A tua irmã vive nesta casa, — indignava-se a esposa.
Igor, um homem de quarenta e oito anos com os primeiros fios grisalhos a começarem a brilhar nas têmporas e uma desconfiança crónica em relação a quaisquer mensagens no chat da família, estava sentado na cozinha a olhar fixamente para um ponto.

Na mesa, o chá arrefecia.
O ecrã do telemóvel, pousado sobre a toalha de mesa plastificada, voltou a acender-se.
Natalia, a sua mulher, lavava a loiça, esforçando-se por fingir que não reparava naquela hipnose.
Ela ouvira o telemóvel apitar, ouvira Igor suspirar pesadamente, mas não se virou.
— Então, o que é? — não aguentou ela, secando as mãos com uma toalha.
— A mãe está a escrever, — a voz de Igor soava abafada.
— O telhado da varanda começou a meter água.
É preciso chapa perfilada.
Quarenta mil.
Natalia pousou lentamente a toalha no escorredor e virou-se.
Tinha quarenta e cinco anos, trabalhava como contabilista numa policlínica, e no orçamento familiar deles cada milhar contava.
— Igor, nós temos o crédito do carro.
O Nikita vai ter a festa de finalistas, precisa de um fato.
Tu explicaste-lhe isso da outra vez, quando foi preciso ardósia?
— Expliquei, — respondeu Igor secamente, massajando a cana do nariz.
— Ela diz que sozinha não consegue.
A pensão é pequena, os preços aumentaram.
— E a Sveta? — a voz de Natalia tremeu, mas ela conteve-se.
— A Sveta vive lá.
De maio a outubro.
Ela não pode contribuir também?
Igor ficou em silêncio.
Pegou no telemóvel e abriu o chat “Família”.
A mãe, Zinaida Pavlovna, como se tivesse pressentido a sua hesitação, enviou logo a seguir uma mensagem de voz.
Ele tocou no altifalante com o dedo, e do telemóvel saiu uma voz cansada, um pouco rachada: “Igorinho, tens de perceber, eu não peço isto para mim.
É a casa, a nossa casa comum.
A Sveta com a Alisa estão aqui o verão todo, a menina precisa de ar fresco.
E quando chove, fica a varanda toda cheia de poças.
É uma vergonha.
Já nem falo de no inverno não haver onde pôr as conservas.
Tu és o meu homem, a minha cabeça.
Não nos abandones”.
Igor escutava, e diante dos olhos surgia-lhe a imagem da varanda a ranger, com as cortinas de chita desbotadas, a velha cama dobrável onde dormia a filha mais nova da Sveta, a Alisa, e o cheiro a pó aquecido pelo sol.
E ao lado, a Sveta, a sua irmã mais nova.
Em tempos ela prometia muito, tinha acabado a escola de artes, tentara entrar na academia, mas não alcançara a pontuação necessária.
Depois veio um casamento falhado, o parto, um divórcio rápido e o regresso à casa dos pais, já no papel de dona da casa.
Oficialmente, Sveta aparecia como freelancer: pintava paredes em cafés, fazia caricaturas por encomenda, vendia brinquedos de malha em feiras.
Oficiosamente, há sete anos que vivia na casa de campo desde a primavera até ao fim do outono, porque na cidade não tinha dinheiro para alugar um apartamento, e a mãe deixava-a ficar de graça.
— Escreve-lhe, — disse Igor em voz surda, olhando para a parede.
— Que a Sveta mande pelo menos cinco mil.
Nem que seja só para constar.
— Escreve-lhe tu, — Natalia sentou-se à frente dele.
— São a tua mãe e a tua irmã.
— Também é tua parente, — resmungou ele sem maldade.
— Não, Igor.
A minha parente é a minha mãe, que vive no seu T2 em Odintsovo e em vinte anos nunca nos pediu um cêntimo.
Já a tua mãe “sacode-nos” dinheiro para a casa onde vive a tua irmã, e nós pagamos como se fosse por calendário.
