— Que dívida é essa que a minha sogra está cobrando de mim? Eu não peguei nada dela, — disse Evguênia, largando sobre a bancada, com um baque surdo, uma folha arrancada do caderno.

— Pasha, me explica de onde apareceu esse valor de duzentos e quarenta mil.

Por acaso pegamos um financiamento com ela?

Pavel estava sentado à sua frente.

Parecia um школьник pego com um cigarro: os ombros caídos, os dedos passando nervosamente pela borda do guardanapo.

— Jênia, não comece já na defensiva.

Mamãe acha que tempos difíceis chegaram.

Você mesma está vendo os preços no mercado.

Ela resolveu trocar a fiação, a equipe apresentou um orçamento que faz a pressão de qualquer um disparar.

O dinheiro está curto.

Então ela decidiu… acertar o balanço da família.

— Balanço? — Evguênia pegou a folha com dois dedos, como se ela fosse contagiosa.

— Vamos ler esse plano de negócios.

Item um: “Carrinho importado, de presente — 45.000. Com inflação e desgaste moral — 60.000”.

Pasha, ela nos deu isso quando o Vânia nasceu!

Com balões e um brinde à saúde do neto!

— Ela diz que foi um investimento no nosso conforto.

E agora o investimento é necessário para ela.

O ciclo da ajuda na natureza.

— Vamos continuar, — disse Evguênia, apontando a unha para o meio da lista.

— “Serviços de babá de fim de semana. Tarifa — 500 rublos por hora. Total em dois anos…”

Você está falando sério?

Ela apresentou uma conta por brincar de loto com o próprio neto?

— Mamãe disse que gastava o tempo pessoal dela, que poderia ter monetizado.

Por exemplo, fazendo tricô por encomenda.

Essa é a lógica dela, Jênia.

Peculiar, de mercado.

Na fechadura da porta de entrada, a chave estalou seca.

Tamara Igorevna tinha seu próprio molho de chaves, que guardava “para qualquer emergência”, embora nunca tivesse havido incêndios na família — apenas combustões emocionais como aquela.

A sogra entrou na cozinha como se fosse dona da casa, carregando diante de si uma bolsa nova de couro como se fosse um escudo.

Passou os olhos pela mesa, viu o “documento” e assentiu com satisfação, sem perder tempo com cumprimentos.

— Vejo que já leram.

Não vamos tomar chá, vamos direto ao assunto.

O prazo é até o fim do mês.

Evguênia levantou-se em silêncio e serviu um copo d’água.

Precisava esfriar os ânimos para não explodir em gritos.

— Tamara Igorevna, nós lemos, — a voz da nora soava uniforme, como a de uma apresentadora de telejornal.

— Só que eu não entendo a natureza desse negócio.

A senhora quer monetizar o passado?

— Isso não é passado, querida, são ativos, — a mulher passou o dedo pelo peitoril da janela, verificando a poeira.

— Eu investi na vida doméstica de vocês para que pudessem se firmar.

Agora estou aposentada, a reforma está parada, os canos estão vazando.

Não vim até estranhos, vim até os meus.

Dívida se paga com pagamento.

— Mãe, mas aqui até as abobrinhas da chácara entraram na conta, — Pavel finalmente levantou os olhos.

— Pelo preço de mercado da “Azbuka Vkusa”?

— E você achava que elas pulavam sozinhas da horta?

Isso é trabalho, costas, fertilizante! — cortou a mãe.

— Eu calculei tudo honestamente, até dei desconto de parente.

Se vocês tivessem contratado uma babá de fora, estariam arruinados.

Então não reclamem.

Evguênia soltou o ar devagar.

Em vez de discutir, tirou da gaveta uma calculadora e a colocou diante da sogra.

— Está bem.

Se é mercado, então que seja mercado.

Aceito as suas regras do jogo.

Tamara Igorevna sorriu vitoriosa, alisando as pregas da saia.

— Assim é que se fala.

Eu sabia que você era uma mulher sensata, sem histerias desnecessárias.

— Só que eu tenho uma contraproposta, — Evguênia virou a folha dos cálculos para o lado em branco e pegou uma caneta.

— Vamos fazer uma compensação.

Pasha, dita.

No verão passado, fizemos a reforma da varanda da Tamara Igorevna.

Você fez o isolamento, eu reboco.

— Foi mesmo, — assentiu o marido, em cujos olhos apareceu um lampejo de interesse.

— O trabalho de acabamento hoje em dia custa caro.

Uma limpeza pós-obra custa no mínimo sete mil.

Vamos anotar.

Agora, o próximo.

Tamara Igorevna, há meio ano a senhora ficou de cama com pneumonia.

Eu ia até sua casa todos os dias, atravessando a cidade inteira.

O sorriso desapareceu do rosto da sogra, dando lugar à cautela.

— Aonde você quer chegar com isso?

Eu estava doente!

Parentes devem ajudar!

— E avós devem cuidar dos netos por amor, não por tarifa, já que estamos falando de laços familiares, — Evguênia escrevia rápido, e os números iam se alinhando no papel em fileiras retas.

— Mas, já que estamos no mercado…

Serviço de entrega de comida quente, serviços de cuidadora, custo dos remédios.

Gasolina.

Pasha nos levava — essa é tarifa “Comfort Plus”, nosso carro está limpo, o motorista é educado.

Evguênia falava de forma entrecortada, martelando cada palavra.

— As viagens para a chácara.

Todo fim de semana.

O trem custa dinheiro, e o táxi da estação também.

Depreciação do nosso carro.

E a cereja do bolo.

Há três anos, demos à senhora cento e vinte mil rublos para implantes dentários.

Na época, a senhora disse: “Depois acertamos as contas”.

Pois bem, chegou a hora.

A nora traçou uma linha grossa e virou a folha para a sogra.

— Pelos meus modestos cálculos, se subtrairmos a sua lista da nossa, a senhora ainda fica nos devendo trinta e oito mil rublos.

Prazo de devolução — uma semana.

Precisamos marcar o Vânia no ortodontista, e lá também os preços são desumanos.

Tamara Igorevna encarava os números, e o ar da cozinha ficou pesado, denso.

— Pasha! — guinchou ela, voltando o olhar para o filho.

— Você vai permitir que ela humilhe a própria mãe desse jeito?

Eu passei noites sem dormir, criei você, e vocês me vêm com… uma fatura?!

Pavel olhou para a mãe, depois para a esposa.

Parou de mexer no guardanapo.

— Mãe, a Jênia tem razão.

Foi a senhora quem trouxe a calculadora para dentro da nossa casa.

Não fique ofendida porque nós também aprendemos a fazer contas nela.

Família não é contabilidade.

Mas, se a senhora quer relações de troca e dinheiro, o resultado não é a seu favor.

— Mas como vocês… mas eu… — Tamara Igorevna levantou-se tão bruscamente que a cadeira rangeu em protesto.

Agarrou a bolsa e saiu voando para o corredor.

Um segundo depois, a porta de entrada bateu, deixando para trás o cheiro de um perfume caro e o gosto amargo do escândalo.

— Você vai mesmo cobrar dela esses trinta mil? — perguntou Pavel baixinho.

— Quem precisa disso, — Evguênia amassou a folha e a jogou no lixo.

— Família não deve se transformar em banco.

Mas as chaves dela vamos ter de tomar de volta.

Pavel aproximou-se da esposa e pousou as mãos nos ombros dela.

— Pelo menos agora a gente sabe exatamente quanto custam as abobrinhas gratuitas.