O notário leu o testamento da sogra.

Os parentes do marido já estavam dividindo o apartamento, até ouvirem a última cláusula.

O notário pediu que ela se sentasse separada dos demais, não de propósito, apenas porque a cadeira vazia ficava junto à janela.

Tânia não se opôs.

Aliás, nesses sete anos ela aprendera a não se opor quando isso não fazia sentido.

A família Róshchin ocupava a sala de modo compacto, como se ocupa tudo aquilo que se está acostumado a considerar seu.

A sogra, Iraída Konstantínovna, partira no começo de março, em silêncio, durante o sono, exatamente como vivera os dois últimos anos: quase sem fazer ruído, mas de olhos abertos.

Tânia estava ao lado dela.

Ela sempre estava ao lado dela.

Naquela manhã, Tânia levou Dáchenka, a filha delas, para a casa da vizinha: uma criança de oito anos não devia ver aquilo.

Depois chamou todas as pessoas necessárias, telefonou para o marido no trabalho, telefonou para a cunhada Nástia, na região de Moscou, telefonou para o cunhado Díma, aquele que morava a duas quadras de distância e não aparecia na casa da mãe desde outubro.

Fez tudo o que precisava ser feito quando uma pessoa deixa de existir.

Sem histeria, sem pausas.

Simplesmente porque não havia mais ninguém.

O marido, Kirill, chegou uma hora depois.

Olhou para a mãe, olhou para Tânia, assentiu com a cabeça e saiu para a escada.

Ele sempre saía quando não sabia o que fazer.

Nástia chegou ao anoitecer, de casaco de pele e com uma mala, como se não tivesse vindo se despedir, mas para uma visita de apresentação.

Abraçou o irmão.

Olhou para Tânia como se ela fosse parte do mobiliário, algo que um dia seria preciso retirar dali.

Díma apareceu no dia seguinte.

Disse: “Que pena, não cheguei a tempo”.

Embora pudesse ter chegado a tempo mil vezes.

Depois o apartamento foi se esvaziando das vozes alheias.

Tânia ainda passou três dias lavando a louça, distribuindo os produtos que sobraram, arrumando as coisas.

Kirill foi embora tratar de assuntos.

Nástia voltou para casa.

Díma simplesmente desapareceu.

E foi então, quando tudo já estava feito e Tânia finalmente se permitiu sentar-se no velho sofá do quarto da sogra e não se mexer por uns dez minutos, que o notário telefonou.

— O testamento foi lavrado.

Peço que todos os herdeiros compareçam na quarta-feira, às onze horas.

— Todos, quem exatamente? — perguntou Tânia.

— Todos os herdeiros indicados no documento.

Ela não perguntou se estava entre eles.

Apenas anotou o endereço.

Kirill soube da ligação à noite.

Eles estavam jantando, ou melhor, Tânia estava jantando, e ele estava em pé ao lado do fogão com um copo d’água, o que sempre significava uma coisa: ia dizer algo, mas ainda não decidira como.

— Por que você vai até lá? — falou ele com calma, mas por trás dessa calma havia alguma coisa suspensa, como sempre acontece quando uma pessoa já decidiu o que pensa, mas ainda não decidiu se vai dizer em voz alta.

— O notário pediu.

— Tânia.

Você não é herdeira.

É uma formalidade, um assunto de família.

Ela olhou para ele.

— Um assunto de família — repetiu, de maneira uniforme.

— Está bem.

E não disse mais nada.

Apenas registrou no telefone: quarta-feira, 11h00, notário.

Kirill ficou parado mais um pouco, colocou o copo sobre a bancada e foi para outro quarto.

Isso também era norma.

Tânia conheceu a sogra três meses depois do casamento, tarde, mas não porque ela morasse longe.

Iraída Konstantínovna morava na mesma cidade, apenas não tinha pressa.

Trabalhara como técnica de normatização numa grande empresa de controle de trabalho a vida toda, até se aposentar aos sessenta anos.

Conhecia números melhor do que palavras.

