Compro o que eu quiser!
Ou incomoda tanto assim que eu não compro nada para o seu filhinho?!

— Cinco mil e duzentos rublos?
Por quê?
Para simplesmente cortarem o seu cabelo e passarem em você alguma meleca? — a voz de Olga Dmitrievna não soava interrogativa, mas afirmativa e acusatória, com aquela entonação especial que faria qualquer pessoa normal cerrar os maxilares.
Elena parou imóvel no vão da porta.
Na mão esquerda ainda apertava o telefone, cuja tela ia se apagando lentamente depois de uma conversa difícil com um cliente, e com a direita se agarrou instintivamente ao batente.
A cena que se apresentou diante dela era doméstica até causar náusea, e por isso ainda mais repugnante.
Sua sogra, Olga Dmitrievna, estava sentada no sofá da sala, recostada confortavelmente nas almofadas.
No colo, jazia a bolsa de Elena, aberta — cara, de couro, comprada com o bônus do mês passado.
E nas mãos enfeitadas com anéis baratos tremulava um retângulo branco de recibo fiscal.
— O que a senhora está fazendo? — perguntou Elena em voz baixa, sentindo como dentro dela, em algum lugar na altura do plexo solar, começava a se inflamar uma esfera fria e pesada de raiva.
— Por que a senhora mexeu na minha bolsa?
Olga Dmitrievna nem sequer se sobressaltou.
Lentamente, com desprezo ostensivo, alisou o recibo sobre o joelho, como se aquilo não fosse a prova de sua falta de vergonha, mas um importante documento do Estado.
— Eu estava procurando validol, — mentiu ela, sem nem tentar dar verossimilhança à voz.
— Meu coração começou a apertar.
E encontrei isto aqui.
Cinco mil, Lena!
A jaqueta de inverno do Pasha está furada, o zíper abre, ele anda com a de outono, está passando frio, e você joga dinheiro no vento.
Vocês têm hipoteca, aliás.
Ou você esqueceu?
A sogra levantou os olhos.
Neles não havia nem um grama de arrependimento, apenas um brilho pegajoso e espinhoso.
Ela se sentia plenamente no seu direito.
Para ela, a carteira da nora era algo como um criado-mudo público, cujo conteúdo estava sujeito a um inventário rigoroso.
Elena entrou no quarto.
O telefone caiu com um baque surdo na poltrona.
Ela viu os dedos da sogra remexendo no conteúdo da sua carteira, que a mulher já tinha conseguido tirar das profundezas da bolsa.
Notas cor-de-rosa, cartões bancários — tudo isso Olga Dmitrievna ia mudando de lugar, avaliando, calculando.
— Ponha tudo de volta no lugar, — disse Elena, aproximando-se.
Sua voz tornou-se dura, desprovida de qualquer emoção.
— Agora mesmo.
— Olhem só para ela, — bufou a sogra, dirigindo-se a um espectador invisível, e demonstrativamente puxou uma nota de cinco mil, examinando-a contra a luz.
— Ela está dando ordens.
Era melhor comandar assim a casa.
Na geladeira não tem nada, meu filho se entope de pelmeni comprados prontos, e a madame vai ao salão de beleza.
Você ao menos entende que isso é metade do adiantamento do Pasha?
Aquilo foi um golpe baixo, habitual e ensaiado.
Comparar os gastos dela com os ganhos míticos de Pavel era o tema preferido de Olga Dmitrievna.
Só que a matemática naquela casa funcionava de um jeito totalmente diferente, e a sogra sabia muito bem disso, mas continuava a jogar o seu joguinho.
— O adiantamento do Pasha nem dá para pagar as contas deste apartamento, — disse Elena de forma cortante, estendendo a mão para a carteira.
— Me devolva.
Olga Dmitrievna puxou a mão de volta bruscamente, apertando a carteira alheia contra o seu peito enorme, coberto por um casaco de tricô.
— Não vou devolver! — guinchou ela, inesperadamente fina.
— Não vou devolver para você não gastar tudo de novo com as suas bobagens!
Vou guardar esse dinheiro para o Pasha, para umas botas.
Ele não tem com o que andar, e ela aqui está vivendo no luxo!
Você perdeu totalmente a vergonha, garota!
Nós te recebemos de coração aberto, te aceitamos como se fosse da família, e você não dá a mínima para nós!
