Chamei o policial do bairro para verificar o registro de residência.
— Escuta, Galya, eu estava pensando aqui.

Isso não está certo.
Estamos juntos há cinco anos, e o apartamento ainda está no seu nome.
Resumindo, amanhã vamos ao cartório, você vai passar uma parte para mim.
Eu sou homem, sou o dono desta casa, tenho vergonha diante dos caras de morar aqui sem ter direito nenhum.
Uma situação absurda, dá para acreditar? — Igor tomou, com toda a pose, um gole do café que eu tinha acabado de fazer e ficou olhando pela janela com uma cara de quem já estava imaginando onde colocaria sua nova mesa de bilhar.
Nessa hora eu estava cortando queijo.
Uma fatia fina de “Gouda” em promoção por 150 rublos escorregou da faca e caiu no chão pegajoso.
(De novo ele derramou alguma coisa e não limpou.
Porco).
Eu não gritei.
Não deixei a faca cair.
Só apertei o cabo com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
O cheiro forte de bacon queimado demais bateu no meu nariz — Igor exigia um café da manhã “como nas melhores casas”, embora não tivesse pago um centavo por aquele café da manhã.
Nos meus ouvidos soava o toque irritante da torneira pingando.
Ping.
Ping.
Ping.
Igor prometeu consertá-la há um mês.
O dono da casa, droga.
Apareceu e agora não sai mais.
— Como assim passar, Igorzinho? — virei-me devagar para ele, enxugando as mãos no avental.
O avental era velho, manchado, mas limpo.
Ao contrário da consciência do meu queridíssimo maridinho.
— Acho que você exagerou na cerveja de ontem.
O que você tem a ver com este apartamento?
— Ah, não começa com a sua ladainha, — Igor fez uma careta, como se de repente estivesse com dor de dente.
— Nós somos uma família.
Caixa comum e tudo mais.
Fui eu que preguei os rodapés aqui?
Fui.
Montei o armário da entrada?
Montei.
Então tenho direito.
E você, qualquer coisinha, logo vem com “meu apartamento, minha hipoteca”.
Você me sufoca, Galya.
Me sufoca com o seu materialismo.
Resumindo, amanhã às duas.
Eu já acertei tudo.
Sentei-me devagar no banquinho.
De repente ficou difícil ficar de pé, as pernas pareciam de chumbo.
É inacreditável mesmo.
Ele pregou os rodapés.
Justamente aqueles que soltaram uma semana depois e que fui eu mesma que colei com “pregos líquidos”.
Deixem-me contar para vocês sobre esse “caixa comum”.
Cinco anos atrás, quando fomos morar juntos, eu estava nas nuvens.
Eu era uma idiota.
Uma idiota apaixonada.
Esse apartamento eu arranquei na base dos dentes.
Cinco anos sem férias.
Trabalho na farmácia em dois turnos, plantões noturnos, bicos na internet.
Esqueci como era um par de botas novas.
Usei as mesmas botinhas por quatro anos, colando a sola com supercola.
Cada rublo ia para o banco.
Cada copeque ia para amortização antecipada.
E Igor?
Nesse tempo Igor “estava se encontrando”.
Ora era corretor de imóveis, ora gerente de venda de fumaça, ora simplesmente estava em “crise criativa”.
Dos cinco anos de casamento, ele trabalhou no total um ano e meio.
Mas pose ele tinha para sentar numa cadeira de ministro.
Dá para acreditar: ele me diz que eu sou materialista.
Eu, que pago a luz, a água, os cigarros dele e aquela linguiça que ele agora mastiga com tanta animação.
— Escuta aqui, dono da casa, — falei num tom baixo, gelado.
Esse é sempre um sinal certo de que, por dentro, tudo já virou cinza.
— O apartamento foi comprado antes do casamento.
A entrada foi paga com o dinheiro da herança da minha avó.
A hipoteca foi quitada com os meus bônus.
Você está registrado aqui temporariamente, por pura bondade minha.
Não vai haver cartório nenhum.
Assunto encerrado.
De repente o rosto de Igor mudou por completo.
O sorrisinho desapareceu, os olhos se estreitaram.
Ele bateu a xícara na mesa com tanta força que o resto de café espirrou na minha toalha limpa.
(Que você se engasgue, parasita).
— Ah, é assim?
Então aqui eu não sou ninguém?
Um encostado? — ele se levantou e ficou por cima de mim.
Dele vinha cheiro de sono velho e tabaco barato.
— Você, Galka, perdeu completamente a noção.
Eu sou homem.
Sou o chefe da família.
Pela lei, tudo o que existe no casamento é comum.
Liguei para um advogado.
