— Dá a tua poupança à tua cunhada para o casamento, e quando deres à luz, ela devolve-te — a minha sogra pôs os olhos no meu dinheiro. 🤨🤨🤨

Nina adorava as manhãs de sábado.

Era precisamente aos sábados que não precisava de se apressar para lado nenhum, podia ficar deitada, com o nariz encostado ao ombro de Kolya, ouvir a rua a acordar lá fora e pensar em alguma coisa boa.

Por exemplo, que na conta já tinham juntado duzentos e quarenta mil, o que significava que faltavam pouco menos de dois anos para chegarem ao sonhado milhão.

Depois, um apartamento de três assoalhadas num bairro novo, um quarto de criança com cortinas amarelas e, talvez, um cão.

Ou um gato.

Ou os dois.

— Em que estás a pensar? — perguntou Kolya, sonolento, sem abrir os olhos.

— Em cortinas amarelas.

— Entendi — ele sorriu, sem entender, e puxou-a para mais perto.

Eles tinham-se casado três anos antes.

Kolya tinha vinte e oito anos, Nina vinte e seis.

Ambos trabalhavam, ambos construíam carreira, ambos queriam primeiro viver um pouco para si mesmos — viajar pelo mundo, firmar-se na vida, sentir o chão debaixo dos pés antes de criarem raízes.

A decisão tinha sido consciente, discutida, sofrida em longas conversas à noite, tomando chá.

Sem pressão, sem pressa.

Os dois sabiam o que queriam.

Só que a sogra, Valentina Petrovna, não acreditava nisso.

Valentina Petrovna era uma mulher grande, barulhenta e absolutamente convencida da própria razão em qualquer assunto.

Criara dois filhos — Kolya e a mais nova, Lena — sem marido, que foi embora quando Lena tinha três anos, e desde então considerava que tinha direito a um respeito especial.

Esse respeito, na opinião dela, significava que todos ao redor deviam aceitar as suas palavras como uma ordem de ação.

Com Nina, as coisas não correram bem desde o primeiro olhar.

— Magra demais — disse ela a Kolya depois do primeiro encontro.

— Mulheres assim não dão à luz.

Kolya então ignorou, decidindo que a mãe estava apenas preocupada, a observar.

Mas Valentina Petrovna não estava apenas a observar — ela construía de forma metódica, constante e sem qualquer vergonha a sua própria versão da realidade, na qual Nina era culpada pela ausência de netos.

Em cada reunião familiar, em cada oportunidade conveniente, ela conseguia soltar alguma indireta.

Ora suspirava: “Os outros já tiveram dois filhos, e vocês continuam a viajar.”

Ora, enquanto servia chá, deixava escapar como quem não quer nada: “Dizem que, se se espera demais, depois já nem se consegue.”

Ora, olhando para Nina com uma compaixão exagerada, dizia: “O principal é não ficares preocupada.

Hoje em dia a medicina trata de tudo.”

No início, Nina ficava calada.

Depois começou a responder de forma curta e fria.

Depois ela e Kolya conversaram, Kolya falou com a mãe, a mãe ofendeu-se, chorou, disse que ninguém a entendia, e uma semana depois tudo se repetiu outra vez.

— Ela faz isso de propósito — dizia Nina a Kolya.

— Ela sabe perfeitamente que fomos nós que decidimos assim.

Ela só quer magoar-me.

— Ela não é má — respondia Kolya.

— Ela simplesmente… é assim.

— “Assim” não é desculpa.

Ele concordava.

Voltava a falar com a mãe.

A mãe voltava a ofender-se.

O círculo fechava-se.

Valentina Petrovna soube da poupança por acaso — Kolya deixou escapar diante dela que ele e Nina estavam a juntar dinheiro para um apartamento.

A mãe ficou calada nessa altura, mas Nina viu algo brilhar nos olhos dela.

Algo nada bom.

— Não devias ter dito — disse ela depois a Kolya.

— Vá lá, o quê, achas que ela vai pegar no dinheiro?

— Não sei.

Mas teria sido melhor se não tivesses dito.

Kolya voltou a ignorar.

Ele era, em geral, uma pessoa sem maldade, suave, que preferia pensar bem dos outros.

