— Minha irmã não tem dinheiro para fazer a reforma!

Você recebeu o salário, eu vi a mensagem!

Dê esse dinheiro para ela!

Nós já temos de tudo, e a Lenka vive num chiqueiro!

Você é obrigada a ajudar a minha família, se me ama, sua vaca avarenta! — gritava Vitaliy, balançando o telefone diante do rosto da esposa como um promotor com uma prova material.

O rosto dele ficou manchado de vermelho, e na têmpora saltou uma veia azul, pulsando no ritmo de cada palavra berrada.

A cozinha, que já era apertada, agora parecia uma caixinha minúscula na qual tinham enfiado à força um touro enfurecido.

O ar estava pesado, impregnado com o cheiro de cebola frita e de tabaco velho que Vitaliy trazia da varanda.

Maria estava diante do fogão, mexendo com a concha um borsch espesso e encorpado.

Aquele era o jantar deles para hoje, para amanhã e, talvez, para depois de amanhã.

Ela acabara de voltar de um turno de doze horas, as pernas zumbiam como fios de alta tensão, e a cabeça latejava de cansaço.

A notificação do adiantamento tinha chegado cinco minutos antes, no momento em que ela cruzava a porta do apartamento.

Ela nem tinha tido tempo de tirar os sapatos quando Vitaliy já arrancou o aparelho das mãos dela.

— Vitalik, esfria a cabeça, — disse ela, cansada, sem se virar, tentando preservar o resto de autocontrole.

— Que reforma?

A Lena colou papel de parede há seis meses.

Eu não imprimo dinheiro.

Temos que pagar o apartamento daqui a dois dias, minhas botas de inverno já estão pedindo aposentadoria, a sola soltou.

E na geladeira, além dessa sopa e de um pacote de maionese, não tem mais nada.

— As botas dela! — Vitaliy soltou um riso sarcástico, aproximando-se até ficar colado às costas dela.

Maria sentiu na nuca a respiração quente e abafada dele.

— Você usa seus cascos velhos e pronto, não vai cair aos pedaços.

Mas a Lenka tem um sonho!

Ela quer gesso veneziano na sala.

Já encontrou os profissionais, mas não tem como pagar a entrada.

Você entende que está deixando uma pessoa na mão?

Nós somos uma família ou não?

Seu dinheiro é nosso dinheiro.

E os meus parentes são seus parentes.

— A sua Lena não trabalha há três anos, — Maria se virou bruscamente, apertando na mão a concha da qual pingava caldo vermelho sobre o linóleo.

— Ela vive às custas da mãe e agora quer subir nas minhas costas também?

Eu recebi vinte mil.

É tudo o que nós temos até o fim do mês.

Se eu der isso a ela para o gesso, nós vamos comer esse gesso?

— Não exagera! — berrou Vitaliy.

— Tem macarrão.

Tem trigo-sarraceno.

A gente se vira.

Não precisa bancar a madame.

Queria comer… No bloqueio as pessoas comiam até cola e mesmo assim continuavam humanas.

E você se enforca por qualquer trocado.

Faz a transferência!

Agora mesmo!

Eu mandei abrir o aplicativo!

Ele enfiou o telefone diante do nariz dela.

A tela brilhava com uma luz fria e exigente.

Maria olhou para o marido.

Nos olhos dele não havia uma gota de compreensão, nem um grama de compaixão.

Ali só havia uma ganância escura e espessa e a certeza do seu direito de mandar na vida dela.

Ele realmente achava que o trabalho dela lhe pertencia só porque havia um carimbo no passaporte.

— Não, — disse ela com firmeza, afastando a mão dele.

— Não vou dar um centavo.

Que a Lena vá trabalhar.

Ou que o amante dela pague a reforma.

Com esse dinheiro eu vou alimentar nós dois.

E a mim também.

Maria se virou e serviu um prato cheio de borsch.

Ela precisava comer.

