mim.
E quem vai morar no apartamento será ele.
Um ótimo plano, — a voz de Viktor endureceu.
— Isso é uma formalidade! — elevou a voz Galina Stepanovna.
— Eu vou pagar.
Ou o Artiôm, quando se firmar.
Você só precisa assinar.
Por acaso eu já te enganei alguma vez?
Somos do mesmo sangue!
— Você me enganou a vida inteira, quando dizia que amava nós dois do mesmo jeito, — retrucou Viktor.
Galina Stepanovna levantou-se, derrubando a colherinha no chão.
— Ingrato!
Moleque!
Eu venho até você de coração aberto e você fica aí contando moedas!
Quero uma resposta já amanhã.
Senão eu te amaldiçoo, fique sabendo.
Vou dizer ao seu pai para não deixar você nem cruzar a porta!
Ela saiu da cozinha batendo a porta.
*
Viktor ficou sentado, imóvel, olhando para o chá esfriando.
A raiva foi substituída por uma calma fria e calculista.
Aquele era o ponto sem retorno.
Nada mais de concessões.
Svetlana aproximou-se dele, colocou as mãos em seus ombros e começou a massagear-lhe o pescoço tenso.
— Ela não vai largar, Vítia.
Vai ligar para o seu pai, encher a cabeça dele, aparecer no seu trabalho.
Ela vai acabar com a gente.
— Eu sei, — respondeu Viktor com voz surda.
— Mas eu não vou pendurar esse jugo no meu pescoço por causa do Artiôm.
Chega.
— E se você aceitasse? — sugeriu a esposa baixinho.
Viktor se virou bruscamente, afastando as mãos dela.
— Você está falando sério?
Sveta, você ouviu o que ela disse?
— Ouvi. — Svetlana olhava com calma, e em seus olhos não havia medo, apenas um brilho estranho.
— Ela quer colocar o apartamento no seu nome.
Juridicamente, o proprietário será você.
A entrada são os valores da venda da casa que a avó também queria deixar para você.
Viktor ficou paralisado.
Olhou para a esposa, e o sentido das palavras dela foi abrindo caminho em sua consciência lentamente, como um trem pesado.
— Você está propondo…
— Estou propondo restaurar a justiça. — Svetlana sentou-se diante dele.
— Ela coloca o dinheiro.
Você faz a hipoteca.
O apartamento é seu.
E as chaves também são suas.
O Artiôm não vai morar lá.
Ou nós o alugamos para pagar as prestações, ou o vendemos imediatamente, quitamos a dívida, e o restante será a sua parte da herança da vovó.
Viktor esfregou as têmporas.
A ideia parecia insana, atrevida, impossível para o homem que ele fora antes — aquele menino quieto que sempre cedia.
— Ela vai me destruir, — sussurrou ele.
— Ela já está fazendo isso, — respondeu Sveta com dureza.
— Só que agora você permite isso de graça, e assim pelo menos vai receber uma compensação.
Você não está roubando.
Está pegando de volta o que é seu.
Aquela mesma “entrada” que ela te devia por vinte anos de humilhações.
Viktor levantou-se e foi até a janela.
Lá embaixo, a cidade se agitava, as pessoas corriam atrás de seus afazeres sem saber que, em um dos apartamentos, naquele momento, decidia-se o destino de um homem quebrado.
Ele se lembrou das mãos da avó, com cheiro de maçãs secas.
Lembrou-se de como a mãe tomava dele o dinheiro que ganhava de presente para comprar um novo videogame para o Artiôm.
— Está bem, — disse Viktor, sem se virar.
Sua voz soava abafada.
— Ligue para ela.
Diga que eu aceito.
Mas que transfira o dinheiro para a minha conta ainda hoje.
Eu mesmo vou pagar tudo.
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Paraíso Amaldiçoado — Vladimir Leonidovich Shorokhov | Litres
O acordo correu de forma surpreendentemente tranquila.
O banco, vendo o histórico de crédito impecável de Viktor e a sólida entrada inicial, aprovou o pedido em dois dias.
Galina Stepanovna estava radiante.
Andava pelo escritório da construtora toda empinada, distribuindo instruções ao gerente como se estivesse comprando um andar inteiro.
Viktor permaneceu calado, assinando uma página após a outra.
Cada traço de caneta cortava um pedaço de sua antiga vida dependente.
Artiôm nem apareceu.
“Está ocupado, o projeto está pegando fogo”, dispensou a mãe quando Viktor perguntou pelo irmão.
Claro, que projeto.
Dormia até o meio-dia.
Um mês depois, o prédio foi entregue.
As chaves estavam no bolso de Viktor, repuxando o tecido com um peso agradável.
A reunião familiar foi marcada na casa dos pais.
Galina Stepanovna pôs a mesa: saladas, prato quente, até uma garrafa de conhaque caro.
Artiôm sentava-se na cabeceira, já discursando sobre que sofá colocaria na sala de estar.
O pai mastigava em silêncio, tentando não encontrar o olhar de Viktor.
— Então! — proclamou a mãe triunfantemente, estendendo a mão.
— Vamos, filhinho.
Temos que alegrar o seu irmão.
Viktor levantou-se devagar.
Svetlana levantou-se logo depois, ficando ombro a ombro com o marido.
Ela era seu escudo e sua espada.
— As chaves, mãe? — repetiu Viktor, fingindo não entender.