Elena olhava para aquela mulher e não acreditava nos próprios olhos.
Uma mulher adulta, mãe do seu marido, sentada no seu apartamento, no seu sofá, a roubando abertamente, escudando-se no cuidado com o filhinho.
Aquilo era surreal.
Absurdo.
— Olga Dmitrievna, — Elena deu mais um passo, pairando sobre a sogra.
— Esse dinheiro não é seu.
Não é dinheiro do Pasha.
É meu dinheiro.
Eu o ganhei.
Eu trabalho doze horas por dia não para a senhora fazer agora uma auditoria na minha vida.
— Família é um só caldeirão! — rebateu a sogra, segurando com mais firmeza o couro envernizado da carteira.
— E não importa quem ganhou quanto.
Importa quem gasta de que jeito.
E você é uma esbanjadora.
Egoísta.
Só pensa em si mesma, sirigaita pintada.
A paciência estourou.
Não com um estalo, não com um estrondo, simplesmente desapareceu, deixando para trás uma raiva limpa, não turvada.
Elena puxou a bolsa para si.
Olga Dmitrievna agarrou-se às alças com a força mortal de um buldogue.
— Não se atrevam a me dizer como gastar o meu salário!
Compro o que eu quiser!
Ou incomoda tanto assim que eu não compro nada para o seu filhinho?!
O seu filhinho não traz um tostão para casa, eu sustento vocês dois!
Coloque a minha carteira de volta no lugar, ladra!
Olga Dmitrievna ficou ruborizada, as narinas se abriram.
— Como você tem coragem de dizer isso?!
Pasha trabalha!
Pasha se esforça!
E você o humilha!
— Se esforça?! — Elena puxou a bolsa com mais força.
O couro rangeu de forma lamentável.
— Há três meses ele está só com um salário-base que mal dá para a gasolina e os cigarros dele!
Eu pago a hipoteca!
Eu compro a comida!
Eu pago a sua internet, para a senhora ficar sentada vendo as suas novelas!
Ponha, eu disse, a minha carteira de volta no lugar, ladra! — gritava a nora, tendo pego a sogra revisando sua bolsa.
A palavra “ladra” açoitou Olga Dmitrievna pior do que um tapa.
Ela engasgou de indignação, mas não afrouxou a mão.
Ao contrário, agarrou a alça da bolsa com as duas mãos, firmando os pés no chão.
— Ah, sua vadia! — sibilou ela, cuspindo saliva.
— Eu sou mãe!
Estou salvando o dinheiro do meu filho!
E você me chama de ladra?!
Eu vou te…
As duas puxavam a pobre bolsa para lados opostos, como dois animais selvagens dividindo uma presa.
Elena sentia os músculos se tensionarem, a ferragem cara estalar.
Ela não dava a mínima para a bolsa.
Precisava arrancar a própria vida daquelas mãos pegajosas e gananciosas.
— Solte! — expirou ela, colocando toda a força no puxão.
Soou um ruído seco e desagradável de couro se rasgando.
Uma das alças não aguentou e se arrancou de vez.
Por inércia, Elena cambaleou para trás, mal conseguindo manter o equilíbrio, e Olga Dmitrievna, apertando vitoriosa a carteira, que havia caído do interior escancarado da bolsa, afundou-se de volta no sofá com ar triunfante.
— Isso mesmo! — berrou a sogra, escondendo a carteira atrás das costas.
— E você não vai receber de volta enquanto não aprender a respeitar os mais velhos e a contar dinheiro!
Vou contar tudo ao Pasha!
Que ele resolva com essa histérica!
Elena ficou no meio do cômodo com a bolsa rasgada nas mãos.
Seu peito subia e descia pesadamente.
Na cabeça já não havia pensamentos sobre boas maneiras, idade, o status de “mãe do marido”.
À sua frente estava um inimigo.
Um inimigo insolente, seguro da própria impunidade, que invadira sua casa e decidira que tinha direito de dispor dos recursos dela.
Ela atirou a bolsa estragada no chão.
— Ótimo, — disse ela em um tom glacial, do qual até Olga Dmitrievna sentiu um arrepio percorrer-lhe as costas.
— Vai contar ao Pasha?
Maravilha.
Mas antes a senhora me devolve o dinheiro.
E sai daqui.
Elena avançou em direção ao sofá, já sem intenção alguma de negociar.