Com as pessoas era econômica nas expressões e decidiu conhecer a nora quando considerasse necessário.

Considerou necessário três meses depois, no Ano-Novo.

Tânia guardou da primeira visita uma única frase.

Iraída Konstantínovna examinou o apartamento de dois quartos alugado por eles, que já alugavam havia três anos, economizando para a hipoteca, e disse:

— Kirill poderia ter se estabelecido melhor.

Não “prazer em conhecê-la”, não “bom apartamento”.

Apenas isso: poderia ter feito melhor.

Naquele momento, Tânia ficou em silêncio.

Kirill pareceu nem ouvir.

Depois houve um segundo encontro, um terceiro.

Iraída Konstantínovna telefonava ao filho, às vezes por uma hora inteira, e Tânia ouvia as respostas monossilábicas dele no cômodo ao lado.

Sobre ela, a sogra não perguntava absolutamente nada.

Não era grosseria: simplesmente ela não achava necessário.

As noras, na vida dela, existiam em algum canto lateral, como móveis num quarto alheio, e Tânia sabia disso.

Tudo mudou em maio daquele ano, quando Dáchenka tinha seis anos.

Iraída Konstantínovna telefonou às oito da noite.

A voz estava diferente, não aquela voz direta, nítida, como uma coluna de números, mas algo meio amassado.

— Kirill não atende o telefone.

— Ele está numa reunião até as nove — disse Tânia.

— Aconteceu alguma coisa?

Pausa.

— Eu caí.

No corredor.

Não consigo me levantar.

Tânia saiu de casa dez minutos depois, deixou Dasha com a vizinha, pegou um táxi, atravessou a cidade inteira em vinte minutos.

Iraída Konstantínovna estava deitada no chão, perto do cabide, segurando o quadril.

Seu rosto era o rosto de pessoas que passaram a vida inteira sem se permitir demonstrar dor e agora não sabiam como se fazia isso.

— É preciso chamar uma ambulância — disse Tânia.

— Não precisa de ambulância.

Apenas me ajude a levantar.

— Iraída Konstantínovna, eu não vou ajudá-la a se levantar se houver suspeita de uma lesão séria.

— Eu disse: ajude-me a levantar.

Mesmo assim ela chamou a ambulância.

Não havia fratura grave, mas o ferimento foi suficiente para que durante três semanas ela não conseguisse se levantar sem ajuda.

Nástia não veio, tinha filhos e trabalho.

Díma disse que não sabia cuidar de ninguém.

Kirill aparecia dia sim, dia não, trazia mantimentos, ficava em silêncio e ia embora.

Tânia ia todas as manhãs antes do trabalho e todas as noites depois do trabalho.

Ela trabalhava como engenheira de segurança do trabalho numa grande construtora, verificava documentação, visitava canteiros de obras, redigia relatórios.

O trabalho tinha prazos rígidos e não perdoava descuidos.

Tudo isso só podia ser conciliado com as idas matinais e noturnas à casa da sogra sob uma condição: cortar da agenda tudo o que fosse supérfluo.

Tânia cortou.

Kirill sabia disso.

Não disse nada, nem uma palavra de reconhecimento, nem uma palavra de explicação.

Apenas aceitou como um dado da realidade.

A família Róshchin sabia aceitar o trabalho alheio como um dado da realidade: Tânia entendera isso já no primeiro ano.

Três semanas viraram dois meses: Iraída Konstantínovna passou a ter problemas de pressão, depois nos rins, depois começou alguma coisa com a memória.

Nada brusco, nada dramático, simplesmente gradual, como quando um bom tecido começa a desbotar: primeiro quase imperceptivelmente, depois cada vez mais.

Ela começou a confundir os dias.

Depois os meses.

Uma vez telefonou para Tânia às três da manhã e perguntou onde estava Kirill, porque ele não voltara da escola.

Kirill tinha quarenta anos.

— Ele está em casa, Iraída Konstantínovna.

Está dormindo.

Está tudo bem.

— Tem certeza de que está dormindo?