— Não enrola!
O Artiôm precisa levar as coisas! — Galina Stepanovna mexeu os dedos com impaciência.
— O Artiôm não vai se mudar para lugar nenhum, — disse Viktor com clareza, separando cada palavra.
O quarto ficou em silêncio.
— O quê? — Artiôm parou de mastigar.
— O apartamento está no meu nome.
A hipoteca está no meu nome.
O proprietário sou eu, — Viktor falava alto, e sua voz ganhava força.
— Troquei as fechaduras hoje de manhã.
Quem vai morar lá sou eu, ou então eu o vendo.
Isso é problema meu.
— Você enlouqueceu? — sibilou a mãe, enquanto seu rosto começava a se cobrir de manchas vermelhas.
— O que você está dizendo?
Lá está o meu dinheiro!
A minha entrada!
— A sua entrada é o dinheiro da casa da vovó, — berrou Viktor, interrompendo o chilique que começava.
Ele não recuou, ao contrário, deu um passo à frente, inclinando-se sobre a mesa.
— A vovó queria dividir tudo igualmente.
Você me tirou tudo.
Considere que esse dinheiro é a minha parte da herança.
E a compensação por todos aqueles anos em que eu não passava de nada para você!
— Ladrão! — gritou Galina Stepanovna, levantando-se da cadeira de um salto.
— Devolva as chaves!
Eu vou à polícia!
Vou te mandar para a prisão!
— Vai! — gritou Viktor em resposta, e seu grito fez a mãe recuar.
Ele bateu com a palma da mão na mesa, e os pratos saltaram.
— Vai à polícia!
Mostra a eles os documentos!
Meu nome está em tudo!
Você mesma me transferiu o dinheiro como “presente para o filho”!
Eu consultei um advogado!
Você não vai provar nada!
Artiôm saltou de pé, cerrando os punhos, tentando parecer ameaçador.
— O que foi, seu idiota, decidiu me passar a perna?
Viktor virou-se bruscamente para o irmão.
Era maior, mais forte e, acima de tudo, mais furioso.
Agarrou Artiôm pela roupa e o empurrou com força de volta para a cadeira.
A cadeira rangeu de forma lastimosa.
— Senta! — rosnou Viktor.
— Você, parasita, não mexeu um dedo!
Quer um apartamento?
Vai ganhar o seu!
Chega de sugar a vida de todo mundo!
— Pai! — berrou Galina Stepanovna.
— Diz alguma coisa!
Ele está roubando a própria mãe!
O pai ergueu os olhos lentamente.
Olhou para a esposa vermelha e descontrolada, para o filho caçula assustado e inútil, e depois para Viktor, que pela primeira vez na vida parecia um homem de verdade, protegendo a própria família.
— O Vítia está certo, — disse o pai em voz baixa.
— A casa era da mãe dela.
Ela queria dividir.
Você não deixou.
— Você também?!
Traidor! — Galina Stepanovna sufocou de indignação.
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Matar um Gênio — Vladimir Leonidovich Shorokhov | Litres
Viktor e Svetlana foram embora sem se despedir.
Atrás deles voavam maldições, ameaças de processo e promessas de castigo divino.
Mas Viktor não sentia medo.
Só leveza.
Eles venderam o apartamento dois meses depois.
Rapidamente, com um pequeno desconto, para não prolongar.
Quitaram a hipoteca antecipadamente.
A quantia restante — aquela mesma “entrada da vovó” — foi usada para comprar uma casa em outra região, a três horas de voo dali.
Mais perto dos pais de Svetlana, mais longe do passado tóxico.
Galina Stepanovna tentou processá-los, mas os advogados apenas abriram os braços: transferência voluntária dos fundos, propriedade registrada legalmente.
Chance zero.
O pai deixou a família seis meses depois.
Arrumou a mala em silêncio e foi para o campo, para a casa dos pais do irmão dele.
Deixou todos os bens para a esposa, só para não ouvir mais seus gritos.
Mas o golpe principal veio de onde ninguém esperava.
Artiôm, privado do sonho de ganhar um apartamento de graça, ficou amargurado.
Acusou a mãe de não ter “pressionado” Viktor o suficiente, de ser uma “galinha” e uma “fracassada”.
Os escândalos no apartamento deles passaram a ser diários.
Artiôm exigia compensação da mãe, exigia que ela vendesse a única moradia deles ou a dividisse.
Certa noite, o telefone de Viktor tocou.
Número desconhecido.
— Alô? — Viktor estava na varanda de sua nova casa, olhando o pôr do sol.
— Vítia… — a voz da mãe estava quebrada, trêmula, irreconhecível.
— Vítia, ele está me expulsando.
Fez um empréstimo, os cobradores estão ligando, está me obrigando a passar a minha parte para ele…
Vítia, me ajuda.
Nós somos uma família.
Viktor olhou para Svetlana, que regava as flores no jardim.
Para sua barriga arredondada.
Para seu novo mundo tranquilo.
— Eu não tenho família no endereço de onde você está ligando, — disse ele com firmeza.
— Eu só tenho um irmão parasita e a mulher que o criou.
Resolvam-se sozinhos.
Ele apertou “encerrar” e bloqueou o número.
O sol se punha, inundando o horizonte de dourado.
As sombras desapareceram.
Restou apenas a luz.
FIM







