Ela não sabia que o apartamento estava em nome da minha mãe.
— As chaves ficam sobre a cômoda, Polina.

E não olhe assim para mim, eu não fui contratada para cuidar de você depois dos seus “procedimentos femininos”.
O Romochka tem uma vida nova, e você aqui é como uma erva daninha num canteiro.
Antonina Stepanovna estava parada no meio do hall de entrada, com os braços cruzados sobre o peito.
Dela vinha cheiro de sabonete de lavanda e de algo enjoativamente doce, que Polina, em cinco anos de casamento, aprendera a reconhecer como o cheiro de uma tempestade se aproximando.
Atrás da sogra, no fundo do corredor, Roman aparecia ao longe.
Ele não olhava para a esposa.
Estudava com concentração as pontas de suas pantufas, como se em suas fibras estivesse escondida toda a sabedoria do mundo.
Polina apoiou-se no batente da porta.
Seu ventre ainda repuxava depois da cirurgia, e sua cabeça zumbia como uma concha vazia.
Receber alta da ginecologia às três da tarde não era o melhor momento para uma grande migração de povos.
Ela apertou na mão a alça da bolsa, na qual havia apenas chinelos, um roupão e uma cartela de analgésicos.
— Roman, você está falando sério? — a voz de Polina era baixa, quase sem cor.
— Justamente agora?
— Polia, mas por que adiar mais? — Roman finalmente ergueu os olhos, mas logo os desviou para o espelho.
— Nós já conversamos sobre isso.
Está apertado.
Está apertado para todo mundo.
Mamãe precisa de paz, eu… eu preciso seguir em frente.
A Yulia já trouxe as coisas dela.
Fica chato deixar uma pessoa na porta com as malas.
— Uma pessoa? — Polina quase riu.
— Então a Yulia na porta é inconveniente, mas eu, recém-saída da anestesia, na escada, é perfeitamente normal?
Antonina Stepanovna deu um passo à frente, encurtando a distância.
Seus olhinhos miúdos brilharam de triunfo.
Ela esperava esse momento havia muito tempo.
Desde o dia em que Roman levou para o ninho da família “esse rato cinzento do escritório de projetos”.
A sogra sempre considerara Polina um mal-entendido passageiro, um erro da juventude de seu filho perfeito.
— Eu já juntei seus trapos, — cortou Antonina.
— Deixei tudo perto do elevador.
Está tudo lá: suas roupas e esses seus livros idiotas.
Só deixei a assadeira de pato, isso é coisa da família, ainda pertenceu à minha mãe.
Não há necessidade de arrastá-la por pensões.
Polina olhou para a pilha de sacos pretos amontoados junto à porta do elevador.
De um deles saía a manga do seu suéter favorito de cashmere, presente do pai.
Os sacos tinham sido rasgados, como se a sogra tivesse conferido se a “agregada” não levara uma colher de prata a mais.
Nesse momento Yulia saiu da cozinha.
Era uns dez anos mais nova que Polina, toda açucarada, vestindo um conjunto de pelúcia rosa que, naquele apartamento de tetos de três metros e estuques, parecia um copo plástico sobre uma mesa antiga.
Yulia segurava justamente aquela caneca de vidro de parede dupla que Polina comprara com seu primeiro bônus.
— Oi, bom dia, — piou Yulia, tomando chá.
— Eu só estou… me acomodando.
Antonina Stepanovna disse que esse lugar agora está livre.
Polina sentiu algo estalar dentro dela.
Não explodiu em histeria, não se desfez em lágrimas; foi um estalo, algo que se encaixou no lugar, como uma peça num desenho complicado.
De repente, lembrou-se de tudo: de como pagara durante três anos o empréstimo feito para a “reforma para a mamãe”, de como passava as noites desenhando plantas de centros comerciais enquanto Roman “se procurava” em cassinos online, de como sorria educadamente para Antonina Stepanovna enquanto ouvia palestras sobre como uma mulher de verdade devia ser uma sombra invisível do marido.
— Livre, é? — Polina endireitou-se.
A dor no ventre não desaparecera, mas passou para o segundo plano, abafada pelo frio glacial em seu peito.
— Roman, você tem certeza de que quer isso?
— Polina, não faça cena, — fez uma careta o marido.
— Você sempre complica tudo.
Você tem para onde ir, não tem?
