Elena estava sentada à mesa da cozinha, folheando os recibos das contas de serviços públicos e as faturas.
De novo, o dinheiro não era suficiente.

Mais uma vez, teria de pedir dinheiro emprestado à mãe até receber o salário.
A mulher passou a mão cansada pelo rosto, olhou para o calendário: ainda faltava uma semana para o fim do mês, e quase não restava dinheiro.
A porta bateu, Pavel entrou no apartamento e jogou a jaqueta no cabide.
Foi até a cozinha e abriu a geladeira.
— De novo só iogurtes? — disse o marido, tirando uma garrafa de água.
— Pasha, precisamos conversar, — começou Lena, afastando os papéis para o lado.
— Sobre o quê? — o marido sentou-se em frente a ela e estendeu a mão para pegar os cigarros.
— O aluguel tem que ser pago daqui a três dias.
Estão faltando sete mil rublos, — disse a mulher em voz baixa, mas com firmeza.
Pavel acendeu um cigarro, tragou e soltou a fumaça em direção à janela.
— E o que eu devo fazer?
Tirá-los do nada?
— Você poderia não ter comprado rodas novas para o carro na semana passada, — Elena cruzou os braços sobre o peito.
— Pronto, chegamos ao ponto principal, — o marido sorriu de lado, mas sem calor.
— Meu carro atravessa sua garganta.
— O seu carro engole metade do seu salário todo mês! — a voz de Elena se elevou.
— O empréstimo, a gasolina, os consertos, as peças.
Estamos vivendo quase passando fome, e você continua investindo tudo nesse carro!
— Sem carro eu não posso trabalhar! — Pavel bateu o punho na mesa, e Elena se assustou.
— Você não entende?
Eu preciso ir às obras, levar clientes!
— Eu entendo.
Mas talvez você pudesse ter comprado algo mais simples?
Por que você precisa de um carro importado financiado por cinco anos?
— Porque eu não quero andar num traste enferrujado! — o marido se levantou e começou a andar pela cozinha.
— Eu sou homem, preciso de um carro decente!
Elena encostou-se no encosto da cadeira e fechou os olhos.
Essa conversa se repetia todo mês.
As mesmas palavras, os mesmos gritos.
Nada mudava.
— E as nossas economias para o apartamento? — perguntou a mulher em voz baixa, abrindo os olhos.
— Nós queríamos guardar dinheiro.
— De que economias você está falando?! — Pavel abriu os braços.
— Mal temos dinheiro para viver!
De onde eu vou tirar dinheiro para guardar?
— Se não fosse o empréstimo…
— Chega!
Basta! — o marido pegou a jaqueta e correu para a porta.
— Estou cansado de ouvir sempre a mesma coisa!
Resolva você mesma o aluguel, já que é tão inteligente!
A porta bateu.
Elena ficou sentada na cozinha, olhando para os papéis espalhados sobre a mesa.
As lágrimas lhe subiram à garganta, mas ela se conteve.
Não tinha forças para chorar, e também não via sentido nisso.
Na manhã seguinte, Pavel saiu para o trabalho sem dizer uma palavra.
Nem sequer se despediu.
Elena se arrumou para ir ao seu trabalho, como vendedora em uma loja de roupas.
O salário era pequeno, mas estável.
Embora que estabilidade era essa, quando todo mês era preciso escolher entre comida e contas.
O dia inteiro a mulher pensou em quanto tempo mais aquilo iria continuar.
Há três anos alugavam aquele pequeno apartamento de um cômodo na periferia.
Há três anos pagavam à proprietária treze mil rublos por mês.
Cento e cinquenta e seis mil rublos por ano.
Em três anos, mais de quatrocentos e sessenta mil rublos simplesmente foram embora para o nada.
E poderiam ter economizado para dar entrada em uma hipoteca.
À noite, Pavel voltou tarde, jogou-se imediatamente no sofá e ligou a televisão.
Elena preparou o jantar em silêncio.
Pôs a mesa e chamou o marido.
— Não quero, — resmungou ele, sem tirar os olhos da tela.
— Pasha, vamos pelo menos conversar direito, — tentou Elena, sentando-se ao lado dele.
— Conversar sobre o quê?
Você vai acabar falando de novo sobre o carro.
— Não sobre o carro.
Sobre nós.
Nós já sonhamos em ter uma casa própria.
— Sonhamos, — o marido trocou de canal.
— E daí?