— Absoluta.

Eu conferi.

— Está bem.

Você, Tânia, é boa.

Eu antes não entendia isso.

Ela jamais repetia esse tipo de coisa à luz do dia.

Só à noite, quando a barreira entre o que se pensa e o que se diz ficava mais fina.

Tânia pousava o telefone e ficava deitada por muito tempo, de olhos abertos, pensando que a velhice é uma coisa estranha.

Que as pessoas passam a vida inteira construindo ao redor de si muros de regras, hábitos, papéis sociais, e só quando esses muros começam a se desfazer é que se vê o que havia por trás deles.

Nem sempre algo ruim.

Às vezes era isto: você é boa, eu antes não entendia isso.

Com Nástia, o tratamento era equilibrado, sem calor especial, mas também sem hostilidade.

Nástia era daquelas pessoas que amam a família em palavras: nas conversas, nas redes sociais, nas festas.

Ela de fato amava a mãe, à sua maneira, à distância.

Mandava dinheiro todos os meses.

Ligava aos domingos.

Quando a mãe se queixava, escutava e dizia as palavras certas.

Só que estar presente, fisicamente, todos os dias, isso não era com ela.

Díma era mais simples.

Díma era o tipo de pessoa que evita a vida inteira tudo o que exige esforço, com uma coerência tamanha que aquilo já parecia um princípio.

Trabalhava como expedidor numa pequena base de transporte, morava a dez minutos da mãe, às vezes lhe levava frutas e considerava isso suficiente.

Tânia não julgava nem um nem outra.

As pessoas são diferentes.

Só que acabava acontecendo de todo o resto ser feito por ela.

Houve uma conversa, em outubro, cerca de cinco meses antes de Iraída Konstantínovna morrer.

Tânia chegou à noite, a sogra estava de bom humor, isso acontecia, principalmente no começo da semana.

Tomavam chá, e de repente Iraída Konstantínovna perguntou:

— Você não guarda rancor de mim?

Tânia se surpreendeu.

— Por quê?

— Porque antes eu não a aceitava.

Considerava você uma estranha.

— E agora a senhora já não me considera assim?

A sogra ficou calada.

Depois disse, sem olhar para Tânia, olhando para algum ponto à frente:

— Sabe, a vida inteira eu pensei que os nossos deviam ficar acima dos de fora.

Isso é certo, isso é lógico.

Os outros são temporários.

— E?

— E talvez eu estivesse errada.

Acontece.

Ela não voltou mais a esse assunto.

Tânia também não.

Terminaram o chá, Iraída Konstantínovna pediu que arrumasse o cobertor, e tudo seguiu como sempre.

Mas Tânia guardou aquilo na memória.

Nem tanto as palavras, mas a entonação.

O jeito como soa uma confissão numa pessoa que passou a vida inteira sem saber admitir.

E só agora, no cartório do notário, ela entendeu: aquela conversa não fora casual.

Iraída Konstantínovna já tinha decidido tudo naquela época.

Só não tinha dito.

O escritório do notário ficava numa casa antiga, com tetos altos e caixilhos de madeira que já deviam ter sido trocados havia muito tempo, mas por algum motivo não eram.

Tânia chegou às dez para as onze.

Nástia e Díma já estavam lá, sentados lado a lado, conversando baixinho sobre alguma coisa.

Kirill estava atrasado sete minutos, o que era normal para ele.

Quando Tânia entrou, Nástia levantou os olhos.

— O que você está fazendo aqui?

— Fui chamada.

— Quem chamou você?

— O notário.

Nástia trocou um olhar com Díma.

Ele deu de ombros com o ar de uma pessoa a quem tanto faz, porque por dentro já decidira tudo.

Enquanto esperavam Kirill, pairava na sala de espera aquele silêncio que existe entre pessoas que não têm sobre o que falar, mas já também não conseguem fingir que está tudo bem.

Nástia rolava o telefone.

Díma examinava um cartaz na parede, o horário de funcionamento do cartório.