Pode ir para a casa da sua mãe no interior, descansar ao ar livre.
Depois do hospital isso vai te fazer bem.
— Minha mãe não tem casa no interior, Roma.
Minha mãe só tem um quarto numa коммуналка, que ela aluga para nos ajudar a pagar “o nosso” apartamento.
Antonina Stepanovna bufou:
— “Ajudar”!
Contava as moedinhas dela.
Chega, a conversa acabou.
Roma, feche a porta, está ventando.
A Yulechka tem a garganta sensível.
A porta bateu.
Polina ficou parada no corredor frio.
O silêncio do prédio stalinista era pesado, cheirando a poeira e madeira velha.
Ela olhou para seus sacos.
Aproximou-se e pegou o suéter.
Estava rasgado na costura.
Pelo visto, a sogra estava com tanta pressa que simplesmente arrancara as coisas do armário.
Polina sentou-se na mala.
A mão foi sozinha em direção à bolsa.
Ali, no bolso interno, junto do passaporte, havia um documento sobre o qual ela não falava com o marido havia dois anos.
Um documento que providenciara no dia em que por acaso viu no telefone de Roman uma conversa com “Yulia-Coelhinha”.
Naquela época ela não foi embora.
Queria ver até onde eles chegariam.
Esperava o auge.
E ali estava ele — o auge.
Um saco sujo ao lado do elevador e uma garota de roupão cor-de-rosa.
Ela tirou o telefone da bolsa.
Os dedos não tremiam.
— Alô, mãe?
Não, está tudo bem.
Sim, já tive alta.
Escuta, me manda, por favor, a cópia digital da escritura de doação do vovô.
Isso, aquela mesma.
E mais uma coisa… liga para o nosso policial de bairro, o Stepanich.
Lembra dele?
Aquele que te ajudou com a garagem.
Diz que aqui tem invasão de propriedade e tentativa de furto de bens pessoais.
Polina desligou e olhou para a pesada porta de carvalho.
Do outro lado vinham as risadas de Roman e o tilintar de pratos.
Ao que tudo indicava, Yulia já comandava a cozinha.
Antonina Stepanovna provavelmente contava como se livrara habilmente do peso morto.
Eles não sabiam de um pequeno detalhe.
Aquele apartamento nunca pertencera a Antonina Stepanovna.
Nem a Roman.
Lá em noventa e oito, o avô de Polina, um velho arquiteto, comprara aquele imóvel da cidade por meio de algum esquema complicado e, quando Polina se casou, fez a doação para a mãe dela.
Com uma condição: “Enquanto Polina estiver casada, que morem lá.
Mas, se acontecer alguma coisa, mande-os embora.”
A própria Polina pedira à mãe que não contasse nada a Roman.
Queria acreditar que ele a amava, e não ao endereço na Prospekt Mira.
Ela se levantou.
A dor pulsava, mas havia uma clareza cristalina em sua cabeça.
Ela não iria até o elevador.
Não recolheria as roupas rasgadas.
Esperaria ali.
Duas horas se passaram.
Polina continuava sentada na mala quando passos pesados ecoaram no corredor.
Stepanich, o policial do bairro com rosto de buldogue cansado, subiu até o andar.
Atrás dele vinham dois rapazes de uniforme.
— Polina Arkadyevna? — Stepanich apontou para os sacos.
— Isso aqui é obra sua?
— Minha, camarada major.
Ou melhor, o resultado da criatividade de ex-parentes.
Aqui está a alta do hospital.
O documento do apartamento vai chegar agora por e-mail, eu mostro ao senhor.
Stepanich examinou atentamente o atestado da ginecologia, lançou um olhar sombrio ao rosto pálido de Polina e apertou a campainha.
Longamente, com insistência.
Antonina Stepanovna abriu a porta.
Estava de avental, com uma concha na mão.
Ao ver a polícia, congelou por um segundo, mas logo se recompôs.
A experiência do endurecimento soviético era a melhor armadura.
— Ah, mas o que houve?
Nós não chamamos a polícia.
Essa cidadã, — apontou para Polina, — já não mora mais aqui.
Recebeu seus pertences pessoais integralmente.
— Essa cidadã mora aqui, sim, — respondeu Stepanich em voz grave, entrando no hall.
— Já a senhora, Antonina Stepanovna, e seu filho — com base em quê estão aqui?