O tempo da diplomacia terminou no momento em que dedos alheios tocaram o salário dela.
— Devolva.
Agora mesmo. — Elena deu um passo à frente, abandonando de vez os últimos restos de educação.
Ela agarrou a sogra pelo cotovelo.
O tecido do casaco barato era desagradavelmente áspero e escorregadio ao toque.
Olga Dmitrievna, que não esperava contato físico, deu um grito como se tivesse sido escaldada com água fervente e tentou se soltar, mas Elena segurava firme.
Naquele momento, algo primitivo despertou nela — o desejo de proteger o seu território, os seus recursos, a sua vida daquela invasão sem cerimônia.
— Solta!
Você vai quebrar o meu braço, maluca! — berrou Olga Dmitrievna, tentando chutar a nora com o pé enfiado numa pantufa.
— Pasha!
Pasha!
Estão me matando!
— Chega desse espetáculo! — rugiu Elena.
Ela puxou a sogra para si, obrigando-a a se levantar do lugar onde estava sentada.
Olga Dmitrievna, pesada e desajeitada, tombou para a frente por inércia, e as duas, presas numa dança grotesca e absurda, saíram da sala e foram parar no corredor estreito.
A carteira, apertada na palma suada da sogra, escorregou e caiu com um baque seco no laminado.
Abriu-se, e seu conteúdo — cartões, notas, moedas — espalhou-se pelo chão em leque, brilhando à luz da lâmpada fraca do hall.
— Fora daqui! — Elena respirava com dificuldade, seu rosto cobriu-se de manchas vermelhas.
— Pegue as suas coisas e suma!
Estou farta das suas auditorias!
— Você está me expulsando?!
A mim?!
A mãe do seu marido?! — Olga Dmitrievna agarrou-se com a mão livre ao cabideiro, quase derrubando um casaco sobre si.
— Você é uma ladra!
Está escondendo dinheiro da família!
Cinco mil!
Cinco mil para cabelo, quando nós…
Ela não conseguiu terminar.
Na fechadura da porta de entrada, a chave girou com um clique seco.
Duas voltas.
Um som familiar, pesado, que antes provocava alegria em Elena, e agora apenas irritação surda.
A porta se abriu, deixando entrar no ar abafado, saturado de ódio, do apartamento o cheiro do corredor e de tabaco.
Na soleira estava Pavel.
Cansado, com o rosto cinzento, o casaco aberto, aquele mesmo para o qual supostamente não havia dinheiro.
Ele ficou imóvel, com a mão na maçaneta, e seu olhar passou lentamente do dinheiro espalhado pelo chão para a esposa, que ainda segurava sua mãe pelo cotovelo.
A cena era mais eloquente do que qualquer palavra.
Olga Dmitrievna transformou-se instantaneamente.
De fúria enfurecida, em uma fração de segundo virou uma mártir sofredora.
Seus joelhos cederam, ela levou teatralmente a mão livre ao lado esquerdo do peito e soltou um gemido digno de Oscar.
— Pashenka…
Filhinho… — lamentou-se ela, escorregando pela parede, mas ainda conseguindo pôr o pé sobre a nota de cinco mil para que ela não voasse.
— Veja…
Veja o que está acontecendo!
Eu vim fazer uma visita, e ela…
Ela me atacou!
Ela me bateu!
— O que está acontecendo aqui? — a voz de Pavel era baixa, rouca de cansaço, mas nela já tilintavam notas metálicas de agressão crescente.
Ele não olhava para a esposa.
Olhava para a mãe, que encenava um ataque cardíaco.
— Ela está escondendo dinheiro, Pasha! — atropelou-se Olga Dmitrievna, apontando o dedo para Elena.
— Você se mata de trabalhar, não vê a luz do dia, e ela anda indo a salões!
Cinco mil e duzentos rublos!
Eu só falei com ela, como mãe, para economizar um pouco, e ela se descontrolou!
Rasgou a bolsa, torceu o meu braço!
Está me expulsando!
Diz que eu não sou ninguém!
Pavel voltou lentamente o olhar para Elena.
Nos seus olhos não havia pergunta.
Havia sentença.
Ele nem tentou entender, não perguntou por que o dinheiro estava espalhado no chão, por que a mãe dele estava fuçando nas coisas da esposa.