Tânia olhava para as próprias mãos.

Kirill entrou às 11h06.

Viu Tânia, desacelerou um pouco, mas não disse nada.

Sentou-se ao lado da irmã.

O notário, Vadim Serguéievitch, uns cinquenta e cinco anos, de óculos presos a uma corrente, os recebeu assim que todos se reuniram, sem preâmbulos desnecessários.

— Por favor, sentem-se.

Ele abriu a pasta.

Nos primeiros minutos, Tânia quase não ouvia, estava olhando para as mãos.

Para as próprias mãos, que nos dois últimos anos haviam sabido tudo: qual era a pressão de Iraída Konstantínovna de manhã, quais palavras a acalmavam às três da madrugada, quando ela sonhava alguma coisa ruim.

As mãos se lembravam de tudo isso.

A cabeça também.

Kirill estava sentado ereto.

Nástia segurava o telefone debaixo da mesa.

Díma observava o desenho do papel de parede.

Vadim Serguéievitch lia de forma uniforme, sem pausas nem ênfases, como leem as pessoas para quem aquilo é um texto de trabalho, e não a vida de alguém:

— …o apartamento de três cômodos, com área total de setenta e quatro metros quadrados, registrado em nome de Iraída Konstantínovna Róshchina no ano de mil novecentos e noventa e oito, deixo para Tatiana Pávlovna Róshchina, minha nora.

O silêncio foi tão grande que Tânia ouviu alguém bater a porta de um carro na rua.

— O quê? — disse Nástia, não muito alto, mas com extrema nitidez.

O notário continuou, sem pausa, sem olhar para o lado:

— O terreno da casa de campo no povoado, seiscentos metros quadrados com casa de moradia, deixo para Tatiana Pávlovna Róshchina, minha nora.

Os recursos financeiros na conta bancária, no valor de oitocentos e quarenta mil rublos, destino à educação da neta, Róshchina Dária Kiríllovna.

Nomeio Tatiana Pávlovna Róshchina administradora desses recursos.

Vadim Serguéievitch virou a página.

— É só isso? — perguntou Nástia, e naquela pergunta já havia tanta coisa que ela deixara de ser uma pergunta muito antes.

— Há ainda um anexo.

Uma carta pessoal da testadora.

Pela lei, ela não faz parte do testamento, mas foi juntada ao processo como explicação da vontade.

Sou obrigado a lê-la na presença de todas as partes.

— Isso é falso. — Nástia se levantou.

— Mamãe não podia ter escrito isso.

Ela estava… nos últimos meses ela já não raciocinava direito.

— O testamento foi lavrado em vinte e dois de setembro do ano passado — Vadim Serguéievitch olhou por cima dos óculos.

— Iraída Konstantínovna foi pessoalmente avaliada pelo notário, sua capacidade civil foi confirmada.

O documento foi autenticado em total conformidade com as exigências do código civil.

Se vocês têm fundamentos para contestá-lo, isso é assunto de tribunal, não deste gabinete.

— Kirill — Nástia virou-se para o irmão.

— Diga alguma coisa.

Kirill permanecia em silêncio.

Olhava para Tânia.

E, pela primeira vez em toda a manhã, Tânia não conseguia decifrar o olhar dele.

— Dim — Nástia puxou o cunhado pela manga.

— Nástia, deixa ele terminar de ler — disse ele em voz baixa.

E havia alguma coisa no tom dele que fez Nástia, inesperadamente para todos, se calar.

Ela voltou a sentar-se.

Havia em seus movimentos algo de uma pessoa a quem de repente arrancaram o apoio, não todo, mas justamente aquele em que ela contava se apoiar.

Vadim Serguéievitch tirou uma folha.

Uma folha comum, pautada, arrancada de um caderno.

A caligrafia era irregular, mas reconhecível.

Ele começou a ler:

— “Vivi muito e vi muita coisa.

Vi quem vinha me ver quando era conveniente para si e quem vinha quando eu precisava.

A diferença é grande, embora muitas vezes as pessoas não a percebam ou finjam que não percebem.

