O médico me deu um mês de vida, e meu marido correu imediatamente para a amante; eu caí na risada, rasgando o atestado falso comprado para colocá-lo à prova.

Oleg entrou no apartamento sem nem se dar ao trabalho de limpar as botas no capacho que eu havia comprado no mês passado.

No parquet claro e envernizado, espalharam-se imediatamente manchas cinzentas de sujeira, parecidas com borrões no caderno de um aluno irremediavelmente ruim.

Eu estava sentada na velha poltrona do meu avô, que meu marido chamava com desprezo de “apanhador de poeira do século passado”.

— De novo nessa sucata — fez uma careta, sem sequer olhar para mim, e atirou as chaves sobre a mesinha de vidro.

O metal bateu na superfície com um som tão agudo e seco, como se alguém tivesse passado de propósito um prego na lousa da escola.

Naquele momento entendi que estava na hora de demolir pela raiz o cenário do nosso drama familiar.

Em silêncio, estendi a ele uma folha dobrada ao meio, na qual se destacava de forma provocadora o carimbo azul de um centro médico particular.

— E isso aí é o quê, um recibo? — Oleg pegou o atestado sem vontade, passando os olhos pelas linhas com uma expressão de leve repulsa.

O rosto dele, normalmente bem-cuidado e congelado numa máscara de eterna ocupação, de repente deu uma guinada complexa.

— O médico me deu um mês de vida — disse eu, tentando fazer minha voz soar o mais neutra possível.

Oleg ficou imóvel, continuando a olhar para o texto, e quase ouvi fisicamente as engrenagens de uma caixa registradora girando dentro da cabeça dele.

Ele não correu para me abraçar, não começou a procurar desesperadamente os contatos dos melhores oncologistas, nem sequer me ofereceu um copo d’água.

— Um mês? — repetiu, e na entonação dele surgiu uma nota estranha, quase triunfante, que ele logo encobriu com uma tosse.

— Apenas trinta dias, se acreditarmos no professor Samoilov — confirmei, observando as partículas de poeira que dançavam preguiçosamente no raio do sol poente.

De repente, ele começou a desabotoar os botões do paletó impecável com tanta pressa, como se a roupa tivesse ficado apertada de repente nos ombros.

— Escuta, Lena, eu sempre achei que, em momentos críticos, a gente precisa ser absolutamente sincero — começou ele, afastando-se em direção à janela.

Sinceridade era a última qualidade que eu esperava encontrar num homem que tinha escondido um segundo chip por dois anos.

— Já que o destino nos colocou nesses limites… — ele hesitou, mas logo endireitou os ombros, enchendo o peito de ar. — Eu não consigo mais fingir intimidade.

— E o que exatamente você pretende fazer nessas últimas quatro semanas? — perguntei, olhando para o desenho do papel de parede, que de repente me pareceu um conjunto ridículo de rabiscos.

— Já faz seis meses que eu tenho outra vida, Lena — despejou ele aquilo com alívio, como se tivesse sacudido lixo de dentro da bota.

Continuei em silêncio, dando a ele a oportunidade de exibir todos os abismos da sua nobreza.

— O nome dela é Sveta, e ela está esperando um filho — ele olhou para mim como se eu fosse um erro técnico incômodo no novo plano de negócios dele.

Eu olhava para ele e não via o homem com quem dividi a cama por dez anos, mas um transeunte qualquer que entrou pela porta errada.

— Entende, eu não quero desperdiçar seu “mês de despedida” com hipocrisia — declarou ele com uma pompa digna de uma péssima peça teatral. — Isso seria injusto com o futuro da minha nova família.

— Quer dizer que você vai embora agora mesmo? — ajeitei a manta, que de repente começou a me parecer áspera demais.

— Sim, pego o resto das coisas depois; agora vou levar só o notebook e o indispensável para o trabalho — assentiu Oleg.

Ele foi em direção ao armário, e eu senti na pele como o espaço ao redor dele começava a se purificar rapidamente daquela energia pesada e opressora.

Meu marido agarrava as camisas de seda e as jogava na bolsa de couro de qualquer jeito, sem se importar com vincos ou amassados.

Antes eu teria me levantado num salto e começado a dobrá-las cuidadosamente, conferindo os botões, mas agora eu apenas apreciava aquele espetáculo caótico.

