— Eu já comprei uma passagem para a minha mãe!

Ela vai de férias com a gente!

Ela tem pressão alta, precisa de ar do mar!

E vai ficar no nosso quarto, para não pagar a mais pelo hotel.

— Você colocou a sunga?

Eu não estou vendo na pilha com as camisetas.

E onde estão os seus chinelos?

Daqui a quatro horas temos que sair, e você ainda não fez absolutamente nada.

Você sabe que o táxi não vai esperar, a tarifa até o aeroporto é fixa.

Dária estava ajoelhada diante da mala aberta, que ocupava boa metade da cama de casal.

Ao redor dela, como ilhas coloridas no oceano da colcha bege, estavam arrumadas pilhas de roupas de verão: vestidos leves, shorts, alguns maiôs, cuidadosamente enrolados em rolinhos para não ocupar espaço demais.

O quarto cheirava a ferro de passar aquecido e ao aroma adocicado de protetor solar — a tampa de um dos tubos havia rachado, e Dária estava justamente transferindo o conteúdo para um frasco de viagem.

Ela estava completamente absorvida pela logística das malas, calculando cada quilo da bagagem.

Maksim estava parado no vão da porta, com o ombro encostado no batente.

Não tinha pressa de entrar, e havia algo de artificialmente tenso na sua postura, como se estivesse se preparando para um salto ou um golpe.

Ele girava o passaporte nas mãos, batendo a capa dura na palma.

O som rítmico e seco dava nos nervos, mas Dária tentava não prestar atenção.

A expectativa das férias, o primeiro descanso de verdade à beira-mar em dois anos, amenizava qualquer aresta.

— A sunga eu vou pegar, — disse ele por fim.

A voz soava abafada, sem a maciez habitual.

— E os chinelos também.

Só que vamos ter que mudar um pouco a questão da bagagem.

Tira essa sua segunda nécessaire de maquiagem.

E tira também o ferro de passar portátil.

Não vai ter espaço.

Dária levantou a cabeça, soprando uma mecha de cabelo que lhe caíra na testa.

— Como assim não vai ter espaço?

Maks, nós compramos passagens com bagagem despachada.

Duas malas de vinte e três quilos.

Essa mala nem está pela metade, eu peguei a grande de propósito para trazer vinho e queijo na volta.

Que história é essa de tirar o ferro?

Eu não vou andar por aí com linho amassado.

Maksim se afastou do batente e entrou no quarto.

Não se aproximou da cama, parou junto à janela, olhando para algum ponto do prédio em frente.

Suas costas, sob a camiseta de casa, pareciam de pedra.

— Agora a gente só tem uma bagagem despachada para nós dois, — soltou ele, sem se virar.

— A outra já está ocupada.

— Ocupada por quem? — Dária sentou-se sobre os calcanhares, ainda segurando o frasco de creme na mão.

— O que foi, você pegou alguma encomenda para alguém?

Maks, nós já falamos sobre isso.

Nada de favores para amigos, nada de “leva um pote de geleia para o tio Vássia”.

Eu não vou carregar tralha alheia.

Maksim se virou bruscamente.

Seu rosto estava vermelho, mas o olhar era frio e cortante.

Ele inspirou fundo, como se juntasse ar antes de mergulhar em água gelada, e disparou aquilo que, ao que tudo indicava, ensaiara na última meia hora enquanto fumava na varanda.

— Eu já comprei uma passagem para a minha mãe!

Ela vai de férias com a gente!

Ela tem pressão alta, precisa de ar do mar!

E vai ficar no nosso quarto, para não pagar mais pelo hotel!

Se não gostar, devolve sua passagem e fica em casa, e eu e mamãe vamos descansar sozinhos!

No quarto pairou um cheiro pesado e espesso de poeira, que de repente abafou o aroma do creme.

Dária piscou.

Uma vez.

Outra.

As palavras do marido chegavam à consciência lentamente, como som em meio a uma névoa densa.

O sentido das frases se despedaçava em cubos separados, que de jeito nenhum queriam se juntar em uma imagem única.

Mãe.

Pressão.

O quarto deles.

— Você está brincando agora? — perguntou ela muito baixinho.

A voz não tremeu, apenas ficou plana.

— Diz que isso é uma pegadinha idiota.