Ele disse que, se eu provar que investi na reforma, metade pode ser minha.
Então ou você me dá essa parte numa boa, ou eu vou te arrastar pelos tribunais.
Você vai sair daqui voando como uma rolha de garrafa.
Nossa, como você é esperta.
Achou que tinha encontrado um otário?
Eu olhava para ele e não o reconhecia.
Como assim ele ligou para um advogado?
Então ele estava planejando isso?
Enquanto eu ontem estava no turno até meia-noite, ele estava desenhando esquemas para me tomar a casa?
Mas veja só.
Senti um suor frio e pegajoso escorrer pelas costas.
Alguma coisa dentro de mim fez clique.
Sabe aquela sensação quando você aguenta, aguenta, aguenta, e depois — pá — silêncio.
Absoluto.
— Investiu? — eu sorri com ironia.
— E tem recibos?
Daqueles famosos três pregos e da lata de tinta que a minha mãe comprou?
— Tenho tudo! — gritou Igor, e o rosto dele ficou coberto de manchas vermelhas.
— E tenho testemunhas!
Os caras vão confirmar como eu trabalhei aqui!
Resumindo, Galya, não me irrita.
Ou amanhã vamos ao cartório, ou agora mesmo eu vou botar ordem nessa casa de um jeito que você não vai gostar.
Minha casa, minhas regras!
Ele se virou e foi para o quarto.
Um minuto depois veio de lá o som de uma furadeira ligada.
Vzz.
Vzz.
Inacreditável.
Ele decidiu começar a “reforma” para fixar seus “investimentos”.
Entrei na sala.
Igor, com um sorriso de fera, estava furando a parede da entrada, bem acima do meu espelho favorito.
O reboco voava sobre o tapete que eu tinha trazido da lavanderia uma semana antes.
— O que você está fazendo, idiota? — tentei arrancar a furadeira da mão dele.
— Estou abrindo a parede!
Aqui tem poucas tomadas! — ele me empurrou com o ombro.
— Sai da frente, mulher, não atrapalha um homem trabalhando!
Fiquei ali olhando a poeira cinza pousar sobre os móveis.
Meu nariz ardia por causa da cal.
Naquele momento eu entendi: acabou.
O capítulo “Igor e Galya” tinha terminado.
Eu errei.
Acontece.
Mas erro tem que ser corrigido rápido, antes que ele devore a sua vida inteira.
Eu não discuti.
Não chorei.
Apenas fui até a cozinha, peguei o telefone e disquei um número.
— Alô, Stepan Ivanitch?
Bom dia.
É a Galina, do quarenta e cinco.
Sim, a da hipoteca.
Escute, eu tenho uma emergência aqui.
Uma pessoa estranha está destruindo o apartamento.
Sim, está ameaçando.
Não, não está registrada permanentemente.
O registro temporário venceu há um mês, eu esqueci de renovar.
Pode verificar no sistema?
Sim, estou esperando.
Igor, ao ouvir a minha ligação, desligou a furadeira.
Saiu para o corredor, limpando a testa com a mão suja.
— Para quem você está ligando?
Ficou maluca de vez?
Que polícia o quê?
Eu sou seu marido!
— Era meu marido, Igorzinho.
Até o momento em que você decidiu dividir o meu apartamento.
Agora você é um cidadão sem registro válido, presente ilegalmente numa propriedade privada.
— Você… você não vai ousar! — ele deu um passo na minha direção, levantando a furadeira como se fosse um porrete.
Eu não me mexi.
Só olhei diretamente nos olhos dele.
Com aquele olhar gelado.
— Tenta só para ver.
O policial do bairro chega aqui em três minutos.
Ele é meu cliente fixo na farmácia, temos uma boa relação.
Quer passar quinze dias preso por desordem?
Vai em frente.
Igor murchou.
Não de imediato, mas devagar, como um pneu furado.
Ele jogou a furadeira no chão.
O barulho do metal no laminado bateu forte nos meus ouvidos.
— Víbora, — sibilou entre os dentes.
— Cobra traiçoeira.
Você estragou a minha vida inteira.
Os caras tinham razão — não se deve se envolver com carreiristas.
Vocês têm uma calculadora no lugar do coração.
— No lugar do coração eu tenho metros quadrados conquistados honestamente, Igor.
Aqueles que você decidiu roubar.
Cinco minutos depois a campainha tocou.
Curta, exigente.
O tilintar da chave, passos pesados na entrada.
Stepan Ivanitch, um homem corpulento de uniforme, cheirando a tabaco barato e dever de serviço, entrou no apartamento.
— Então, o que temos aqui?