— A Sveta está me esperando no estacionamento, nós já vínhamos planejando a mudança há muito tempo — lançou ele por cima do ombro, sem nem me conceder um olhar de despedida.

— O destino resolveu tudo sozinho, me poupando das conversas difíceis — acrescentou, fechando a bolsa com um estrondo, como se estivesse martelando o último prego.

A porta bateu com um estampido curto, e eu ouvi o som firme dos passos dele se apagando no corredor da escada.

Levantei-me devagar da poltrona e fui até a janela, sentindo nas pernas uma leveza estranha, quase sem peso.

Lá embaixo, diante da entrada do prédio, estava o carro prateado dele, no qual ele atirava apressadamente seus pertences.

Ao lado, rodopiava uma loirinha baixa de casaco rosa-choque, falando algo alegremente e quase dançando de impaciência.

Meu marido correu imediatamente para a amante sem sequer perguntar se eu tinha analgésicos no armário de remédios.

Olhei para o atestado, que branqueava solitário sobre a superfície de vidro da mesa.

O carimbo era verdadeiro, a assinatura também; só que o diagnóstico era fruto da minha conversa de três minutos com um colega de escola que comandava um laboratório particular.

Eu caí na risada, vendo o carro de Oleg sair do pátio cantando os pneus em direção à “nova vida feliz”.

O riso era limpo e sonoro; preenchia cada canto do apartamento, expulsando dali o cheiro parado do perfume caro dele.

Peguei o atestado nas mãos e, lentamente, com um prazer quase físico, rasguei-o em pequenos pedaços irregulares.

Depois mais uma vez, e mais outra, até que na mesa se formou um pequeno monte de confetes brancos, simbolizando a minha festa pessoal.

Aquele tinha sido o teste mais barato e eficiente de presença de consciência que já se realizara dentro daquelas paredes.

Fui até a cozinha e escancarei a janela, deixando entrar o ar cortante e revigorante da cidade no outono.

Sobre a mesa estava a xícara com a bebida matinal de Oleg, da qual ele não tinha terminado de beber, e no fundo já se formava uma película escura desagradável.

Despejei aquela mistura na pia e lavei a louça com ferocidade, sentindo a água quente levar embora os últimos vestígios da presença dele.

De repente, tive uma vontade louca de promover uma destruição total no apartamento, jogar fora aquele sofá de couro pomposo e substituí-lo por algo macio.

No corredor pendia um espelho maciço com moldura dourada que Oleg comprara por uma fortuna para destacar o nosso “status”.

Aproximei-me dele e vi uma mulher de olhos ardentes, que tinha de reserva não um mês, mas uma quantidade infinita de anos.

Nenhum tratamento de bem-estar produz um efeito tão poderoso quanto se livrar instantaneamente do peso morto.

À noite, recebi uma ligação da minha irmã, Veronika, que era a única pessoa a par dos detalhes da minha aventura.

— Lenka, então, qual foi o resultado do nosso “exame médico”? — a voz dela vibrava de curiosidade.

— Os resultados superaram todas as expectativas, Nika — preparei para mim uma infusão forte de ervas. — Meu organismo, em quinze minutos, se livrou do tumor mais perigoso.

— Não acredito que ele fugiu! — exclamou minha irmã, e do outro lado da linha ouvi a gargalhada dela.

— Voou, saiu com os calcanhares brilhando, e ainda levou a sua Svetlana junto para ganhar velocidade — sorri para meu reflexo.

Às vezes é preciso simular o fim do mundo para finalmente ver com quem, de fato, você divide o teto.

Na manhã seguinte, chamei uma equipe de carregadores, liderada por um rapaz fleumático chamado Egor.

Eles levavam metodicamente para a garagem tudo aquilo que Oleg chamava de “interior de design”, e eu chamava de móveis de tortura.

A luz literalmente inundou os cômodos, revelando sem piedade a poeira sob os armários e os riscos profundos no parquet que antes fora impecável.

— Dona, essa poltrona italiana também vai para o lixo? — perguntou Egor, enxugando a testa com a manga.

— Não, Egor, essa poltrona fica — bati de leve no braço gasto do móvel do meu avô. — Ela é a única coisa verdadeira aqui dentro.

Ele me olhou com surpresa, mas não fez perguntas desnecessárias, acostumado às excentricidades dos clientes.

Três horas depois, meu apartamento parecia uma tela em branco, na qual se podia pintar o que quer que fosse.