O corpo exigia combustível, ignorando a histeria do marido.

Ela colocou o prato fumegante sobre a mesa, afastando o açucareiro com a borda lascada.

— Senta, come e se acalma, — disse, pegando uma colher.

— Ah, comer? — sibilou Vitaliy.

A voz dele ficou baixa, vibrante, assustadora.

— Você vai comer enquanto minha irmã está na merda?

Quando eu te pedi isso como gente?

Você me considera nada?

Eu sou um zero aqui dentro?

Ele deu um passo em direção à mesa.

Maria nem teve tempo de entender o que estava acontecendo.

Vitaliy não saiu varrendo tudo com a mão.

Ele simplesmente se enfiou sob o tampo, apoiou o ombro e, com um rugido selvagem, ergueu a mesa para o alto.

O estrondo foi ensurdecedor.

A pesada mesa soviética se ergueu descrevendo um arco e caiu de lado.

O prato com o borsch quente voou contra a parede, deixando no papel de parede desbotado uma mancha gordurosa, vermelho-sangue, parecida com a marca de um tiro, e escorreu para o chão.

Os cacos de louça espirraram para todos os lados.

A caixa de pão se abriu, cuspindo sobre o chão sujo pedaços de pão amanhecido.

Sal, açúcar, pimenta — tudo se misturou numa única massa marrom-acinzentada.

A gororoba quente espirrou nas pernas de Maria.

Ela gritou e saltou para perto da pia, apertando as mãos contra o peito.

— Come! — berrou Vitaliy, de pé no meio da destruição.

O peito dele subia e descia com violência, os olhos ardiam com um fogo de loucura.

— Come do chão!

Esse é o seu lugar!

Você não tem direito de voz nesta casa enquanto não aprender a respeitar o marido!

Ele chutou um banquinho virado, e ele foi bater com estrondo no corredor.

O caos se instalou na cozinha.

O cheiro de comida se misturou ao cheiro da agressão.

A poça vermelha de borsch se espalhava lentamente pelo linóleo, aproximando-se dos chinelos de Vitaliy, mas ele nem percebia.

Ele olhava para a esposa como para um inimigo que precisava ser destruído, quebrado, subjugado.

— Você enlouqueceu de vez? — sussurrou Maria, olhando para o jantar destruído.

— Era a última comida…

— O dinheiro, — Vitaliy deu um passo em direção a ela através da poça, pisando direto nos pedaços de beterraba e batata cozida, transformando-os em purê.

— O dinheiro na minha mão.

Ou eu não respondo por mim.

Você acha que isso é brincadeira?

Acha que eu vou tolerar esse tipo de atitude?

A Lena vai conseguir a reforma dela, nem que eu tenha que arrancar sua alma de você.

Maria recuou até a saída da cozinha, tentando não fazer movimentos bruscos.

O olhar de Vitaliy estava desfocado, pesado, cheio de uma raiva plúmbea que ela só tinha visto nele em momentos de embriaguez profunda.

Mas hoje ele estava sóbrio, e isso tornava tudo ainda mais assustador.

A sobriedade dele era fria, calculista e impiedosa.

Sob os pés, a lama avermelhada fazia ruído, os cacos do prato rangiam cravando-se nas solas de seus chinelos de casa, mas ela mal percebia isso.

Na cabeça martelava um único pensamento: preciso sair.

Agora mesmo, do jeito que estou — de robe, com a bolsa pendurada no cabide da entrada.

Correr para o corredor do prédio, recuperar o fôlego, e depois seja o que Deus quiser.

Ela disparou para o corredor estreito, esperando passar por ele enquanto ele ainda saboreava o efeito do que tinha feito.

Mas Vitaliy, apesar do corpo pesado, reagiu num relâmpago.

Ele conhecia aquela manobra.

Conhecia cada centímetro daquele apartamento minúsculo, onde duas pessoas que tinham se tornado inimigas não conseguiam mais se evitar.