Via apenas uma coisa: sua “santa” mãe fora ofendida.
— Você bateu na minha mãe? — perguntou ele em voz baixa, mas esse tom assustou Elena mais do que se ele tivesse gritado.
— Eu não bati nela, — respondeu Elena com firmeza, soltando o braço da sogra e recuando um passo.
Ela sentia os dedos tremerem, mas se obrigou a endireitar-se.
— A sua mãe entrou na minha bolsa.
Ela roubou a minha carteira.
Ela acha que tem o direito de controlar os meus gastos.
Eu só estava tentando pegar de volta o que é meu.
— Seu? — Pavel cruzou a soleira sem tirar os sapatos.
A sujeira das botas ficou no chão limpo, bem ao lado das moedas espalhadas.
— Nesta família não existe “seu”, Lena.
Existe nosso.
E se a minha mãe diz que você está gastando demais, значит está gastando demais.
— Pasha, o meu coração… — gemeu Olga Dmitrievna, revirando os olhos.
— Ai, como dói…
Ela vai me levar a um infarto…
Ela fez isso de propósito, Pasha!
Ela quer nos colocar um contra o outro!
Ela disse que você não traz nem trocados para casa, que você é um gigolô!
Aquilo foi a gota d’água.
O rosto de Pavel se contorceu.
O orgulho masculino ferido, multiplicado pelo cansaço e pelas queixas da mãe, detonou na hora.
Ele se virou bruscamente e deu um soco na parede com toda a força.
O estrondo foi ensurdecedor.
O reboco caiu da parede, revelando o concreto cinza.
O porta-chaves pendurado ao lado soltou-se do prego e caiu no chão com um estrondo metálico.
— Você perdeu totalmente o medo, foi?! — berrou ele tão alto que Elena sentiu os ouvidos tamparem.
Seu rosto encheu-se de sangue, as veias do pescoço saltaram.
— Como você fala assim com a minha mãe?!
Quem você chamou de gigolô?!
Eu trabalho como um condenado!
Sou eu que sustento a família!
— Você sustenta? — Elena sorriu, e aquele sorriso era mais afiado que uma navalha.
— Há três meses você traz para casa vinte mil, Pasha.
Isso não dá nem para comida.
— Cala a boca! — Pavel tornou a erguer a mão, mas bateu não na esposa, e sim no ar, como se afastasse de si a verdade.
— Cala a boca, vadia!
Você vive na minha casa!
Você come do meu pão!
E ousa jogar dinheiro na minha cara?!
Dá para a mamãe tudo o que você tiver aí!
Se ela precisa para remédio ou para botas — você vai dar!
— Pasha, ela esconde milhares aí! — atiçou ainda mais Olga Dmitrievna, curando-se milagrosamente do ataque do coração e levantando-se.
— Tira dela, filho!
Não deixe ela nos arruinar!
Você é o homem da casa!
Pavel avançou em direção à esposa, impondo-se sobre ela com toda a massa do seu corpo.
Dele vinha cheiro de suor velho e cigarro barato.
— Ouviu o que a minha mãe disse? — rosnou ele na cara dela, cuspindo saliva.
— Recolha o dinheiro.
E entregue a ela.
Como compensação pelo dano moral.
E peça desculpas.
Rápido.
Elena olhava para ele e sentia algo morrer dentro de si.
Não era o amor — amor já não havia ali fazia muito tempo.
Morria a pena.
Morria o hábito.
Morria a última esperança de que diante dela havia uma pessoa razoável.
Ela via à sua frente não um marido, mas um fracassado rancoroso e cheio de complexos, tentando se afirmar às custas dela, instigado pela mãe gananciosa.
— Você está falando sério? — perguntou ela muito baixo.
— Você quer que eu dê a ela o meu dinheiro?
No seu apartamento?
— Sim! — berrou Pavel.
— Na minha casa, minhas regras!
Não gostou — suma para onde quiser!
Mas entregue o dinheiro!
— Está bem, — assentiu Elena.
— Como o “dono” mandar.
— Está bem, — repetiu Elena.
— Como você mandar.
Ela se abaixou devagar.
Pavel soltou um resmungo vitorioso, cruzando os braços no peito, e Olga Dmitrievna se inclinou para a frente, gananciosa, esperando que a nora agora começasse humilhadamente a recolher as notas e a estendê-las para ela.
