Ela errou ao começar logo por isso.
Na natureza existe uma subespécie especial de mamíferos, extremamente resistente.

O seu instinto de sobrevivência assenta inteiramente na exploração virtuosa do próximo.
Na zoologia, chamam-lhes parasitas.
Na vida quotidiana — «a parentela do lado do marido».
Aos meus quarenta e dois anos, trabalhando como analista financeira, tinha aprendido uma regra de ferro.
Se a sogra de repente te chama «a nossa menina esperta» e te empurra para mais perto um pires de compota caseira, fica de sobreaviso.
Algures nas profundezas da sua consciência já amadureceu e foi aprovado um plano para a expropriação dos teus bens.
Sou uma mulher autossuficiente e há muito que não alimento ilusões quanto à natureza humana.
O meu marido, Kostik, no geral, não é uma má pessoa.
Mas na presença da mãe, Zinaida Pavlovna, ele evolui rapidamente de volta para um protozoário: encolhe-se, cala-se e alimenta-se exclusivamente daquilo que lhe dão.
Naquele domingo fatídico, o clã inteiro reuniu-se à mesa.
À cabeceira sentava-se a própria Zinaida Pavlovna.
À sua direita — a cunhada, tia Liúsia, uma mulher com rosto de sofredora crónica e a garra mortal de um bull terrier.
À esquerda — o primo do meu marido, Vovik, trinta anos.
A maior realização de Vovik na vida tinha sido um curso de montagem de pneus, abandonado em 2012, e a capacidade de dormir de olhos abertos.
— Verochka, — começou a sogra.
A sua voz escorria num xarope tão espesso e pegajoso que até uma mosca de tamanho médio poderia facilmente ficar presa nele.
— Nós aqui, no conselho de família, pensámos e decidimos sem ti…
— Os anos passam.
A saúde já não é a mesma.
Queremos um bocadinho de terra, ar fresco.
É preciso construir o ninho da família!
Uma casa de campo!
— Excelente ideia, Zinaida Pavlovna, — assenti eu com educação, cortando uma fatia de tarte de maçã.
— E onde tencionam arranjar os meios para essa herdade aristocrática?
A sogra juntou as mãozinhas rechonchudas ao peito com ternura.
Os seus olhinhos brilhavam como duas moedas novinhas em folha.
— Mas nós somos uma família!
Juntamos forças todos!
Tu, Verochka, tens salário declarado, um bom cargo, um histórico de crédito puro como a lágrima de um bebé.
— O banco aprova-te qualquer quantia com todo o gosto!
Basta pedires em teu nome uns três ou quatro milhõezinhos.
E depois nós pagamos tudo entre todos!
Liquidamos isso num instante!
— Entre todos? — ergui uma sobrancelha.
Dentro de mim, Saltykov-Shchedrin já tinha despertado e esfregava as mãos de contente.
— Permitam-me esclarecer os detalhes deste grandioso projeto de investimento.
— Claro que sim! — interrompeu alegremente a tia Liúsia.
— Eu vou pôr de lado da minha pensão.
Cinco mil por mês!
Certinhos!
— E eu… isso… ajudo com as mãos! — resmungou Vovik com voz grave, escondendo o olhar vazio no prato de aspic.
— Faço a fundação.
Tenho um amigo que trabalha como guarda numa fábrica de cimento, dá para atirar sacos por cima da vedação por um preço baixo.
Eu observava aquele desfile de descaramento cristalino e aplaudia mentalmente.
O plano era genial.
Eu pendurava ao pescoço uma dívida de vários milhões.
A casa de campo, claro, seria construída no terreno de Zinaida Pavlovna, ou seja, juridicamente pertenceria exclusivamente a ela.
E eles pagariam os juros do banco com cinco mil e com o cimento roubado imaginário do Vovik.
Ao fim de um mês já me diriam: «Ai, Verochka, a inflação, a tensão anda aos saltos, o Vovik outra vez não arranja trabalho em lado nenhum. Paga tu este mês, tu és a rica da família!».
E assim pelos próximos quinze anos.
— Zinaida Pavlovna! — exclamei, abrindo os braços e pintando no rosto um entusiasmo religioso.
— A senhora é um génio!
Que sabedoria de vida!
De facto, um ninho de família!
Amanhã mesmo vou ao banco.
Não pedimos três, pedimos cinco milhões!
— Já que é para fazer, vamos em grande!
Fazemos dois andares, uma lareira, uma sauna de toros!
Vovik engasgou-se com o aspic, tia Liúsia benzeu-se fervorosamente para o candeeiro de cristal, e a sogra floresceu como se lhe tivessem acabado de entregar as chaves do Hermitage.
— Minha rica filha! — cantou ela, limpando uma lágrima inexistente.
— Kostik, olha só que mulher tens!
Durante toda a semana seguinte andei misteriosa e atarefada.
Pedi a Zinaida Pavlovna cópias dos documentos do terreno, fiz contas pensativas na calculadora.
A família do meu marido estava num estado de euforia absoluta.
Já se imaginavam a grelhar espetadas em cima do meu pescoço e a apanhar sol às minhas custas.
No sábado seguinte convoquei um «conselho de família» de resposta.
Vesti um fato cinzento austero, coloquei sobre a mesa uma pasta volumosa cheia de papéis e percorri os presentes com um olhar pesado, inquisitorial.
— Senhores concessionários, — comecei num tom de locutor que anuncia o início do inverno nuclear.