Isso era ao mesmo tempo a sua qualidade e a sua vulnerabilidade.

Lena, a irmã mais nova de Kolya, era uma jovem bonita e impulsiva de vinte e três anos, que conseguia meter-se em confusões com uma regularidade invejável.

Ela mudava de empregos, mudava de interesses, mudava de namorados — e, num certo momento, descuidou-se.

Deu a notícia da gravidez à mãe em novembro.

Nina soube disso por Kolya, que soube pela mãe, que ligou em pânico e chorou meia hora ao telefone.

O pai da criança — um tal Artyom, com quem Lena namorava havia meio ano — estava disposto a casar.

Lena pensava.

Pensou durante muito tempo — demasiado tempo.

Quando finalmente decidiu ficar com a criança, o tempo já não permitia outra saída.

A mãe respirou aliviada.

Lena impôs uma condição: casamento.

Um casamento verdadeiro.

Com salão de banquetes, vestido branco, música ao vivo e pelo menos cinquenta convidados.

— Não vou simplesmente assinar no cartório — declarou Lena com firmeza.

Artyom encolheu os ombros — parecia disposto a tudo, desde que o deixassem em paz.

Os pais dele abriram os braços: não havia dinheiro.

Os pais da noiva, ou seja, Valentina Petrovna em orgulhosa solidão, também abriram os braços: não havia dinheiro.

Nina ouvia essas conversas de passagem e entendia tudo.

Entendeu ainda antes de Valentina Petrovna ligar e dizer que queria passar lá para “conversar”.

— Kolya — disse Nina naquela noite — ela vem pedir dinheiro.

— Nina, tu logo…

— Kolya.

Ela vem pedir dinheiro.

Ele ficou calado.

Então também entendia.

Valentina Petrovna veio no domingo depois do almoço, quando Nina acabara de lavar a louça e se preparava para se sentar com um livro.

Ela entrou no corredor, tirou os sapatos, foi para a cozinha, olhando em volta com o ar de uma pessoa que não ia ali havia muito tempo e que não estava muito feliz por voltar, e sentou-se à mesa sem esperar convite.

— Kolya está em casa? — perguntou ela, olhando para além de Nina.

— Vou chamá-lo agora.

Kolya saiu do quarto com o ar de uma pessoa que ia para um interrogatório.

Sentou-se em frente à mãe.

Nina ficou de pé junto ao fogão, de braços cruzados.

Valentina Petrovna começou de longe — por Lena, pela sua situação, por como tudo aquilo era inoportuno e por como ela, como mãe, agora não dormia à noite.

Depois passou para Artyom — um rapaz nada mau, trabalhador, mas sem dinheiro, de família simples.

Depois, para o casamento.

Para como Lena merecia uma festa normal, como afinal era filha, como não se podia simplesmente assinar em silêncio e fingir que nada estava a acontecer.

Nina ouvia e entendia para onde tudo aquilo caminhava.

— Então eu pensei — disse finalmente Valentina Petrovna, olhando para Nina com uma expressão que, provavelmente, devia significar benevolência — vocês com Kolya, de qualquer forma, ainda não vão ter filhos.

Vocês mesmos disseram que não têm pressa.

E o dinheiro de vocês está parado, a juntar.

Dá a tua poupança à tua cunhada para o casamento, e quando deres à luz, ela devolve-te.

Na cozinha, fez-se silêncio.

Nina virou lentamente a cabeça e olhou para a sogra.

Ela olhava de volta — calma, até com certa superioridade, como uma pessoa que acabara de dizer algo completamente razoável e esperava agradecimento.

— Esse dinheiro é nosso — disse Kolya em voz baixa.

— Nós juntámo-lo para um apartamento.

— E daí? — Valentina Petrovna encolheu os ombros.

— O apartamento não vai fugir.

Vocês são jovens, juntam outra vez.

Mas Lena agora está grávida, precisa de ajuda.

Isto é família, Kolya.

A família deve ajudar.

— Nós ajudaríamos — disse Kolya — se nos tivessem pedido.

Mas não temos esse tipo de dinheiro para dar a um casamento.

— Têm — disse a mãe secamente.

— Eu sei quanto há lá.