— Eu pareço um palhaço? — retrucou Maksim.

— Minha mãe ligou de manhã.

Ela está mal.

O médico disse que ela precisa mudar de clima, com urgência.

E nós vamos viajar.

O que eu devia fazer?

Dizer “desculpa, mãe, morre aí, e a gente vai tomar coquetel”?

Eu comprei a passagem há uma hora, a última para esse voo.

Dária levantou-se devagar dos joelhos.

As pernas estavam dormentes, e os joelhos estalaram de maneira desagradável.

Ela foi para o outro lado da cama, para ver o rosto do marido, e não o perfil.

— Maksim, espera.

Vamos por partes.

Você comprou uma passagem de avião.

Está bem.

Vamos supor.

Mas você falou do quarto.

Nós reservamos um “Deluxe” com uma cama grande.

King size.

É um quarto para duas pessoas.

Tem dezoito metros quadrados.

Só tem um armário.

Onde, exatamente, sua mãe vai ficar?

— Tem um sofá, — respondeu ele depressa, rápido demais.

— Eu vi nas fotos do site.

Tem um sofá-cama num canto.

É pequeno, mas mamãe cabe.

Ou então nós dormimos nele, qual é a diferença?

A gente vai para lá não para ficar no quarto, mas para o mar.

— Qual é a diferença? — Dária sentiu que dentro dela, em algum lugar na altura do plexo solar, começava a ferver uma onda escura e quente.

— A diferença é que essas são as nossas férias.

Românticas, caso você tenha esquecido.

Nós planejamos isso por seis meses.

Eu comprei lingerie, reservei mesas em restaurantes.

Você quer colocar sua mãe a meio metro da nossa cama?

Você faz ideia do inferno que isso seria?

Um banheiro, um chuveiro, ronco, conversa sobre doenças da manhã à noite?

— Não ouse falar assim da minha mãe! — berrou Maksim, dando um passo na direção dela.

— “Inferno”?

Viver com uma pessoa da família é inferno para você?

Ela é uma mulher idosa, Dária!

Precisa de cuidados e de supervisão.

Eu não posso alugar um quarto separado para ela, nós não temos cento e cinquenta mil sobrando agora.

Os preços dispararam, é alta temporada.

A única opção é ela ficar com a gente.

O hotel permitiu, eu paguei uma ninharia pela cama extra.

Dária olhava para ele e via um completo estranho.

Não era o Maksim que na noite anterior abrira vinho e sonhara com o pôr do sol na varanda.

Diante dela estava um homem teimoso e agressivo, que já tinha decidido tudo e agora apenas empurrava a própria vontade goela abaixo, escondendo-se atrás do conceito sagrado de “dever filial”.

— Então você resolveu economizar às custas do meu conforto? — perguntou ela num tom glacial.

— Você não me perguntou nada.

Você não discutiu isso comigo.

Você simplesmente me colocou diante do fato consumado quatro horas antes do voo.

Você realmente acha que eu vou aceitar dormir no mesmo quarto que sua mãe por duas semanas?

Ouvir os conselhos dela sobre como cortar frutas e por que eu passo o creme errado?

— Ah, então você é uma rainha? — Maksim torceu os lábios num sorriso que deu em Dária vontade de bater nele.

— Quer conforto.

Privacidade.

Egoísta.

Só pensa em si mesma.

Talvez uma pessoa esteja tendo a última chance de ver o mar, e você aí preocupada com suas calcinhas rendadas.

Sim, eu decidi.

Porque eu sou homem e sou eu que pago esse banquete.

O dinheiro da viagem é meu.

Então as regras também são minhas.

Ele se aproximou da mala e a chutou de lado com brutalidade.

A carcaça de plástico respondeu com um som cavo.

— Então a escolha é simples, Dasha.

Ou você cala a boca agora, arruma as coisas da mamãe — eu trago em uma hora, ela já está pronta — e nós vamos todos juntos.

Ou você fica aqui.

Sozinha.

Neste apartamento.

E espera a gente voltar.

Dária olhou para as pilhas arrumadas de seus vestidos na mala.

Para o robe de seda que comprara especialmente para os cafés da manhã na varanda.

Toda aquela imagem de férias perfeitas desmoronava em pó, deixando atrás de si apenas um gosto amargo e uma raiva crescente.