Com os nossos salários, vamos levar uns quinze anos para economizar.
Se conseguirmos.
— Talvez a gente possa tentar de outro jeito? — a mulher pegou a mão do marido.
— Procurar um apartamento mais barato, economizar, começar a guardar nem que seja um pouquinho?
Pavel olhou para a esposa e sorriu com desdém.
— Você vive em algum mundo de fantasia, Lena.
Olhe para a realidade.
Nós não temos dinheiro.
Não temos, e não vamos ter.
Aceite isso de uma vez.
Elena puxou a mão de volta e se levantou.
— Então você nem vai tentar?
— Tentar o quê?
Me matar de trabalhar por um sonho ilusório? — o marido elevou a voz.
— Eu já trabalho como um condenado!
E você, o que faz?
Fica o dia inteiro na loja vendendo trapos!
— Isso se chama trabalho, Pavel.
Eu ganho dinheiro para a família.
— Você ganha uma mixaria! — o marido saltou do sofá.
— Se você soubesse planejar o orçamento direito, nós teríamos tudo!
Elena sentiu tudo se apertar por dentro.
Ficou difícil respirar.
— Planejar o orçamento?
Sério? — a mulher deu um passo em direção ao marido.
— O nosso salário mal dá para o aluguel e a comida!
O que eu devo planejar?!
— Você devia aprender a economizar!
Não comprar tanta bobagem!
— Que bobagem?! — Elena quase gritava.
— A última vez que comprei algo para mim foi há seis meses!
E você compra alguma coisa para o carro toda semana!
— Lá vem você de novo! — Pavel pegou as chaves do carro da mesa e se virou para a porta.
— Cansei!
Vá conversar com as paredes!
A porta bateu.
Elena se deixou cair no sofá e abraçou a cabeça com as mãos.
Como tudo aquilo estava cansando.
Essas brigas sem fim, essa vida de salário em salário, essa sensação de que nada jamais mudaria.
Duas semanas se passaram.
A tensão em casa não diminuía.
Pavel e Elena quase não conversavam.
Falavam em monossílabos, apenas quando era necessário.
A mulher entendia: o casamento deles estava se desfazendo.
E nem era por causa do dinheiro.
Era porque tinham desaprendido a ouvir um ao outro.
Na sexta-feira à noite, quando Elena voltou do trabalho, havia uma chamada perdida de um número desconhecido no telefone.
Ela ligou de volta.
— Elena Sergeevna? — uma voz feminina foi ouvida do outro lado da linha.
— Sim, sou eu.
— Cartório.
A senhora precisa comparecer para providenciar os documentos relativos a uma herança.
Elena sentou-se no sofá, apertando o telefone.
— Que herança?
Vocês não estão enganados?
— Não, está tudo correto.
Sua tia, Valentina Petrovna Kozlova, deixou um apartamento para a senhora em herança.
Um apartamento de um quarto, no centro da cidade.
Por favor, venha amanhã às dez da manhã.
A mulher desligou e ficou olhando para a parede.
Tia Valia.
A prima da mãe.
Uma mulher idosa que morava sozinha e não tinha filhos.
A última vez que se viram foi uns cinco anos antes, em algum funeral.
E agora…
— O que houve com você? — Pavel entrou no quarto e olhou para o rosto pálido da esposa.
— Me… me deixaram um apartamento.
De herança, — soltou Elena.
— O quê?! — o marido se jogou no sofá ao lado dela.
— Quem?
— Tia Valia.
Um apartamento de um quarto, no centro.
Pavel agarrou a esposa pelos ombros e a virou para si.
— Você está falando sério?!
Isso não é brincadeira?!
— O tabelião ligou.
Amanhã vou resolver os documentos.
O marido levantou-se de um salto, andou pelo quarto e depois abraçou Elena, apertando-a contra si.
— Lena, você entende o que isso significa?
Um apartamento nosso!
Não precisamos mais pagar aluguel!
Podemos nos mudar!
A mulher assentiu, sem saber o que dizer.
Por dentro, sentimentos contraditórios fervilhavam.
A alegria por aquele presente inesperado do destino e uma estranha inquietação que ela ainda não sabia explicar.
No dia seguinte, foram juntos ao cartório.
Resolveram os documentos e receberam as chaves.
O apartamento ficava em um prédio antigo, mas em um bom bairro.
Quarenta e dois metros quadrados, reforma cosmética, os móveis tinham ficado da tia.
