— O quê, transferiste tudo para outro depósito com juros mais altos? — Anna olhava para o ecrã do telemóvel sem pestanejar.
Os números no visor brilhavam com um traiçoeiro zero perfeito.

Ainda ontem ali estava a quantia que eles tinham juntado migalha a migalha durante três anos, negando a si mesmos até uma chávena de café extra, e hoje havia apenas um vazio estéril.
Serguei acabou calmamente de mastigar um pedaço de frango frito, limpou os lábios com um pedaço de pão e só então se dignou a erguer para a mulher um olhar pesado e saciado.
Estava sentado à mesa instável do pequeno T2 alugado onde viviam, de camisola interior, e todo o seu ar irradiava a calma de uma jiboia que acaba de engolir um coelho e agora o digere numa preguiça bem-aventurada.
— Não, Ania. Nenhum depósito.
Levantei o dinheiro em numerário hoje de manhã.
Ao balcão, em dinheiro.
Assim é mais seguro.
Anna sentiu o telemóvel tornar-se escorregadio na mão por causa do suor que lhe apareceu de repente.
Na cozinha cheirava a óleo queimado e a papel de parede velho: aquele cheiro impregnara-se na vida deles, tornando-se o pano de fundo da sua poupança interminável.
No dia seguinte, exatamente às dez da manhã, eles deviam estar sentados diante do notário.
O negócio do século.
O apartamento deles.
O fim da era dos sofás alheios e das senhorias que verificam a limpeza da sanita.
— Levantaste o dinheiro? — repetiu ela, tentando manter a voz firme.
— Porquê? O agente imobiliário disse que a transferência seria feita através de uma carta de crédito.
Levar dinheiro vivo é um risco.
Onde está? Na mala? Mostra-me.
Serguei afastou o prato vazio, cruzou os braços sobre o peito e recostou-se na cadeira, que rangeu lamentavelmente sob o seu peso.
Na sua postura surgiu algo de provocador, de senhorial, algo que Anna nele raramente via, mas sempre com receio.
— Não está na mala — disse simplesmente, como quem fala do tempo.
— E amanhã não haverá negócio nenhum.
Já telefonei ao teu agente imobiliário e disse que tivemos um caso de força maior.
Cancelado.
Na cozinha ouviu-se o velho frigorífico “Saratov” a zumbir, com o compressor a tremer no canto.
Anna pousou lentamente o telemóvel sobre a mesa.
O ecrã apagou-se, refletindo o seu rosto pálido.
— Que força maior, Serioja? — perguntou ela muito baixinho.
— Entregámos cinquenta mil de sinal.
Se amanhã não aparecermos, esse dinheiro perde-se.
Percebes? Vamos perder cinquenta mil assim, sem mais nem menos.
Onde está o dinheiro?
Serguei estalou a língua, exprimindo o mais alto grau de irritação com a falta de entendimento dela.
Levantou-se, foi até ao frigorífico, tirou uma lata de cerveja, abriu-a com um sibilar e bebeu um longo gole.
— Já chega com isso: dinheiro, dinheiro…
Sabes pensar noutra coisa além de dinheiro? Uma pessoa, por acaso, tem um acontecimento destes uma vez na vida.
E tu agarraste-te aos teus metros quadrados como uma lapa.
Anna levantou-se.
As pernas pareciam de algodão, mas dentro dela começou a subir uma onda quente e sufocante.
Olhava para o marido, para a forma como ele lambia a espuma dos lábios, e o puzzle na sua cabeça começava a compor-se numa imagem monstruosa.
Lena.
A irmã mais nova dele.
“A princesa” a quem faltava sempre dinheiro, ora para um iPhone novo, ora para uma viagem à Turquia.
Lena, que se ia casar naquele sábado.
— Deste o dinheiro à Lena? — perguntou Anna.
Não era uma pergunta, era uma afirmação.
Serguei bateu com a lata na mesa com tanta força que o saleiro saltou.
— Sim, tirei todo o dinheiro da conta da hipoteca! À Lenka faltava dinheiro para a limusine e para o banquete num restaurante de luxo para o casamento! Ela é a minha única irmã, merece um conto de fadas! E nós continuamos a viver numa casa alugada, não vais cair aos bocados! Pára de choramingar, ou dou-te eu agora uma vida feliz!