— Eu não vou para lugar nenhum nessas condições, — disse com firmeza.

— E isso não está em discussão.

Devolve a minha passagem.

Maksim estreitou os olhos.

Os maxilares se contraíram em espasmos.

— Ah, é assim?

Está mostrando seus princípios?

Pois bem.

Eu te avisei.

Ele estendeu a mão para a mala, mas não para fechá-la.

Seus dedos, rudes e decididos, agarraram uma pilha das roupas dela.

— O que você está fazendo? — Dária avançou de repente, mas já era tarde demais.

Maksim, como uma ave de rapina, arrancou da pilha cuidadosamente arrumada um punhado de roupas dela.

Uma blusa de seda, um par de shorts de linho, o vestido de verão favorito — tudo aquilo, num instante, transformou-se num bolo informe em suas mãos.

— Já que você não vai, então suas coisas também não são necessárias lá, — rosnou ele, e com força atirou as roupas no canto do quarto, direto no chão empoeirado atrás da cômoda.

O tecido caiu surdamente sobre o laminado.

A seda farfalhou de maneira triste, amassando-se numa pilha feia.

Dária ficou imóvel, sem conseguir acreditar no que via.

Aquilo já não era apenas desconsideração pela opinião dela — era um ataque direto ao seu espaço pessoal, à sua dignidade.

— Você enlouqueceu? — soltou ela, olhando para o espaço vazio na mala, onde momentos antes estava o guarda-roupa cuidadosamente escolhido.

— Essas coisas são minhas!

Você não tem direito de tocar nelas!

— Eu tenho direito a tudo nesta casa, porque sou eu que pago tudo! — gritou Maksim, o rosto deformado pela raiva.

Ele tornou a estender a mão para a mala.

Dessa vez, o alvo era o saco com a lingerie.

— Maksim, pare imediatamente! — a voz de Dária quebrou num grito.

Ela se lançou sobre ele, tentando agarrar-lhe as mãos, mas ele a empurrou com brutalidade.

A força do empurrão foi tanta que ela foi arremessada para trás e bateu dolorosamente o quadril na quina da mesa.

A dor atravessou-lhe a perna, mas a adrenalina quase a abafou na hora.

— Não se mete! — berrava ele, continuando sua revisão enlouquecida.

— É preciso liberar espaço!

Mamãe vem com duas bolsas, ela tem remédios, tem roupas quentes, precisa da própria manta, do travesseiro ortopédico!

E aqui está você com a sua tralha!

Ele puxou a nécessaire — grande, pesada, cheia de cremes e séruns caros, que ela juntara durante meses.

— Maksim, não! — gritou Dária, entendendo o que ia acontecer.

Mas ele já havia armado o braço.

A nécessaire voou através do quarto inteiro e bateu na parede com estrondo.

Ouviu-se o estalo do plástico, o som de vidro quebrado.

Da zíper rasgado começou a escorrer pela parede uma gosma branca e espessa — loção corporal.

O cheiro de perfumaria cara misturou-se ao cheiro da agressão, enchendo o quarto de uma mistura sufocante.

— Pronto! — disse Maksim, respirando pesadamente.

Ele estava em pé sobre a mala, agora meio vazia e caótica, como um campo de batalha.

— Agora tem espaço.

Está vendo?

É tudo simples.

Dária foi escorregando devagar até o chão, encostando as costas na cama.

Ela olhava as coisas espalhadas.

O vestido amassado no canto.

A lingerie pisoteada.

A mancha gordurosa na parede.

Aquilo parecia um pesadelo surrealista.

O homem com quem vivera por três anos, que ela achava conhecer, havia se transformado num bárbaro, destruindo tudo em seu caminho por um capricho da mãe.

— Por que você está fazendo isso? — perguntou ela.

A voz era baixa, sem emoção.

Dentro dela formara-se um vazio gelado.

— Você entende que, depois disso, eu com certeza não vou a lugar nenhum com você.

Maksim olhou para ela de cima.

Nos seus olhos não havia uma gota de arrependimento, apenas o frio triunfo de um vencedor que impôs suas regras pela força.

— Vai sim, — declarou com segurança, limpando as mãos na calça jeans, como se tivesse acabado de terminar um trabalho sujo.

