— Eu zerei o teu dinheiro guardado, comprei um apartamento para a minha irmã, e tu ainda vais ganhar mais! — disse meu marido com um sorriso debochado.

Eu sorri, e na manhã seguinte uma fiscalização chegou à empresa dele.

A noite prometia ser aconchegante.

Anna havia posto a mesa para duas pessoas: carne assada com alecrim, uma salada leve e uma garrafa aberta de vinho tinto, que ela guardava para uma ocasião especial.

Naquele dia, completavam-se exatamente dez anos desde que ela e o marido haviam registrado a própria empresa de construção.

Eles não tinham comprado um negócio pronto, nem o recebido como herança, mas o haviam criado do zero em um apartamento alugado de apenas um cômodo, onde à noite um computador velho zumbia e o café solúvel esfriava no parapeito da janela.

Anna lembrava o cheiro de tinta do primeiro escritório deles, lembrava as mãos de Viktor cheirando a diesel depois das visitas às obras, lembrava o sussurro dele: “Anya, nós vamos conseguir, tu só precisas fazer as contas, tu és inteligente, sem ti eu sou zero.”

E ela fazia as contas.

Ela cuidava da contabilidade, otimizava os gastos, negociava com fornecedores e conhecia cada copeque que entrava no negócio deles e saía dele.

Em dez anos, ela nunca pediu um salário maior do que o de um gerente comum, porque acreditava que tudo era dos dois, tudo era para a família, tudo era para o futuro.

Para o futuro dos dois.

Ela nem percebeu quando esse “dos dois” passou a ser apenas dele.

Ela ajeitou uma mecha de cabelo solta, olhou para o relógio e sorriu.

Viktor estava atrasado, mas nos últimos meses isso havia se tornado habitual.

Ele dizia: “Negócios, Anya, estou correndo como um louco, estamos expandindo.”

Anna acreditava.

Sentada diante da cadeira vazia, ela repassava mentalmente a conversa do dia anterior sobre o apartamento.

Eles ainda moravam entre as paredes antigas que Anna herdara dos pais.

Viktor prometera muitas vezes que eles comprariam uma casa própria, espaçosa e iluminada, com um grande closet e vista para o parque.

“Assim que fecharmos essa licitação,” dizia ele, “escolhe qualquer opção, até uma cobertura.”

No dia anterior, ele dissera que naquela noite traria uma surpresa.

Anna pensou que se tratava das chaves.

A fechadura estalou às oito e meia.

Viktor entrou fazendo barulho, com um buquê de lírios brancos, que Anna não gostava por causa do cheiro doce e fúnebre, mas nunca lhe dissera isso, com medo de magoá-lo.

Na mão, ele segurava uma pasta de couro.

Anna levantou-se para recebê-lo, sentindo o coração começar a bater mais rápido.

Viktor não parecia um homem pronto para dar um presente à esposa.

Parecia uma pessoa que já havia vencido uma discussão, mas ainda não havia anunciado a aposta.

Ele jogou a pasta sobre a mesa, ao lado dos aperitivos, sem sequer olhar para o jantar, e sentou-se cruzando as pernas.

— Então, Anya, surpresa, — disse ele com um sorriso debochado que imediatamente feriu os ouvidos dela.

— Eu zerei o teu dinheiro guardado.

Aquele que tu juntavas para um dia difícil.

Peguei tudo, até o último copeque.

Anna ficou imóvel, sem conseguir apoiar o guardanapo na mesa.

Ela olhou para ele e esperou que ele risse, dissesse que era uma brincadeira e tirasse do bolso uma caixinha de veludo.

Mas ele não estava brincando.

Ele abriu a pasta e empurrou os documentos na direção dela.

Era um contrato de compra e venda de um apartamento em um novo conjunto residencial na periferia da cidade.

No campo “Compradora”, estava o nome da irmã dele, Lera.

— Vitya, isso deve ser algum engano, — disse Anna baixinho, sentindo os dedos ficarem dormentes.

— Havia oito milhões ali.

Nós juntamos esse dinheiro durante seis anos.

Dos meus salários, das tuas obras.

Eu, no dentista, às vezes até dispensava anestesia para economizar.

Tu dizias que era a nossa casa.

— Lera deu à luz, ela precisa mais, — cortou Viktor, estendendo a mão para a taça de vinho que ela havia preparado para os dois.

— Ela está sozinha com um menino, e nós dois já estamos bem.

Tu és uma mulher inteligente, Anya, ainda vais ganhar mais.

Por que estás fazendo essa cara?

Querias uma casa?

Quando houver dinheiro, haverá uma casa.

Por enquanto, Lera vai viver como gente.

Ela merece.

— Ela merece? — Anna ouviu a própria voz como se viesse de longe.

— Ela nunca trabalhou um dia na vida.

Há um ano, tu compraste um carro para ela.

Depois pagaste férias dela no mar.

Agora um apartamento.

