Mas ela não sabia que documento eu tinha buscado ontem no cartório.
O ranger da chave na fechadura soou como um tiro.

Eu nem tive tempo de terminar meu café da manhã, quando Zinaida Pavlovna entrou de supetão no corredor.
Com um baque surdo, ela jogou no linóleo duas bolsas xadrez de feira e, como se fosse dona da casa, sacudiu a neve das botas.
No ar logo ficou suspenso o cheiro sufocante do perfume barato favorito dela, misturado com o frio.
— Então, Anechka, você já viveu no conforto, com tudo prontinho, e chega! — declarou minha sogra em voz alta, entrando na cozinha de sapatos.
— O Igorek me contou tudo.
Graças a Deus, ele agora tem um novo amor, uma mulher de verdade.
Ele já entrou com o divórcio.
Então vamos, junte suas panelinhas e conchas e libere os metros quadrados.
Eu estava sentada à mesa, apertando a caneca já fria com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos.
Por dentro, tudo tremia de mágoa e raiva.
Dez anos de casamento.
Dez anos em que eu carreguei a rotina da casa nas costas, enquanto o adorado “filhinho” dela procurava a si mesmo, trocando de emprego a cada seis meses.
E ontem eu o peguei com uma secretária de vinte anos.
E, em vez de um pedido de desculpas, ouvi: “A culpa é sua, você não me inspira como homem!”.
Ele bateu a porta e correu para a mamãezinha para se queixar.
— A senhora está em pleno juízo, Zinaida Pavlovna? — minha voz tremeu, traindo-me.
— Para onde eu vou?
— E isso é problema meu? — minha sogra apoiou as mãos nos quadris enormes e sorriu com ar de vitória.
— Vá para a casa da sua mãe, no interior!
Você viveu aqui dez anos sem direito nenhum.
O pobre do Igorek arrebentava as costas, pagava a hipoteca, e você, encostada, só aproveitava.
Minha filha Dasha vai se mudar para cá com o marido, eles precisam de mais espaço.
E o Igorek vai ficar morando comigo por enquanto.
Vamos, mexa-se, porque eu não pretendo esperar até a noite!
Ela estendeu a mão para o armário onde estava meu serviço caro de louça, presente dos meus pais, e abriu a portinha sem a menor cerimônia.
E foi nesse exato momento que alguma coisa estalou dentro de mim.
A pena de mim mesma evaporou, dando lugar a uma calma gelada, cristalina.
— Coloque isso de volta no lugar — falei baixo, mas com aço na voz.
— O quê?! — minha sogra se virou bruscamente.
— Como ousa falar assim comigo, sua ingrata ordinária?
Eu vou chamar a polícia agora mesmo, e vão te jogar para fora do apartamento do meu filho com escolta!
Levantei-me devagar.
Fui até minha bolsa, tirei de lá uma pasta azul de papelão e a joguei sobre a mesa, bem diante do nariz de Zinaida Pavlovna.
— Chame — sorri com ironia.
— Agora mesmo.
Mas, de quebra, pergunte também ao seu filhinho genial por que ele não contou a verdade para a senhora.
— Que verdade? — ela estreitou os olhos, desconfiada, mas não tocou na pasta.
— Abra.
Leia.
A senhora é uma mulher instruída, não é? — cruzei os braços no peito.
Minha sogra abriu a pasta com desprezo.
Os olhos dela correram pelas linhas do documento oficial com selo estatal.
Observei com prazer a cor desaparecer do rosto rechonchudo dela, deixando-o acinzentado, terroso.
A respiração de Zinaida Pavlovna ficou mais acelerada.
— Que papel sem valor é esse? — ela sibilou rouca.
— Que escritura de doação é essa?
— A mais comum possível — dei de ombros.
— Este apartamento foi comprado pelos meus pais, que venderam o apartamento de três quartos deles no norte.
E eles o colocaram no meu nome por meio de um contrato de doação antes mesmo de eu me casar com o seu filhinho.
O seu Igorek não pagou um centavo por ele.
Pela lei, bem doado não se divide no divórcio.
Ele é só meu.
— Mentira! — gritou minha sogra, amassando na mão a ponta da toalha de mesa.
— O Igorek disse que vocês fizeram a hipoteca juntos!
Ele me transferia dinheiro todo mês, me mostrava os comprovantes de que estava pagando o apartamento!
— Ah, então é isso — eu ri alto, embora aquela verdade me desse nojo.
— Ele fazia empréstimos para o carro dele e para os presentes da amantezinha novinha.
E mentia para a senhora sobre a hipoteca, para que a senhora não pegasse no pé dele.
E a senhora acreditou em tudo.
Minha sogra afundou pesadamente no banquinho.
Ela puxava o ar com a boca, como um peixe jogado na areia.
Toda a arrogância e a empáfia dela desapareceram em um segundo.
— A senhora tem exatamente três minutos, Zinaida Pavlovna, para pegar seus trambolhos e desaparecer do meu apartamento — peguei o telefone e disquei 112, mantendo o dedo sobre o botão de chamada.
— E diga ao Igorek para vir buscar a televisão dele e o micro-ondas velho.
Foi só isso que ele conseguiu conquistar aqui.
O tempo já começou.
Ela não disse uma palavra.
Em silêncio, com as mãos tremendo, pegou as bolsas xadrez e, tropeçando na soleira, saiu correndo para o corredor do prédio.
Quando a porta bateu atrás dela, girei a chave duas vezes na fechadura.
Servi para mim um café fresco.
Nunca ele tinha me parecido tão gostoso.