Mas Elena pegou do chão apenas a sua carteira estufada de moedas e cartões.
Calmamente, com uma meticulosidade assustadora, limpou-lhe a poeira, fechou o fecho com um clique e a colocou no bolso do jeans.
No hall ficou um silêncio tão profundo que se ouvia o zumbido do velho contador no quadro elétrico.
— O quê, ficou surda? — Pavel deu um passo em direção a ela, seu rosto começando outra vez a se encher de um vermelho raivoso.
— Eu disse: dê o dinheiro para a mamãe!
Se você mora na minha casa, então vive pelas minhas regras!
Elena ergueu os olhos para ele.
Neles já não havia medo, nem mágoa, nem o calor com que um dia olhara para aquele homem.
O olhar era vazio e translúcido como o gelo de um rio no inverno.
— Na sua casa? — repetiu ela.
Sua voz soava plana, sem uma única nota estridente, e foi justamente essa calma que deixou Pavel desconfortável.
— Pasha, você está com falhas de memória?
Ou mentiu tanto para a sua mãe que acabou acreditando nas próprias histórias?
— Não se atreva a falar assim comigo! — berrou ele, mas havia insegurança na voz.
— Este é o nosso apartamento!
Eu tenho registro aqui!
— Registro não faz de você proprietário, — disse Elena como se explicasse a tabuada a uma criança mentalmente atrasada.
— Vamos refrescar a sua memória.
Quem fez a hipoteca fui eu.
Seis meses antes do nosso casamento.
A entrada — dois milhões — veio do dinheiro da venda da chácara da minha avó.
A prestação mensal — quarenta e cinco mil — é descontada do meu cartão.
Todo mês.
Há três anos seguidos.
Olga Dmitrievna, sentindo que as coisas estavam indo mal, mexeu-se inquieta no lugar, ajeitando o casaco torto.
— E daí? — intrometeu-se ela, tentando trazer a discussão de volta ao rumo habitual de bate-boca de feira.
— Vocês são uma família!
Entre marido e mulher, tudo é de ambos!
O Pasha também contribui!
Ele fez a reforma!
Colou o papel de parede!
Elena pousou sobre ela um olhar pesado.
A sogra até recuou, encostando as costas no cabideiro.
— Colou o papel de parede? — Elena sorriu, e esse sorriso era mais assustador que um esgar.
— Olga Dmitrievna, esse papel de parede custava três mil o rolo.
Eu comprei.
E o seu filho estragou tudo, porque as mãos dele não servem para nada.
Foi preciso contratar uma equipe e refazer tudo.
Com o meu dinheiro.
— Você está jogando isso na minha cara?! — guinchou Pavel, sentindo o chão fugir sob seus pés.
Seu ego masculino, inchado pelos elogios da mamãe, rachava sob os golpes dos fatos.
— Eu dou dinheiro para a comida!
Eu pago as contas!
— Você dá dez mil por mês, Pasha, — Elena se aproximou dele até quase encostar.
Ele era uma cabeça mais alto do que ela, mas naquele momento parecia que era ela quem olhava de cima para ele.
— Dez mil.
Isso basta exatamente para abastecer a sua lata velha, na qual você leva a sua bunda até o escritório, e para comprar os seus cigarros.
Você come a carne que eu compro.
Você bebe o café que eu compro.
Você toma banho com um xampu que custa mais do que o seu ganho diário.
Você nem cueca consegue comprar sozinho — fica esperando que eu traga.
Pavel abriu a boca para responder alguma coisa, mas as palavras entalaram na garganta.
Ele estava acostumado a se considerar o chefe da família, o provedor, o herói cansado.
E agora estavam arrancando dele essa pele viva, expondo a verdade miserável e nua.
— Você não é homem, Pasha, — sentenciou Elena.
— Você é um sustentado.
Um gigolô de barriga de cerveja e ambições de oligarca.
E a sua mãe… — ela se virou para Olga Dmitrievna, que já não levava a mão ao coração, mas semicerrava os olhinhos de conta com raiva.
— E a senhora é um parasita comum.
A senhora vem aqui, come a minha comida, bebe o meu chá e ainda ousa fuçar nas minhas coisas?
— Sua ingrata miserável! — Olga Dmitrievna tremia de fúria.
A máscara de vítima caíra de vez.
— Eu criei o meu filho!
Passei noites sem dormir!