Com o dinheiro que eu e tu ganhamos juntos.

Tu não estás confundindo nada?

— Eu estou confundindo? — Viktor inclinou-se para frente, e seu sorriso ficou duro, quase animalesco.

— És tu, querida, que estás perdendo a noção.

A empresa está no nome da minha mãe.

Eu sou o diretor-geral.

Tu és uma contadora contratada, que recebia salário e não tinha o direito de meter o nariz nas minhas decisões.

Tu esqueceste o teu lugar.

Queres continuar pendurada no meu pescoço?

Então fica calada e sorri.

Não gostaste?

A porta está aberta.

Mas lembra-te de uma coisa: sem mim, tu não és ninguém.

Quem vai querer uma mulher de trinta e oito anos, sem homem e com meia dúzia de moedas no cartão?

Ele terminou o vinho de um só gole, levantou-se e jogou o guardanapo diretamente na salada.

Anna ficou em pé junto à mesa, olhando para os documentos espalhados, para o sobrenome da cunhada impresso em letras grossas e para as gotas de vinho que haviam caído sobre a folha branca.

Ela não chorava.

Dentro dela, algo se rompeu e caiu fundo no estômago como uma pedra fria e pesada.

Viktor pegou o paletó no cabide e virou-se na porta.

— Vou para a casa da Lera comemorar a mudança.

Tu fica aqui, toma um ar e pensa no teu comportamento.

E nada de besteiras.

Tu és uma mulher inteligente.

A porta bateu.

Anna ficou sozinha.

Ela se sentou devagar na cadeira e permaneceu imóvel por uns dez minutos, olhando para um ponto fixo.

Depois se levantou, pegou o telefone e viu uma nova mensagem.

Lera havia enviado uma foto: sua mão rechonchuda, com uma manicure chamativa, segurava um molho de chaves diante de uma porta de entrada novinha.

A legenda dizia: “Obrigada pelo presentinho, irmãzinha.”

Anna largou o telefone e foi até a janela.

Atrás do vidro, os postes amarelos brilhavam e alguns carros buzinavam ao longe.

A cidade vivia sua própria vida, sem imaginar que naquele momento uma mulher havia deixado de ser apenas uma esposa paciente.

Ela não foi para o quarto.

Não ligou para as amigas para reclamar do destino.

Não caiu de joelhos e não começou a chorar alto.

Anna foi até o depósito, onde atrás de velhas caixas de sapatos havia um pequeno cofre do qual o marido há muito tempo se esquecera, convencido de que ali estavam apenas seus antigos diários.

Ela digitou o código, a data do casamento deles, que Viktor não se lembraria nem com uma arma apontada para a cabeça, e tirou um notebook.

Um pequeno notebook cinza, com a tela apagada, que constava como descartado por falta de utilidade.

Viktor o vira uma vez e perguntara: “Por que usas essa sucata, se temos computadores novos?”

Ela respondeu: “Estou acostumada, ele é prático.”

Ele deu de ombros e esqueceu.

Ele sempre esquecia aquilo que não lhe interessava.

Anna abriu o notebook, digitou a senha e entrou em um banco de dados que não existia nos servidores da empresa.

Ali estava guardada a verdadeira contabilidade dos últimos três anos.

Não aquela entregue ao fisco com números arredondados e lucros modestos, mas a real.

Planilhas, faturas, folhas de pagamento, contatos de empresas de lavagem de dinheiro e dados de empresas de fachada por meio das quais dezenas de milhões de rublos haviam passado.

Anna não era apenas uma contadora.

Ela era a arquiteta do lado obscuro do negócio que Viktor considerava exclusivamente mérito seu.

Cada esquema, cada operação, cada assinatura nos documentos bancários que ele assinava sem olhar, tudo estava ali.

Anna passou rapidamente pelos números finais.

Em três anos, quase quarenta e dois milhões de rublos haviam passado por fora do caixa.

Artigo cento e noventa e nove do Código Penal, parte segunda: evasão fiscal em escala especialmente grande.

Até seis anos de prisão.

E, pela lei, responderia não apenas quem assinava as declarações, mas também quem dava as ordens.

Viktor sempre esquecia que algumas ordens ele tinha tido a estupidez de deixar em mensagens de voz.

Ela copiou os dados para dois pen drives protegidos.

Escondeu um no bolso de um casaco velho pendurado no fundo do armário, que não usava havia três invernos.

O segundo colocou atrás de um pequeno ícone de santa Matrona que ficava na prateleira da entrada, o único objeto da casa em que Viktor nunca tocava por medo supersticioso.

Depois voltou a se sentar à mesa, pegou o telefone e encontrou na agenda um contato que não abria há anos.

Oleg Petrovich Somov.

O antigo chefe de Viktor, a quem ele havia traído no início da carreira, levando embora um grande cliente e fazendo o ex-chefe passar por tolo diante de toda a cidade.