As palavras ficaram suspensas no ar, pesadas e densas como smog.
Anna olhava para ele e não o reconhecia.
Diante dela não estava o homem com quem durante três anos comeu massa sem nada e andou no inverno com botas de meia-estação para pôr mais mil rublos de lado.
Diante dela estava um estranho, um homem insolente que decidira ter o direito de dispor da vida dela, das suas privações e do seu sonho por causa do capricho de uma rapariga qualquer.
— Três milhões… — sussurrou Anna.
— Deste três milhões por comida e bebida? Por uma única noite? Serioja, estás em ti? Eram as nossas poupanças! O meu prémio, os meus biscates, tudo aquilo que juntámos!
— Não tuas, nossas! — interrompeu-a ele, apontando-lhe o dedo.
— Eu sou o chefe da família, eu é que decido para onde vai o orçamento.
A Lenka ligou-me em lágrimas.
O noivo parece ser um tipo manhoso, os pais dele não têm dinheiro, e ela queria que tudo fosse do mais alto nível.
Queria o “Plaza”, fogo de artifício, vestido de alta-costura.
O que é que eu devia ter dito? “Desculpa, maninha, nós estamos aqui a comprar um apartamentinho, desenrasca-te numa cantina”?
Era isso?
— Sim! — gritou Anna, levantando a voz pela primeira vez.
— Era exatamente isso que devias ter dito! Porque nós vivemos num pardieiro! Porque há três anos que não temos férias! Porque eu ando com um casaco que já usava na universidade!
— Não grites — fez uma careta Serguei, como se tivesse dores de dentes.
— Os vizinhos vão ouvir.
Que importância tem um apartamento?
Compramo-lo depois.
Daqui a um ano, daqui a dois.
Os preços vão baixar, o mercado vai afundar.
Eu calculei tudo.
Entretanto a minha irmã está feliz.
Nós somos família, Ania.
Do mesmo sangue.
E tu comportas-te como uma egoísta.
Custa-te assim tanto? Ganhamos mais dinheiro.
Temos braços e pernas.
Dizia-o com tal leveza, como se se tratasse de cem rublos perdidos e não dos alicerces do futuro deles.
Nos seus olhos não havia um grama de culpa, apenas a autossuficiente certeza de que tinha razão.
Sentia-se um herói, um salvador, um irmão generoso que com um gesto largo atirara milhões aos pés da irmãzinha adorada.
E a esposa…
A esposa que aguentasse.
Ela era dos seus, para onde iria?
Anna passou o olhar pela cozinha.
O linóleo gasto, remendado com fita adesiva nas juntas.
O teto enegrecido por cima do fogão.
A torneira que pingava, enlouquecendo-a durante a noite.
E percebeu que apartamento nenhum iria existir.
Nunca.
Porque para Serguei haveria sempre uma “irmã única”, uma “mãe doente” ou um “tio afastado” a precisar mais.
— Tu não deste apenas o dinheiro — disse ela num tom glacial que, por um segundo, deixou Serguei desconfortável.
— Roubaste-nos três anos de vida.
Pegaste no meu tempo, no meu trabalho, nos meus nervos, e despejaste tudo na sanita de um restaurante de luxo.
— Ai pronto, lá começou — Serguei acenou com a mão e bebeu mais um gole de cerveja.
— Agora vais começar a contar quem pôs quanto.
Eu sou homem, eu ganho dinheiro, eu decido.
Assunto encerrado.
A Lenka mandou o convite, amanhã vamos escolher-me um fato.
Não queres que eu vá ao casamento com aquela roupa velha com que vou trabalhar, pois não? É preciso estar à altura.
Vão lá estar pessoas decentes.
Estava sentado diante dela, escarrapachado na cadeira, na sua camisola interior esticada, naquela cozinha miserável, e falava de “pessoas decentes” e de estar à altura de um nível que tinha pago com dinheiro roubado à própria mulher.
O contraste era tão monstruoso que Anna sentiu algo romper-se dentro dela.
A corda fina da paciência, esticada ao máximo ao longo daqueles três anos, partiu-se com um estampido ensurdecedor.
— Um fato? — repetiu ela, aproximando-se da mesa.