— Aonde pensa que vai? — a voz dele a alcançou quando ela já estava junto ao cabide.

Uma mão pesada pousou no ombro dela, os dedos afundaram dolorosamente na clavícula, virando-a de frente para ele.

Maria tentou se soltar, jogando o corpo inteiro em direção à porta de entrada.

A mão dela já se estendia para a fechadura, para a salvadora maçaneta metálica, mas Vitaliy foi mais rápido.

Ele a empurrou brutalmente com o quadril, prensando-a contra a parede coberta de casacos.

No nariz dela bateu o cheiro forte do suor dele e de desodorante barato.

— Vai correr para a mamãezinha reclamar?

Ou para as amiguinhas cobras? — rosnou ele, pairando sobre ela com toda a sua massa.

Parecia uma rocha fechando a saída de uma caverna.

Vitaliy, olhando diretamente nos olhos dela, girou a fechadura duas vezes de forma demonstrativa.

Clique.

Clique.

O som do mecanismo sendo trancado soou no silêncio do hall como uma sentença.

Depois ele tirou a chave da fechadura, jogou-a na palma da mão e, com um sorriso torto, enfiou-a no bolso fundo do jeans.

— Pronto, Masha.

Acabou a brincadeira.

Ninguém vai a lugar nenhum até resolvermos a questão financeira, — disse calmamente, até com certo deboche, como se estivesse explicando a uma criança tola as regras do jogo.

— Você queria independência?

Aqui está sua independência.

Senta em casa.

— Me devolve as chaves, — disse Maria entre dentes, sentindo ferver dentro de si uma raiva gelada.

— Você não tem direito de me trancar.

Amanhã às oito eu tenho que estar no trabalho.

— Vai trabalhar… — arrastou Vitaliy, torcendo os lábios.

— E de que adianta você trabalhar, se não sustenta a família?

Se esconde o dinheiro feito rato?

Você não vai a trabalho nenhum.

Vai ficar sentada aqui até criar juízo.

Ou até a Lena receber a mensagem da transferência.

Maria entendeu que conversar era inútil.

Ela se lançou para a cômoda onde estava sua bolsa — uma bolsa preta de couro sintético, gasta, na qual estava toda a sua vida: passaporte, telefone e aquele mesmo cartão do salário.

Ela precisava pegar pelo menos aquilo.

Vitaliy interceptou o movimento dela.

Agarrou a alça da bolsa ao mesmo tempo que ela.

— Me dá isso aqui! — rugiu ele, puxando a alça para si.

— Não toca!

É meu! — gritou Maria, agarrando a bolsa com as duas mãos.

Mas as forças eram desiguais.

Vitaliy simplesmente puxou o couro sintético com tanta força que Maria, sem conseguir se manter em pé, bateu com o peito na sapateira.

A bolsa ficou nas mãos dele.

Vitaliy, respirando pesadamente, virou-a de cabeça para baixo e sacudiu.

No tapete sujo da entrada caiu todo o conteúdo.

Com um baque surdo caiu o estojo dos óculos, tilintou o molho de chaves do trabalho, espalharam-se moedas, caiu um pacote de lenços umedecidos, o batom rolou para um canto.

E no meio de toda aquela tralha, como um pequeno lingote de ouro, caiu um retângulo fino de plástico — o cartão bancário.

Maria se jogou no chão, tentando cobrir o cartão com a palma da mão, mas Vitaliy pisou nele com a bota pesada.

— Aonde vai? — ele empurrou a esposa com o pé, como se fosse uma vira-lata inconveniente.

Maria soltou um gemido ao bater o cotovelo no rodapé.

Vitaliy se abaixou e, sem tirar da esposa o olhar desconfiado, pegou o cartão.

Ele o girava entre os dedos grossos, lendo o nome da titular gravado no plástico, como se o visse pela primeira vez.

— “Maria Vlasova”, — leu com deboche.