Tânia entrou na nossa família em silêncio.

Eu não a aceitei logo de início, digo isso com sinceridade.

Pensava: é uma estranha, não é das nossas.

Mas depois adoeci.

E tudo se colocou no devido lugar.

Meus filhos me telefonavam.

Nástia mandava dinheiro nos feriados, um bom dinheiro, não reclamo.

Díma às vezes aparecia, uma vez a cada três meses, trazia laranjas.

Eles me amavam à sua maneira, eu entendo.

Mas à noite, quando eu me sentia mal, quem eu chamava era Tânia.

Quando era preciso ir ao médico, quem me levava era Tânia.

Quando eu esquecia em que ano estávamos, era ela que se sentava ao meu lado e me contava.

O apartamento eu conquistei sozinha.

É meu, e eu disponho do que é meu.

Que o receba quem o mereceu.

Aos meus filhos, o meu amor.

Mas amor e patrimônio são coisas diferentes.

Já passou da hora de entender isso.

Iraída”.

Vadim Serguéievitch dobrou a folha.

Com cuidado, seguindo a dobra.

Guardou-a na pasta.

Tânia não chorava.

Não sabia o que sentia naquele momento, coisas demais haviam convergido num único ponto para que aquilo pudesse ser chamado por uma só palavra.

Só uma ideia girava em sua cabeça: ela sabia.

Ela sabia de tudo e ficara calada.

Iraída Konstantínovna jamais lhe dizia uma palavra bondosa diante dos outros.

Jamais a elogiava.

Às vezes era ríspida, exigente, injusta, como costumam ser pessoas que sofrem e não sabem dizer isso de outro modo.

Mas ela via.

Ao que parece, via tudo esse tempo inteiro.

— Isso não é justo — disse Nástia.

A voz dela era uniforme, quase sem entonação, o que era mais assustador do que qualquer grito.

— Nós somos os filhos dela.

Temos direito.

— O testamento é um direito do proprietário — respondeu o notário.

— Eu entendo muito bem o que o senhor vai me dizer do ponto de vista da lei — Nástia inclinou-se um pouco para a frente.

— Estou falando de outra coisa.

Isso é injusto.

— Justiça é um conceito que cada um interpreta à sua maneira.

Juridicamente, o documento é irrepreensível.

— Kirill. — Nástia voltou a virar-se para o irmão.

— Você entende o que está acontecendo?

Ela é sua mulher.

Você está satisfeito?

Kirill finalmente falou:

— Nástia, não agora.

— E quando?

Quando ela já tiver resolvido tudo em cartório?

— Eu disse: não agora.

Havia na voz dele algo que Tânia nunca tinha ouvido nesse contexto.

Algo firme, não raiva, não defesa, mas firmeza mesmo.

Como se ele tivesse tomado alguma decisão ali mesmo, naquela cadeira, enquanto o notário lia a carta.

Nástia se calou.

Olhou para o irmão, depois para Díma.

Díma estudava a caneta sobre a mesa, girando-a entre os dedos, como se isso o ajudasse a não pensar.

— Está bem — disse Nástia em voz baixa, e naquele “está bem” não havia submissão, mas adiamento.

— Está bem.

Saíram para a rua em momentos diferentes.

Nástia saiu primeiro, sem se despedir, depressa, como saem as pessoas de um lugar que querem esquecer.

Díma saiu em seguida, disse apenas: “A gente se fala”, embora fosse claro que não se falariam, pelo menos não tão cedo.

Tânia ficou parada na escadaria olhando para o asfalto molhado.

Março ainda não decidira o que queria ser, inverno ou primavera.

As árvores estavam nuas, o céu cinzento, e só uma poça junto ao meio-fio refletia um pedaço de nuvem branca, inesperadamente limpa no meio de todo o resto.

Kirill saiu por último.

Parou ao lado dela.

Ficaram em silêncio por muito tempo, não que não houvesse o que dizer, apenas nenhum dos dois queria ser o primeiro a falar.