— Queres um fato novo com o nosso dinheiro?
Serguei sorriu com satisfação, convencido de que ela mudara de assunto e se resignara.
— Claro.
E também te compramos qualquer coisa a ti, vá.
Um vestido, uns sapatos.
Não vais de calças de ganga.
Eu não sou nenhum animal, Ania.
Eu percebo tudo.
Mas a família é sagrada.
Percebe isso também.
Estendeu a mão para lhe dar uma palmada na coxa, condescendente e paternalista, mas Anna afastou-se como de um leproso.
Nos seus olhos acendeu-se um fogo que não prometia nada de bom nem à “família sagrada” nem ao próprio Serguei.
— A família é sagrada? — repetiu Anna.
A sua voz soava abafada, como se atravessasse algodão.
— E nós os dois o que somos, Serioja? Colegas de cama?
Foi até ao peitoril da janela, onde estava uma pasta grossa de plástico azul.
Lá dentro estava a vida deles dos últimos seis meses.
Declarações de rendimentos, extratos de trabalho, a aprovação do banco, o relatório de avaliação daquele apartamento na rua Gagarin — claro, com uma cozinha grande, que Anna já tinha mobilado mentalmente.
Acariciou o plástico frio como se acaricia um animal querido.
— Lembras-te de fevereiro passado? — perguntou sem se voltar.
— Começou a doer-me um dente.
Um siso.
A bochecha inchou tanto que eu não conseguia abrir a boca.
Precisava de o arrancar, uma extração difícil, o cirurgião disse: seis mil rublos.
E tu disseste: “Ania, aguenta, agora cada copeque conta, espera até ao salário, faz bochechos com salva”.
E eu fiz.
Durante duas semanas engoli analgésicos às caixas, estragando o fígado, porque estávamos a poupar.
Por algo “sagrado”.
Serguei bufou, arrancando o rótulo da lata de cerveja.
O som do papel a raspar no metal cortou-lhe os ouvidos.
— Lá vens tu com as tuas doenças.
Doía e depois passou.
Não morreste, pois não? Contigo é sempre qualquer coisa: ou o dente, ou as botas estragadas, ou o casaco fora de moda.
Tu, Ania, és mesquinha.
Aborrecida.
Não tens grandeza.
A Lenka é que sabe viver.
Ela é uma festa.
Tu és uma folha de contabilidade.
Contigo nem se pode falar de outra coisa além dos descontos do supermercado.
Anna virou-se.
O olhar caiu-lhe sobre os pés dele.
Tinha uns ténis Adidas novos, que comprara um mês antes, porque “os velhos apertavam”.
A si próprio ele não negava conforto.
A poupança dizia respeito apenas a ela.
— Eu andava com botas de meia-estação a vinte graus negativos, Serguei — continuou ela num tom monótono, enumerando factos como marteladas.
— Durante três anos não fui ao cabeleireiro, pintava o cabelo sozinha na casa de banho e depois limpava o lavatório das manchas pretas para a senhoria não gritar.
Comíamos massa da marca mais barata e salsichas feitas de papel higiénico.
Eu fazia horas extra aos fins de semana enquanto tu estavas deitado no sofá a ver séries.
Isso, segundo tu, é “mesquinhez”? Isto era um plano.
O nosso plano comum.
— Estou-me nas tintas para o teu plano! — explodiu Serguei.
Já estava farto de se sentir acusado.
Queria ser o herói do dia, o benfeitor, e ela continuava a esfregar-lhe no nariz aquela vida doméstica miserável.
— Tu ficaste obcecada! Apartamento, apartamento…
É só uma caixa de betão! E a Lenka vai casar-se! Isto é uma memória para a vida toda! Fotografias, vídeos, convidados! Percebes a diferença entre a eternidade e um pedaço de tijolo?
Levantou-se abruptamente, a cadeira voou para trás com estrondo e bateu na parede.
Serguei aproximou-se de Anna, erguendo-se sobre ela com todo o seu peso.
Cheirava a cerveja barata e a agressividade.
— Dá cá isso — arrancou-lhe a pasta azul das mãos.
— Não lhe toques — Anna tentou agarrar os documentos, mas ele empurrou-a brutalmente com o ombro.