— Olha só, que passarinho importante.

Mas o sobrenome é meu.

Então o cartão também é meu.

E o dinheiro nele — é meu.

Ele se endireitou, guardando o cartão no bolso do peito da camisa, mais perto do coração.

Agora se sentia dono da situação.

Estavam com ele as chaves, o dinheiro, o poder.

Maria estava sentada no chão entre moedas espalhadas e recibos amassados do supermercado, apertando o cotovelo machucado.

— Você é um ladrão, Vitalik, — disse ela baixinho, olhando para ele de baixo para cima.

No olhar dela não havia medo, só um desprezo sem limites.

— Você é só um ladrãozinho miserável que rouba a própria esposa.

— Eu não sou ladrão, sou o chefe da família! — berrou ele, e o eco da voz dele bateu nas paredes do corredor apertado.

— Sou eu que distribuo o orçamento!

Se você, sua idiota, não entende o que são prioridades, eu vou te ensinar.

Nós não somos estranhos, tudo é nosso.

E os problemas da Lenka são nossos problemas.

Ele chutou a bolsa vazia caída no chão, e ela foi parar aos pés de Maria.

— Me passa o telefone, — exigiu, estendendo a mão.

— Eu sei que o aplicativo está aí.

E nem pense em mentir dizendo que está sem bateria.

— Não vou dar, — Maria se encolheu.

O telefone estava no bolso interno do robe, não tinha caído.

Era sua última esperança.

Vitaliy deu um passo em direção a ela, pairando como uma sombra escura.

— Masha, não me tira do sério, — a voz dele baixou até virar um sussurro ameaçador.

— Eu vou pegar agora mesmo.

E acredite, você não vai gostar.

Vou te revistar do jeito que nem a polícia revista preso.

É melhor entregar sozinha.

E vai lembrando o pin.

Agora mesmo, lembra desses quatro números.

Porque você não sai deste apartamento enquanto eu não tirar até o último centavo.

Vai ficar sentada sem água e sem comida, no escuro, até criar juízo.

Ele apertou o interruptor na parede.

A luz da entrada se apagou.

Ficou apenas um clarão fraco vindo da cozinha, onde no chão esfriava o borsch derramado.

Maria continuou sentada na penumbra, sentindo o espaço se comprimir ao redor dela, transformando-se num saco de concreto.

Vitaliy estava sobre ela, bloqueando a passagem, e no escuro a silhueta dele parecia ainda maior e mais assustadora.

A armadilha tinha se fechado.

Vitaliy apertou o interruptor da sala.

A luz forte e impiedosa do lustre de três braços atingiu os olhos dela, fazendo Maria fechá-los.

Depois da penumbra da entrada, aquilo parecia um flash de interrogatório.

Ele a empurrou brutalmente pelas costas, obrigando-a a ir até o centro do cômodo, ao velho sofá de estofado gasto.

— Senta, — ordenou, e na voz dele não havia nem uma nota de dúvida.

É assim que se fala com um cachorro culpado que vai levar o focinho ao tapete estragado.

Maria se sentou na beirada do sofá.

As pernas tremiam, mas não de medo, e sim de uma tensão selvagem.

Ela se abraçou, tentando conter o tremor interior.

Vitaliy continuou em pé diante dela.

Numa das mãos ele ainda apertava o cartão bancário dela, batendo o plástico ritmicamente na palma aberta da outra mão.

Aquele som — pá-pá-pá — martelava nas têmporas dela.

— A senha, — lançou ele, curto.

— Eu não vou dizer, — Maria não olhava para ele, mas para o desenho do tapete sob os pés.

— Esse dinheiro é meu.

Eu ganhei, ficando doze horas em pé.

Não a sua irmã, que nunca levantou nada mais pesado que o controle remoto da televisão.

Vitaliy suspirou pesadamente, como se a estupidez sem saída dela o cansasse.

Andou pela sala com as mãos para trás, como um carcereiro numa cela.