— Para onde você vai?

As passagens não são reembolsáveis.

O dinheiro já foi pago.

Você acha que eu vou deixar desperdiçar uma viagem de duzentos mil?

Você vai, Dária.

E vai sorrir.

Porque mamãe não deve ver essa sua cara azeda.

Ele chutou com a ponta do sapato os saltos dela, que estavam ao lado da cama.

— E esses saltos aí você não vai precisar lá.

Eu e mamãe vamos caminhar devagar pelo calçadão, respirar o ar.

Ela não pode se esforçar.

Nada de discotecas, nada de bares até de madrugada.

Regime de sanatório.

Acordar às sete, café da manhã, tratamentos — eu combinei, ela precisa de massagem, você vai levá-la, — almoço, descanso, jantar, sono.

Dária ouvia e não acreditava no que ouvia.

— Você quer que, nas minhas férias, eu leve sua mãe para fazer massagem? — perguntou ela, erguendo os olhos para ele.

— E quem mais? — admirou-se sinceramente Maksim.

— Eu, por acaso?

Eu sou homem, eu vou descansar.

Eu sou o provedor, fui eu que ganhei esse dinheiro.

E você é mulher.

Cuidar é da sua natureza.

Você tem pernas jovens, corre lá, agenda, acompanha, espera no corredorzinho.

Não é difícil para você, e para mamãe vai ser agradável.

Ela é velhinha, Dasha.

Precisa de atenção.

Ele se inclinou para perto dela, e o rosto ficou muito próximo.

Ele cheirava a café e suor velho — provavelmente tinha ficado nervoso quando foi comprar a passagem.

— E grava isso, — sibilou, olhando diretamente nas pupilas dela.

— Nada de álcool.

Mamãe não suporta cheiro de bebida.

Você vai tomar suco.

E se vestir com mais modéstia.

Não precisa constranger a velhinha com esses seus decotes.

Você não vai para lá balançar a bunda, mas para ajudar.

Entendeu?

Dária ficou em silêncio.

Ela olhava para aquele homem e via a máscara cair.

Por trás da fachada de marido atencioso sempre estivera escondido esse tirano doméstico, filhinho da mamãe, para quem a esposa era apenas uma função conveniente, um acessório da rotina.

Só que antes não havia surgido ocasião para mostrar isso de forma tão nítida.

E agora, quando teve de escolher entre o conforto da mãe e os sentimentos da esposa, ele não apenas escolheu a mãe.

Ele decidiu destruir a esposa para não sentir culpa.

— Você me considera uma empregada, — constatou ela.

Não era uma pergunta.

— Eu considero você minha esposa, — cortou Maksim, endireitando-se.

— E a esposa deve partilhar dos interesses do marido.

Meu interesse agora é a saúde da minha mãe.

Se para você isso é ser “empregada”, então você tem problema na cabeça.

E, no mais, chega de ficar sentada no chão.

Levante e arrume as coisas da mamãe.

Vou buscar as bolsas agora.

Quero tudo bem organizado.

E sim, libere mais metade da mala.

Eu esqueci, ela ainda vai levar o medidor de pressão e o inalador, e eles ocupam volume.

Ele se virou e saiu do quarto, passando por cima da lingerie espalhada como se fosse lixo.

— Você tem uma hora, Dária.

Se, quando eu voltar, a mala não estiver pronta para as coisas da mamãe, eu jogo o resto das suas roupas pela janela.

Direto na rua.

Entendeu?

A porta bateu com tanta força que os vidros das janelas tremeram.

Dária ficou sentada no chão entre as ruínas do seu guarda-roupa e da sua vida familiar.

No silêncio do apartamento, só se ouvia o tic-tac do relógio de parede, contando os minutos até o fim inevitável.

Mas não havia medo.

Havia compreensão: o ponto de não retorno já tinha sido ultrapassado.

E agora restava apenas uma coisa — levar esse espetáculo até o final, aquele final que o próprio Maksim havia dirigido para si, sem sequer suspeitar no que aquilo acabaria para ele.

O som da chave girando na fechadura soou como o tiro de largada de uma corrida.

Dária nem se sobressaltou.

Continuava sentada na beira da cama, olhando para o quarto devastado, onde sua lingerie rendada jazia misturada à poeira, como pétalas caídas na lama.

