— Sua mãe me chamou de boneca.

— Que continue, mas já não no meu apartamento — disse a esposa.

O apartamento na Rua Beregovaya cheirava a reforma e a decisões alheias.

Marina estava parada no meio da sala de estar, onde ainda não haviam terminado de abrir as caixas, e observava as paredes de um tom ocre-claro.

Ela escolhera aquela cor durante três meses, examinando amostras na loja de materiais de construção, até que o vendedor atrás do balcão começou a reconhecê-la.

Sete anos antes, quando ela e Pavel tinham acabado de se casar, aquele apartamento pertencia a ela.

Legalmente, literalmente e sem qualquer ressalva.

Era um apartamento de um quarto num prédio de painéis, no terceiro andar, que herdara da avó com a seguinte frase no testamento:

«Para Marishka, porque ela foi a única que compreendeu como eu me sentia sozinha».

Depois veio a reforma, paga com o dinheiro dela, com o dinheiro dos pais e com os trabalhos extras que fazia nos fins de semana.

Depois veio Pavel, que se mudou para lá com duas malas e um violão no qual nunca chegou a tocar.

Depois veio o filho, Artiom, que agora tinha três anos e que ela amamentara naquela mesma sala de estar às quatro da manhã, enquanto Pavel dormia porque «amanhã precisava trabalhar».

Agora eles estavam se mudando.

Iam para um apartamento novo e maior, com um quarto para a criança e uma despensa.

O novo apartamento fora comprado pelos dois, com uma hipoteca em nome de ambos e com uma entrada da qual metade viera dos pais de Marina.

E o antigo apartamento, o apartamento da avó, o apartamento de Marishka, permaneceria vazio.

Foi exatamente por isso que Zoia telefonou.

Zoia era irmã de Pavel.

Era oito anos mais velha que ele, tinha a expressão permanente de uma pessoa que acreditava que todos lhe deviam alguma coisa e uma voz capaz de transformar um pedido numa ordem.

— Olá, Marish — começou ela, como se tivessem conversado tomando chá no dia anterior.

— Então, já se mudaram?

— Ainda estamos nos mudando.

— Escute, estou ligando por causa de uma coisa.

Seguiu-se uma pausa teatral e cuidadosamente calculada.

— Mamãe e papai estão vivendo em condições terríveis.

— Eles alugam aquele cubículo em Liubertsy, há umidade e os vizinhos são alcoólatras.

— As costas do papai estão cada vez piores…

— E agora o seu apartamento está vazio.

— Talvez você possa deixá-los morar lá?

— Temporariamente, até encontrarem outra solução.

Marina não respondeu imediatamente.

Do lado de fora, ouvia-se o barulho do pátio, onde Pavel colocava as últimas caixas no carro.

Artiom estava sentado nos ombros dele e explicava alguma coisa ao pai com a expressão séria de uma criança de três anos que já compreendia tudo sobre a vida.

— Zoia — disse Marina finalmente.

— Não.

Houve outra pausa.

Mas daquela vez era uma pausa diferente.

— Como assim, não? — a voz da irmã de Pavel ficou mais baixa, o que era pior do que se ela tivesse começado a gritar.

— Exatamente assim.

— Não.

— Marish — sua voz adquiriu um tom aveludado.

— Vamos agir como seres humanos.

— Eles não são desconhecidos.

— Afinal, são os pais do seu marido.

Agir como seres humanos.

Marina conhecia bem aquela expressão.

Ela sempre aparecia justamente quando alguém queria dela alguma coisa que ela não tinha a obrigação de dar.

— Eu telefono depois — disse Marina e encerrou a chamada.

Pavel voltou vinte minutos depois, com o rosto vermelho, Artiom nos braços e aquela expressão que Marina aprendera a interpretar perfeitamente durante os sete anos de casamento.

Era uma expressão de culpa.

Uma expressão que já se preparava antecipadamente para se defender.

— Você conversou com Zoia? — perguntou ele, colocando o filho no chão.

— Foi ela quem telefonou.

— E então?

— Eu disse não.

Pavel colocou Artiom no chão, agachou-se diante dele e disse:

— Vá ver se encontra no corredor a caixa com os seus carrinhos.

— Procure o vermelho.

O menino saiu correndo tão depressa que seus calcanhares quase brilhavam.

Pavel se levantou.

Caminhou pela sala.

Parou diante da janela.

— Marina, bem…

— Eles são meus pais.

— Eu sei que são seus pais.

— Eles realmente estão vivendo muito mal lá.