— Você ainda não entendeu, Masha.

Não existe dinheiro “seu”.

Existe o orçamento da família.

E família é clã.

É ajudar os mais fracos.

A Lena agora está em dificuldade, as paredes dela estão nuas, ela chora todos os dias.

E você está sentada em cima de um saco de ouro bancando o Tio Patinhas.

Isso é egoísmo.

Puro egoísmo de mulher.

Ele se aproximou do móvel sob a televisão, onde o roteador wi-fi piscava alegremente com luzes verdes.

Vitaliy fixou o olhar nele por um segundo e, em seguida, com um movimento brusco, arrancou os fios.

A caixinha de plástico ficou pendurada, impotente, pelo cabo de energia, e as luzes se apagaram.

— Você não vai ter comunicação, — informou com naturalidade, virando-se para a esposa.

— Sem internet.

De casa você não sai.

Seu telefone… Bem, por enquanto ele está com você, mas para quê?

Vai ligar para quem?

Para sua mãe?

E o que vai dizer?

Que o marido é ruim porque está pedindo dinheiro?

Que vergonha, Masha.

Lavar roupa suja fora de casa é a última coisa.

E você nem vai ter tempo de ligar para ninguém.

Eu quebro antes de chamar.

— Você me fez de refém? — perguntou ela, levantando a cabeça.

O olhar dela ficou pesado, vítreo.

— Por causa de vinte mil?

Você está ouvindo o que diz, Vitalik?

Você está cometendo um crime agora mesmo.

— Não me faça rir, — bufou ele, aproximando-se de novo até pairar sobre ela.

— Que crime?

Somos marido e mulher.

Temos uma briga doméstica.

Nenhum policial viria até aqui.

Vão dizer: resolvam entre vocês.

E eu estou resolvendo.

Estou te ensinando a viver.

Estou fazendo de você uma pessoa que se lembra da família.

Ele se inclinou tanto que ela viu os poros dilatados do nariz dele e sentiu o cheiro da janta já passada que ele tinha conseguido comer antes de ela voltar.

— Quatro números, Masha.

Só diz quatro números e esse circo acaba.

Eu vou até o caixa eletrônico, transfiro o dinheiro para a Lena, compro um chocolate para você e a gente esquece tudo isso como um pesadelo.

Você sabe que eu esqueço rápido.

Então?

Maria ficou calada.

Ela entendia que, se dissesse o código, deixaria de existir como pessoa.

Seria o fim.

Ele a beberia até o fundo e depois a jogaria fora, como uma lata vazia.

Hoje seria a reforma da irmã, amanhã o empréstimo do tio de terceiro grau, depois de amanhã um carro novo para ele mesmo.

Ela viraria um caixa eletrônico sem voz.

— Não quer ser boazinha? — Vitaliy se endireitou, e o rosto dele endureceu.

A máscara do educador cuidadoso caiu, revelando o esgar de um predador.

— Tudo bem.

Vai ser do jeito ruim.

Você não vai a lugar nenhum amanhã.

Eu ligo para o seu trabalho, digo que você ficou doente.

Que teve uma intoxicação.

E você vai ficar aqui.

Sem comida.

Sem água.

Ao banheiro — só com a minha permissão.

Ele foi até a janela e fechou as cortinas grossas, cortando a sala da luz da rua, do mundo onde andavam pessoas, passavam carros e seguia a vida normal.

O ambiente ficou abafado e desconfortável, como uma tumba.

— Você acha que é a mais teimosa? — continuou ele, olhando para ela por sobre o ombro.

— Eu passei por trote no exército, eu quebrava gente como você em dois tempos.

Você vai me dizer esse pin.

E não só vai dizer, como vai digitar você mesma no aplicativo, para eu não pagar tarifa.

E ainda vai me agradecer por eu estar te ensinando a viver.

Vitaliy voltou para o sofá, sentou-se na poltrona em frente e esticou as pernas, bloqueando a passagem.

