Katya saiu de Luzyanki em agosto, logo depois da formatura.
Não porque tivesse passado a odiar sua cidade natal: simplesmente sabia que, se ficasse, em um ano estaria trabalhando no mercadinho local, em dois se casaria com alguém do pátio vizinho e em três deixaria de pensar que a vida poderia ser diferente.

Ela via como isso acontecia com os outros.
Via como se apagavam os olhos daqueles que adiavam a partida para depois.
A mãe a acompanhou até a rodoviária e chorou como se estivesse mandando a filha para a guerra.
O pai ficou ao lado, apertando os lábios, em silêncio — ele sempre ficava calado nos momentos difíceis, escondia as palavras em algum lugar bem fundo dentro de si, de onde depois já não era mais possível tirá-las.
A irmã mais nova, Alina, que na época tinha quatorze anos, tomava sorvete e olhava para Katya com uma inveja nada disfarçada.
— Vai escrever quando chegar — disse a mãe, ajeitando a alça da bolsa de Katya.
— E liga logo.
Liga logo, ouviu?
— Ouvi, mãe.
O ônibus partiu.
Katya olhava pela janela a estação ficando para trás, a pequena figura da mãe, o pai, que já havia se virado e caminhava de volta para a saída.
Ela não chorava.
Pensava que, adiante, havia uma grande cidade, e que nela precisava dar um jeito de se firmar.
E conseguiu.
O primeiro ano foi duro.
Katya alugava um canto em um apartamento de três quartos junto com outros quatro recém-chegados como ela, trabalhava em dois empregos — de dia em um café, à noite arrumava mercadorias em um depósito.
Dormia cinco horas por noite, comia o que aparecia, contava cada centavo.
Mas não reclamava.
Ligava regularmente para os pais, dizia que estava tudo bem, que estava se acostumando, que a cidade era difícil, mas interessante.
Começou a mandar dinheiro para casa no terceiro mês — bem pouco, quase simbolicamente, mas mandava.
A mãe no início recusava, depois aceitava.
O pai fingia que não sabia.
No segundo ano de vida na capital, Katya conseguiu emprego em uma pequena empresa como gerente de vendas.
Lá pagavam decentemente, havia uma equipe boa, e foi ali que ela percebeu pela primeira vez que sabia convencer as pessoas.
Foi uma descoberta inesperada: ela pensava em si mesma como alguém quieta, discreta, mas acabou descobrindo que sabia ouvir de verdade, sabia encontrar as palavras certas, sabia apresentar um produto de tal forma que a pessoa saía satisfeita e com a compra na mão.
Dois anos depois, começou a juntar dinheiro para abrir seu próprio negócio.
A ideia surgiu por acaso: ela entrou em uma pequena loja de acessórios perto do metrô e entendeu que naquele lugar tudo estava feito do jeito errado.
A iluminação era ruim, os produtos estavam expostos sem lógica nenhuma, a vendedora ficava olhando o celular.
E, ainda assim, as pessoas entravam, porque o ponto era bom e um tipo de variedade como aquela era raro na cidade.
Katya saiu dali e caminhou por muito tempo, pensando.
Depois voltou para casa — nessa altura já alugava sozinha um apartamento de um quarto — e começou a fazer contas.
Ficou fazendo contas por muito tempo.
Passou vários meses estudando o mercado, indo a lojas parecidas, conversando com donos de pequenos pontos, lendo tudo o que conseguia encontrar sobre pequenos negócios.
Depois alugou um espacinho minúsculo em um shopping, fez tudo com as próprias mãos — pintou as paredes, arrumou as estantes, pensou na exposição dos produtos — e abriu a loja.
No começo, dava medo.
Depois ficou mais interessante do que assustador.
A loja começou a funcionar.
Não imediatamente — nos primeiros meses ela quase não tinha lucro — mas, aos poucos, apareceram clientes fiéis, o movimento começou a crescer, ela passou a entender melhor o que vendia mais e o que vendia menos, aprendeu a negociar com fornecedores.
A loja crescia devagar, mas com segurança.
Agora ela transferia aos pais muito mais dinheiro do que antes.
Não porque fosse obrigada — simplesmente podia, e isso lhe parecia certo.
O pai saiu da fábrica por problemas de saúde, a mãe trabalhava em uma biblioteca por um salário pequeno.
Alina, nessa altura, já tinha terminado o curso técnico local e não tinha pressa de ir embora para lugar nenhum.
— Katya, você é mesmo admirável — dizia a mãe ao telefone.