— Como assim com base em quê? — Roman saiu correndo do quarto, abotoando a camisa no caminho.
— Este é o apartamento da minha mãe!
Nós moramos aqui há quarenta anos!
Quer dizer, mamãe mora, e eu…
— Quarenta anos? — Stepanich sorriu com ironia, recebendo das mãos de Polina o telefone com a cópia do documento.
— Pois aqui está escrito que a proprietária é Vera Pavlovna Krivtsova.
E a posse foi registrada com base num contrato de doação de dois mil e dez.
E antes disso… Polina Arkadyevna, me lembra?
— Antes disso meu avô o alugava do fundo e depois o comprou em nome da minha mãe, — acrescentou Polina calmamente.
— Antonina Stepanovna morava aqui como membro da família.
Por minha boa vontade.
Mas a bondade, sabe como é, acabou junto com a anestesia.
Caiu sobre o hall um silêncio tal que se ouvia a chaleira fervendo na cozinha.
O rosto de Antonina Stepanovna passou do vermelho triunfante para um cinza terroso.
Ela olhou para o filho, e havia naquele olhar um terror tão primitivo que, por um segundo, Polina até sentiu pena.
Mas logo se lembrou do suéter de cashmere rasgado.
— Roma… o que significa isso? — balbuciou a sogra.
— Então ela é a dona?
— Ao que parece, sim, — Roman empalideceu.
— Mãe, mas você dizia que papai tinha resolvido tudo… que nós estávamos protegidos…
— Seu pai só sabia fazer dívidas! — guinchou Antonina Stepanovna, atirando-se de repente sobre Polina.
— Sua cobra!
Traiçoeira!
Se enfiou aqui, farejou tudo!
Cuidou do avô para roubar o apartamento?
Não vai conseguir!
Vou te processar!
Eu tenho registro aqui!
— O prazo do seu registro temporário venceu há seis meses, — observou Polina.
— Eu só não renovei.
Pensei: para que ficar balançando papel, nós somos uma família.
Descobriu-se que não somos família.
E, se vocês não são nada para mim, também não têm o direito de estar aqui.
Yulia, que espiava por trás do ombro de Roman, de repente se virou rapidamente e desapareceu para o fundo do apartamento.
Um minuto depois reapareceu com aquela mesma mala rosa.
— Rom, acho melhor eu ir.
Tem umas brigas estranhas aqui.
Você disse que tinha um apartamento de luxo, mas aqui parece… uma república qualquer.
Com campainhas e tudo.
— Yulia, espera! — Roman tentou segurá-la, mas Stepanich, com calma e firmeza, barrou-lhe o caminho.
— Muito bem, cidadãos.
Já está tarde.
A proprietária exige que desocupem o imóvel.
Juntem suas coisas rápido, sem barulho.
Se eu encontrar pelo menos mais um objeto de Polina Arkadyevna danificado, além dos que já estão na escada, será registrado dano ao patrimônio.
Começou o caos.
Antonina Stepanovna chorava, apertando contra o peito a assadeira de pato.
Roman corria entre o armário e a mãe, tentando enfiar suas camisas numa bolsa.
Yulia já estava junto ao elevador, apertando o botão nervosamente.
Polina entrou em seu quarto.
Em sua cama havia coisas alheias — lingerie rendada, perfumes baratos.
O cheiro era insuportável.
Ela se aproximou da janela.
Lá embaixo, na Prospekt Mira, os postes começavam a se acender.
Kostroma se preparava para a noite.
De repente, sentiu um arrepio correr por suas costas.
No canto do armário percebeu uma caixa velha.
Sua caixa.
Ali a sogra não tinha mexido.
Polina abriu-a.
Lá estavam os desenhos.
Seus primeiros projetos, que Roman chamava de “bobagens de menininha”.
E ali também, no fundo, estava o gravador.
Ela apertou “play”.
“…nós vamos jogar ela para fora, Romochka.
Tenha paciência.
Agora ela faz a cirurgia, e nós a pegamos delicadamente e mandamos para o interior.
O apartamento é nosso, eu consultei o notário, lá as pontas estão muito bem escondidas.
E essa garota… ela é idiota.
Acha que nós a amamos.
O importante é que ela assine a renúncia à parte dela enquanto ainda estiver sob efeito dos comprimidos…”
A voz de Antonina Stepanovna soava com clareza, metálica.
Polina desligou a gravação.