— O que é que temos aqui? — abanou a pasta com escárnio.
— Avaliação do imóvel? Contrato de compra e venda? Seguro do título? Papéis.
Isto tudo é só maculatura, Ania.
Sem dinheiro, isto é lixo.
Abriu a pasta e despejou o conteúdo diretamente sobre a mesa da cozinha, para cima de uma poça de chá entornado.
Folhas brancas com carimbos, cópias dos passaportes, planos de pagamento — tudo se espalhou em leque.
— O que estás a fazer? — Anna olhava para os documentos a encharcarem-se naquela papa castanha.
— A libertar-te das ilusões — sorriu Serguei com malícia.
Agarrou num molho de documentos — o resultado das suas correrias por repartições, do stress e das filas.
Os seus dedos apertaram o papel com força.
— Sem dinheiro, sem hipoteca.
E isso significa que esta tralha também não serve para nada.
Com um estalo que contraiu tudo por dentro em Anna, rasgou o grosso maço ao meio.
O papel resistia, a capa de cartão dobrava-se, mas Serguei rasgava com ferocidade, despejando nesse gesto toda a raiva contra a mulher que se atrevera a não apreciar o seu ato “nobre”.
— Não! — Anna lançou-se para ele, mas ele ergueu o cotovelo, barrando-lhe a passagem.
— Sim, Ania, sim! — rosnava.
— Chega de rezar a estes papéis! Vive o presente!
Rasgava os documentos em pedaços pequenos.
Os bocados voavam para o chão, caíam no prato com restos de frango, colavam-se à mesa pegajosa.
A aprovação do banco — em farrapos.
A declaração de rendimentos — para o lixo.
A planta do apartamento — rasgada em quatro partes e amassada numa bola.
— Aqui está o teu futuro! — gritava, atirando-lhe um punhado de fragmentos à cara.
— Não existe! Fui eu que o cancelei! Fui eu que decidi! Porque aqui o homem sou eu, e sou eu que decido o que é importante e o que não é! Importante é a família, não as tuas paredes de betão!
Neve de papel pousava nos ombros de Anna, no cabelo dela, no chão.
Ela permanecia imóvel, olhando para a destruição da prova material do sonho deles.
Aquilo era pior do que se ele lhe tivesse batido.
Ele estava a destruir o trabalho dela.
Estava a desvalorizar cada hora extra, cada copeque poupado, cada minuto em que suportara a dor por um objetivo.
Serguei respirava pesadamente, de pé no meio do caos que criara.
Tinha o rosto vermelho, os olhos a brilhar com um triunfo insano.
Sentia o poder.
Mostrara-lhe quem mandava.
Quebrara-lhe a resistência.
— Então? — perguntou, dando um pontapé num monte de papel rasgado no chão.
— Sentiste-te melhor? Já não há hipoteca.
Já não há dívidas.
Somos livres.
Devias agradecer-me por não ter posto em cima de nós este jugo durante vinte anos.
Vamos viver como gente, não como escravos do banco.
Sentou-se outra vez à mesa, sacudindo demonstrativamente as mãos, como se tivesse acabado um trabalho sujo, mas necessário.
— E limpa isso tudo — atirou com desdém, acenando para o chão.
— Fizeste uma pocilga.
Amanhã temos de levantar cedo.
Ainda temos de escolher o meu fato.
A Lenka disse que o dress code é “Black Tie”.
Sabes o que isso é? Embora de ti, campónia, o que se pode esperar…
Anna olhava para ele, e no seu olhar não havia lágrimas.
Havia um deserto seco, queimado.
Diante dela via não um marido, mas um parasita que engordara com os recursos dela e agora exigia ainda mais.
Baixou-se e apanhou do chão um único pedaço intacto.
Era um fragmento do próprio formulário de pedido de empréstimo dela.
Ali, na linha “co-mutuária”, estava a assinatura dele.
Agora era apenas um rabisco numa folha rasgada.
— Tens razão — disse baixinho, e aquele tom era mais assustador do que qualquer grito.
— Já não há ilusões.
— Ora aí está, boa menina — assentiu Serguei, satisfeito, sem notar a mudança na voz dela.
— Já devias ter percebido isso há mais tempo.
