— Vai se virar.
— Você ao menos se escuta?

Vadik torceu o nariz com nojo.
— Pague você mesmo pelo seu banquete.
— De novo você está cheirando a baunilha.
Ele ajeitou diante do espelho as lapelas do caro paletó verde-escuro.
Examinou o próprio reflexo com evidente satisfação.
— É um cheiro normal, — respondeu Tanya calmamente.
— Para uma cozinheira, sim.
Tanya apoiou o ombro no batente da porta.
Os olhos cansados dela olhavam para o marido sem expressão alguma.
— Vadim, estou de pé desde as seis da manhã.
— Problema seu.
Ele puxou as mangas para baixo.
— Problema meu?
— Exatamente.
Vadik virou-se para ela.
O olhar dele estava irritado.
— Eu pedi que você arranjasse um trabalho de verdade.
— Este é um trabalho de verdade.
— E você fica assando esses seus bolinhos.
— Eles trazem dinheiro.
— Você me envergonha na frente das pessoas! — levantou a voz o marido.
Tanya cruzou os braços diante do peito.
— Os bolinhos pagam o seu carro.
— Vamos resolver isso, — Vadik dispensou o assunto com um gesto.
— Você não pagou a prestação do empréstimo este mês.
— Vou pagar!
Ele verificou apressadamente os bolsos internos do paletó.
Tirou um porta-cartões de couro, fino e achatado.
— Não se meta nas minhas finanças, Tanya.
Eu controlo tudo.
— Na prática, as finanças são minhas.
— Lá vem você de novo? — sibilou o marido.
Ele deu um passo mais perto da porta.
— Eu sou chefe de departamento.
Preciso manter um status.
— Chefe de departamento que vive às custas de uma cozinheira.
Vadik estreitou os olhos com raiva.
— Estou indo para a confraternização da empresa.
Hoje estamos em outro nível.
Restaurante fechado.
— Divirta-se.
— Estou indo.
E tente não ligar.
Ele segurou a maçaneta da porta.
— Nikolai Petrovich não gosta quando as esposas incomodam os funcionários.
A porta bateu com estrondo.
Os passos na escada logo desapareceram.
O elevador zumbiu.
Tanya foi para a cozinha.
Sentou-se numa cadeira.
Esfregou o rosto com as mãos.
O cheiro de baunilha e maçãs assadas realmente tinha impregnado a pele.
Ela fazia bolos por encomenda havia cinco anos.
Exatamente desde o momento em que decidiram crescer e assumir uma segunda hipoteca.
Naquela época Vadik falava bonito.
— Vamos viver como gente normal.
Um apartamento de dois quartos num bairro bom.
Só que a hipoteca foi aprovada apenas para Tanya.
Vadik tinha o histórico de crédito arruinado.
Uns anos antes, ele havia feito vários microempréstimos para alguns cursos de sucesso milagroso e não devolveu o dinheiro no prazo.
Na época, o banco impôs uma condição rígida.
Hipoteca apenas no nome da esposa.
O marido deveria ser totalmente excluído do negócio.
Ela lembrou daquele dia no cartório.
Assinaram o contrato pré-nupcial com facilidade.
O próprio Vadik insistiu nisso.
Garantia que não precisava de nada dos outros, o importante era o ninho da família.
Pelo contrato, o apartamento pertencia apenas a Tanya.
E era Tanya quem também pagava por ele.
Um ano atrás, Vadik quis um carro.
— O status exige, — argumentava ele.
— Agora eu sou chefe de departamento.
Não fica bem andar de ônibus.
O financiamento do carro também ficou, de novo, no nome de Tanya.
Vadik jurou solenemente que pagaria sozinho com o próprio salário.
Isso durou exatamente três meses.
Depois começaram os problemas com os bônus.
Atrasos.
Despesas inesperadas com almoços de negócios.
Tanya cobria em silêncio os pagamentos com o dinheiro dos bolos.
Discutir era inútil.
Ela pegou o telefone.
Abriu o aplicativo do banco.
Cartão adicional.
Emitido em nome de Vadim, mas vinculado à conta corrente principal dela.
Era prático transferir dinheiro para as compras.
O histórico de operações tinha sido atualizado um minuto antes.
Tanya começou a rolar a lista.
Pagamento na barbearia hoje à tarde.
Ontem — compra de um perfume caro na loja oficial.
Anteontem — almoço de negócios por uma quantia considerável.
Tanya sorriu com ironia.
Status.
Ela olhou para as próprias mãos.
Marcadas pelo batedor.
Cheirando a baunilha e açúcar de confeiteiro.
Com unhas curtas, sem esmalte.
O paletó com o qual Vadik saiu tinha custado caro.
E também tinha sido comprado com o cartão dela.
Tanya tocou no ícone de engrenagem no aplicativo.
Selecionou o cartão adicional.
Apertou o botão “Bloquear”.
O aplicativo pediu confirmação da ação.
Ela não hesitou.
Apertou “Sim”.
A tela piscou.
O cartão de Vadim virou um pedaço de plástico inútil.
Tanya levantou-se.