Nina sentiu as faces começarem a arder.

— A senhora sabe quanto há lá? — perguntou ela devagar.

— Bem, Kolya comentou uma vez…

— Kolya disse que estávamos a juntar para um apartamento.

Ele não disse que a senhora podia dispor desse dinheiro.

Valentina Petrovna olhou para ela com irritação fria.

— Eu não estou a falar contigo.

— A senhora está no meu apartamento — disse Nina.

— Está a falar do meu dinheiro.

Está a falar comigo.

— Este apartamento também é do Kolya.

— É propriedade comum.

E a poupança também é comum.

Logo, metade é minha.

E eu digo: não.

Valentina Petrovna apertou os lábios.

Depois olhou para o filho — com aquele olhar com que se olha para uma criança, esperando que ela finalmente ganhe juízo e ponha no lugar o brinquedo insolente.

— Kolya, diz-lhe tu.

Kolya ficou calado.

— Kolya — repetiu a mãe, e na voz dela surgiu aquela entoação especial que Nina, em três anos, estudara até à última nota — a entoação de uma mulher habituada a ser obedecida.

— Tu entendes que a tua irmã precisa de ajuda.

Que Lena agora está sozinha, que está difícil para ela.

Tu és irmão.

— Sou irmão — disse Kolya.

— Mas não vou pagar o casamento dela com o nosso dinheiro.

Algo no rosto de Valentina Petrovna vacilou — surpresa, quase ofensa.

Ela claramente não esperava aquilo.

— Então para ti uma qualquer… — Valentina Petrovna fez um gesto indefinido na direção de Nina — é mais importante do que a tua própria irmã?

— Nina é minha esposa.

E tu estás na casa dela.

Valentina Petrovna encostou-se ao espaldar da cadeira.

Ficou calada.

Depois disse — em voz baixa, quase pensativa, e isso era mais assustador do que um grito:

— Eu soube desde o início que ela não era a mulher certa.

Eu avisei-te.

Havia opções melhores.

Tu não ouviste.

E ela… — olhou para Nina — ela não te vai dar filhos.

Sempre tive certeza disso.

Já passaram três anos.

Nada.

Não porque vocês “não têm pressa”.

Mas porque ela não tem com quê.

Nina sentiu a sua paciência rebentar.

Não doeu — ela já estava habituada àquelas insinuações, àqueles olhares, àquele eterno “os outros já há muito tempo”.

Nina afastou as últimas regras de decoro que mantinha por educação, por respeito ao marido, por não querer provocar mais um escândalo familiar.

— A senhora perdeu completamente a vergonha — disse Nina.

A voz dela soou firme.

Depois, mais alta.

— A senhora perdeu completamente a vergonha!

Entrar na casa dos outros, exigir dinheiro que ninguém lhe prometeu e ainda insultar a pessoa a quem está a pedir esse dinheiro!

A senhora entende sequer como isso se chama?!

— Não grites comigo — disse Valentina Petrovna friamente.

— Eu não vim falar contigo.

Vim falar com o meu filho.

Isto não é assunto teu.

— É o meu apartamento!

O meu dinheiro!

Como assim não é assunto meu?!

— Kolya — a sogra virou-se para o filho, como se Nina não estivesse na sala — controla a tua mulher.

Ensina-a a respeitar os mais velhos antes que seja tarde.

Nesse momento, Kolya levantou-se.

Nina viu-o levantar-se — devagar, pesadamente, como uma pessoa que esteve muito tempo sentada sobre algo desconfortável e finalmente decidiu erguer-se.

Ele era alto, o seu Kolya, e quando ficava assim, com os ombros endireitados, parecia mais largo e mais firme do que de costume.

— Mãe — disse ele — chega.

— O quê?

— Chega.

Já disseste o suficiente.

Ele falava de forma uniforme, sem gritar, e isso era mais assustador.

— A minha mulher tem razão.

Tu vieste à nossa casa, exigiste o nosso dinheiro e insultaste a Nina.

Eu não vou permitir que a trates assim.

Nem na nossa casa, nem em lugar nenhum!

— Kolienka, eu só…

— Não, mãe.

Nós já conversámos muitas vezes contigo sobre isto.