Maksim entrou no quarto de costas.

Arrastava atrás de si duas bolsas enormes e estufadas — daquelas xadrezes com que os sacoleiros viajavam nos anos noventa.

Das bolsas vinha um cheiro forte e pesado de corvalol, lã velha e algo azedo, senil.

Esse odor preencheu imediatamente o espaço, expulsando os restos do perfume de Dária.

— E então? — Maksim largou as bolsas no meio do quarto, bem em cima do robe de seda dela.

Ele enxugou o suor da testa com a manga.

— Não estou entendendo.

Por que a mala está vazia?

Eu mandei liberar espaço.

Ou você não entende russo?

Ele olhou em volta do quarto e o rosto escureceu.

Dária não tinha saído do lugar nem um centímetro.

Ela olhava para o marido com olhos secos e inflamados, nos quais já não havia nem amor nem mágoa — apenas uma curiosidade fria, quase anatômica.

— Estou esperando, — disse ela em voz baixa.

— Você não terminou.

Você falou da massagem.

O que mais entra nas minhas obrigações?

Diz a lista inteira, por favor.

Eu quero entender o volume de trabalho.

Maksim bufou, desabotoando o primeiro botão da camisa.

Estava com calor, exaltado, mas o tom calmo dela o desorientava.

Ele esperava histeria, lágrimas, súplicas, mas não aquele tom profissional.

— Está debochando de mim? — ele deu um passo em direção a ela, pairando por cima.

— Que lista?

Isso é comportamento humano!

Mas se você é burra, eu explico.

Escuta com atenção, não precisa anotar, você vai lembrar.

Ele começou a dobrar os dedos, e a cada dedo dobrado Dária sentia uma mola se apertando dentro dela.

— Primeiro.

Rotina.

Mamãe levanta às seis da manhã.

Ela precisa ocupar uma espreguiçadeira na sombra.

O sol faz mal para ela, mas a brisa do mar faz bem.

Você vai levantar às cinco e meia, ir à praia e ocupar um lugar embaixo do guarda-sol.

Não na areia, mas no deque de madeira, para ela poder andar com conforto.

E vai ficar lá, guardando, até nós chegarmos depois do café da manhã.

— Então eu acordo antes do amanhecer e vou trabalhar de vigia de espreguiçadeira? — perguntou Dária, sem emoção.

— Você vai cuidar da família! — berrou Maksim.

— Segundo.

Comida.

Mamãe tem uma dieta rigorosa.

Nada de bufê com suas saladas apimentadas favoritas.

Você vai andar com ela ao longo do balcão, carregar o prato dela e vigiar para que só tenha comida cozida ou no vapor.

Se faltar alguma coisa, vai até o chef e combina para fazerem peru sem sal.

Eu não vou lidar com isso, eu preciso comer direito, sou homem.

Ele chutou a bolsa xadrez, como se estivesse testando sua resistência.

— Terceiro.

Banho de mar.

Mamãe nada mal, tem medo de profundidade.

Você vai entrar na água com ela.

Vai segurar a mão dela.

Se tiver ondas, vai ficar ao lado e sustentar, para que ela não caia.

Eu nado longe, não vou ficar chapinhando na beirada como num laguinho infantil.

Essa é a sua tarefa.

Dária imaginou a cena: ela, num maiô fechado — porque um aberto constrangeria a mamãe — de pé na água até a cintura, segurando pela mão a corpulenta Tamara Ivanovna, enquanto Maksim aproveitava seu mergulho.

— Quarto, e mais importante, — Maksim abaixou a voz, e nela soaram notas de aço e ameaça.

— No quarto.

Mamãe levanta muitas vezes à noite para ir ao banheiro.

Ela tem a bexiga fraca.

Não vamos apagar a luz do banheiro, a porta vai ficar entreaberta.

A luz vai cair no quarto.

Se isso te incomodar, põe uma máscara nos olhos.

E nem pense em suspirar ou estalar a língua quando ela passar arrastando os chinelos perto da cama.

Se ela te acordar, vire para o outro lado e volte a dormir.

Entendeu?

— E se ela roncar? — perguntou Dária.

— Ela ronca, Maksim.

Muito alto.