E você joga um pedaço de pão na cara dele?!
Quem vai querer você, solteirona velha, se ele te largar?!
— Largar? — Elena riu.
O riso foi seco e curto.
— A senhora não entendeu.
Não é ele que está me largando.
Sou eu que estou jogando o lixo fora.
Ela passou pelo marido atônito e foi até a cozinha.
Pavel fez menção de ir atrás dela, apertando os punhos, pronto para bater e calar aquela torrente de verdade, mas algo o deteve.
Talvez a compreensão de que qualquer gesto físico naquele momento seria o fim não só do casamento, mas também da sua vida confortável.
Elena voltou um segundo depois.
Nas mãos, trazia um grande saco de lixo preto — justamente aquele reforçado, para entulho.
— O que você está fazendo? — perguntou Pavel, obtusamente, olhando para o saco.
— O que eu deveria ter feito há três anos, — respondeu ela.
Ela foi até o cabideiro, onde pendia a jaqueta de Pavel — aquela mesma supostamente furada — e o casaco de Olga Dmitrievna.
Com um movimento brusco arrancou a jaqueta do gancho.
— Ei!
Ponha isso de volta! — berrou Pavel, avançando para ela.
Mas Elena foi mais rápida.
Atirou a jaqueta no chão e começou a enfiá-la no saco com fúria.
O zíper raspou no polietileno.
Logo em seguida foram parar ali dentro o gorro, o cachecol e as botas, que Pavel nem sequer havia tirado ao entrar, mas que agora estavam jogadas junto à porta.
— Você enlouqueceu?! — Olga Dmitrievna agarrou o próprio casaco, apertando-o contra si como a uma criança.
— Pasha, faça alguma coisa!
Ela está descontrolada!
Chame o hospício!
— Eu vou chamar a polícia agora mesmo, — sibilou Elena, sem se endireitar.
— E vou denunciar furto com invasão.
Em grupo.
Vocês dois aqui não são ninguém.
O Pasha já não tem nem registro temporário há meio ano, eu não o renovei.
E a senhora, mamãe, é só uma visita que já passou da hora de ir embora.
Pavel congelou.
A menção à polícia e à falta de registro caiu sobre ele como um balde de água gelada.
De repente, percebeu com clareza cristalina a sua posição.
Sem aquele apartamento, sem o dinheiro de Elena, sem o consentimento silencioso dela para carregar nas costas a vida doméstica, ele não era ninguém.
Um rei nu com coroa de papelão.
— Lena, espera, — seu tom mudou imediatamente.
A agressão deu lugar a uma entonação miserável e bajuladora.
— Por que você se exaltou assim?
A gente só se excedeu um pouco.
A mamãe só queria o melhor…
Vamos conversar direito.
Para que mexer nas coisas?
— Direito? — Elena se endireitou, segurando o saco meio vazio nas mãos.
— Direito era quando eu me calava.
Quando eu suportava os seus caprichos e as auditorias da sua mãe.
Agora acabou.
A lojinha fechou.
O financiamento do projeto “filhinho mimado” foi encerrado.
Ela chutou os tênis dele em direção à porta.
— Recolha o resto sozinho.
Você tem cinco minutos.
Se não der tempo — tudo vai pela janela.
O seu videogame, o seu notebook e a sua coleção de canecas de cerveja.
— Você não se atreveria, — sibilou Olga Dmitrievna, olhando para a nora com um ódio que faria o leite azedar.
— Isso é patrimônio comum!
— A nota fiscal do videogame está no meu nome, — rebateu Elena.
— O notebook foi presente da minha empresa para mim no meu aniversário.
E as canecas…
levem.
Engasguem com elas, por mim.
No cômodo pairou uma atmosfera pesada e densa de colapso total.
Pavel alternava o olhar entre a esposa e a mãe, tentando desesperadamente encontrar uma saída, alguma brecha, algum botão habitual de manipulação em que pudesse apertar.
Mas o controle remoto havia quebrado.
Diante dele estava uma pessoa estranha, que não queria mais brincar de família.
— Cinco minutos, Pasha, — repetiu Elena, olhando para o relógio.
— O tempo começou.
— Você está blefando, — cuspiu Pavel, torcendo a boca num sorriso de desprezo.
Ele ainda não acreditava.