Lembras-te?

Pedimos que não fizesses insinuações, que não falasses de filhos diante de todos, que não humilhasses a Nina.

Tu não ouviste.

Talvez agora ouças.

Valentina Petrovna olhava para ele com a expressão de uma pessoa que acabara de ser atingida por algo inesperado.

Abriu a boca, fechou-a.

Depois disse, e a voz dela tremeu:

— Então estás do lado dela.

— Estou do nosso lado — disse Kolya.

— Eu e Nina somos um só lado.

É assim que acontece quando as pessoas se casam.

— E Lena?

Lena não é importante para ti?

— Lena é importante.

Mas não vamos pagar pelos erros dela.

Ela é adulta.

Que assinem como puderem pagar.

Isso é normal.

Não há nada de vergonhoso num casamento modesto.

— Ela não quer um casamento modesto!

— Esse é o problema dela — disse Nina.

Baixo e muito claramente.

— Ela tem vinte e três anos.

Foi ela que se meteu nesta história.

Que seja ela a sair dela.

Valentina Petrovna levantou-se.

Puxou a blusa para baixo.

Olhou longamente para Nina — como se olha para algo desagradável.

— Eu vou-me embora, claro — disse ela.

— Mas vou lembrar-me disto.

— Eu também vou lembrar-me — respondeu Nina.

Naquela noite, Nina demorou muito a adormecer.

Kolya respirava pesadamente ao lado dela — ele sabia largar rapidamente as coisas pesadas, era um talento especial dele, que Nina ao mesmo tempo apreciava e invejava um pouco.

Ela ficou deitada na escuridão, olhando para o teto e repetindo a cena vezes sem conta.

Dá a tua poupança à tua cunhada para o casamento, e quando deres à luz, ela devolve-te.

Foi exatamente assim que aquilo foi dito.

Calmamente, com ar de dona, como se não se tratasse das economias de outra pessoa, mas de algo óbvio.

Como se Nina fosse uma espécie de cofre — parado no canto, a juntar dinheiro, à espera de que viesse alguém necessário.

Nina pensava em há quanto tempo aquilo se arrastava.

Três anos.

Três anos de indiretas, suspiros, olhares compadecidos.

Três anos de explicações — nós decidimos assim, não temos pressa, queremos primeiro firmar-nos.

Três anos em que essas explicações ou não eram ouvidas, ou eram chamadas de desculpas.

Ela não era estéril.

Era saudável.

Ela e Kolya tinham feito exames — simplesmente para si mesmos, porque Nina queria saber com certeza.

Estava tudo bem.

Ela não contou isso à sogra porque considerava que não tinha obrigação de prestar contas sobre a sua saúde a uma pessoa estranha.

E Valentina Petrovna — apesar de tudo o que as ligava através de Kolya — era exatamente uma pessoa estranha para Nina.

Alguém de fora.

Talvez isso fosse cruel.

Talvez fosse preciso, desde o início, sentar-se, conversar, explicar — não friamente, como ela costumava fazer, mas de verdade, abertamente.

Talvez então tudo tivesse sido diferente.

Mas Nina olhava para o teto e entendia: não, não teria sido diferente.

Porque o problema não era falta de entendimento.

O problema era que Valentina Petrovna decidira desde o início que Nina não era a pessoa certa.

Não era a mulher certa para o filho dela.

E todo o resto — as suspeitas sobre infertilidade, as reclamações sobre filhos, a história da poupança — tudo isso era apenas diferentes formas de dizer a mesma coisa: tu aqui és uma estranha.

Nina virou-se de lado e fechou os olhos.

Kolya, dormindo, pousou suavemente a mão no ombro dela — sem acordar, instintivamente, como sempre fazia.

Ela pensou: talvez seja exatamente por isso que o ama.

Por esse “estou aqui” calmo e inconsciente.

Lena casou-se no cartório em março.

Não houve salão de banquetes, não houve música ao vivo, não houve cinquenta convidados.

Houve uma pequena refeição no apartamento de Valentina Petrovna — umas doze pessoas, salada Olivier, frango assado e um bolo da confeitaria.

Nina e Kolya também foram.

Nina sorria, dava os parabéns, brindava.