— Aguente! — o rosto dele se contorceu de raiva.

— Coloque protetores de ouvido!

Você é uma égua jovem e saudável, só pensa em dormir.

E uma pessoa idosa está sofrendo.

Sua tarefa é garantir que ela tenha paz.

Você deve fazer com que mamãe se sinta uma rainha.

Se ela precisar passar pomada nas costas, você passa.

Se ela precisar medir a pressão, você mede.

Eu não quero ouvir um único “não quero” ou “estou cansada”.

Nós a estamos levando para se tratar, não para ouvir seus caprichos.

Dária desviou lentamente o olhar para as bolsas xadrezes.

De uma delas saía a ponta de um robe gasto.

Essa era a realidade que lhe propunham.

Não, não propunham — impunham à força, quebrando no joelho a sua vontade, os seus desejos, a sua personalidade.

— Sabe qual é a coisa mais interessante, Maksim? — ela finalmente se levantou da cama.

As pernas tremiam, mas ela estava ereta.

— Você nunca disse “nós”.

Em toda parte só existe “você”.

Você vai carregar, você vai vigiar, você vai esfregar as costas.

E você vai fazer o quê?

— E eu, — Maksim sorriu, sentindo sua impunidade e seu poder, — vou descansar.

Fui eu que paguei esse circo.

Fui eu que trouxe vocês para o mar.

O meu trabalho terminou no momento em que passei o cartão na maquininha.

Daí em diante é o seu turno.

Isso é uma divisão normal do trabalho.

O homem obtém os recursos, a mulher garante conforto e cuidado.

Assim viviam os nossos antepassados, assim você vai viver também.

Ou você achou que o carimbo no passaporte era só o direito de gastar o meu dinheiro?

Não, querida.

Isso são obrigações.

E agora chegou a hora de pagar a conta.

Ele foi até a cômoda, pegou o frasco do perfume caro dela, girou-o na mão com desprezo e o colocou de volta com um estalo seco.

— Aliás, tira esse fedor.

Mamãe tem alergia a cheiros fortes.

No quarto tem que cheirar a frescor, não a bordel.

Chega de conversa.

O tempo está passando.

Ele apontou com a cabeça para a mala aberta.

— Arruma as coisas da mamãe.

Com cuidado.

Blusas embaixo, remédios em cima, para ficarem à mão.

E vê se não amassa nada.

Maksim se virou e foi para a cozinha, lançando por cima do ombro:

— Vou beber água.

Em dez minutos quero a mala pronta.

Senão eu realmente jogo suas roupas pela janela, e você vai viajar com a roupa do corpo.

Dária ficou sozinha.

O silêncio no quarto zunia, mas agora não era vazio.

Era clareza.

Cristalina, afiada como o bisturi de um cirurgião.

Ela olhou para as bolsas xadrezes, para suas coisas pisoteadas, para a mancha de loção na parede.

Na cabeça dela, o quebra-cabeça se montou.

Não havia mais perguntas do tipo “por quê?” e “por que comigo?”.

Havia apenas uma resposta para toda aquela loucura.

Ela se aproximou do criado-mudo, onde estavam seu telefone e passaporte.

Pegou os dois nas mãos.

Os dedos apertaram o plástico frio e a capa de couro.

Maksim tinha certeza de que a havia encurralado, de que ela não tinha saída, de que a dependência financeira e o medo do escândalo a obrigariam a obedecer.

Ele havia calculado tudo, menos uma coisa.

Esqueceu que até a vítima mais paciente tem um limite, depois do qual o medo desaparece, cedendo lugar a uma raiva pura e destrutiva.

Ela não abriu as bolsas xadrezes.

Nem sequer olhou para a mala.

Dária respirou fundo, puxando para dentro aquele cheiro mofado de velhice alheia e audácia alheia, e caminhou decididamente não até o armário, mas até a escrivaninha, onde estava o notebook de Maksim.

Ele sempre o deixava ligado.

Os dedos de Dária voavam sobre o teclado com a mesma leveza assustadora com que um pianista executa uma marcha fúnebre.

A tela do notebook brilhava com uma luz azulada e fria, refletindo-se em seus olhos secos.

Um clique.

Segundo clique.

A aba do site de reservas de hotéis.

O botão “Cancelar reserva”.