No seu mundo, onde mamãe sempre tinha razão e a esposa era uma função conveniente, revoltas assim eram abafadas com um grito.
— Você não vai me expulsar para lugar nenhum.
Este apartamento também é meu, eu moro aqui, eu tenho registro aqui…
bem, tinha.
Não importa.
Agora você vai se acalmar, recolher as minhas coisas e ir pedir desculpas à mamãe.
Elena não respondeu.
Em silêncio, deu um nó no saco preto de lixo, onde a sua “preciosa” jaqueta e as botas estavam enfiadas em um amontoado.
O plástico farfalhou de maneira desagradável, e esse som, no silêncio do hall, pareceu ensurdecedor.
— O quê, ficou surda? — Pavel deu um passo em direção a ela, erguendo a mão para arrancar-lhe o saco.
— Coloque isso no chão!
Elena se esquivou bruscamente.
Nos seus movimentos já não havia a suavidade típica de uma mulher que ama.
Eram os movimentos de um animal acuado que decidiu que já não há para onde fugir e, portanto, é preciso atacar.
Ela escancarou a porta de entrada.
O ar frio do corredor invadiu o apartamento aquecido, trazendo consigo o cheiro de umidade e de batata frita alheia.
— O tempo acabou, — disse ela, surdamente.
E, com um impulso, arremessou o saco no chão de concreto do corredor.
Ele voou alguns metros e bateu com um baque surdo na porta do vizinho.
— Você é doente! — gritou Olga Dmitrievna, comprimindo-se contra a parede.
— Pasha, ela jogou fora as coisas!
Os documentos estavam no bolso interno!
— Ah, sua puta… — rosnou Pavel.
Ele correu para o corredor para buscar o saco, mas parou na soleira, dividido entre a vontade de salvar a jaqueta e a necessidade de “colocar a mulher no lugar”.
Esse segundo de hesitação foi decisivo.
Aproveitando-se da confusão dele, Elena pegou de cima do móvel a bolsa da sogra — aquela mesma, com a alça arrancada, por causa da qual aquele inferno começara.
— E isto — de lembrança, — disse Elena.
Ela fez um movimento largo e lançou a bolsa atrás do saco.
A massa de couro descreveu um arco e caiu direto numa poça suja da neve derretida trazida pelas botas dos outros.
— A minha bolsa! — berrrou Olga Dmitrievna, esquecendo a ciática, o coração e a idade.
Atirou-se para fora como um gavião, empurrando o filho com os cotovelos.
— Está a aposentadoria aí!
Estão as chaves aí!
Idiota, você estragou o meu couro!
Assim que a sogra saiu para o corredor, Elena fez aquilo que ninguém esperava dela.
Firmou as duas mãos nas costas do marido, que ainda estava no vão da porta olhando para as coisas jogadas, e o empurrou com toda a força.
Pavel, sem esperar um ataque pelas costas, perdeu o equilíbrio.
Agitou os braços de forma ridícula, tentando agarrar-se ao batente, mas os dedos escorregaram.
Ele foi lançado ao patamar, quase derrubando a mãe, que se havia inclinado para pegar a bolsa.
— Ei!
O que é que você está fazendo?! — gritou ele, virando-se.
Seu rosto se deformou de ódio e humilhação.
— Abre!
Agora eu vou arrancar a sua cabeça!
Elena permanecia na soleira do seu apartamento.
Com uma das mãos segurava a maçaneta, pronta para bater a porta a qualquer segundo, e com a outra apoiava-se no batente, bloqueando a volta.
Olhava para os dois — a sogra despenteada apertando contra o peito a bolsa suja e o marido de meias sobre o concreto frio.
E não sentia nada além de nojo.
Como se estivesse tirando para fora um lixo que se acumulara por tempo demais e começara a feder.
— Amanhã eu entro com o pedido de divórcio, — declarou em voz alta e clara, para que ouvissem não só eles, mas também todos os vizinhos que certamente já estavam grudados aos olhos mágicos.
— Vou trocar as fechaduras hoje mesmo.
Se você tentar arrombar — eu chamo a polícia.
Tenho o recibo do chaveiro que abriu a fechadura da outra vez, quando você perdeu as chaves.
Vou provar que moro sozinha.
— Lena, não faça loucura! — Pavel deu um passo em direção a ela, tentando enfiar o pé no vão para impedir que ela fechasse a porta.