— Papai reclama da umidade e mamãe…

— Pasha — ela o interrompeu suavemente, mas de uma forma que o obrigasse a escutá-la.

— Vamos ser sinceros.

— Você quer que eu permita que seus pais morem no apartamento que minha avó deixou para mim.

— No apartamento onde eu mesma fiz a reforma.

— Onde passei massa no teto com uma lanterna presa entre os dentes porque não havia eletricidade.

— No apartamento que você nunca ajudou a reformar, porque sempre aparecia alguma coisa mais importante.

Ele permaneceu calado.

— Você quer — continuou Marina — que sua mãe, que no nosso casamento disse à sua tia «pelo menos ela não é feia», more gratuitamente no meu apartamento.

— Eles pagariam as contas de água e eletricidade…

— Pasha.

Ele se calou.

Naquela noite, quando Artiom finalmente adormeceu em seu novo quarto, atravessado na cama e abraçado ao carrinho vermelho, Marina e Pavel estavam sentados na cozinha.

O chá esfriava.

Pavel olhava para a xícara como se houvesse alguma coisa importante escrita lá dentro.

— Ela vai telefonar novamente — disse ele finalmente.

— Eu sei — respondeu Marina.

— E mamãe também.

— Eu sei.

Pavel levantou os olhos.

Havia neles algo que Marina raramente via.

Não era culpa nem cansaço, mas algo muito mais profundo.

Algo que não possuía um nome simples.

— Marina, eu entendo que você tem razão.

— Racionalmente, eu entendo.

— Mas, quando mamãe chora ao telefone, eu…

Ele não terminou a frase e apertou os dedos em volta da xícara.

— Você se sente culpado — disse Marina.

— Você se sente assim desde a infância.

— Foi ela quem lhe ensinou a se sentir dessa forma.

Ele não contestou.

Isso, por si só, já era uma resposta.

Marina se levantou e foi até a janela.

No pátio, apenas um poste estava aceso, lançando um círculo amarelo sobre o asfalto.

Em algum lugar distante, um carro buzinou.

— Pasha, quero lhe contar uma coisa — começou ela lentamente, sem se virar.

— Não é sobre o apartamento.

— É sobre outra coisa.

Ela percebeu que ele ficara imóvel.

— Certa vez, sua mãe me disse que você poderia ter encontrado alguém mais prática.

— Foi no terceiro dia depois do nosso casamento, quando eu lavava a louça na cozinha deles.

— Ela estava parada na porta e conversava com Zoia.

— Achava que eu não estava ouvindo.

— Ou talvez não se importasse.

— Não sei o que é pior.

— Marina…

— Ainda não terminei — disse ela, virando-se.

— Naquela ocasião, fiquei calada.

— E, um ano depois, também fiquei calada quando ela disse que eu alimentava Artiom de maneira errada.

— Quando Zoia perguntou, no nosso primeiro Ano-Novo, com o dinheiro de quem havíamos comprado o carro, eu também fiquei calada.

— Fiquei calada porque acreditava que a família do marido era sagrada, que eu precisava suportar tudo e construir uma boa relação.

— Mas nenhuma relação foi construída, Pasha.

— Porque somente eu queria construí-la.

Pavel olhava para ela.

Não dizia nada.

— E agora querem que eu abra a porta para pessoas que passaram sete anos deixando claro que eu era uma estranha naquela família.

— E chamam isso de agir como seres humanos.

O telefone sobre a mesa começou a vibrar.

A tela se iluminou com a palavra:

Mamãe.

Os dois olharam para o telefone.

— Atenda — disse Marina em voz baixa.

— Você precisa conversar com ela.

— De verdade.

Pavel pegou o telefone.

Saiu para o corredor.

Marina permaneceu na cozinha, com as costas apoiadas no parapeito da janela, ouvindo fragmentos da voz dele.

No início, a voz era baixa e conciliadora.

Depois, tornou-se diferente.

— Mãe, escute…

— Não, escute o que estou dizendo…

— Mãe, o apartamento não é nosso.

— Não somos nós que decidimos…

— Não, não é ela quem está proibindo.

— Sou eu quem está dizendo isso…

Depois veio a voz da mãe dele.

Marina não conseguia distinguir as palavras, apenas o tom.

Era um tom crescente, exigente, com uma lágrima no final de cada frase, como se fosse um gancho.

— Mãe.

— Mãe, não faça isso.

— Isso é manipulação, e você sabe…

— Sim, eu disse essa palavra.

— Porque é verdade.

Houve silêncio.

Então Marina finalmente conseguiu ouvir uma frase curta e abafada:

— Você me traiu.