A janela que apareceu com o aviso em letras vermelhas: “Multa por cancelamento no dia do check-in — 100%. Valor não reembolsável”.

O cursor hesitou apenas por uma fração de segundo.

Dária lembrou-se de como Maksim atirara sua lingerie, de como listara de forma humilhante seus deveres de “cuidadora”, de como se embriagara com o próprio poder.

Ela apertou “Confirmar”.

Imediatamente chegou ao e-mail a notificação: “Sua reserva foi cancelada”.

Duzentos mil rublos dissolveram-se no vazio digital, transformando-se em ar.

Mas isso não bastava.

Dária abriu o aplicativo do banco.

A senha estava salva no navegador — Maksim era autoconfiante demais para esconder alguma coisa da “esposa burrinha”.

Na conta conjunta ainda restavam cento e cinquenta mil — a “reserva de segurança” para o caso de emergência na viagem.

Ela digitou o número do seu cartão, aquele que Maksim nunca controlava, e transferiu todo o valor até o último centavo, com a observação: “Para roupas novas”.

— O que você está fazendo aí parada? — a voz de Maksim soou bem atrás do ouvido dela, fazendo-a se sobressaltar, não de medo, mas de repulsa.

— Fui beber água, veja só.

Eu entro e a mala continua vazia.

Você está brincando com fogo, Dasha.

Agora mesmo eu começo de verdade a jogar suas coisas pela janela.

Ele estava na porta, com um copo d’água na mão, e seu rosto expressava o mais alto grau de irritação.

Tinha certeza de que ela havia se rendido, que agora, esmagada e quebrada, começaria a arrumar as calçolas da mãe dele.

— Não precisa, — Dária virou-se lentamente na cadeira, olhando para ele com um sorriso gelado.

— Eu já liberei espaço para você.

E não só na mala.

— O quê? — Maksim franziu a testa, pousando o copo na prateleira.

— Do que você está resmungando?

Levanta e vai arrumar as bolsas!

Mamãe já está no táxi, chega em vinte minutos.

Quero que, quando ela chegar, esteja tudo pronto!

— Sua mãe não vai para lugar nenhum, Maksim.

Nem você.

Quer dizer, voar vocês até podem, as passagens estão nas mãos.

Mas vocês não vão ter onde ficar.

Maksim congelou.

Seus olhos se estreitaram, tentando captar a armadilha.

— Como assim não vamos ter onde ficar?

O nosso quarto de luxo está pago.

Você enlouqueceu?

— Não está mais, — Dária indicou a tela do notebook com a cabeça.

— Eu acabei de cancelar a reserva.

Como o cancelamento foi feito com menos de vinte e quatro horas de antecedência, o hotel reteve o valor integral da estadia.

O dinheiro sumiu.

O quarto sumiu.

Maksim empalideceu.

Correu até a mesa, empurrando a cadeira, e cravou os olhos no monitor.

Os olhos corriam pelas linhas do e-mail confirmando o cancelamento.

Ele puxava o ar pela boca, como um peixe lançado na areia.

— Sua… sua desgraçada, o que você fez?! — rugiu ele, virando-se para ela.

O rosto se inundou de sangue, as veias do pescoço saltaram.

— Isso são duzentos mil!

Você entende o que fez?!

Esse dinheiro não volta!

— Entendo perfeitamente, — respondeu Dária com calma, levantando-se.

— Você queria economizar, não queria?

Queria colocar nós três num quarto só, para não pagar a mais?

Eu resolvi o problema de forma radical.

Agora não há mais o que pagar.

— Eu vou te matar… — sussurrou ele, cerrando os punhos.

— Vou ligar agora, vou restaurar…

— Não vai restaurar.

O quarto já voltou para venda, é temporada.

E você não tem dinheiro para um novo.

Aliás, — ela tirou o telefone e mostrou a notificação da transferência recebida.

— O saldo do cartão eu também peguei.

Considere isso uma compensação pelos danos morais e pela maquiagem destruída.

Você mesmo disse: “Eu pago, então eu decido”.

Agora sou eu que pago.

E eu decidi que você está falido.

Maksim ficou parado, atordoado pela escala da catástrofe.

Seu plano, suas férias, seu dinheiro — tudo desmoronara em um minuto.