Seu tom passou bruscamente da agressividade para o pânico.
Ele percebeu que aquilo não era brincadeira.
— Para onde eu vou?
Está de noite!
Não tenho chaves nem dinheiro, está tudo na jaqueta!
— Para a mamãe, Pasha.
Para a mamãe, — Elena deu um chute no pé dele, coberto por uma meia cinzenta com um buraco no dedão.
Pavel uivou de dor e puxou a perna de volta.
— Você vai se arrepender! — sibilou Olga Dmitrievna, endireitando-se e sacudindo a bolsa suja diante do rosto da nora.
— Você vai voltar rastejando!
Você não serve para ninguém, estéril!
Vamos te processar!
Por dano moral!
Por dano ao patrimônio!
— Processe, — assentiu Elena.
— Só arrumem um bom advogado.
Porque para um defensor público o Pasha não tem dinheiro, já que vocês gastam todos os “ganhos” dele com os seus caprichos.
— Lena! — Pavel tentou lançar o ombro contra a porta, mas Elena foi mais rápida.
Ela bateu o pesado painel metálico bem diante do nariz dele.
O estrondo ecoou por todo o prédio, marcando um ponto final grosso e definitivo na vida conjugal deles.
Na mesma hora Elena, com os dedos tremendo, girou o trinco da fechadura noturna.
Uma volta.
A segunda.
A barra metálica entrou no encaixe com um clangor.
Em seguida, com as mãos ainda trêmulas, fechou também a fechadura de cima com duas voltas de chave.
Do lado de fora, imediatamente começaram a esmurrar.
— Abre, sua puta!
Abre, eu estou mandando! — gritava Pavel, chutando a porta.
— Eu moro aqui!
Esta é a minha casa!
Mamãe, chama a polícia!
— Ladra! — fazia coro Olga Dmitrievna com sua voz estridente.
— Roubou o rapaz e o pôs para fora!
Gente boa, ajudem!
Elena encostou a testa no metal frio da porta.
O coração batia em algum lugar na garganta, pulsando nas têmporas.
As pernas estavam moles, as mãos tremiam, mas na cabeça havia uma clareza sonora, cristalina.
Ela ouviu a porta dos vizinhos de baixo se abrir.
Ouviu a voz grossa do tio Vitya, militar reformado: — Ei, cambada, calem a boca!
Vou chamar a polícia agora mesmo e mandar todo mundo para a cadeia!
São onze horas, tem gente querendo dormir!
Sumam daqui antes que eu saia com um pé de cabra!
Os gritos do lado de fora se calaram, substituídos por sibilações raivosas e passos arrastados.
— Nós ainda vamos voltar!
Você ainda vai dançar! — chegou o resmungo abafado de Olga Dmitrievna.
— Vamos, mãe.
Eu vou dar um jeito nela…
Já amanhã… — a voz de Pavel ia ficando cada vez mais distante, até que a pesada porta do prédio bateu lá embaixo.
Silêncio.
Elena deslizou lentamente pela porta até o chão, justamente no lugar onde, dez minutos antes, as moedas estavam espalhadas.
Ficou sentada no hall vazio, olhando para o cabideiro onde já não pendiam nem a jaqueta do marido nem o casaco da sogra.
Os ganchos despontavam órfãos da parede, mas aquela visão não lhe causava tristeza.
Ela respirou fundo.
O ar no apartamento ainda cheirava ao escândalo, ao suor e ao perfume barato da sogra, mas sob essa camada outro cheiro já começava a se insinuar.
O cheiro da liberdade.
O cheiro do seu espaço pessoal, que ninguém mais ousaria violar.
Elena olhou para as próprias mãos.
Na palma havia ficado uma marca vermelha da maçaneta pesada da porta.
Ela fechou o punho, sentindo a força voltar.
— Compro o que eu quiser, — disse baixinho ao vazio, repetindo as palavras com que tudo havia começado.
Ela se levantou, foi até a cozinha e ligou a chaleira.
Ainda teria de trocar as fechaduras, dar entrada no divórcio e, talvez, pela primeira vez em três anos, dormir na sua própria casa silenciosa, sem dever nada a ninguém.
A vida estava apenas começando, e valia exatamente o quanto Elena estava pronta para pagar por ela — uma bolsa rasgada e um marido perdido.
Não era um preço alto demais por si mesma.