Podia-se mudar até no dia seguinte.
— Vamos começar a mudança já neste fim de semana, — sugeriu Pavel, olhando o quarto.
— Por que esperar?
— Vamos, — concordou Elena.
A mudança foi rápida.
Eles não tinham muitas coisas.
Em um dia, levaram tudo o que era necessário.
A proprietária do apartamento alugado não se opôs: eles haviam avisado com antecedência, não houve reclamações.
Na primeira noite em seu próprio apartamento, Elena preparou o jantar com uma sensação incomum.
Não precisava mais ter medo de que a proprietária aparecesse de repente para inspecionar.
Não precisava mais pagar todos os meses.
Aquela era a casa deles.
Ou melhor, a casa dela.
A herança tinha sido deixada para ela, não para o marido.
Pavel estava sentado no sofá, mexendo no telefone.
— Escuta, e se fizéssemos uma reforma? — sugeriu o marido.
— Trocar o papel de parede, talvez renovar o banheiro?
— Com que dinheiro? — Elena desligou o fogão e trouxe os pratos.
— Nós não temos nada.
— Aos poucos.
Agora podemos economizar, já que não pagamos aluguel.
A mulher assentiu, mas não respondeu nada.
Dentro dela se mexia aquela mesma inquietação que sentira no dia da ligação do tabelião.
Passou-se um mês.
Depois mais um.
Elena esperava que a mudança para o apartamento próprio melhorasse a relação deles.
Que Pavel ficasse mais calmo, mais gentil.
Mas nada mudou.
O marido continuava chegando em casa de mau humor, descontando na esposa por qualquer motivo.
Pratos sujos na pia, roupa lavada fora de hora, jantar sem carne: tudo virava motivo para escândalo.
— Fico o dia inteiro em pé, e você nem consegue fazer comida decente! — gritava Pavel, jogando o garfo no prato.
— Eu também trabalho! — retrucava Elena.
— Você acha que é fácil para mim?
— Você é vendedora!
O que há de difícil em ficar atrás de um balcão?
— E você é quem?
Gerente de vendas!
Grande coisa!
Antes, Elena ficava calada, suportava.
Mas agora alguma coisa tinha mudado.
Talvez ter um apartamento próprio lhe tivesse dado confiança.
Ela parou de se conter e respondia ao marido no mesmo tom.
As brigas ficaram mais duras.
Pavel não estava acostumado com o fato de a esposa revidar.
Isso o irritava ainda mais.
— Você está completamente abusada! — berrava o marido, gesticulando.
— Antes pelo menos ficava calada, e agora responde!
— Porque eu cansei de suportar a sua grosseria! — Elena estava parada diante dele, de braços cruzados sobre o peito.
— Você acha que pode falar comigo do jeito que quiser?
— Eu sou seu marido!
— E isso te dá o direito de gritar comigo todos os dias?!
Pavel se calou, cerrou os punhos, virou-se e foi para o quarto, batendo a porta.
Elena ficou na cozinha, servindo água para si com as mãos trêmulas.
Certa noite, depois de um dia particularmente pesado no trabalho, Pavel chegou em casa furioso.
Descontou em Elena já no corredor.
— Por que meus sapatos não estão limpos?!
Eu pedi isso ontem!
— Esqueci, — respondeu a esposa secamente, passando por ele rumo à cozinha.
— Esqueceu! — Pavel foi atrás dela.
— Você se importa com alguma coisa além de si mesma?!
— Pasha, me deixa em paz.
Estou cansada, — Elena tirou kefir da geladeira e serviu em um copo.
— Você está cansada?! — o marido se aproximou bem dela.
— E eu, então, fico descansando o dia inteiro?!
Eu trabalho, ganho dinheiro!
— Eu também trabalho, — a mulher virou-se para ele e levantou o olhar.
— Nós dois trabalhamos, Pavel.
— Só que sou eu quem sustenta esta família! — o marido bateu a palma da mão na mesa.
— Sem mim você estaria morando na rua!
Elena ficou imóvel, apertando o copo na mão.
O sangue lhe subiu ao rosto, as maçãs do rosto se contraíram.
— O que foi que você disse?
— O que você ouviu! — Pavel não parava.
— Quem te alimenta?
Eu!
Quem paga tudo?
Eu!
De quem é o teto sobre a sua cabeça?
Meu!
— Não grite, — disse Elena em voz baixa, colocando o copo sobre a mesa.