Em seguida, ouviu o clique da chamada sendo encerrada.

Pavel voltou para a cozinha.

Sentou-se.

Ficou olhando para a mesa durante muito tempo.

— Ela disse que vai tomar todos os comprimidos que existem na casa — falou ele com uma voz uniforme, embora Marina percebesse que sua mão esquerda tremia levemente.

— Ela já disse isso antes? — perguntou Marina com cautela.

— No funeral do meu avô.

— Quando estavam dividindo a casa de campo.

— E o que aconteceu?

— Não aconteceu nada.

Marina se aproximou, sentou-se ao lado dele e segurou sua mão.

Não a acariciou nem tentou consolá-lo.

Apenas a segurou.

— Pasha, isso não é culpa sua.

— O que ela está fazendo não é amor por você.

— O amor não se parece com isso.

Ele não respondeu.

Mas também não retirou a mão.

Na manhã seguinte, Zoia escreveu no grupo da família.

Marina viu a mensagem enquanto tomava café, e Artiom espalhava mingau pela mesa com a expressão de um artista de vanguarda.

«Pasha, mamãe chorou a noite inteira.

Espero que você esteja satisfeito.

Algumas pessoas entram numa família e a destroem.

É uma pena que você não perceba isso».

Marina leu a mensagem duas vezes.

Colocou a xícara sobre a mesa.

Escreveu uma resposta e depois a apagou.

Então escreveu novamente, de forma breve:

«Zoia, estou saindo deste grupo.

Não porque eu não tenha nada para dizer, mas porque tudo já foi dito».

Ela saiu do grupo.

Bloqueou o número.

Pavel, que havia lido a mensagem por cima do ombro dela, não disse nada.

Apenas assentiu lentamente, como uma pessoa que tomara uma decisão antes mesmo de perceber que já a havia tomado.

Três semanas se passaram.

A sogra não telefonou.

Zoia também não.

O pai de Pavel escreveu uma única vez, de forma breve:

«Filho, vivam a vida de vocês.

Nós encontraremos uma solução».

Aquilo foi a melhor coisa que Marina ouvira da família dele em sete anos.

O apartamento na Rua Beregovaya permaneceu fechado.

Marina ia até lá uma vez por semana para verificar tudo, arejar os cômodos ou simplesmente passar algum tempo ali.

Sentava-se no parapeito da janela da sala de estar, bebia café de uma garrafa térmica e observava as paredes ocres que levara três meses para escolher.

Um dia, levou Artiom com ela.

Ele corria pelos cômodos vazios, ouvindo o eco dos próprios passos, ria, caía de joelhos e se levantava novamente.

— Mamãe, o eco mora aqui? — perguntou ele com seriedade.

— Mora — concordou ela.

— Ele não se sente sozinho?

Marina olhou para o filho.

Olhou para os olhos redondos dele, completamente iguais aos de Pavel.

Olhou para as orelhas herdadas da avó dela.

— Não — respondeu.

— Ele está apenas esperando.

Naquela mesma noite, enquanto colocava Artiom para dormir, ela pensou que a fronteira entre «meu» e «nosso» não era uma linha desenhada num mapa.

Não era possível traçá-la uma única vez e para sempre.

Era preciso protegê-la todos os dias.

Às vezes, a pessoa se cansava.

Às vezes, começava a duvidar.

Mas algumas coisas continuavam sendo suas, não porque você fosse gananciosa ou insensível.

Elas continuavam sendo suas porque faziam parte de quem você era.

As paredes da avó.

As noites passando massa nas paredes.

As quatro horas da manhã com um bebê nos braços.

A dignidade não se divide entre três pessoas.

Pavel espiou o quarto da criança, certificou-se de que o filho estava dormindo e fechou a porta suavemente.

Encontrou Marina na cozinha.

Abraçou-a por trás em silêncio e apoiou a testa na nuca dela.

— Telefonei para eles hoje — disse ele em voz baixa.

— Sem nenhum motivo especial.

— Apenas perguntei como estavam.

— E então?

— Mamãe não atendeu.

— Meu pai conversou comigo durante cinco minutos.

— Disse que encontraram um apartamento mais barato, num bairro bom.

Houve uma pausa.

— Ele também disse outra coisa.

— O quê?

— «Você tem uma boa esposa.

— Não a perca».

Marina fechou os olhos.

Do lado de fora, ouvia-se o som de uma noite tranquila e comum.

Artiom respirava suavemente atrás da parede.

Em algum lugar distante, havia um apartamento fechado, com paredes ocres e um eco vivo.

Tudo estava em seu devido lugar.