Pôs o cartão sobre a mesinha entre os dois, como um prêmio num jogo mortal.

— Eu espero, — disse, cruzando os braços sobre o peito.

— Tempo é o que não me falta.

Eu estou alimentado.

Já você… está com fome.

E logo vai ficar com sede.

E com sono.

Mas dormir eu não vou deixar.

A cada dez minutos vou te acordar e perguntar o código.

Vamos ver quanto você aguenta.

Um dia?

Dois?

Maria olhava para o cartão.

Quatro números.

Só quatro números a separavam da comida e do descanso.

Mas os mesmos quatro números a separavam da destruição moral completa.

Dentro dela, em algum lugar na altura do plexo solar, se formava um nó apertado e quente.

O medo ia embora, cedendo lugar a um ódio frio e sonoro.

Ela olhava para o marido e via não o homem com quem tinha vivido cinco anos, mas um monstro, um ocupante, um inimigo que havia tomado seu território.

— A Lena não precisa desse dinheiro, — disse ela baixinho.

— Você só quer mostrar que aqui quem manda é você.

Quer comprar o amor da sua irmã às minhas custas, porque sozinho você é um zero.

Você não tem nada para dar a ela além do dinheiro dos outros.

Os olhos de Vitaliy se estreitaram.

Ele se levantou devagar da poltrona.

O rosto escureceu, os punhos se cerraram.

As palavras tinham acertado o alvo, perfurando a couraça grossa da autossatisfação dele.

— O que foi que você disse? — sibilou ele, dando um passo em direção a ela.

— Eu sou um zero?

Eu?!

Eu te sustento!

Eu te trouxe para este apartamento!

Sem mim você estaria jogada na sarjeta!

— O apartamento você herdou da sua avó, — Maria também se levantou, embora as pernas fraquejassem.

Não havia mais para onde recuar — atrás dela estava o encosto do sofá.

— E nós o sustentamos com o meu salário, porque os seus “negócios” só dão prejuízo.

— Cala a boca! — berrou ele, e saliva espirrou da boca.

— Cala essa sua boca imunda antes que eu conte seus dentes!

Diz o código!

Rápido!

Ele pegou o cartão da mesa e o enfiou no rosto dela, quase arranhando a pele com a ponta afiada do plástico.

— Digita!

Pega o telefone e transfere!

Agora mesmo!

A situação chegou ao limite.

O ar da sala parecia que podia ser cortado com faca.

Vitaliy já não se controlava, tremia de raiva e de orgulho ferido.

Maria entendeu que as palavras tinham acabado.

O tempo da diplomacia tinha passado.

Estava chegando o tempo da guerra.

— Você vai digitar esse código nem que eu tenha que quebrar seus dedos! — rosnou Vitaliy, e no instante seguinte ultrapassou a linha que separa uma briga de casal da violência.

Ele se lançou sobre ela, abandonando qualquer tentativa de parecer uma pessoa civilizada.

A mão larga, com cheiro de tabaco e metal de chaves, apertou o pulso dela.

A pegada era de ferro, causando uma dor surda e latejante.

Vitaliy a puxou para si, tentando torcer o braço dela para desbloquear a tela do smartphone com a impressão digital.

— Me solta! — soltou Maria, mas não gritou.

Naquele instante algo estalou dentro dela.

O medo que a tinha paralisado na última meia hora evaporou, queimado pelo fogo da adrenalina.

Restou apenas o instinto animal de autopreservação.

Ela não era lutadora, nunca tinha brigado, mas agora seu corpo agia sozinho.

Ela abaixou bruscamente a cabeça e cravou com toda a força os dentes no antebraço peludo do marido.

Vitaliy uivou.

Era o som de um animal ferido — mistura de surpresa e dor.

Reflexivamente, ele abriu a mão, e Maria, aproveitando o momento, arrancou o braço.