— Você sabia? — perguntou ele enfim.

— Não.

— Não sabia mesmo?

— Não sabia mesmo.

Houve uma conversa no outono.

Mas ela não disse nada sobre o testamento.

Ele assentiu.

Tornou a ficar em silêncio.

Depois:

— Ela tinha razão.

Sobre nós.

Nós não íamos visitá-la.

Tânia não respondeu.

O que havia para dizer?

— Eu devia ter ido mais vezes — disse Kirill.

A voz era uniforme, sem dramatização.

— Eu sei.

Era difícil para mim vê-la naquele estado.

Isso não é desculpa.

— Não — concordou Tânia.

— Não é desculpa.

Ele se virou para ela.

— Você está com raiva de mim?

Ela ficou em silêncio por um momento.

Não por aparência.

— Agora não.

Agora eu só estou cansada.

Ela estava cansada.

Não magoada, não triunfante, apenas cansada.

De dois anos de madrugadas, de telefonemas noturnos, de fazer algo importante e ver isso ser tratado como obrigação natural.

— O que você vai fazer agora? — perguntou Kirill.

— Com o apartamento?

— Com tudo.

Tânia levantou a gola do casaco.

O vento estava frio, abril com seu calor ainda demoraria a chegar.

— Não sei — disse com sinceridade.

— Por enquanto, não sei.

Caminharam até o carro em silêncio.

Depois Kirill de repente parou, bem no meio da calçada, de modo que Tânia deu um passo à frente e se virou.

— Eu nunca agradeci a você.

Pela mamãe.

Por todo esse tempo.

Tânia olhou para ele.

Kirill, alto, um pouco curvado, com aquela expressão que as pessoas têm quando dizem algo muito importante e, ao mesmo tempo, têm muito medo de que aquilo não pareça importante o bastante.

— Você podia ter agradecido — disse ela.

— Eu sei.

Ela não acrescentou nada.

Continuou andando.

Ele a alcançou alguns passos depois e seguiu ao lado dela.

A formalização vai levar alguns meses.

Nástia pode contestar na Justiça, se encontrar fundamento.

Mas fundamento precisa ser provado, e o testamento foi feito com verificação de capacidade.

Isso é demorado, caro e, muito provavelmente, inútil.

Vadim Serguéievitch disse isso com cautela, mas com clareza suficiente, enquanto Nástia saía e eles ficavam com Tânia a sós por um minuto.

— Se surgirem dificuldades, estou aqui — disse ele, devolvendo a pasta ao armário.

Tânia assentiu.

Foi buscar Dasha às quatro, como havia escrito para a vizinha.

A filha saiu correndo para o corredor com a mochila atravessada no ombro e anunciou que naquele dia, na aula de matemática, tinham estudado frações e que frações, na verdade, eram interessantes, embora todo mundo dissesse que não.

Tânia tirou-lhe o gorro, desabotoou o casaco e pensou que aquela menina pequena, tão segura de estar certa sobre as frações, um dia iria crescer, e o dinheiro que Iraída Konstantínovna poupara durante anos serviria para que esse “iria crescer” acontecesse do jeito certo.

— Mãe, por que você está calada?

— Estou pensando.

— Em quê?

— Em frações — disse Tânia.

Dasha olhou para ela com desconfiança.

— Para que você quer frações?

— Preciso delas no trabalho.

Para uns cálculos e essas coisas.

— Então está bem.

Jantaram as duas.

Kirill telefonou e disse que se atrasaria.

A voz estava uniforme, sem explicações.

Ia se atrasar, e só.

Tânia esquentou a sopa, cortou o pão, serviu chá com limão para Dasha.

Kirill chegou por volta das nove.

Dasha já dormia.

Ele tirou os sapatos no corredor, foi para a cozinha e sentou-se à mesa.

Tânia estava sentada com o telefone na mão, lendo um e-mail de trabalho.

Pousou-o.

Olharam um para o outro, nem com hostilidade, nem com calor.

Apenas se olharam.