— Tenho excelentes notícias.
O banco aprovou-nos preliminarmente cinco milhões.
A uma taxa excelente.
A sogra bateu palmas, Vovik soltou um grunhido satisfeito.
— Mas, — ergui o dedo indicador.
— Como a quantia é grande, o serviço de segurança do banco apresentou uma série de condições rigorosas.
O crédito é direcionado.
O banco sabe que vamos pagar todos juntos.
Por isso, preparou contratos de responsabilidade solidária.
O sorriso no rosto de Zinaida Pavlovna começou a escorrer lentamente, como um boneco de neve a derreter na primavera.
— Que… responsabilidade? — guinchou ela.
— Solidária! — confirmei alegremente.
— Todos vocês entram oficialmente como co-mutários e fiadores.
Mas isso não é tudo.
O banco precisa de uma garantia sólida.
— Da minha parte, dou como garantia o carro meu e do Kostia.
Tia Liúsia, de si o banco exige como garantia o seu apartamento de uma assoalhada no prédio tipo Khrushchov.
— E de si, Zinaida Pavlovna — o seu maravilhoso apartamento de três assoalhadas.
— O meu apartamento?! — a sogra levou a mão ao peito.
A cor do seu rosto adquiriu um interessante tom de brócolo já passado.
— Claro! — fiz a expressão mais inocente possível e tirei os formulários da pasta.
— Aqui estão os contratos de garantia.
Só precisam de assinar.
Foram vocês mesmas que disseram: «liquidamos isso num instante».
A Liúsia ajuda com dinheiro, o Vovik com cimento.
Do que é que têm medo?
— Mas… mas, se de repente não conseguirmos pagar… — sussurrou Liúsia, afundando-se na cadeira como se quisesse fundir-se com o papel de parede.
— Então o banco, com pleno direito legal, fica com os vossos apartamentos e vende-os em leilão, — constatei com calma, com o leve sorriso de uma assassina em série.
— Mas nós somos um grupo unido!
Não vamos permitir atrasos!
A propósito, Vovik, o banco verificou o teu histórico.
Tu dás como garantia a tua garagem.
E seguro de vida obrigatório.
— Se alguma coisa correr mal, o banco vende a garagem e manda-te para trabalhos forçados.
Estou a brincar.
Simplesmente ficas na rua.
Na sala fez-se um silêncio tão profundo que se ouvia o relógio a fazer tic-tac no corredor e o som dos castelos no ar alheios a desmoronarem-se com estrondo.
Aikido psicológico em estado puro: eu simplesmente peguei no plano descarado deles e amarrei-o à responsabilidade real deles próprios.
— Sabes, Verochka… — grasnou a sogra com dificuldade, esfregando convulsivamente o peito.
— Estive aqui a pensar… Qual casa de campo?
Eu tenho ciática.
Morria lá naquelas hortas, ao diabo.
— Sim, sim! — apoiou com fervor a tia Liúsia, com notas de pânico na voz.
— E a minha tensão também anda aos saltos!
Quais cinco mil?
Nem para o Corvalol me chega!
— E a garagem faz-me falta, tenho lá os pneus de inverno, — resmungou Vovik, afastando-se da mesa como se a minha pasta de papéis emitisse radiação.
Suspirei pesadamente.
— Que pena.
Eu acreditava tanto na nossa união familiar.
Então cancelamos?
Ninguém está pronto para arriscar o seu imóvel pelo ninho de família comum?
A família acenou com a cabeça com tanta energia e sincronia que poderiam perfeitamente ser enviados aos Jogos Olímpicos.
— Bem, sendo assim… — fechei graciosamente a pasta com os falsos formulários bancários e tirei da mala outro documento.
— Já que vocês recusaram oficialmente, resolvi a questão de outra forma.
Coloquei sobre a mesa uma certidão atualizada do registo predial e a fotografia de uma encantadora casinha finlandesa à beira de um lago.
— Ontem a minha mãe comprou esta casa de campo.
Eu, como filha amorosa, completei a quantia em falta com as minhas poupanças pessoais, anteriores ao casamento.
— Portanto, juridicamente, nem eu, nem muito menos o meu marido, temos qualquer relação com este imóvel.
Sem créditos.
Só silêncio, pinheiros e propriedade cem por cento da minha mãe.
Zinaida Pavlovna abriu a boca e depois fechou-a lentamente.
Nos seus olhos lia-se uma complexa gama de sentimentos: desde a involuntária admiração pela minha diabólica previdência até uma negra e desesperada amargura.
Tinham-na enganado com elegância, segundo todas as regras da arte.
— E… nós? — conseguiu dizer a sogra, olhando para a fotografia da casinha.
— Nós vamos de visita, não vamos?
Respirar um pouco de ar…
Sorri-lhe com doçura, arrumando os documentos na mala.
— Claro, Zinaida Pavlovna.
Espero-vos a todos em agosto.
Da vossa parte — sachar vinte ares de terreno virgem, e da parte do Vovik — cavar um poço.
Somos uma família.
Temos de nos ajudar uns aos outros.
Completamente de graça.
Desde então, o tema dos créditos e da propriedade conjunta nunca mais foi levantado em nossa casa.
E Zinaida Pavlovna, quando cruza o olhar comigo, agora por algum motivo engole em seco nervosamente.
Pelo visto, percebeu: os parasitas não têm uma única hipótese contra os predadores.