Briga de família de novo? — ele lançou um olhar para a bagunça no corredor, o buraco na parede e Igor pálido.
— Stepan Ivanitch, — estendi a ele a pasta com os documentos.
— Aqui está o certificado de propriedade.
Aqui está o extrato do registro de residência.
Esse cidadão não está mais registrado aqui.
Peço sua ajuda para retirá-lo daqui.
Ele está se comportando de forma agressiva e danificando a propriedade.
Igor ainda tentou balbuciar alguma coisa sobre “caixa comum” e “o homem da casa”, mas o policial apenas grunhiu e olhou para ele como se olha para um piolho.
— Escuta aqui, dono da casa.
Você tem documentos do imóvel?
Não?
E registro?
Também não.
Então é o seguinte: junta as tuas coisas.
Você tem cinco minutos.
Se não der tempo, vamos registrar como resistência.
Galina, a senhora se importa se ele levar as coisas dele?
— Pode levar, — assenti.
— Mas rápido.
É impressionante como as pessoas arrumam as coisas depressa quando a lei fardada está respirando no cangote delas.
Igor corria pelo apartamento, jogando as roupas numa velha bolsa esportiva.
Cuecas, meias, carregadores de celular — tudo ia parar num monte só.
Ele não dobrava com cuidado, como eu fazia antigamente.
Só amassava tudo, sufocado pela raiva.
— Você vai se arrepender! — gritava enquanto vestia a jaqueta.
— Vai rastejar até mim!
Quem vai consertar a sua torneira?
Quem vai pregar uma prateleira?
Você vai morrer aqui sozinha entre essas paredes!
— A torneira um técnico conserta por quinhentos rublos, Igor.
E a prateleira eu mesma já preguei.
Vai embora.
Stepan Ivanitch o levou pelo braço até a porta.
Igor ainda gritava alguma coisa na escada, batia portas, prometia castigo divino.
Os vizinhos provavelmente já estavam colados nos olhos mágicos.
Tudo bem.
Que olhem.
A moleza acabou.
Quando a porta se fechou, eu não deslizei pela parede.
Apenas tranquei a fechadura com as três voltas.
Clique.
Clique.
Clique.
Silêncio.
Meu Deus, que silêncio caiu sobre o apartamento.
Até a torneira parecia ter parado de pingar (na verdade não, eu só a fechei no banheiro).
Fui até a cozinha.
Sentei naquele mesmo banquinho.
Sobre a mesa ainda estava a xícara suja dele, com restos de café frio.
Peguei a xícara e, devagar, com um prazer estranho, deixei-a cair no balde do lixo.
Os cacos tilintaram — e foi o som mais agradável do dia inteiro.
Tirei do armário a minha reserva escondida.
Uma garrafinha de conhaque que eu guardava “para compressas”.
Servi uma dose.
Bebi.
Ardeu.
Bom.
Escuta, só agora percebi o quanto eu estava cansada.
Cansada de carregar esse mal-entendido humano que se considerava “o dono da casa”.
Cansada de economizar comigo mesma para que ele pudesse “procurar a própria vocação”.
Estou com medo?
Bem, um pouco.
Pagar a hipoteca agora vai ser mais difícil; antes ele ao menos jogava algumas moedinhas para a comida.
Vou ter que voltar a trabalhar um turno e meio.
Mas, em compensação — ninguém mais vai furar as minhas paredes.
Ninguém mais vai me chamar de “mulher” em tom de desprezo.
Ninguém mais vai reivindicar aquilo que eu conquistei com suor e noites sem dormir.
Amanhã vou chamar um técnico.
Vou trocar o cilindro da fechadura.
Essa é a primeira coisa.
A segunda: vou tapar aquele buraco ridículo na entrada.
Vou comprar massa, espátula…
Dou conta sozinha.
É incrível quanta coisa eu consigo fazer sozinha, pelo visto.
Como vou explicar isso às minhas amigas?
(Tínhamos um grupo em comum).
Vou dizer a verdade.
Que é melhor ficar sozinha do que com um rato que espera o momento certo para morder a mão que o alimenta.
Amanhã é sábado.
Meu primeiro dia de folga em um mês.
Vou acordar tarde.
Vou fazer para mim um café de verdade.
Vou tomá-lo devagar, olhando para o céu limpo.
E ninguém vai me dizer que eu sou “materialista”.
Apartamento não é só concreto e papel de parede.
É liberdade.
A minha liberdade pessoal, paga com anos de trabalho.
E eu não pretendo mais dividi-la com parasitas.
Soltei o ar.
Com calma.
E vocês, deixariam o marido reivindicar o seu apartamento comprado antes do casamento?







