Por isso resolve tu os caprichos e os problemas dela.
Ksênia estava sentada ao computador quando a porta de entrada bateu.

Dmitri.
Ela o reconhecia pelos passos: pesados, cansados, com uma pausa no corredor, onde ele tirava os sapatos.
Normalmente, depois do trabalho, ele ia direto tomar banho, mas naquele dia foi para a cozinha.
Ksênia não tirou os olhos da tela, estava terminando o relatório trimestral que precisava ser enviado ao cliente dentro de duas horas.
— Ksiúch, estás ocupada? — Dmitri espreitou para o quarto onde ela tinha montado o seu canto de trabalho.
— Muito, — respondeu ela secamente, continuando a inserir números na planilha.
— Tenho de entregar isto em duas horas.
Ele hesitou à porta.
Ksênia percebeu isso com todo o corpo, como um animal sente a aproximação de uma tempestade.
Quando Dmitri hesitava assim, vinha aí um pedido.
Não um pedido dele.
Dela.
— A mamãe ligou, — começou ele, e Ksênia fechou os olhos.
— Amanhã ela tem consulta com o cardiologista, às dez da manhã.
Pediu que a levassem.
Os dedos de Ksênia ficaram imóveis sobre o teclado.
Na cabeça dela passou imediatamente: amanhã tinha uma chamada com o cliente às nove, depois correções no projeto, depois…
Espera.
E por que razão teria de ser ela?
— E tu? — Ksênia virou-se.
— Não podes?
— Ksiúcha, vá lá, tu sabes que amanhã tenho uma reunião.
Não posso pedir dispensa, isto é importante.
— E o meu trabalho não é importante? — A voz dela ficou afiada como um caco de vidro.
— Eu também trabalho, aliás.
O facto de eu estar em casa não quer dizer que esteja livre.
Dmitri suspirou.
Com aquele suspiro especial, resignado, que ela odiava com toda a alma.
O suspiro de alguém que já está cansado do conflito antes mesmo de ele começar e que só quer esperar até que a tempestade passe.
— Ksênia, não comeces.
A mamãe não se sente bem, precisa de ajuda.
É só desta vez.
Só desta vez.
Ksênia sorriu com ironia.
Só desta vez tinha sido há três semanas, quando Olga Serguéievna pediu para ela ir com ela ao supermercado porque “as pernas doíam”.
Só desta vez tinha sido há um mês, quando foi preciso levar a sogra à policlínica para fazer exames, porque “tinha medo de ir sozinha”.
Isso tinha acontecido todas as semanas durante os últimos três anos.
— Dima, — Ksênia levantou-se da mesa.
Por dentro, algo se apertava, enchendo-se de peso.
— E por que não a Sveta?
A tua irmã também tem carro.
E, aliás, ela trabalha por turnos.
Talvez amanhã seja justamente a folga dela?
— A Sveta mora longe, teria de atravessar a cidade inteira, — murmurou Dmitri, desviando os olhos.
— E tu estás aqui perto.
Além disso, a mamãe pediu-te a ti.
Ksênia sentiu alguma coisa rebentar dentro dela.
Não alto, não de forma dramática — silenciosamente, como uma corda muito esticada quando se rompe.
Pediu a ela.
Claro.
Porque a Ksênia é conveniente.
Porque a Ksênia está perto.
Porque a Ksênia concorda sempre, de dentes cerrados, empurrando para o lado os próprios assuntos, os próprios planos, a própria vida.
— A mamãe pediu-te a ti, — repetiu ela devagar.
— E tu vieste correndo passar-me esse pedido.
Como um estafeta.
— Ksiúch, mas que é isso…
— O quê eu? — Ksênia deu um passo na direção dele, e Dmitri recuou involuntariamente.
— O quê eu, Dmitri?
Há três anos que levo a tua mãe a médicos, lojas e farmácias.
Ouço as lições dela sobre como faço o borsch errado, como tiro o pó dos sítios errados e como, no geral, sou uma péssima esposa.
Sorrio, aceno com a cabeça e faço de conta que tudo isto me dá prazer.
E tu, o que fazes?
Tu apenas me transmites os pedidos dela, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo.
— Ela é minha mãe…
— Tua! — interrompeu-o Ksênia.
— Tua mãe, Dmitri.
Não minha.