Vedação — pagamos, fogão — pagamos, varanda — pagamos.
Igor ficou calado.
Não discutia, porque aquilo era a pura verdade.
—
Zinaida Pavlovna, uma mulher robusta de setenta e dois anos, não aparentava a idade que tinha.
A energia nela transbordava, mas essa energia estava sempre voltada para a preservação e o aumento da propriedade da casa de campo na localidade de Beriozki-2.
A casa tinha-lhe ficado ainda dos pais.
Naquela manhã, Zinaida Pavlovna já estava no alpendre, segurando nas mãos uma caneca esmaltada com chicória.
Os cabelos grisalhos estavam cuidadosamente apanhados num coque, e sobre os ombros tinha uma camisola de malha — presente da Sveta no Dia Internacional da Mulher.
— Sveta, já trouxeste as batatas? — gritou ela para a porta entreaberta.
— Já vou, mãe, — respondeu uma voz vinda do interior da casa.
Svetlana, uma mulher de trinta e cinco anos, de olhos cinzentos e cabelos castanho-claros apanhados num rabo de cavalo desalinhado, saiu para o alpendre com um balde de cascas.
Tinha vestido um velho vestido sem mangas reaproveitado, adaptado em tempos para a casa de campo, e chinelos nos pés descalços.
— Ontem escrevi ao Igor, — disse Zinaida Pavlovna, olhando para os arbustos de groselha.
— O telhado já não presta para nada.
Ele prometeu pensar no assunto.
Sveta fez uma careta.
Sentia-se desconfortável com aquelas conversas.
Sabia perfeitamente que a mãe pedia dinheiro ao irmão, e sabia perfeitamente que ela própria não dava esse dinheiro.
No entanto, tocar naquele assunto era assustador.
A mãe começava logo a dizer que ela, Sveta, era uma “menina de mãos delicadas”, que a casa tinha sido conquistada com a corcunda materna, e que a Alisa tinha de respirar ar fresco, não o fumo da cidade.
— Mãe, talvez eu… — começou Sveta, amassando entre os dedos a bainha do vestido.
— Talvez no outono eu aceite alguns trabalhos na cidade?
Juntamos algum dinheiro e compramos nós o material.
— Que trabalhos? — Zinaida Pavlovna nem sequer elevou a voz, limitou-se a constatar um facto.
— Na semana passada vendeste dois ímanes de frigorífico por quinhentos rublos.
Isso dá para os pregos, é?
E com quem deixas a Alisa?
Eu já estou velha para tomar conta dela, preciso de tratar do terreno.
Sveta mordeu o lábio.
A Alisa, a sua filha de oito anos, saiu precisamente nesse momento a correr para o alpendre, semicerrando os olhos por causa do sol.
A menina era magrinha, pálida depois do inverno, mas já coberta de sardas de primavera.
— Avó, o tio Igor vem? — perguntou ela.
— Ele prometeu arranjar-me o baloiço.
— Vem, Alisushka, vem, — a voz da avó tornou-se logo mais suave.
— Onde é que ele havia de ir?
E Igor, de facto, não foi a lado nenhum.
Três dias depois, no sábado, a velha Lada levantou pó pela estrada de terra de Beriozki-2.
Igor chegou sozinho.
Natalia recusara-se terminantemente.
— Manda cumprimentos meus à tua mãe, — dissera ela secamente nessa manhã.
— E diz-lhe que no próximo mês vamos ao Volga, e não para a casa de campo remendar telhados.
O Nikita tem exames.
E nós também precisamos de respirar.
Igor assentiu, embora soubesse que não diria nada.
Abriu o portãozinho e viu logo a mãe.
Ela andava a mexer no jardim da frente, a plantar tagetes.
— O meu filho chegou! — exclamou Zinaida Pavlovna, levantando as mãos.
— E eu já pensava que estavas ocupado no fim de semana.
Ao menos vais ver o que se passa aqui.
Igor cumprimentou-a, deu-lhe um beijo na face e entrou em casa.