— O apartamento não é mérito seu, mas minha herança.
Pavel recuou como se tivesse levado um tapa no rosto.
Os olhos se arregalaram, a boca se entreabriu.
— O quê?
— Você me ouviu, — a mulher se endireitou e ergueu o queixo.
— Este apartamento ficou para mim.
Por herança.
Você não tem nada a ver com ele.
— Como assim não tenho nada a ver com ele?! — a voz do marido se tornou estridente.
— Eu sou seu marido!
Nós moramos aqui juntos!
— Moramos.
Mas o apartamento é meu.
Não nosso.
Meu.
Pavel ficou vermelho de raiva.
As veias do pescoço saltaram, as mãos se fecharam em punhos.
— Você enlouqueceu de vez?! — gritou o marido a plenos pulmões.
— Mulher ingrata!
Eu te sustento, te visto, e você me diz uma coisa dessas?!
— Você não me sustenta! — Elena também passou a gritar.
— Eu ganho meu próprio dinheiro!
E compro minhas próprias roupas!
— Sem mim você não é nada! — Pavel pegou da mesa a primeira coisa que lhe caiu na mão, um saleiro, e o atirou contra a parede.
Ele se espatifou em pedaços, e o sal se espalhou pelo chão.
Elena olhou para os cacos, depois para o marido.
Algo dentro dela se rompeu.
— Chega.
Acabou, — disse a mulher lentamente.
— Saia daqui.
— O quê?!
— Saia do meu apartamento.
Agora mesmo, — Elena foi até a porta e a escancarou.
— Vá embora.
— Você não pode me expulsar! — Pavel andava de um lado para outro na cozinha.
— Isso é ilegal!
Eu sou seu marido!
— Não preciso de um marido que não respeita a esposa.
Junte as suas coisas e vá embora.
— Eu não vou a lugar nenhum! — o marido segurou Elena pelos ombros e a sacudiu.
— Está ouvindo?!
Este apartamento também é meu!
A mulher se soltou e deu um passo para trás.
— Se me tocar mais uma vez, eu chamo a polícia.
Não estou brincando, Pavel.
Vá embora.
Agora mesmo.
O marido ficou parado, respirando pesadamente, depois se virou e foi para o quarto.
Elena ouvia o barulho das portas do armário batendo, das coisas sendo jogadas na bolsa, dos palavrões murmurados entre dentes.
Vinte minutos depois, Pavel saiu com uma bolsa cheia no ombro.
Parou no corredor e olhou para a esposa.
— Você vai se arrepender disso.
— Não, não vou me arrepender, — respondeu Elena com calma.
A porta bateu.
O silêncio cobriu o apartamento como um cobertor pesado.
A mulher sentou-se no chão, bem ao lado da entrada, abraçando os joelhos com os braços.
Não chorava.
Apenas ficou ali, escutando o silêncio.
Uma semana depois, Pavel ligou.
A voz estava calma, quase arrependida.
— Lena, vamos nos encontrar.
Vamos conversar direito.
— Não temos nada para conversar, Pasha.
— Como assim nada?
Nós somos uma família.
Eu exagerei, me desculpe.
— Você não exagerou.
Você mostrou sua verdadeira face, — Elena estava sentada no sofá com uma xícara de chá, olhando pela janela.
— Não diga isso.
Vamos tentar mais uma vez.
Eu vou mudar.
— Não, você não vai mudar.
E eu não preciso das suas promessas.
Vou pedir o divórcio.
— Por quê?!
Por causa de uma briga só?!
— Porque você me considera um ninguém.
Porque acha que me sustenta.
Porque não me respeita como pessoa.
— Lena, mas isso é bobagem!
Eu amo você!
— Não, Pasha.
Você não me ama.
Senão não teria dito que sem você eu estaria morando na rua.
— Não foi isso que eu quis dizer…
— Foi, sim.
Exatamente isso.
Adeus, Pavel.
Elena desligou o telefone e o colocou longe.
As mãos tremiam, mas por dentro ela estava calma.
A decisão estava tomada.
Não havia mais volta.
Pavel ligou mais algumas vezes.
Mandou mensagens.
Elena não respondeu.
Duas semanas depois, entrou com os documentos para o divórcio.
O marido não aceitou um acordo amigável: exigiu a partilha dos bens.
— O apartamento é um bem adquirido durante o casamento, — declarou Pavel na primeira audiência.
— Eu tenho direito à metade.