Ele olhava para a esposa e via diante de si uma inimiga que ele mesmo havia criado com o próprio desprezo.

— Devolve o dinheiro, — sibilou, dando um passo na direção dela.

— Transfere de volta agora mesmo.

Senão eu…

— Senão o quê? — Dária deu um passo na direção dele, olhando-o diretamente nos olhos.

Nela não havia uma gota de medo, apenas ódio puro, concentrado.

— Vai me bater?

Vai.

Só lembra que este apartamento está no nome do meu pai.

Um telefonema — e você voa daqui não apenas com as suas coisas, mas com a vida arruinada.

Esqueceu quem ajudou você a conseguir esse emprego?

Meu pai.

Quer perder não só as férias, mas a carreira também?

Foi um golpe baixo, mas foi justamente isso que o fez cair em si.

Ele sabia que ela não blefava.

Sua arrogância desabou como casca seca.

Restou apenas a raiva mesquinha de um bichinho acuado.

— Você é louca, — exalou ele.

— Uma psicopata doente.

Mamãe é uma mulher idosa e doente…

Nós já estamos no táxi…

Para onde eu vou levá-la?

Para o aeroporto?

Para virar mendigo na praia?

— Esse é problema seu, “provedor”, — cortou Dária.

— Você é homem.

Resolva.

Você gosta tanto de tomar decisões sozinho.

Então tome.

Alugue uma cama num hostel.

Monte uma barraca.

Não me importo.

Ela foi até aquelas mesmas bolsas xadrezes, que ainda exalavam cheiro de corvalol e velhice.

Agarrou uma delas pelas alças.

A bolsa era pesada, mas a raiva deu forças a Dária.

Ela a arrastou pelo chão, atravessando todo o quarto até o corredor.

— O que você está fazendo? — Maksim correu atrás dela, mas parou sem saber o que segurar primeiro — o telefone, para verificar as contas, ou as bolsas.

— Liberando o território, — Dária abriu a porta de entrada com um puxão.

— Você disse: “Se não gostar, fique em casa”.

Gostei muito da ideia.

Eu fico em casa.

E você vai embora.

Com sua mãe, a pressão dela, as bolsas dela e as suas férias estragadas.

Com força, ela empurrou a primeira bolsa para o patamar.

A bolsa tombou pesadamente ao passar pela soleira e caiu de lado.

— Fora! — gritou ela num tom tão forte que os vizinhos certamente ficaram em alerta atrás das portas.

— Pega a sua tralha e some daqui!

Maksim olhava para ela, e em seu olhar lia-se uma mistura de ódio e impotência.

Ele entendia que havia perdido.

Não porque ela tivesse mais direitos, mas porque se mostrara capaz de uma dureza que ele nunca esperou dela.

Em silêncio, ele agarrou a mochila, pegou a segunda bolsa da mãe e, lançando a Dária um olhar cheio de veneno, saiu para o corredor.

— Você vai se arrepender, — jogou ele, já de pé junto ao elevador.

— Vai rastejar até mim quando o dinheiro acabar.

Quem vai querer você, histérica?

— Você, com certeza, não, — Dária bateu a pesada porta metálica com toda a força.

O som da fechadura se fechando soou como o acorde final naquela sinfonia de escândalo.

Dária encostou as costas na porta, sentindo o frio do metal esfriar a pele ardente.

No apartamento, havia silêncio.

Silêncio perfeito.

Nenhum resmungo, nenhuma ordem, nenhum cheiro de remédio.

Ela voltou ao quarto.

No chão estavam suas coisas — amassadas, sujas, pisoteadas.

Na parede espalhava-se a mancha gordurosa do creme.

O quarto do hotel tinha ido por água abaixo.

A família se desfez.

O marido a odiaria para sempre.

Dária foi até a mala, deu-lhe um chute para fechá-la e sentou-se em cima.

Depois tirou o telefone, abriu o aplicativo de viagens e começou a digitar na busca: “Maldivas.

Hotel só para adultos.

1 pessoa”.

— Pressão, é… — sussurrou para o vazio do apartamento e, pela primeira vez naquela noite, sorriu.

O sorriso saiu feroz e mau.

— Pois é, o ar do mar faz bem para todo mundo.

Especialmente para quem sabe se defender…