Lá dentro cheirava a madeira, a tartes e um pouco a humidade.
Na varanda viu imediatamente o problema.
Num canto, por cima de um velho aparador, no teto espalhara-se uma mancha amarela, e o papel de parede estava empolado.
— Viste? — Zinaida Pavlovna estava atrás dele.
— Eu digo-te, enquanto não substituirmos tudo, vai continuar a meter água.
— É preciso fazer um orçamento, — disse Igor, sombrio.
— Vou falar com os rapazes do trabalho, talvez aceitem vir no fim de semana.
No quarto, sobre um sofá afundado, a Alisa estava a desenhar.
Ao ver o tio, saltou e atirou-se-lhe ao pescoço.
Da cozinha, Sveta espreitou.
— Olá, Igor, — sorriu ela com ar culpado.
— Queres chá?
— Quero.
Sentaram-se na cozinha, bebendo chá com compota de cereja.
Lá fora, Zinaida Pavlovna continuava a tratar das flores, mas escutava atentamente a conversa.
— Olha, — começou Igor, mexendo o açúcar.
— Eu vou transferir o dinheiro, claro.
Mas a Natasha tem razão.
Tu vives aqui, és tu que usas isto.
Não pode ser sempre só eu a ajudar…
Sveta baixou os olhos para a caneca.
— Eu percebo, Igor.
A sério, percebo.
É só que agora estou mesmo numa fase morta.
Preciso de comprar o uniforme da escola para a Alisa, caiu-lhe um dente, temos de ir ao ortodontista, parece que está a nascer torto…
Estou à procura de trabalho, mas não posso passar o dia inteiro na cidade.
A Alisa está em casa, e a mãe já é velha, custa-lhe ficar sozinha…
— E no jardim de infância?
— Nós não estamos registadas nessa zona.
Na verdade, nem sequer estamos registadas aqui.
Isto é só uma casa de campo.
Igor calou-se.
Olhava para a irmã e via aquela Sveta que em tempos o levava atrás dela para a floresta apanhar morangos silvestres, que sabia desenhar cavalos de tal maneira que toda a turma ficava de boca aberta.
Ela era treze anos mais nova, e ele sempre a tinha protegido.
E agora, por hábito, continuava a protegê-la também.
— Está bem, — disse ele.
— Havemos de resolver isto.
Zinaida Pavlovna entrou em casa, sacudindo a terra das mãos.
— Então, já decidiram?
Liguei para a “Stroimaster”, têm chapa perfilada.
Já agora, talvez também possamos arranjar a vedação junto ao portão?
Há ali um poste a abanar, ainda cai em cima de alguém.
— Mãe, vamos por partes, — disse Igor, cansado.
— Primeiro o telhado.
— E a vedação?
Tu próprio vês que está velhíssima.
— A vedação fica para a próxima.
Zinaida Pavlovna suspirou, mas não discutiu.
O plano fora cumprido: o filho viera, o filho vira, o filho concordara.
—
No domingo à noite, Igor voltou para casa.
Natalia não lhe perguntou nada.
Ela já via tudo pelo rosto dele.
— Quanto? — perguntou a mulher, seca, quando ele se sentou para jantar.
— Doze mil pelas chapas, mais os parafusos, mais os rapazes pelo trabalho.
Vai dar uns quarenta e cinco mil.
Natalia tirou em silêncio o envelope com o dinheiro das férias, que estava no móvel da sala, e contou uma parte.
Igor olhou para as mãos dela, para a manicure cuidada, para a aliança.
— Eu compenso, — disse baixinho.
— Arranjo um trabalho extra.
— Sim, claro, — anuiu Natalia.
— Vais arranjar.
E eles lá ficarão sentados à espera.
Para eles é fácil: tu és uma vaca leiteira, a mãe é a chefe de brigada, e a Sveta é apenas uma inquilina sem renda.
— Não comeces, — pediu Igor.
— Eu não estou a começar, estou a acabar, — Natalia sentou-se à frente dele.
— Diz-me sinceramente.