— Quem dera a Alinka fosse assim também.
Mas fica aí sentada, e eu não sei o que está esperando.
— Deixa ela se resolver sozinha — respondia Katya.
— Mas você podia conversar com ela.
Você entende como essas coisas funcionam.
— Mãe, eu não posso pensar por ela.
Alina não tentava seguir os passos da irmã mais velha.
Ela tinha outra estratégia — esperava que tudo se resolvesse sozinho.
E, em algum momento, resolveu-se: conheceu Dima, um rapaz da cidade que trabalhava em uma oficina mecânica e sonhava em abrir o próprio negócio.
Os pais o receberam bem — era educado, levava bolos, ajudava o pai na horta.
Depois de seis meses, anunciaram que queriam se casar.
O casamento foi planejado com pompa.
Katya soube disso durante uma ligação para casa.
A mãe falava animada e feliz, enumerava o que já tinham encomendado e o que ainda faltava, qual vestido Alinka tinha escolhido, qual restaurante haviam reservado.
Katya escutava e pensava que estava feliz pela irmã — que tudo desse certo, que ela fosse feliz.
— E o dinheiro veio de onde? — perguntou no fim.
— Vocês não tinham dito que a situação estava apertada?
— Nós demos um jeito — disse a mãe, de forma evasiva.
— Demos um jeito, não se preocupe.
Katya não perguntou mais nada.
Pensou que talvez tivessem pegado emprestado, ou que tivessem guardado alguma coisa.
Não era problema dela.
Ela não pôde ir ao casamento — estava justamente abrindo a segunda unidade da loja, e tudo caiu sobre ela ao mesmo tempo.
Ligou, deu os parabéns, transferiu um valor de presente.
Alina agradeceu friamente — elas nunca foram muito próximas, eram diferentes demais.
Katya só conseguiu visitá-los alguns meses depois do casamento.
Chegou num trem de sexta-feira, e de manhã cedo estava diante da casa dos pais com uma bolsa na mão, contente por ter vindo, por poder ficar uma semana, descansar da correria da cidade.
A mãe a recebeu como sempre: mesa posta, tortinhas, cheiro familiar — de casa.
O pai a abraçou forte, dando-lhe tapinhas nas costas.
No almoço falaram de várias coisas — da loja, da cidade, das notícias locais.
Depois o pai foi cochilar, a mãe lavava a louça, e Katya ficou sentada na cozinha com um chá, olhando pela janela para o velho quintal.
— Mãe — disse de repente — e o apartamento da vovó?
Continua lá?
A mãe ficou em silêncio.
Katya não percebeu de imediato — a pausa foi pequena, mas visível.
— Katya…
— O quê?
A mãe se virou.
Secou as mãos com um pano, pendurou-o no gancho.
Sentou-se diante da filha.
— Só não fique com raiva.
Katya sentiu algo se apertar no peito — aquela sensação que surge quando você ainda não sabe o que aconteceu, mas já sabe que aconteceu algo ruim.
— Nós vendemos o apartamento — disse a mãe.
— Para o casamento da Alina.
Você sabe quantas coisas eram necessárias…
Katya ficou algum tempo simplesmente sentada, olhando para a mãe.
— Como assim venderam?
— Bem, nós… eu e seu pai resolvemos assim.
A Alinka mora aqui, ela precisava…
— Mãe.
A voz de Katya saiu estranha — regular demais, como acontece quando se quer muito evitar que ela falhe.
— Aquele apartamento a vovó deixou para mim.
Todo mundo sabia que era meu.
Ela disse isso de propósito — da Katya.
— Mas ela não escreveu nada, não deixou nada oficial…
— Porque todos nós entendíamos.
Porque somos uma família.
Porque isso tinha sido combinado.
— Katya, não grite…
— Eu não estou gritando.
E realmente não estava gritando.
Falava baixo, e talvez isso fosse ainda mais assustador.
— Eu só quero entender.
Vocês decidiram que podiam pegar algo que era meu e usar para um casamento.
Gastar com restaurante, flores, convidados.
Sem me perguntar.
— Você estava ocupada, estava longe, não queríamos te incomodar…
— Não queriam me incomodar.
Katya se levantou e foi até a janela.
O quintal era como qualquer quintal — uma velha bétula, balanços infantis que ninguém consertava havia anos.
— Então vocês decidiram simplesmente fazer isso.
Em silêncio.
E não me contar.
— Bem, estamos te contando agora.
— Sim.