Fizeste uma tragédia do nada.
Dinheiro ganha-se.
O que importa são as relações.
Estendeu a mão para a lata de cerveja meio vazia, convicto de que tinha alcançado uma vitória total e definitiva.
Serguei remexeu no bolso do casaco pendurado no encosto da cadeira e tirou de lá um envelope cor de marfim.
Atirou-o negligentemente para a mesa, mesmo por cima dos fragmentos rasgados da história de crédito deles.
O envelope caiu pesadamente, como se lá dentro estivesse um pedaço de chumbo e não cartão.
— Abre — ordenou ele, bebendo mais um gole de cerveja.
— Aprecia o nível.
Isto não são postais de quiosque.
Anna estendeu lentamente a mão.
O envelope era feito de papel de design caro, aveludado ao toque.
Na frente, em dourado em relevo, entrelaçavam-se as iniciais “E” e “V” — Elena e Vladislav.
Levantou a aba com um dedo.
Lá dentro havia um cartão grosso, com bordas douradas.
O texto estava impresso numa caligrafia rebuscada, daquelas de que Lena tanto gostava, achando-a o auge da aristocracia.
“Convidamo-vos a partilhar connosco a alegria da criação de uma nova família… Restaurante ‘Grand Imperial’… Receção dos convidados às 16h00… Dress code: Black Tie”.
Anna olhava para aquelas letras, e elas desfocavam diante dos seus olhos.
Ela sabia quanto custava a impressão de convites assim.
Só aquele cartão custava tanto quanto eles gastavam em comida para três dias.
— Então? Chique, não achas? — Serguei sorria, satisfeito, observando a reação dela.
— A Lenka dizia que um envelope destes ficou por uns oitocentos rublos.
Trabalho manual, uma espécie de papel italiano.
— Oitocentos rublos… — repetiu Anna, como um eco.
— Por um pedaço de papel que no dia seguinte vai para o lixo.
— Lá estás tu outra vez! — Serguei fez uma careta, como se sentisse dor de dentes.
— Isto é estatuto, Ania! É a primeira impressão! As pessoas vão pegar nisto e perceber: aqui não há forretas a festejar, aqui são pessoas sérias a fazer uma festa.
E tu medes tudo com os teus copeques.
Tens uma mentalidade miserável, de pobretona.
Inclinou-se sobre a mesa, derrubando com o cotovelo o saleiro, e o sal espalhou-se em linha branca sobre a mesa, misturando-se com os restos de papel.
Má agourança.
Mas pior do que aquilo já não podia ser.
— Ouve-me com atenção — a voz de Serguei mudou.
A fanfarronice desapareceu, dando lugar a notas de aço e ameaça.
— Amanhã nós vamos a esse banquete.
E tu vais sorrir.
Vais fazer brindes, desejar felicidade aos noivos e parecer a cunhada mais feliz do mundo.
Anna ergueu o olhar para ele.
Nos olhos dela agitava-se um nojo frio e escuro, mas Serguei tomou-o por submissão.
— Se eu vir sequer uma sombra de desagrado na tua cara — continuou, martelando cada palavra — se te atreveres a torcer essa tua cara azeda ou, Deus nos livre, a dizer a alguém qualquer coisa sobre o dinheiro… eu faço-te passar o inferno.
Tu conheces-me.
— Conheço — disse Anna baixinho.
— Agora conheço-te mesmo.
— Ótimo.
E lembra-te de mais uma coisa — apontou o dedo para a mesa, mesmo diante do nariz dela.
— O contrato de arrendamento deste apartamento está em meu nome.
Sou eu que pago à senhoria.
Tu aqui, na prática, não és ninguém.
Estás aqui de favor.
Anna ficou imóvel.
O ar da cozinha tornou-se denso e viscoso.
Ele atingia-a no ponto mais doloroso, no seu maior medo — ficar na rua.
Usava a casa deles, o seu refúgio, como arma contra ela.
— Vais expulsar-me? — perguntou, sem acreditar no que ouvia.
— Porque não vou sorrir num casamento pago com o meu dinheiro?
— Ponho-te na rua — confirmou Serguei calmamente, olhando para ela com a serenidade gelada de um carrasco.
— Se estragares a festa da minha irmã, sais daqui com a roupa que tens no corpo.