O telefone, descrevendo um arco, voou para o lado e bateu com um baque surdo no pé da poltrona, mas a tela não se apagou, continuando acesa na penumbra da sala como a única testemunha do que estava acontecendo.

— Sua desgraçada! — rugiu Vitaliy, segurando o braço mordido.

No rosto dele surgiu algo terrível — uma fúria absoluta, descontrolada.

— Você resolveu me morder?

A mim?!

Ele levantou o braço.

O golpe foi pesado, de mão aberta, mas ensurdecedor.

A cabeça de Maria virou de lado, e na boca surgiu na hora um gosto salgado, metálico, de sangue — o lábio se abrira nos dentes.

Ela cambaleou para trás, batendo as costas na estante.

O vidro da portinhola tilintou de modo queixoso, mas resistiu.

Vitaliy avançou, encurralando-a.

Agora ele não queria dinheiro.

Ou melhor, não só dinheiro.

Ele queria punição.

Queria esmagar aquela rebelião, destruir fisicamente a resistência.

— Eu vou te deixar tão acabada que sua própria mãe não vai te reconhecer, — sibilava ele, cuspindo saliva.

— Você vai rastejar de joelhos diante de mim, implorando o código.

Maria olhou em volta freneticamente.

O olhar correu pela sala em busca de salvação.

Não havia para onde fugir — ele bloqueava a passagem.

Lutar corpo a corpo era inútil — ele pesava o dobro dela.

O olhar dela caiu sobre a tábua de passar encostada à parede.

Sobre ela, ainda não totalmente frio depois de ele ter passado a camisa naquela manhã, estava um ferro de passar pesado, com base de cerâmica.

O fio pendia para baixo como a cauda de uma cobra preta.

Quando Vitaliy fez um avanço tentando agarrá-la pelos cabelos, Maria se abaixou.

Ela não estava tentando se esquivar, estava partindo para o ataque.

Os dedos dela se fecharam no cabo do ferro.

Aquilo não era uma arma, era um argumento de um quilo e meio.

— Não chega perto! — gritou ela, rouca, erguendo o ferro diante de si como um escudo.

Vitaliy ficou parado por um segundo, vendo nas mãos dela aquele objeto pesado.

Mas então os lábios dele se esticaram num sorriso torto.

— E o que você vai fazer?

Me passar? — ele deu um passo à frente, seguro da própria impunidade.

— Coloca isso no lugar, sua idiota, antes que piore.

Mas Maria não olhava para ele.

O olhar dela se deslocou um pouco à esquerda, para a mesinha onde estava o maior orgulho de Vitaliy — o notebook gamer potente dele.

Aquele mesmo pelo qual ele ainda pagava prestação, e no qual supostamente “trabalhava nos negócios”, quando na verdade passava o dia jogando “Tanks” e torrando o orçamento da família em contas premium.

— Reforma, é? — perguntou ela baixinho, e na voz dela começaram a soar notas de loucura.

— A Lena precisa de papel de parede?

— O que você… — começou Vitaliy, acompanhando o olhar dela, mas não conseguiu terminar.

Maria, com um golpe largo, colocando nele toda a mágoa acumulada em cinco anos, toda a dor das humilhações e o medo daquele dia, desceu o ferro sobre o notebook aberto.

O estalo foi horrível.

Era o som da tecnologia morrendo — o crack do plástico se partindo, o tilintar da tela explodindo e o ranger do metal.

A base de cerâmica do ferro entrou na tela, transformando-a numa teia de pixels quebrados e manchas pretas, e arrebentou o teclado.

— Não! — berrou Vitaliy como se tivessem batido nele próprio.

Ele se atirou para a mesa, mas já era tarde.

Maria não parou.

Ela bateu uma segunda vez, terminando de destruir o corpo do aparelho, transformando o objeto caro num monte de lixo caro.

As teclas voaram para os lados como dentes arrancados.

— Aqui está a sua reforma!