Agora.
Quando o apartamento já não existe mais.
Ela ficou muito tempo diante da janela.
A mãe não dizia nada — talvez não soubesse o quê, talvez entendesse que naquele momento era melhor se calar.
Do outro lado da parede dava para ouvir o pai roncando de leve.
Katya pensava na avó.
Em como ela vivera naquele apartamento a vida inteira, em como o lugar cheirava a livros velhos e tortas de repolho, em como a poltrona da avó ficava no canto, onde ela lia usando óculos.
Em como, certa vez, quando Katya ainda era adolescente, a avó lhe disse: “Você é uma menina correta.
Vai longe”.
O apartamento era a última coisa que restava dela.
O último fio.
E esse fio havia sido cortado.
Calmamente, sem pensar muito — simplesmente venderam, para que Alinka pudesse fazer um casamento com restaurante e vestido.
— Amanhã eu vou embora — disse Katya, por fim.
— Katya…
— Eu preciso ficar sozinha.
Não estou com raiva, mãe.
Eu só… preciso ficar sozinha.
Ela não foi embora no dia seguinte, mas no outro — mesmo assim se deu um dia, caminhou pela cidade, sentou-se no velho parque onde passeava com a avó antigamente.
Pensou.
Foi deixando algo partir — devagar, com relutância, mas foi deixando.
Quase não falava com a mãe.
Com o pai, menos ainda — ele chegou a fingir que nada de especial tinha acontecido, disse no jantar: “Mas você não está passando necessidade, Katya”, e ela olhou para ele de um jeito tal que ele não acrescentou mais nada.
Alina apareceu uma vez — entrou com Dima, cumprimentou, ficaram sentados meia hora, falaram de nada.
Alina não pediu desculpas.
Dima era cordial e um pouco inquieto.
Foram embora cedo.
Na estação, a mãe chorou de novo.
Katya a abraçava — sem raiva, realmente sem raiva, ela conseguiu organizar muita coisa dentro de si naqueles dias — mas também sem o calor de antes.
Algo entre elas havia se deslocado.
Não tinha se quebrado, não, mas se deslocado, e já não havia como consertar.
— Você vem no Ano-Novo? — perguntou a mãe.
— Vou ver — respondeu Katya.
Isso queria dizer “não”, e as duas sabiam disso.
Passaram-se alguns meses.
Katya trabalhava — a loja exigia atenção constante, ela pensava em expandir, observava espaços comerciais, procurava novos fornecedores.
A vida seguia seu curso, densa e cheia.
Ela tentava não pensar no apartamento — às vezes conseguia, às vezes não.
As ligações para casa ficaram mais raras.
Quando a mãe ligava, Katya atendia, conversava normalmente, mas deixou de mandar dinheiro.
Não por vingança — simplesmente algo dentro dela disse: chega.
É o suficiente.
Então a mãe ligou.
Sua voz estava diferente — preocupada, meio quebrada.
— Katya, aconteceu uma coisa… A Alinka está grávida.
E o Dima teve problemas no trabalho — foi demitido.
Tudo coincidiu assim.
Katya ficou em silêncio.
— Estou ouvindo.
— Eles agora estão completamente sem recursos.
E o bebê vai nascer logo.
Eu e seu pai ajudamos no que podemos, claro, mas você mesma sabe como estamos… Você não poderia ajudar um pouco?
Só temporariamente, até eles se levantarem.
Katya olhava pela janela do seu apartamento — andar alto, cidade ao entardecer, luzes.
Pensava no que responder.
Não porque não soubesse — sabia.
Mas queria ser precisa.
— Mãe — disse, por fim.
— Vocês venderam o meu apartamento e deram o dinheiro para o casamento da minha irmã.
Eu não posso ajudar vocês em nada.
Pausa.
— Katya, mas isso é outra coisa…
— Não é outra coisa, mãe.
Vocês dispuseram do dinheiro — daquele dinheiro que era meu — para um casamento.
Foi uma escolha de vocês.
Provavelmente foi bonito.
Restaurante, vestido, convidados.
Mas pense bem: se os noivos não têm como sustentar um filho, para que servia um casamento assim?
— Mas não dava para fazer algo simples, as pessoas iriam…
— As pessoas iriam o quê?
Mãe.
Vocês gastaram dinheiro com uma festa em vez de criar uma reserva para a nova família.
Foi uma decisão de vocês — vocês a tomaram sem mim e nem sequer me contaram.
Agora vocês precisam arcar com as consequências — também sem mim.