Sem um tostão, sem coisas nenhumas.
Vais dormir para a estação.
Não estou a brincar, Ania.
A Lenka merece este dia, e eu não vou deixar que uma mulher invejosa estrague tudo.
Recostou-se na cadeira, de braços cruzados, saboreando o seu poder.
Gostava daquela sensação.
A sensação de controlo total.
Antes ainda a consultava, pedia-lhe opinião, brincava à democracia.
Mas agora, depois de ter disposto sozinho de milhões, sentira o sabor da impunidade total.
Ultrapassara a linha e percebera que, do outro lado, se sentia confortável.
— Portanto amanhã de manhã — maquiagem, penteado, e quero ver os olhos a brilhar — ordenou.
— Quero sentir orgulho da minha mulher diante dos convidados.
Lá vão estar pessoas influentes, parceiros do Vladislav.
Preciso de causar impressão.
E tu… tu tens apenas de ser um bonito complemento.
Uma decoração.
Percebeste?
Anna olhou para o monograma dourado no convite.
“Grand Imperial”.
Restaurante de luxo.
Limusines.
E ela — uma decoração.
Um acessório gratuito do irmão generoso, patrocinador do banquete.
Tinha de representar o papel de esposa feliz de um homem que acabara de a roubar e de a ameaçar pô-la na rua.
— Percebi — disse ela, com voz lisa.
— Ora aí está, boa menina — Serguei relaxou, certo de que a quebrara por completo.
— Quando queres, até sabes ser normal.
E o dinheiro… havemos de o ganhar.
Em breve vou ser promovido, aí os salários já são outros.
Compramos-te a tua toca, não te preocupes.
Levantou-se, espreguiçou-se até as articulações estalarem e bocejou escancarando a boca.
— Pronto, eu vou dormir.
O dia foi pesado, cheio de nervos.
Tu arruma isto — fez um gesto largo para a mesa coberta de lixo.
— Que porcaria montaste aqui.
E passa-me o fato azul a ferro.
Tira uma camisa branca lavada.
Para eu não andar à procura dela de manhã.
Virou-se e, arrastando as chinelas, foi para o quarto, despindo a camisola interior enquanto caminhava.
Um minuto depois ouviu-se de lá o ranger das molas do sofá.
Ia deitar-se na cama deles, nos lençóis deles, certo de que o dia seguinte seria o seu triunfo.
Anna ficou sozinha na cozinha.
Permaneceu imóvel, olhando para o convite.
O papel aveludado sob os dedos parecia pegajoso.
No silêncio da cozinha, o frigorífico zumbia e a torneira pingava.
Plic.
Plic.
Plic.
Como uma contagem decrescente para a explosão.
Pegou no convite com as mãos.
Bonito.
Caro.
Símbolo de traição.
Serguei pensava que a tinha encurralado.
Pensava que o medo de ficar sem teto a obrigaria a calar-se e a sorrir.
Tinha a certeza de que ela engoliria aquilo, como engolira todas as ofensas dos últimos três anos.
Anna levantou-se.
Não foi apanhar os restos dos documentos.
Não foi passar o fato dele a ferro.
Aproximou-se da janela e olhou para a cidade noturna.
Algures lá fora, na escuridão, estava o prédio inacabado onde ficava o apartamento dela.
O antigo apartamento dela.
— Uma decoração, então — murmurou ao seu reflexo no vidro escuro.
— Muito bem, Serioja.
Vais ter a tua decoração.
Vais ter o teu espetáculo.
E a primeira impressão será inesquecível.
Na sua cabeça, clara e fria como gelo, amadureceu um plano.
Não uma histeria, não gritos, não súplicas.
Era o fim.
O ponto de não retorno fora ultrapassado no instante em que ele rasgou os documentos.
Mas ele, na sua cega autoconfiança, ainda não tinha percebido isso.
Pensava que controlava a situação.
Anna voltou para a mesa, pegou no telemóvel e abriu a aplicação bancária.
Histórico de operações.
Transferências.
Depósitos.
Estava tudo ali.
Os números não mentem.
Ao contrário das pessoas.
Fez várias capturas de ecrã.
Depois abriu o mensageiro.