Pedi uma porção enorme de comida apimentada de um restaurante chinês e a comi sentada no chão, bem no centro da sala vazia.

Foi o jantar mais sofisticado da minha vida, temperado com o sabor do silêncio tão esperado.

O telefone não parava de vibrar com mensagens que Oleg mandava com uma regularidade perturbadora.

“Elena, esqueci no cofre os documentos do carro, amanhã estarei aí às dez, deixe-os preparados.”

“Espero que você não vá fazer escândalo nos seus últimos dias e me entregue tudo em paz.”

Bloqueei o número dele em silêncio, sentindo uma segurança fria e agradável se espalhar dentro de mim.

As tentativas tardias dele de continuar mandando lembravam as manobras de um general que perdera não só o exército, mas também as calças.

Uma semana depois, atravessei decidida a porta do salão, onde fui recebida pelo meu cabeleireiro, Vadim.

Ele observou meus cabelos por muito tempo, cabelos que eu havia preservado todos aqueles anos apenas porque Oleg gostava da imagem de “esposa clássica”.

— Elena, a senhora tem certeza? Cortar um luxo desses é quase um crime!

— Vadim, corte tudo o que me atrapalha a respirar — fechei os olhos, antecipando a mudança.

Quando as mechas escuras e pesadas começaram a cair no chão, senti como se me tirassem do pescoço uma canga invisível, mas muito pesada.

No espelho me encarava uma mulher completamente diferente — com um corte ousado, o pescoço descoberto e um olhar perigosíssimo.

Eu já não era um apêndice do sucesso de outra pessoa; eu estava me tornando a protagonista da minha própria história.

O mês voou tão depressa, como se de repente o dia tivesse passado a ter metade das horas.

Eu estava sentada num pequeno café na esquina da nossa rua, tomando uma limonada gelada e lendo um livro.

De repente, a porta se escancarou com um estrondo, como se alguém a tivesse arrombado com o ombro, e Oleg invadiu o salão.

Ele parecia alguém que tinha passado o último mês não num resort, mas num campo de trabalho: camisa amassada, olhar perdido, barba de uma semana.

Ao me ver, ele ficou paralisado e depois veio quase correndo em direção à minha mesa.

— Lena? Você… como veio parar aqui? — ele me olhava como se tivesse visto um fantasma em pleno dia.

— Vim andando, Oleg — virei calmamente a página, sem sequer olhar para ele. — E você, por que não está de preto?

Ele desabou na cadeira à minha frente, e as mãos dele tremiam visivelmente enquanto tentava ajeitar o colarinho.

— A Sveta… — ele se interrompeu, e na voz surgiram notas chorosas. — Ela acabou não sendo nada daquilo que eu pensava.

Tive dificuldade para conter a vontade de aplaudir essa súbita revelação.

— Imagine só, ontem ela me expulsou, dizendo que eu sou chato demais e que não tenho futuro — ele procurava meus olhos em busca de compaixão.

— A ironia do destino, Oleg, é que ela simplesmente leu a sua ficha um pouco mais rápido do que eu — observei.

— Lena, eu entendi tudo — ele tentou cobrir minha mão com a dele, mas tirei a mão a tempo. — Vamos esquecer esse pesadelo e começar tudo de novo?

Olhei para ele com interesse sincero, como se observa um inseto raro preso dentro de um pote.

— Veja bem, Oleg, aquele mês de que se falava no atestado realmente se tornou o último mês da minha vida.

Ele já tinha aberto a boca para argumentar alguma coisa, mas eu não deixei que dissesse uma só palavra.

— Foi o último mês da minha vida com um covarde e um traidor — fechei o livro e me levantei.

Deixei sobre a mesa algumas notas, mais do que suficientes para pagar meu pedido e a gorjeta do garçom.

— O atestado era falso, Oleg; já o meu desejo de nunca mais ver você é absolutamente autêntico.

Saí para a rua, sentindo o vento morno brincar com meus cabelos curtos.

O mundo era surpreendentemente enorme e não precisava, de modo algum, que eu me ajustasse aos caprichos de alguém.

Eu não sabia o que o dia de amanhã me traria, mas isso não me assustava; pelo contrário, me dava entusiasmo.

O principal era que no meu apartamento já não havia pegadas sujas de botas alheias nem o cheiro de um amor falso.