Por isso resolve tu os caprichos dela.
Fez-se silêncio.
Dmitri olhava para a esposa como se ela, de repente, tivesse começado a falar numa língua desconhecida.
E Ksênia estava ali, com os punhos cerrados, sentindo crescer dentro dela algo quente e assustador: aquilo que reprimira durante demasiado tempo.
Dmitri calava-se, e esse silêncio só atiçava ainda mais Ksênia.
As palavras que ela guardara durante meses, durante anos, saíam agora como água de uma barragem rompida.
— Lembras-te de como a tua mãe apareceu em nossa casa logo no primeiro mês depois do casamento? — Ksênia falava baixo, quase calmamente, mas a voz tremia.
— Entrou sem tocar à campainha, com as chaves dela, aquelas que tu lhe deste “para o caso de alguma coisa”.
Eu estava de roupão, despenteada, sem maquilhagem.
E ela olhou para a mesa e disse:
— Mas que pequeno-almoço é este?
Omelete?
Dima, tu gostas é de ovos estrelados, com tomate.
E tu acenaste com a cabeça.
Limitaste-te a acenar, como um menino obediente.
— Ksiúch, isso é uma coisa sem importância…
— Sem importância? — Ela riu, breve e maldosamente.
— Sim, sem importância.
Como o facto de ela mudar as panelas de lugar na minha cozinha, porque “assim é mais prático”.
Como o facto de ela me ter ensinado como se lava o chão: na diagonal, e não no sentido do comprimento.
Vamos a casa dela ao fim de semana, e ela prepara de propósito os teus pratos favoritos e deixa subentendido que, pelos vistos, eu te alimento mal, já que ficas tão contente com as almôndegas dela.
Dmitri desviou o olhar.
Ksênia via-o engolir em seco, via como apertava os maxilares.
Mas ele não respondia.
Porque era verdade, e os dois sabiam disso.
— E lembras-te do meu aniversário no ano passado? — continuou Ksênia, e a voz dela ficou mais baixa, mais dolorida.
— Íamos ao restaurante, só nós os dois.
Eu estava à espera dessa noite com tanta ansiedade.
Comprei um vestido novo, marquei hora no salão.
E duas horas antes de sairmos a tua mãe liga e começa a chorar ao telefone.
Estava com a tensão alta, sentia-se mal, tinha medo, venham depressa.
Nós fomos a correr.
Ela estava deitada no sofá, pálida, com o medidor de pressão ao lado.
E meia hora depois, quando tu foste à farmácia, ela levantou-se como se nada fosse e fez chá para si.
Disse que a pressão já tinha normalizado.
Ficámos em casa dela até à noite.
O restaurante foi por água abaixo.
Nunca cheguei a usar o vestido.
— Ela estava mesmo a sentir-se mal, — disse Dmitri em voz baixa.
— Ela tinha medo de ficar sozinha no meu aniversário, — cortou Ksênia.
— Foi isso que realmente aconteceu.
Ela não consegue aceitar que tu tenhas uma esposa.
Que eu seja mais importante para ti.
Embora, ao que parece, eu estivesse enganada quanto a isso.
— Isso não é justo.
— Não é justo? — Ksênia sentiu as lágrimas subirem-lhe à garganta, mas conteve-se.
— E isto é justo: eu levanto-me às sete da manhã, trabalho até ao almoço.
Depois cozinho, limpo, lavo roupa.
Depois volto a trabalhar até à noite.
Ao sábado a tua mãe liga e pede ajuda para arrumar o armário, ir ao mercado, ficar com ela, porque “sozinha aborrece-se”.
E a Sveta, onde está?
A Sveta está ocupada.
A Sveta tem a vida dela.
E eu, pelos vistos, não tenho?
Dmitri passou a mão pelo rosto.
— Ksiúcha, eu percebo que para ti seja difícil.
Mas ela é velha, precisa de ajuda.
— Ela tem sessenta e cinco anos, Dima! — Ksênia quase gritava.
— É mais nova do que muitas pessoas que cuidam de si mesmas e ainda tomam conta dos netos.
Ela simplesmente tem um filho que não sabe dizer-lhe não.
E a esposa desse filho, que se transformou numa cuidadora gratuita, motorista e criada para todas as ocasiões.
Ele calava-se.
E nesse silêncio Ksênia viu tudo claramente de repente: ele não ia discutir.