Fazia tudo como devia.

Lena não olhava para ela.

Artyom bebia nervosamente e explicava algo ao pai.

Valentina Petrovna andava atarefada na cozinha e nem uma vez cruzou o olhar com Nina.

Em abril, Lena e Artyom passaram a viver na casa da mãe — não havia outro lugar.

Os pais de Artyom viviam num apartamento de um quarto com o irmão mais novo dele, estudante.

Alugar um apartamento com ela grávida não era possível, nem havia dinheiro, nem fazia sentido.

Valentina Petrovna apertou-se.

Em junho nasceu um menino.

Chamaram-lhe Misha.

Nina soube disso por Kolya — ele foi à maternidade.

Voltou cansado e um pouco confuso.

— Como está Lena? — perguntou Nina.

— Normal.

O pequeno grita, mas é saudável.

— Ainda bem.

Ficaram calados.

— A mãe pediu para dizer… — começou Kolya e parou.

— O quê?

— Que ficaria contente se tu passasses lá para conhecer o sobrinho.

Nina pensou.

— Passo lá — disse ela.

— Mais tarde.

Quando tudo acalmar um pouco.

Kolya assentiu.

Ambos entendiam que “mais tarde” podia significar muito longe.

No outono, Nina soube — por acaso, por Kolya, que soube por Lena, que ligou para se queixar — que a vida no apartamento da sogra se tornara insuportável.

Misha chorava à noite.

Artyom voltava do trabalho irritado e cansado.

Lena irritava-se com Artyom e com a mãe.

A mãe irritava-se com Lena e com Artyom.

Todos se irritavam com Misha, embora Misha não tivesse culpa de nada.

Os escândalos aconteciam dia sim, dia não.

— Lena é toda igual à mãe — disse Kolya.

— O mesmo caráter, exatamente.

Elas não vão conseguir viver juntas.

— Eu sei — disse Nina.

— Não tens pena da minha mãe?

Nina pensou.

Tentou encontrar dentro de si algo parecido com pena — por aquela mulher grande e barulhenta que agora não dormia à noite por causa do choro do neto, suportava o aperto e os escândalos que ela própria não sabia evitar.

Não encontrou.

— Não — disse ela.

— Não tenho pena.

Kolya suspirou.

Parecia esperar outra resposta.

Mas não discutiu — sabia que ali não havia nada a discutir.

Em novembro, exatamente um ano depois daquela notícia infeliz sobre a gravidez de Lena, Nina e Kolya estavam sentados à mesa à noite, fazendo contas.

Na poupança havia trezentos e oitenta mil.

Faltava menos de um ano e meio para chegarem ao milhão.

— Ainda conseguimos viajar para algum lado este ano? — perguntou Kolya.

— Se for em dezembro, sim.

— Para onde queres ir?

Nina apoiou a face na mão e olhou para a janela, onde do outro lado do vidro já repousava a primeira neve.

— Para algum lugar quente.

Kolya sorriu e esticou-se para pegar no portátil — para ver bilhetes.

Nina olhava para ele e pensava que não se arrependia de nenhuma decisão que tinham tomado.

Nem de não terem pressa.

Nem de juntarem dinheiro.

Nem de terem dito aquilo à sogra naquele dia.

Especialmente desta última.

Porque havia nisso a sensação de que o mundo, afinal, era justo.

Que não se pode humilhar uma pessoa durante anos, exigir o dinheiro dela, dizer-lhe na cara que ela é incompleta — e não receber nada em troca.

Valentina Petrovna recebeu.

Não de Nina — da vida.

Da própria filha, que era da mesma natureza que ela.

Do apartamento apertado e do choro de criança às três da manhã.

Do temperamento conflituoso que ela mesma criara em Lena, porque Lena realmente puxara toda à mãe.

Nina tinha certeza de que ela finalmente recebera o que merecia.

Não porque lhe desejasse mal.

Mas simplesmente porque a justiça é lenta, mas inevitável.

E a neve lá fora continuava a cair sem parar, e os bilhetes para Tenerife em dezembro estavam bastante baratos, e as cortinas amarelas no quarto da criança não tinham desaparecido — simplesmente esperariam um pouco.

Só um pouco.