Isto vai ser para sempre?
Vamos andar até à reforma a sustentar a casa da tua mãe, onde vive a tua irmã, só porque assim lhe dá jeito?
Igor baixou a cabeça, abatido, e não respondeu nada.
—
Passaram três semanas.
O telhado foi reparado.
Os rapazes do trabalho de Igor fizeram tudo em dois dias, receberam o dinheiro, compraram cerveja e foram-se embora satisfeitos.
Zinaida Pavlovna até chorou de comoção ao olhar para a nova chapa brilhante.
— Pronto, — disse ela.
— Que beleza.
Agora já não temos medo da chuva.
Ela andava de um lado para o outro na varanda, mudava de sítio os frascos de conservas, limpava com carinho o velho aparador com um pano.
Sveta permanecia à parte, sentindo-se deslocada.
— Mãe, — ganhou coragem ela.
— Eu vou devolver ao Igor o dinheiro do material de algum modo.
A prestações.
Ele não é um estranho, mas…
— E com o quê lho vais devolver? — a voz da mãe era suave, mas a frase soou como uma sentença.
— Vais tirar-me a pensão?
Igor é homem, ele tem de ajudar.
A ti e a mim.
Tu é melhor pores a Alisa em ordem e não pensares em dinheiro.
Essa não é a tua dor de cabeça.
Sveta engoliu o nó na garganta.
Tinha três mil rublos na conta.
Estava a juntá-los para comprar sapatilhas à Alisa.
As velhas já estavam rotas, o dedo saía para fora.
À noite, quando a filha adormeceu, sentou-se à mesa e abriu o portátil.
Sveta entrou numa plataforma de freelancers.
Lá precisavam de designers, ilustradores, paginadores.
Ela não tinha portefólio, além de alguns posts nas redes sociais.
Respondeu a três trabalhos.
Ninguém lhe respondeu.
Uma semana depois, escreveu-lhe uma mulher: precisava-se de uma pintura mural num quarto de criança.
A área não era grande, cinco metros por quatro, uma floresta encantada.
Trabalho no local.
Pagamento — dez mil rublos.
Sveta ficou tão feliz como se tivesse ganho na lotaria.
Convenceu a mãe a ficar com a Alisa durante um dia.
Zinaida Pavlovna apertou os lábios.
— Andas sempre metida com essas tuas pinturas, — resmungou.
— E para quê?
Está bem, fica lá descansada.
Mas volta ao fim da tarde, porque a Alisa sem ti não adormece.
Sveta saiu cedo de manhã.
O trabalho corria bem, as tintas assentavam direitas, a cliente ficou satisfeita.
Até lhe deu mais mil por cima.
Sveta segurava onze mil rublos nas mãos, e o coração batia-lhe de felicidade.
Decidiu: dois mil guardaria para as sapatilhas, e nove mil daria ao Igor.
À noite, Sveta voltou à casa de campo.
Zinaida Pavlovna estava sentada na varanda a beber chá.
— Ganhaste? — perguntou sem grande interesse.
— Sim, mãe.
Onze mil.
Quero dar alguma coisa ao Igor.
Por causa do telhado.
Zinaida Pavlovna pousou a caneca na mesa com tanta brusquidão que o chá salpicou a toalha plastificada.
— Endoideceste? — perguntou em voz baixa.
— Que dinheiro é que lhe vais dar?
Ele é teu irmão.
Ele ajuda a família.
E tu pega nesse dinheiro e guarda-o para as botas da Alisa para o outono.
Ou para um casaco.
Nem te atrevas a envergonhá-lo.
— Mãe, isso não é vergonha, — a voz de Sveta tremeu.
— É justo.
Eu vivo aqui, como os vossos legumes, uso este telhado.
Tenho de pagar.
— Tu és minha filha, — cortou Zinaida Pavlovna.
— E esta casa é minha.
Faço o que quero.
Se quiser, deixo-te ficar, se quiser, não.
E ao Igor digo eu quando preciso de ajuda.
Tu gasta esses teus tostões na criança.