Aqui está o seu papel de parede!

Aqui está o seu gesso veneziano! — gritava ela a cada golpe, e a voz se quebrava num guincho.

— Come!

Manda a sua Lena comer isso!

Vitaliy caiu sobre ela de lado, derrubando-a no chão.

Os dois despencaram no tapete, agarrando-se um ao outro.

O ferro voou para longe, batendo no piso.

Vitaliy tentava prensá-la contra o chão, o rosto roxo de esforço, as veias do pescoço saltadas como cordas.

— Sua desgraçada!

Você vai me pagar esse notebook com a vida! — rugia ele, tentando agarrá-la pelo pescoço.

Mas Maria já não era vítima.

Era uma fúria.

Se contorcia, arranhava, golpeava com os joelhos.

Em dado momento conseguiu soltar uma das mãos.

Ela apalpou no chão justamente aquele maldito pedaço de plástico — o cartão bancário, que Vitaliy deixara cair ao correr para salvar o notebook.

— Você queria o dinheiro? — arquejou ela, olhando diretamente nos olhos dele, cheios de sangue.

— Vai sonhando!

Com as duas mãos, dobrou o cartão de plástico.

Vitaliy tentou agarrar as mãos dela, mas não conseguiu a tempo.

Ouviu-se um estalo seco e nítido.

O cartão se partiu ao meio.

O chip estalou e saltou.

— Acabou! — soltou Maria, atirando os pedaços no rosto dele.

— Sem dinheiro!

Sem cartão!

Não tem mais nada!

Engasga com isso!

Vitaliy congelou.

Ele estava sentado sobre ela, respirando pesadamente, olhando para os pedaços de plástico espalhados pelo tapete ao lado dos restos do notebook.

Na sala caiu um silêncio pesado e vibrante, quebrado apenas pela respiração áspera dos dois.

Ele saiu de cima dela lentamente, como se as forças o tivessem abandonado.

Sentou-se no chão, apoiando as costas no sofá, e ficou olhando de forma vazia para a mesa destruída.

As mãos dele tremiam.

Maria rastejou até a parede e puxou os joelhos para o peito.

O robe estava rasgado no ombro, os cabelos despenteados, o lábio sangrava, deixando gotas vermelhas na gola.

Ela olhava para o marido, mas via diante de si um completo estranho.

Naquela sala, entre os destroços da vida doméstica, tudo o que os ligava tinha morrido.

Não havia mais amor, nem hábito, nem sequer piedade.

— Você vai pagar por tudo, — disse Vitaliy em voz surda, sem o fogo de antes, sem olhar para ela.

— Vou te arrastar pelos tribunais por causa do patrimônio.

— Tenta, — respondeu Maria no mesmo tom baixo.

Ela limpou o sangue do lábio com as costas da mão.

— As chaves estão na cômoda.

Abre a porta.

Eu vou embora.

— Some, — atirou ele, olhando para um ponto fixo.

— Some para o inferno.

Mas deste apartamento você não leva nada.

Nem suas calcinhas velhas.

Maria se levantou devagar.

O corpo inteiro doía, cada músculo latejava, mas por dentro havia um estranho vazio gelado e uma leveza nova.

Ela foi até a cômoda e pegou o molho de chaves.

Vitaliy nem se mexeu.

Ficou sentado entre as ruínas da própria ganância, tentando juntar os cacos da tela do notebook, como se isso pudesse ajudar em alguma coisa.

Ela não recolheu os pertences.

Não procurou a bolsa.

Apenas pegou o telefone, que estava caído sob a poltrona, enfiou-o no bolso do robe rasgado e foi até a entrada.

O clique da fechadura soou como um tiro.

A porta se fechou com força.

No apartamento ficaram apenas Vitaliy, o notebook destruído, o cartão quebrado e o cheiro do borsch derramado na cozinha, que começava a azedar, enchendo de fedor todo o espaço da antiga vida em comum deles…