Tirou o avental de trabalho.
Penduro-o cuidadosamente no encosto da cadeira.
Foi até o armário no quarto.
Pegou um vestido azul-escuro.
Sério.
Sem excessos.
— Vamos resolver isso, — disse ela impassível.
Chamou um táxi.
Até o restaurante fechado dava uns quarenta minutos.
O tempo era suficiente.
No carro estava quente.
O motorista ouvia rádio em volume baixo e permanecia calado.
Tanya olhava para a cidade ao entardecer.
A neve caía em flocos sobre o para-brisa.
Não havia emoção alguma.
Só um cansaço surdo.
E uma clareza fria.
Como se ela visse a situação de fora.
Um homem de quarenta e seis anos.
Trabalha num escritório.
Recebe um salário mediano.
Gasta em ternos, cortes de cabelo e almoços com colegas.
Finge ser um investidor de sucesso.
O resto a esposa sustenta.
Na entrada do restaurante, um segurança de terno impecável estava de plantão.
Tanya caminhou com confiança até a porta.
— Temos atendimento exclusivo, — o segurança bloqueou sua passagem.
— Vim falar com Nikolai Petrovich.
— A senhora é da empresa?
— Sou esposa do Vadim, do departamento dele.
É urgente.
O segurança examinou com desconfiança o casaco simples dela.
— Um minuto.
Ele fez um gesto para alguém no rádio.
A porta se abriu.
Lá dentro tocava música ao vivo.
Luz baixa.
Tilintar de taças.
Gente elegante.
Ela viu Vadik imediatamente.
Ele estava em pé junto a um grande balcão de bar.
Ao lado dele se erguia um homem corpulento, de óculos com armação dourada.
O tal chefe.
Vadik contava algo com entusiasmo.
Gesticulava bastante.
As lapelas do paletó verde-escuro brilhavam.
Tanya aproximou-se sem pressa.
Parou um pouco de lado para escutar.
— E eu digo para ela: é preciso investir! — discursava Vadik com voz aveludada.
O chefe assentia com condescendência.
— O dinheiro tem que trabalhar.
Eu peguei meu carro puramente como ativo.
— Ora essa.
Você pensa certo, Vadim.
— É preciso manter o nível, Nikolai Petrovich.
Imagem é tudo.
Tanya deu dois passos e parou bem atrás das costas do marido.
— Boa noite.
Vadik se sobressaltou.
Virou-se.
O sorriso sumiu do rosto dele instantaneamente.
— Tanya?
— Ela mesma.
O chefe fitou a mulher com interesse.
— Sua esposa? — perguntou em voz grave.
— Sim, — Tanya fez um breve gesto com a cabeça.
— A esposa do investidor de sucesso, — acrescentou ela em tom calmo.
Vadik deu um passo nervoso em direção a ela.
Tentou escondê-la do chefe com o próprio corpo.
— O que você está fazendo aqui? — sibilou em voz baixa.
— Vim.
— Eu pedi para você não se meter!
— Eu não estou me metendo, Vadim.
Estou falando dos fatos.
Nikolai Petrovich ajustou os óculos na ponte do nariz.
— É um prazer vê-la.
Vadim estava nos contando sobre os sucessos de vocês.
Planeja o orçamento da família.
— É mesmo? — Tanya olhou diretamente para o chefe.
— E ele falou dos bolos?
Vadik empalideceu.
Tocou nervosamente a gola da camisa.
— Tanya, cale-se.
— Que bolos? — o chefe não entendeu.
— Os que eu faço por encomenda, — disse Tanya com clareza.
— Confeitaria caseira? — perguntou educadamente Nikolai Petrovich.
— Das seis da manhã até tarde da noite.
Todos os dias.
Vadik tentou segurá-la pelo cotovelo.
Ela sacudiu o ombro.
— Não encoste em mim.
— Você está me humilhando! — rosnou o marido entre os dentes.
— Com o quê?
Com o fato de eu trabalhar?
Nikolai Petrovich alternava o olhar entre marido e mulher.
A situação claramente o divertia.
— Ora essa, — prolongou ele.
— Negócio próprio?
Valorizamos isso.
Muito bem.
— Chamar de negócio é um pouco exagerado, — respondeu Tanya calmamente.
— Mas dá para pagar um ativo, — acrescentou ela.
— Que ativo? — franziu a testa o chefe.
— O carro do Vadim.
Sou eu quem paga o financiamento.
Vadik abriu a boca.
Fechou de novo.
— Isso não é verdade! — disparou alto demais.
— É verdade, Vadik.
Tanya não levantou a voz.
— E a hipoteca sou eu quem paga.
E esse paletó que você está vestindo foi comprado com o dinheiro dos meus bolos.
O chefe soltou um resmungo.
Olhou para o subordinado de um jeito completamente diferente.
— Interessante a sua estratégia de investimento, Vadim.
Vadik olhou em volta, acuado.
Os colegas já começavam a olhar para o lado deles.
— Por que você veio? — perguntou ele em desespero.
— Para dizer que a cozinheira está cansada.