Elena entregou ao juiz os documentos do cartório.
— O apartamento foi recebido por herança durante o casamento.
De acordo com o código de família, a herança é propriedade pessoal do herdeiro e não está sujeita à partilha.
O juiz examinou os papéis e assentiu.
— Está correto.
O bem recebido por herança não constitui patrimônio comum do casal.
Pavel tentou contestar, mas o juiz o interrompeu com um gesto.
— O apartamento pertence exclusivamente a Elena Sergeevna.
As reivindicações são indeferidas.
Pavel estava sentado em seu lugar, com o maxilar travado.
Depois da audiência, tentou se aproximar da ex-esposa, mas ela passou por ele sem parar.
O divórcio foi formalizado três meses depois.
Elena saiu do tribunal, parou nos degraus e respirou fundo.
O ar estava frio, com cheiro de outono e chuva.
O céu estava coberto de nuvens, mas à mulher parecia que o sol brilhava.
O apartamento ficou com ela.
Inteiramente.
Sem reivindicações, sem dívidas.
Elena voltou para casa, preparou o jantar e se sentou junto à janela com um livro.
Silêncio.
Ninguém gritando, ninguém batendo portas, ninguém acusando.
Seis meses depois, a mulher fez uma reforma cosmética no apartamento.
Trocou o papel de parede, pintou as paredes em tons claros.
Tirou tudo o que lembrava Pavel: as velhas pantufas dele do corredor, a navalha esquecida no banheiro, a foto do casamento da parede.
Conseguiu um novo emprego, como administradora em uma pequena clínica.
O salário era melhor, o horário mais conveniente.
Começou a guardar dinheiro.
Não para algo específico, apenas assim, por precaução.
A mãe vinha visitá-la e elogiava a reforma.
— Muito bem, minha filha.
O apartamento ficou como novo.
— Obrigada, tia Valia, — Elena serviu o chá e colocou uma torta sobre a mesa.
— Se não fosse por ela, eu ainda passaria muito tempo morando de aluguel.
— Valentina Petrovna era uma boa pessoa.
É uma pena que vocês se vissem tão pouco, — suspirou a mãe.
— Ainda bem que conseguiu ajudá-la a tempo.
— Sim, — a mulher assentiu, olhando pela janela.
— Ajudou.
Às vezes Elena pensava em Pavel.
Como será que ele estava?
Voltaria a morar de aluguel?
Teria se casado com alguém?
Mas esses pensamentos logo iam embora.
Não lhe importava.
Aquela vida havia ficado para trás.
Certa noite, quando a mulher voltava do trabalho, encontrou o ex-marido perto da entrada do prédio.
Pavel estava junto do carro, fumando.
Viu Elena, jogou fora o cigarro e deu um passo em sua direção.
— Oi.
— Oi, — respondeu a mulher secamente, tirando as chaves.
— Como vão as coisas?
— Tudo bem.
Você queria alguma coisa?
Pavel hesitou e coçou a nuca.
— Só estava passando por aqui.
Resolvi ver como você está.
— Como pode ver, está tudo bem.
Tchau, Pasha, — Elena se dirigiu à entrada.
— Lena, espere, — o marido a alcançou.
— Talvez a gente possa conversar?
— Sobre o quê?
— Sobre nós.
Talvez tenhamos nos precipitado com o divórcio?
A mulher se virou e olhou nos olhos dele.
— Não, Pasha.
Não nos precipitamos.
Fizemos a coisa certa.
Repare que, ao contrário de você, eu não tentei tomar o que era dos outros.
Viva como quiser, saia daqui com o seu carro e não apareça mais no meu horizonte.
— Mas eu mudei.
De verdade.
Agora eu…
— Isso não me importa, — interrompeu Elena.
— Eu não quero voltar para aquilo que existia antes.
Desculpe, mas não.
Pavel ficou parado mais um pouco, depois assentiu, virou-se e foi até o carro.
Elena subiu para o apartamento, trancou a porta.
Sentou-se junto à janela e olhou para baixo: lá embaixo, o carro familiar estava indo embora.
A mulher tirou um iogurte da geladeira.
Ligou a música, baixa e tranquila.
Sentou-se à mesa com o notebook.
Agora ela tem seu próprio apartamento, um trabalho estável, tranquilidade.
Ninguém grita, ninguém acusa, ninguém exige o impossível.
Apenas a vida.
A vida dela.