— Nástia telefonou — disse Kirill.

— Eu imaginava.

— Disse que vai contestar.

Eu disse que isso é um direito dela.

Tânia permaneceu em silêncio.

— Eu não vou ajudá-la — acrescentou ele.

— Caso seja nisso que você esteja pensando.

— Eu não estava pensando em nada.

Você decidiu isso sozinho?

— Sozinho.

Pausa.

— Isso é o certo — disse ela enfim.

— O que mamãe escreveu.

— Eu sei — respondeu Kirill.

— Isso não torna as coisas mais fáceis para mim, mas eu sei.

Havia nele algo que Tânia não sabia nomear, mas reconheceu: ele falava como uma pessoa que encara uma coisa incômoda e não desvia o olhar.

Na manhã do dia seguinte, enquanto Tânia ainda dormia, Kirill estava sentado na cozinha com o telefone, olhando a conversa com a mãe.

Não percebeu de imediato que estava fazendo isso, apenas abriu a conversa e começou a rolar para trás.

Uma mensagem de Ano-Novo.

Uma fotografia de Dasha que Iraída pedira para enviarem.

Mensagens curtas, a mãe nunca soubera escrever longamente, só falar.

Havia áudios.

Fazia tempo que ele não os ouvia.

Abriu um, de outono, de outubro.

“Kirill, aqui é a mamãe.

Queria perguntar como vocês estão.

Hoje a Tânia esteve aqui, trouxe sopa e me ajudou a arrumar o armário.

Ela é boa para você.

Você sabe disso?”

Ele guardou o telefone.

Sabia.

Só nunca dissera isso em voz alta.

O apartamento da sogra estava vazio.

As coisas dela ainda estavam lá: o casaco no corredor, os livros na estante, as fotografias na cômoda.

Aquilo precisava ser arrumado.

Não agora, mas em breve.

Tânia foi até lá no sábado, sozinha, enquanto Kirill estava com Dasha.

Abriu a porta com a sua chave, ela já tinha essa chave fazia dois anos, desde os tempos em que chegava bem cedo, enquanto Iraída Konstantínovna ainda não se levantara, e conseguia fazer tudo o que era necessário antes do início do expediente.

O apartamento tinha aquele cheiro que existe nas casas de pessoas idosas: uma mistura de remédios, móveis velhos e mais alguma coisa indefinível, que não tem nome, mas é reconhecível de imediato.

Tânia ficou parada no corredor, apoiada na parede, e simplesmente esteve ali por alguns minutos.

Sobre a cômoda havia uma fotografia em preto e branco, pelo vestido, certamente dos anos setenta.

Iraída Konstantínovna jovem, muito ereta, com o mesmo olhar que tivera em vida, como se visse você por dentro, mas ainda não tivesse decidido o que fazer com isso.

Tânia pegou a fotografia.

Colocou-a de volta no lugar.

Seria preciso guardar aquilo.

Para Dasha.

Para que soubesse de onde vinha essa retidão.

Ela passou pelos cômodos, abriu o armário, olhou para as pilhas organizadas com cuidado.

Iraída Konstantínovna era uma pessoa de ordem: tudo em seu lugar, etiquetado, arrumado.

Até nos últimos meses, quando muita coisa já se confundia na cabeça, ela continuava dobrando as coisas da maneira correta.

As mãos se lembravam sozinhas: o corpo vive mais do que a cabeça.

Em março, algumas semanas depois de dar entrada no processo com o notário, Tânia foi até a casa de campo.

Iraída Konstantínovna nunca a convidara para lá, era território dos Róshchin: churrascos em maio, groselha em julho, batatas no outono.

Tânia só conhecia a casa de campo pelos relatos alheios.

A casa era pequena, de madeira, com varanda e uma velha macieira junto à cerca.

Nenhuma riqueza especial, apenas um lugar no qual tinham sido investidos muitos anos e muitas mãos.

Ela caminhou pelo terreno, olhou para a macieira, velha, nodosa, com a casca rachada.