Sveta calou-se.
Sentiu-se culpada perante o irmão e humilhada perante a mãe.
—
Passaram dois meses depois da reparação do telhado.
Natalia sentia que a sua paciência estava a esgotar-se.
A relação na família fazia lembrar uma idade do gelo: formalmente educada, mas na essência fria.
Igor passou a falar menos da mãe, deixou de ir à casa de campo todos os fins de semana, escudando-se no trabalho.
O desfecho chegou inesperadamente.
Zinaida Pavlovna caiu.
Tropeçou no alpendre, torceu mal a perna.
Fratura do colo do fémur — o diagnóstico soou como um trovão em céu limpo.
Foi Sveta quem telefonou a Igor, a chorar no telefone.
— Igor, vem depressa, levaram a mãe para o hospital…
Eu não sei o que fazer…
Igor saiu disparado do trabalho.
Natalia, ao saber da notícia, perguntou apenas:
— É preciso dinheiro?
— É, — respondeu ele secamente.
— Eu trato disso.
Nisso consistia toda a Natalia.
Podia resmungar da sogra, indignar-se com as cobranças, mas na desgraça nunca recusava ajuda.
A humanidade revelava-se mais forte do que os ressentimentos.
Zinaida Pavlovna foi operada.
Os médicos falavam de uma reabilitação longa, de que talvez voltasse a andar, mas com dificuldade e com bengala.
Igor dividia-se entre o trabalho, o hospital e casa.
Sveta ficou na casa de campo com a Alisa, mas todos os dias telefonava a perguntar pela mãe.
Duas semanas depois, Zinaida Pavlovna teve alta.
Surgiu a questão: onde instalar a idosa?
No seu T1 num prédio antigo, onde as portas são estreitas, os umbrais altos e não há elevador?
Lá ela ficaria presa à cama.
Igor estava sentado no carro à porta do hospital, apertando o volante.
Ao seu lado, Natalia mantinha-se em silêncio.
— Eu não a posso levar para nossa casa, — disse Igor em voz surda.
— Temos o Nikita, ele tem exames.
E não há espaço, nós próprios vivemos num T2.
— Eu sei, — respondeu Natalia baixinho.
— Eu não estou a sugerir isso.
— A Sveta… — começou Igor e calou-se.
— A Sveta vive naquela casa de graça.
Cuida da Alisa e de si mesma.
Agora que cuide também da mãe.
Ela está sempre lá, para ela é mais fácil.
Ou então vende-se a casa e compra-se algo adaptado para a tua mãe.
Igor ficou calado durante muito tempo.
Depois ligou o carro.
— Vamos ter com ela.
Vamos falar.
—
Sveta esperava-os no alpendre.
Parecia abatida, com sombras fundas debaixo dos olhos.
A Alisa encostava-se à mãe, segurando nas mãos um velho coelho de peluche.
A conversa foi pesada.
— Eu não consigo sozinha, — disse Sveta logo.
— A mãe é pesada.
É preciso levantá-la, virá-la.
Eu tenho as costas doentes e ainda há a Alisa.
— E nós? — perguntou Igor.
— Nós ajudamos com dinheiro.
Contratamos uma cuidadora, pagamos os tratamentos.
Mas tu tens de estar por perto.
— Eu compreendo.
— E a casa tem de ser adaptada, — acrescentou Natalia, inesperadamente suave.
— É preciso fazer uma rampa, tirar os umbrais, adaptar a casa de banho.
E isso volta a ser dinheiro.
Sveta levantou os olhos para ela.
— Eu vou trabalhar, — disse com firmeza.
— Vou arranjar um trabalho a sério na cidade, vou deslocar-me.
E com a mãe fica a cuidadora.
Eu já não posso mais… não posso continuar a ser uma parasita.
Vou devolver.
Tudo.
Por tudo.
Natalia e Igor trocaram um olhar.
— Sveta, — começou Igor cautelosamente.
— E a casa…
É da mãe.