— Dorme, querido — disse ela na direção do quarto, de onde já começavam a vir os ressonos do marido.
— Recupera as forças.
Amanhã vais precisar delas.
Pousou o telemóvel em cima da mesa, mesmo sobre as letras douradas do convite, e pela primeira vez naquela noite sorriu.
O sorriso era assustador, parecido com a careta de um crânio.
O dia seguinte seria mesmo inesquecível.
Para todos.
A manhã recebeu Serguei com uma forte dor de cabeça pulsante e uma secura na boca, como se tivesse engolido areia.
Abriu os olhos com dificuldade, à espera de ver a agitação habitual: Anna a correr com o ferro de engomar, o cheiro do café, a camisa branca pronta no cabide.
Mas no apartamento havia um silêncio metálico, morto.
Sentou-se no sofá, pousando os pés no chão frio.
A cabeça andava à roda.
O olhar caiu na cadeira onde na véspera deixara o velho fato.
O fato continuava lá, amarrotado, poeirento, parecendo a pele largada de um animal doente.
Nenhuma camisa lavada.
Nenhum pequeno-almoço.
— Ania! — gritou com voz rouca, sentindo a irritação começar a ferver algures no estômago.
— Viste as horas? Temos de sair dentro de duas horas! Onde está a minha camisa?
Silêncio.
Levantou-se, cambaleando, e foi para a cozinha.
Anna estava sentada à mesa.
Estava completamente vestida — calças de ganga, camisola de gola alta, ténis.
À sua frente havia uma chávena de café preto em que nem tocara.
Na mesa já não havia lixo.
Todo o papel rasgado desaparecera, a superfície estava impecavelmente limpa, exceto por um solitário convite dourado no centro, como uma lápide.
— Que roupa é essa? — Serguei fitou-a, pestanejando sem entender.
— Eu disse: dress code.
Onde está o vestido? Decidiste envergonhar-me?
Anna ergueu lentamente a cabeça.
O seu rosto estava calmo, assustadoramente calmo.
Não restava nele nem a histeria da noite anterior, nem a mágoa.
Era o rosto de um cirurgião antes de uma amputação.
— Eu não vou a lado nenhum, Serioja — disse numa voz uniforme.
— E tu, muito provavelmente, também não.
— Perdeste completamente o medo? — deu um passo na direção dela, cerrando os punhos.
— Eu avisei-te.
Queres ir para a rua? Agora mesmo? Ponho-te lá fora como a um cão! Este é o meu apartamento, o meu contrato!
— Senta-te — disse ela, seca.
Não era um conselho, era uma ordem.
Tão autoritária que Serguei, surpreendido, parou mesmo e deixou-se cair no banco em frente dela.
Anna pegou no telemóvel.
— Ontem falaste muito do facto de seres “homem” e “chefe da família”, aquele que decide tudo.
De que o dinheiro é comum.
Vamos olhar para a verdade.
Sem emoções.
Só números.
Virou-lhe o ecrã.
Estava aberto um resumo em Excel.
Serguei semicerrrou os olhos.
— O que é essa porcaria?
— É a contabilidade da nossa “família sagrada” dos últimos três anos — Anna passou o dedo pelo ecrã.
— Olha bem.
A azul estão as minhas entradas na conta poupança.
A vermelho as tuas.
Vês a diferença?
Serguei ficou calado.
As colunas azuis eram três vezes maiores.
— Oitenta por cento da quantia que estava naquela conta era dinheiro meu, Serguei.
Os meus prémios, os meus biscates, a herança da minha avó que eu vendi.
Tu contribuías com migalhas, porque o teu salário ia para a manutenção do teu carro, os teus almoços e os teus “pequenos prazeres”.
E era eu que pagava a renda deste apartamento, a comida e os produtos da casa.
— Estás a atirar-me à cara um pedaço de pão? — explodiu ele, tentando recuperar o controlo da situação.
— Nós somos família! Tudo vai para o mesmo pote!
— O pote já não existe — interrompeu-o ela friamente.
— Foste tu que o partiste ontem.
Tu não roubaste o “nosso” dinheiro.
Roubaste o meu dinheiro.
Pagaste o banquete da tua irmã à minha custa.
Querias fazer-te de senhor generoso? Parabéns.