Fizera aquilo um mês antes, deixando por acaso o gravador ligado na cozinha.
Na época, não acreditara nos próprios ouvidos.
Pensou que fosse apenas uma piada cruel.
Agora as piadas tinham acabado.
Três horas depois, o apartamento estava vazio.
No corredor reinava o silêncio, interrompido apenas pelas gotas de água no banheiro.
Stepanich foi o último a ir embora, prometendo “ficar de olho no prédio”.
Polina estava parada no centro da sala.
No chão havia pedaços de embalagem, uma presilha de Yulia esquecida e poeira.
Muita poeira.
É estranho como uma casa se transforma rapidamente em ruína quando a falsidade vai embora dela.
Ouviu-se um leve arranhar na porta.
Polina se assustou.
Olhou pelo olho mágico.
Roman.
Ela abriu a porta sem tirar a corrente.
Ele estava parado no corredor, sozinho.
Sem a mãe, sem Yulia, sem arrogância.
Os cabelos despenteados, a jaqueta aberta.
— Polia… me deixa entrar.
Levei mamãe para a casa da tia, ela está em histeria lá.
A Yulia… a Yulia foi para a casa de uma amiga.
— E o que você quer, Roman? — ela o olhava como se olha para um estranho.
É surpreendente como o apego se apaga rápido quando se vê a essência de alguém.
— Polia, nós somos humanos.
Cinco anos.
Eu te amo.
Eu só me perdi.
Mamãe me pressionava, dizia que você era estéril, que precisávamos de um herdeiro, e você só vivia correndo atrás das suas obras…
Eu sou um idiota, Polia.
Me perdoa.
Vamos tentar de novo, do começo?
O apartamento é seu, eu entendi.
Que seja seu.
Eu vou ajudar, vamos terminar a reforma…
Polina o escutava e sentia uma estranha tranquilidade se espalhar por dentro.
Não era triunfo, nem maldade; era paz.
Justiça não é quando o inimigo é derrotado, mas quando você já não precisa mais se justificar diante dele.
— Roman, olhe para os sacos perto do elevador, — disse ela em voz baixa.
— Vê meu suéter?
Sua mãe o rasgou.
Sem motivo.
Por raiva.
Ela não estava rasgando um suéter, estava rasgando a mim.
E você ficou ali ao lado.
Olhando para as suas pantufas.
— Polia, eu tinha medo de contrariá-la!
A pressão dela sobe!
— E de me ferir você não tinha medo?
Eu ainda nem tirei os pontos da cirurgia.
Você me jogou num chão de concreto, Roma.
Você não traiu a mim.
Traiu a nós.
Ela levou a mão à corrente, mas ele enfiou o pé na fresta.
— Polina, espera!
Para onde eu vou?
Não tenho um centavo, investi todo o dinheiro no negócio, numa remessa…
— Em que remessa, Roma? — ela sorriu amargamente.
— Naquela que eu calculei para você há três meses?
Hoje eu anulei todas as minhas assinaturas como engenheira-chefe.
Sem elas, sua licença não passa de papel higiênico.
Seu chefe já sabe que o projeto “PromSnab” foi retirado pela autora.
Roman congelou.
Seus olhos se arregalaram.
— Você… você fez isso?
Você me arruinou?
— Não, Roma.
Você arruinou a si mesmo quando decidiu que eu era uma erva daninha no seu canteiro.
A erva daninha foi arrancada.
Agora veja como seu canteiro vai crescer sem água e sem terra.
Ela empurrou a porta.
Ele tirou o pé automaticamente.
— Eu fico, — disse ela por fim.
— No meu apartamento.
Na minha vida.
E você… tente aprender a amarrar os sapatos sem a mamãe.
Isso ajuda a amadurecer.
A fechadura fez clique.
Polina apoiou as costas na porta.
O coração batia em algum lugar na garganta.
O pesado silêncio do prédio stalinista agora lhe parecia acolhedor.
Ela foi até a cozinha, pegou justamente a assadeira de pato que a sogra tivera medo de levar diante da polícia e a colocou sobre o fogão.
Amanhã comprará cortinas novas.
Verdes, como a floresta.
Pegou o telefone e apagou o número de Roman.
Para sempre.
À frente havia uma longa noite, a primeira noite tranquila e toda uma vida em que ninguém jamais voltaria a rasgar suas bolsas.