Mas se tu vives aqui, se a mãe vai ficar aqui…
Talvez se possa passar para teu nome?
Para seres a dona, para teres uma casa tua.
Sveta abanou a cabeça.
— Não.
É a casa da mãe.
Ela não me perdoaria.
— Ela não vai perdoar de qualquer maneira, — disse Natalia de repente, com dureza.
— Desculpa, Sveta, mas é verdade.
A vossa mãe está habituada a mandar.
Para ela, tanto tu como o Igor são filhos que lhe devem tudo até à sepultura.
Mas não pode ser assim.
Ela tem de compreender que tu não és apenas uma rapariguinha que se pode instalar na varanda.
És uma mulher adulta.
Tens direito à tua própria casa.
— Eu tenho medo, — sussurrou Sveta.
— Se eu lhe falar do dinheiro, do trabalho, do facto de querer viver por minha conta…
Ela vai dizer que sou ingrata e que a abandonei.
Que ela fez tudo por nós, e nós…
— Nós somos os filhos dela, — concluiu Igor.
— E temos direito à nossa própria vida.
E ao nosso próprio dinheiro.
—
Zinaida Pavlovna estava deitada na cama no seu pequeno apartamento de uma só divisão.
A mudança para a casa de campo foi adiada: era preciso fazer obras.
Igor tratava dos documentos, procurava empreiteiros.
Natalia tirou férias sem vencimento e todos os dias ia ver a sogra — levava comida, medicamentos, mudava a roupa da cama.
Zinaida Pavlovna mantinha-se calada.
Olhava para o teto, escutava os relatos confusos da nora e sentia o chão a fugir-lhe debaixo dos pés.
O mundo habitual estava a desabar.
— Natasha, — chamou ela um dia.
— Sim, Zinaida Pavlovna.
— A Sveta ligou?
— Ligou.
Inscreveu-se numa feira.
Está a vender brinquedos de malha.
Diz que tem muitas encomendas.
Zinaida Pavlovna ficou em silêncio.
— Deu dinheiro ao Igor?
Pelo telhado?
Natalia ergueu as sobrancelhas, surpreendida.
— Deu.
Três mil.
O Igor não queria aceitar, mas ela insistiu.
Zinaida Pavlovna fechou os olhos.
Pela primeira vez em muitos anos, não encontrou resposta.
— Está bem, — disse cansadamente.
— Deixa estar.
Um minuto depois, acrescentou:
— Se calhar entusiasmei-me demais naquela altura.
Com o telhado.
Devia tê-lo permitido a ela.
Senão caiu tudo em cima do Igorinho…
Natalia ficou em silêncio.
Não disse que agora já era tarde.
A nora limitou-se a anuir e a ajeitar a manta.
—
A casa de Beriozki-2 recebeu o outono.
Sveta estava sentada no alpendre, enrolada na velha camisola de malha da mãe.
A Alisa apanhava um ramo de folhas de ácer.
— Mãe, a avó vem? — perguntou a menina.
— Vem, meu amor.
Vem em breve.
Vamos adaptar-lhe o quarto para ela ficar confortável.
— E o tio Igor?
— O tio Igor também vem.
Sveta tirou o telemóvel do bolso.
Na aplicação de mensagens brilhava o chat não lido “Família”.
A mãe escrevera havia duas horas: “Sveta, como está o meu gerânio?
Não o reguem demais, senão como no ano passado quase mo estragaste”.
E logo abaixo: “Obrigada por não me terem abandonado”.
Sveta olhou longamente para o ecrã.
Depois escreveu uma resposta: “Mãe, o gerânio está em flor.
Fiz-te rissóis de couve, como tu gostas.
Volta depressa.
Estamos à tua espera”.
A mulher enviou a mensagem e guardou o telemóvel no bolso.
Precisava de ganhar coragem e comunicar à mãe a notícia de que tinha contratado uma cuidadora e ia voltar a trabalhar.
E também de convencer Zinaida Pavlovna de que devia passar a casa para o nome da Sveta.