Um garçom aproximou-se silenciosamente do balcão.
Colocou a conta numa pasta de couro.
— Sua conta pelas bebidas adicionais.
Vadik enfiou apressadamente a mão no bolso interno.
Tirou o telefone.
Encostou-o na maquininha.
A maquininha apitou.
Mostrou uma mensagem vermelha.
Recusado.
Vadik franziu a testa.
— Deve ser alguma falha.
Aproximou de novo.
Recusado outra vez.
Ele olhou para a tela do telefone sem entender.
Tanya permanecia calma.
Olhava diretamente para ele.
— Que absurdo é esse, — murmurou Vadik.
No bolso da calça, o telefone dele emitiu um som curto.
Ele o tirou.
Leu a notificação do banco.
O rosto dele se alongou.
— Cartão bloqueado? — perguntou, confuso.
Levantou os olhos para a esposa.
— Você bloqueou o cartão?
— Fui eu, — confirmou Tanya.
— Mas como vou pagar?
— Vai se virar, — cravou Tanya.
Ela inclinou levemente a cabeça para o lado.
— Pague você mesmo pelo seu banquete, já que é um investidor tão rico.
Ela se afastou do balcão.
Nikolai Petrovich observava a cena com curiosidade aberta.
— Problemas de liquidez, Vadim? — perguntou o chefe com sarcasmo.
Vadik ficou em silêncio.
Olhava para as costas da esposa que se afastava.
— Vou resolver tudo agora, — começou ele, atrapalhado.
— Isso é só um mal-entendido.
Minha esposa confundiu os cartões.
— Sim, claro, — respondeu o chefe com voz grave.
— Resolva.
Vadik se virou e correu para a saída atrás de Tanya.
Ela estava do lado de fora.
Esperava o táxi.
O vento frio agitava seus cabelos.
O cheiro de baunilha quase tinha desaparecido, dando lugar ao frescor gelado.
Vadik saiu correndo para a varanda sem casaco.
— Você enlouqueceu?! — berrou para a rua inteira.
— Nem um pouco.
— Você me rebaixou diante do chefe!
Tanya virou-se para ele com tranquilidade.
— Eu apenas disse os fatos.
— Desbloqueie o cartão imediatamente!
A conta é minha!
— A conta é minha, Vadim.
O cartão é meu.
Adicional.
— Eu sou seu marido!
Esse é o orçamento da família!
— Marido que tem vergonha do meu trabalho, mas não tem vergonha de pegar o meu dinheiro.
O táxi chegou.
Piscou os faróis.
Tanya abriu a porta.
— Você não precisa ter pressa para voltar para casa, — lançou ela por cima do ombro.
— Como assim?
Aquele é o meu apartamento!
— A hipoteca está no meu nome.
— Nós somos casados!
— Lembra do contrato pré-nupcial?
Aquele que assinamos no cartório porque o banco recusou você?
Vadik ficou parado, de boca aberta.
— Está escrito ali com toda clareza.
O apartamento pertence a mim.
E a dívida dele também é minha.
— Você não teria coragem.
— Vai se virar.
Tanya entrou no carro.
Bateu a porta.
O carro partiu.
Vadik ficou parado na entrada do restaurante caro.
Com um paletó verde caro.
Sem um centavo no bolso.
No dia seguinte, Tanya acordou às sete da manhã.
Chamou um chaveiro.
O chaveiro chegou na hora.
Trocou em silêncio o cilindro antigo da fechadura.
Colocou um novo.
Entregou um conjunto de chaves.
Tanya pagou por transferência.
O telefone em cima da mesa ganhou vida.
Era Vadim ligando.
Ela recusou a chamada.
A tela se acendeu de novo.
Mensagens começaram a cair no aplicativo.
“Abre a porta!”
“Minha chave não serve!”
“Você trocou as fechaduras?!”
Tanya serviu-se de café.
Respondeu brevemente.
“Vou colocar suas coisas em sacos.
Você pega hoje à noite na entrada do prédio.”
A resposta chegou instantaneamente.
“Você não tem esse direito!
Vou te processar!
Somos casados!”
Tanya sorriu secamente.
Digitou a mensagem.
“Processe.
O contrato pré-nupcial está na minha pasta.
Você pode ficar com o carro.
Mas o financiamento vai pagar sozinho.
Eu vou parar de fazer os pagamentos.”
Ela enviou a mensagem e deixou o telefone de lado.
As ligações cessaram.
Ao que tudo indicava, Vadik finalmente começou a somar dois mais dois.
Tanya sentou-se à mesa.
Abriu o notebook.
Havia muitos pedidos de bolo antes do fim de semana.
Muito trabalho a esperava.
Ela teria de ficar em pé doze horas por dia.
Mas agora todo o dinheiro iria apenas para o que realmente importava.
Nada de ativos na forma das ambições alheias.
Nada de paletós caros e barbearias.
Ela foi para a cozinha.
Pegou a batedeira.
Ligou o forno.
O cheiro familiar de baunilha voltou a encher o apartamento.
Agora ele lhe parecia o melhor cheiro do mundo.