Só te esqueceste de que de senhor não tens nada.
És só um sustentado que vivia à custa da mulher.
— Cala-te! — berrou Serguei, batendo com o punho na mesa.
— Eu sou homem! Eu trabalho!
— Trabalhas por trinta mil rublos, metade dos quais comes — continuou Anna, em tom gélido.
— E agora ouve a parte mais interessante.
Hoje de manhã telefonei à senhoria.
Serguei ficou imóvel.
O rosto começou lentamente a encher-se de um vermelho doentio.
— Para quê?
— Disse-lhe que me ia embora.
E que no próximo mês não vou pagar a renda.
Tu gritavas que o contrato estava em teu nome? Que me ias expulsar? Pois bem.
Facilitei-te a tarefa.
Vou-me embora sozinha.
Agora mesmo.
— Então vai-te embora! — cuspiu ele.
— Achas que sem ti eu me afundo? Arranjo uma mulher normal, que saiba valorizar em vez de contar moedas!
— Arranja — assentiu Anna.
— Só que há um pormenor.
A senhoria disse-me que tens atrasado a renda há dois meses.
Ela só tolerou isso porque era eu que falava com ela e lhe transferia a diferença.
Agora mostrei-lhe o extrato, que já não temos dinheiro.
Ela vem hoje à noite.
Com a polícia.
Verificar a tua capacidade de pagar.
Serguei sentiu um suor frio descer-lhe pelas costas.
Ele não tinha dinheiro.
Nenhum.
O cartão estava vazio — tinha levantado tudo até ao último cêntimo para a Lena.
Faltavam duas semanas para o salário.
A renda era vinte e cinco mil.
— Tu… tu tramaste-me? — sussurrou, olhando para ela com horror e ódio.
— Tu sabias que eu não tinha nem um tostão!
— Eu só te organizei aquela “vida feliz” que ontem me prometeste — Anna levantou-se.
— Querias ser herói para a tua irmã? Então sê.
Só que agora és um herói sem abrigo.
Pegou na mala que estava sobre a cadeira.
Lá dentro não havia roupa, só documentos e o portátil.
As coisas dela ficaram para trás.
Farrapos velhos comprados em saldo já não lhe serviam.
Estava a começar uma vida nova, e nessa vida não havia lugar nem para a roupa velha nem para o velho marido.
— E o casamento? — perguntou Serguei, desnorteado.
Na cabeça dele não cabia a ideia de que o mundo desabara tão depressa.
— A Lenka está à espera… Eu prometi-lhe…
— Vai — sorriu Anna com desdém, parada na porta da cozinha.
— Vai a pé.
Não tens dinheiro para táxi.
E veste o fato sujo.
Vai ser muito simbólico.
Restaurante de luxo, alta sociedade e tu — de calças amarrotadas e bolsos vazios.
Está à altura, Serioja.
— Espera! — saltou ele, derrubando o banco.
— Ania, não sejas parva! Dá-me pelo menos o cartão! Deve haver lá algum resto! Para comida!
Anna olhou para ele uma última vez.
No seu olhar não havia compaixão.
Só o asco com que se olha para uma barata esmagada.
— Para comida, ganha-o.
Tens braços e pernas, foste tu que disseste.
Voltou-se e saiu para o corredor.
A porta da entrada bateu.
A fechadura fez clique, separando-a do passado.
Serguei ficou no meio da cozinha.
O silêncio voltou, mas agora era assustador.
Estava sozinho.
Num apartamento que não era seu, sem dinheiro para o pagar.
Sem comida.
Sem a mulher que carregava todo o peso da vida doméstica.
Com ressaca e um convite dourado em cima da mesa, que agora parecia uma zombaria.
Agarrou nesse convite, apertou-o no punho, amarrotando o papel aveludado e os monogramas dourados.
— Cabra! — gritou para o vazio, atirando a bola de papel contra a parede.
— Mesquinha! Miserável!
Mas as paredes ficaram caladas.
O frigorífico “Saratov” zumbiu como de costume, lembrando-lhe que estava vazio por dentro.
A torneira pingou: plic.
Plic.
Era o som da sua nova vida independente, aquela que ele tanto queria.
E começava precisamente naquele momento.