Não a ia defender.
Ia apenas esperar que tudo passasse e depois diria alguma coisa conciliadora, e tudo continuaria como antes.
Mas daquela vez não.
Como se tivesse sido combinado, o telefone de Dmitri tocou.
Ele sobressaltou-se, olhou para o ecrã e empalideceu.
— Mamãe, — murmurou.
— Atende, — disse Ksênia.
— Vá, atende na minha frente.
Dmitri colocou em alta-voz.
A voz de Olga Serguéievna encheu o quarto, exigente e aflita ao mesmo tempo.
— Dimótchka, então, e a Ksênia?
Ela concordou em levar-me amanhã?
É que eu estou mesmo muito mal.
Passei a noite toda com pontadas no coração.
Tenho medo de ir sozinha, e se eu me sentir muito pior lá e não houver ninguém ao meu lado…
Ksênia olhava para o marido.
Ele abriu a boca, mas ela antecipou-se.
Pegou no telefone das mãos dele.
— Olga Serguéievna, é a Ksênia.
Houve uma pausa.
A sogra claramente não esperava que fosse a nora a responder.
— Ah, Ksiúcha.
Então vais levar-me, certo?
Tenho de estar na policlínica às dez, por isso temos de sair às nove e meia.
Há trânsito, sabes…
— Não, — disse Ksênia calmamente.
— Amanhã eu não a vou levar.
O silêncio tornou-se cortante.
— O quê? — Aço surgiu na voz da sogra.
— Como assim não me vais levar?
Eu estou mal, preciso de ajuda!
— Chame um táxi ou, se estiver mesmo assim tão mal, uma ambulância, — disse Ksênia com voz firme, embora tremesse por dentro.
— Ou peça à Sveta.
Ou então o Dmitri que peça dispensa no trabalho.
Amanhã eu estou ocupada.
— Ocupada? — Olga Serguéievna subiu para um tom estridente.
— Ocupada com quê?
Ficas sentada em casa a mexer na internet!
Aqui uma pessoa está mal, precisa de ajuda!
Dima, estás a ouvir o que a tua mulher está a dizer?!
Dmitri estava ali, pálido, perdido, e Ksênia percebeu: ele naquele momento não ia dizer uma única palavra.
Ia calar-se, como quase sempre.
— Olga Serguéievna, eu trabalho.
O facto de trabalhar a partir de casa não torna o meu trabalho menos importante.
Amanhã tenho uma reunião com um cliente e prazos de projeto.
Não posso largar tudo e levá-la para o outro lado da cidade.
— Não podes?! — A sogra já gritava abertamente.
— Eu fiz tanto por ti!
Criei o Dima, eduquei-o, fiz dele alguém na vida!
E tu nem sequer me podes levar!
Ingrata!
— A senhora criou o Dima, — repetiu Ksênia, e havia algo novo e duro na sua voz.
— O seu filho.
Esse era o seu dever de mãe, não um favor que me fez a mim.
Eu não lhe devo nada, Olga Serguéievna.
O facto de eu ser esposa do Dima não faz de mim sua criada nem alguém que lhe deva obrigações.
— Dima! — uivou a sogra.
— Estás a ouvir como ela fala comigo?!
Vais tolerar isto?!
Ksênia estendeu o telefone a Dmitri.
Ele olhava para ela como para uma estranha.
— Mamãe, mamãe, acalma-te…
— Não me acalmo! — Agora Olga Serguéievna chorava, soluçava.
— Dei-te a minha vida inteira, e tu permites que esta… que esta… me trate assim!
Eu tenho o coração doente, preciso de médico, e ela recusa-se!
E se eu me sentir mal!
E se eu morrer!
— Não vai morrer, — disse Ksênia baixinho.
— Chame uma ambulância, se está assim tão mal.
Mas eu não vou.
Virou-se e saiu do quarto.
Atrás dela ouvia Dmitri balbuciar alguma coisa ao telefone, a acalmá-la, a prometer.
As mãos tremiam-lhe.
O coração batia tão forte que parecia prestes a saltar-lhe do peito.
Mas Ksênia não recuou.
Pela primeira vez em três anos, não recuou.
Ksênia voltou para o seu quarto e fechou a porta.
Sentou-se à mesa, ficou a olhar para o ecrã, mas as letras desfocavam-se diante dos seus olhos.