A árvore claramente precisava de cuidados, vários galhos estavam secos.

Tânia tirou o telefone, fotografou e escreveu na busca: “como podar uma macieira velha na primavera”.

Um terreno também é uma espécie de plano, só que vivo.

Ela vai dar conta.

E isso também agora é dela.

Nástia ligou duas semanas depois da ida ao notário.

Kirill havia dito então que ela pretendia contestar, mas, aparentemente, algo se assentara nela nessas duas semanas.

— Eu não vou processar — disse logo, sem introdução.

— Por quê?

Pausa.

— Porque mamãe quis assim.

Eu não concordo com isso.

Mas ela tinha esse direito.

Tânia não encontrou resposta de imediato.

Esperava outra coisa: reclamações, acusações, um tom frio.

— Está bem — disse por fim.

— Não estou dizendo que isso não dói.

— Eu entendo.

— E não estou dizendo que agora somos amigas.

— Eu também não estou dizendo isso.

Outra pausa, mais longa, mas já de outra qualidade.

Não hostil.

— Dasha continua sendo minha sobrinha — disse Nástia um pouco mais baixo.

— Isso não muda.

— Não — concordou Tânia.

— Não muda.

Díma ligou um mês depois.

Tânia não esperava.

— Escuta — disse ele.

— Eu queria dizer uma coisa.

Mamãe fez o certo.

Tânia ficou em silêncio.

— Você acha isso mesmo?

— Bem.

Eu não estava lá.

Sabia que você estava, e eu não estava.

Isso não foi justo da minha parte.

Eu entendo.

Ele nunca fora um homem de muitas palavras.

Aquele “não foi justo”, pelo tom da voz, lhe custara esforço.

— Díma, você podia ter telefonado para ela mais vezes.

Pelo menos telefonado.

— Eu sei.

Era difícil para mim vê-la daquele jeito.

Antes ela era assim: reta, objetiva, tudo prático.

Depois começou a se confundir.

Eu não sabia lidar com isso.

— Ninguém sabe de imediato.

A pessoa simplesmente vai e se senta ao lado.

Longa pausa.

— Você não a julga? — perguntou ele.

— A mamãe, por ter decidido assim.

— Não — disse Tânia.

— Ela tinha o direito de dispor do que era seu.

Díma ainda ficou em silêncio por mais um tempo.

— Está bem.

Como vai Dasha?

— Bem.

E se despediram de maneira constrangida, como se despedem pessoas que ainda não sabem se voltarão a se falar.

O apartamento, de três cômodos, com tetos altos e o velho parquet que range à entrada, agora era de Tânia.

Não de Kirill, não dos dois, não “da família” naquele sentido vago em que essa palavra geralmente significa “de ninguém”.

Dela.

A conversa que ela e o marido vinham adiando aconteceu em meados de abril.

Tarde da noite, na cozinha, quando Dasha já dormia.

Tânia escutava.

Sem interromper.

Ele falou durante muito tempo.

Sobre não saber se ainda era possível reconstruir a relação deles.

Tânia respondeu com sinceridade: ela também não sabia.

Mas também já não conseguiria fingir que estava tudo normal.

Eles não brigaram.

Foi pior do que brigar.

Kirill foi morar em outro lugar no fim de abril.

Por conta própria.

Ao longo daqueles anos, eles afinal tinham feito uma hipoteca e comprado um apartamento de dois quartos, em partes iguais, como deve ser.

Mas, depois que o apartamento da sogra passou para Tânia, dividir as coisas passou a ser de outro jeito: ela permanecia com a própria parte, ele compraria a parte dela depois, ou venderiam.

Por enquanto, ele alugou um apartamento de um quarto, arrumou as coisas e foi embora num domingo, enquanto Dasha estava com a vizinha.

Antes de sair, disse apenas:

— Vou buscar Dasha na sexta-feira.

— Está bem — respondeu Tânia.

Ele ficou parado na porta por mais um segundo, como se esperasse alguma outra coisa.

Mas ela não acrescentou nada.

A porta se fechou.