— Você ainda está com raiva…
— Não, mãe.
Não estou com raiva.
Só estou dizendo as coisas como são.
Eu vim para cá sozinha, não tinha nada, trabalhei em dois empregos, me construí sozinha.
E durante todo esse tempo ajudei vocês.
Mas existe um limite para o que estou disposta a fazer, quando me tratam como alguém que não precisa ser consultada.
— Katya…
— O Dima vai encontrar trabalho.
A Alina vai encontrar alguma coisa.
É normal que dois jovens se virem — isso é a vida.
Vocês também se viraram um dia.
— Mas o bebê…
— O bebê vai nascer em uma família de dois adultos que decidiram tê-lo.
Essa é uma responsabilidade deles, mãe.
Não minha.
A mãe se calou.
Katya ouvia sua respiração no telefone — baixa, entrecortada.
— Você mudou muito — disse a mãe, por fim.
— Antes você não era assim.
— Eu era assim — respondeu Katya.
— Só que antes eu ficava calada.
Despediram-se sem briga — de forma regular, quase profissional.
Katya pousou o telefone sobre a mesa e ficou muito tempo sentada em silêncio.
Em algum lugar lá embaixo, a cidade fazia barulho.
Amanhã chegaria um novo lote de mercadorias à loja — ela fez uma anotação para não se esquecer.
Pensava em Alina — sem raiva, e isso era importante.
Simplesmente pensava.
Alina escolheu seu caminho: ficou, encontrou um homem que agora estava sem trabalho, estava esperando um filho.
Essa é a vida dela, as escolhas dela.
Que se vire.
Que aprenda a se virar.
Pensava nos pais.
No fato de que eles provavelmente achavam que estavam fazendo a coisa certa — que Katya estava longe, que tinha tudo, que Alinka precisava mais.
Não pensavam que aquilo era uma traição.
Eles simplesmente não pensaram o bastante.
E isso talvez fosse pior do que a má intenção — a certeza indiferente de que Katya entenderia, perdoaria, ajudaria.
Que Katya sempre ajudaria.
Não.
Nem sempre.
A primavera chegou à cidade barulhenta e luminosa.
Katya colocou na loja a coleção de primavera — pulseiras, correntes leves, bolsas de palha — e pôs flores vivas em pequenos vasos na vitrine.
As clientes diziam que estava bonito.
Ela ficou feliz.
A mãe ligava às vezes — brevemente, com cuidado, como se sondasse o terreno.
Katya atendia.
Falava da própria vida, ouvia sobre a deles.
Não perguntava por Alina, e a mãe também não puxava o assunto — aparentemente entendia que aquela conversa estava encerrada.
Certa vez, o pai ligou ele mesmo — ele quase nunca ligava primeiro.
Falava devagar, com pausas, como sempre.
— Você está ressentida com a gente — disse ele.
Não perguntou — afirmou.
— Houve isso, sim — respondeu Katya.
— Nós achávamos que estávamos fazendo a coisa certa.
— Eu entendo.
— Nos perdoe, se puder.
Ela ficou em silêncio.
— Eu não guardo rancor, pai.
De verdade.
Mas algumas coisas, por causa disso, não mudam.
— É — disse ele.
E ficou em silêncio outra vez.
— Você é admirável, Katya.
Sempre foi.
— Eu sei — respondeu ela, baixinho.
— Eu me fiz sozinha.
Ele não respondeu a isso.
Ainda conversaram um pouco — sobre o tempo, sobre a saúde dele — e se despediram.
Katya guardou o telefone e foi para a loja — era preciso abrir.
Lá fora, o ar cheirava a primavera.
Ela caminhava e pensava em como a vida é estranha: às vezes as pessoas mais próximas nos machucam de modo tão cotidiano, sem má intenção, que quase é impossível sentir raiva delas.
Só se pode aceitar — que elas são assim, que você é diferente, que agora existe essa distância entre vocês.
O apartamento da avó desapareceu.
Foi uma perda — real, sem desconto.
Não o dinheiro, não.
O lugar.
A memória.
A possibilidade de voltar e saber que, em algum canto daquela cidade pequena, existe um lugar que é seu.
Isso já não pode ser devolvido.
Mas ainda há a manhã, a cidade, a loja com flores de primavera na vitrine.
Seu próprio negócio.
Sua própria vida.
Construída com as próprias mãos, sem a ajuda de ninguém.
Katya abriu a porta da loja e entrou.