As mãos ainda tremiam.
No peito havia uma sensação estranha: como se ao mesmo tempo lhe tivessem tirado um enorme peso e colocado outro novo, desconhecido.
Ela tinha feito aquilo.
Pela primeira vez em três anos tinha dito “não”.
E não apenas recusara, tinha dito tudo às claras, sem meias-palavras educadas nem desculpas.
No corredor, os passos silenciaram-se.
Dmitri falou muito tempo com a mãe, depois tudo ficou em silêncio.
Ksênia ouvia-o andar pela casa, abrir o frigorífico, fechá-lo.
Depois, uma batida leve na porta.
— Ksiúch, posso entrar?
Ela não respondeu.
Ele entrou na mesma, cauteloso, como quem entra no quarto de um doente grave.
— Convenci a mamãe a chamar um táxi, — disse ele, cansado.
— Afinal amanhã a Sveta está livre, ela vai encontrá-la na policlínica.
— Estás a ver? — Ksênia virou-se.
— Afinal, dá para fazer sem mim.
Dmitri sentou-se na ponta do sofá, baixou a cabeça.
— Eu não sabia que isto era assim tão difícil para ti.
Tu nunca falaste assim.
— Falei, — contrapôs Ksênia em voz baixa.
— Falei cem vezes.
Mas tu não ouvias.
Acenavas com a cabeça, concordavas, e depois voltavas novamente com mais um pedido da tua mãe.
Porque assim é mais fácil.
É mais fácil pedir-me a mim do que dizer-lhe não a ela.
Ele calava-se.
Ksênia levantou-se e foi até à janela.
Lá fora escurecia.
Uma noite de novembro, fria e húmida.
— Dima, eu já não consigo viver assim, — disse sem se virar.
— Não consigo continuar a ser conveniente para todos menos para mim mesma.
A tua mãe não me respeita.
E tu não me defendes.
Sinto-me uma estranha na minha própria família.
— O que queres que eu faça? — Havia desorientação na voz de Dmitri.
— Que deixe de falar totalmente com a minha mãe?
— Quero que cresças, — Ksênia virou-se, e ele viu lágrimas nos olhos dela.
— Que aprendas a dizer-lhe não quando ela ultrapassa os limites.
Que fiques do meu lado quando ela me humilha.
Que eu sinta que és o meu marido, e não o filho obediente dela, que me sacrifica pela tranquilidade dela.
— Ksiúcha…
— Estou a falar a sério, Dima, — ela limpou as lágrimas com o dorso da mão.
— Ou alguma coisa muda, ou eu vou-me embora.
Vou arranjar um apartamento alugado, levo as minhas coisas.
Vou viver sozinha.
Vai ser difícil, vou ter medo, mas não tanto como agora.
Porque agora estou a sufocar.
Dmitri ergueu os olhos para ela.
Havia medo neles.
Medo verdadeiro, genuíno.
— Estás mesmo a falar a sério?
— Completamente.
Ele apertou as mãos em punhos, olhou para o chão.
— Preciso de tempo, — disse com esforço.
— Não sei como isso se faz.
Como dizer não à própria mãe sem sentir que sou a pior pessoa do mundo.
— Tempo tens, — disse Ksênia.
— Mas não infinito.
E eu não vou esperar anos, Dima.
Já desperdicei três anos a adaptar-me a toda a gente à minha volta.
Agora quero viver a minha vida.
Contigo, se estiveres pronto para me apoiar.
Ou sem ti, se não estiveres.
Voltou para o computador.
Dmitri continuou sentado no sofá, curvado, com a cabeça entre as mãos.
Ksênia abriu o documento do relatório.
As letras continuavam a flutuar, mas ela obrigou-se a concentrar-se.
Por dentro havia vazio e, ao mesmo tempo, leveza.
Como depois de uma longa doença, quando a crise já passou e o corpo está apenas a começar a perceber que sobreviveu.
Dmitri levantou-se e saiu do quarto.
A porta fechou-se suavemente atrás dele.
Ksênia respirou fundo e bebeu um gole de água, endireitou-se e voltou a abrir a planilha.
Pela primeira vez em muito tempo, ela não sentia vontade de pedir desculpa.
Mesmo que aquela liberdade a fizesse tremer de medo.