Somov quase falira naquela época, mas se reerguera e agora era dono de uma empresa de construção concorrente, que disputava de perto todas as licitações da “VitStroy”.

Anna sabia que Oleg Petrovich guardava havia muito tempo um rancor muito pessoal contra seu marido.

Ela ligou exatamente às onze da noite, entendendo que um homem idoso talvez já estivesse dormindo.

Mas Somov atendeu no segundo toque.

Sua voz soava ao mesmo tempo animada e cautelosa.

— Oleg Petrovich, aqui é Anna Volkova, ex-contadora do seu ex-funcionário, — disse ela em tom firme.

— Desculpe a ligação tarde, mas tenho uma proposta que o senhor dificilmente vai querer recusar.

— Anna?

A mulher do Vitka? — surgiu surpresa na voz de Somov.

— O que aconteceu?

Ele te expulsou de casa no meio da noite?

— Pior, — respondeu Anna.

— Ele comprou um apartamento para a irmã com oito milhões de rublos que eu economizei durante seis anos.

Disse que eu não sou ninguém e que a empresa está no nome da mãe dele.

E também esqueceu que eu sei de tudo.

Absolutamente tudo.

Dos últimos três anos.

Quarenta e dois milhões por fora do caixa.

Quer saber graças a quê ele venceu o senhor naquela licitação de dois anos atrás?

Eu tenho todos os esquemas, todos os dados bancários, todas as mensagens de voz em que ele dá instruções diretas.

Eu quero justiça.

E estou pronta para entregar esses materiais ao senhor gratuitamente.

Com uma condição.

— Qual? — Somov já não escondia o interesse.

— Amanhã, às dez da manhã, homens de máscara devem aparecer no escritório dele.

Não uma inspeção fiscal com uma visita educada, mas uma operação completa.

O senhor tem contatos no departamento de segurança econômica.

Diga a eles que existe uma denunciante pronta para prestar depoimento e fornecer documentação.

Que venham com mandado de busca.

Houve uma pausa na linha.

Anna ouvia Somov respirar pesadamente, assimilando o que acabara de ouvir.

— Anya, tu entendes que tu mesma és uma signatária?

Tu participaste dessas operações.

Se cavarem fundo, tu também podes virar investigada, — disse ele lenta e seriamente.

— Eu sei, — respondeu ela.

— Mas tenho as gravações das ordens dele.

Estou pronta para fazer um acordo com a investigação para que me reconheçam como testemunha, não como cúmplice.

Meu advogado diz que isso é possível.

Ainda mais porque eu não recebi lucros extras.

Os oito milhões que ele roubou de mim estavam na minha conta pessoal e foram acumulados a partir do meu salário oficial.

Posso provar a origem deles.

Ele, não.

Somov tossiu e, de repente, soltou uma risada curta.

— Que cobra ele esquentou no próprio peito… Está bem.

Manda para o meu e-mail um resumo: valores, datas, números de contas.

Durante a noite vou preparar meu pessoal.

Amanhã, às dez em ponto, seu marido terá uma manhã inesquecível.

Anna desligou e enviou um e-mail criptografado.

Depois se levantou, foi até o espelho da entrada e olhou para o próprio reflexo.

Uma mulher cansada, com olheiras escuras e o cabelo preso em um coque apertado.

Viktor dizia que ela havia se transformado em uma ratinha cinzenta.

Ele estava enganado.

Ratos se escondem em buracos e tremem de medo.

Ela era uma ratazana: inteligente, rancorosa e perigosa quando encurralada.

Ela sorriu para o próprio reflexo e disse em voz alta:

— Tu ainda vais ganhar, Vitya.

Para comer mingau de cadeia.

A manhã do dia seguinte começou para Anna com uma visita que ela esperava e para a qual estava internamente preparada.

Às dez da manhã, quando Viktor já deveria estar no escritório conduzindo a reunião semanal, tocaram a campainha de seu apartamento.

Não foi um toque curto e insistente, mas uma longa e exigente campainhada, que ela reconheceu de imediato.

Só Lera tocava assim.

Anna abriu a porta e viu a cunhada em todo o seu esplendor: agasalho esportivo rosa-choque, lábios brilhantes, cabelo armado que por algum motivo ela considerava elegante, e um olhar arrogante que parecia ter ensaiado diante do espelho.

Nas mãos, Lera segurava uma bolsa de viagem vazia.

— Oi, irmãzinha, — cantarolou ela, atravessando a soleira sem cerimônia.

— Pensei numa coisa: já que agora tu não tens dinheiro para um apartamento novo, para que precisas de tanta tralha velha?

Tu tens pouco espaço, e eu agora tenho onde guardar.

Vamos lá, deixa eu ver tuas roupas.

Tu não te importas, não é?

Anna deu passagem, deixando-a entrar no corredor.

Ela não disse uma palavra.

Apenas observou Lera entrar no quarto como se fosse dona da casa, abrir o armário e começar a mexer nos cabides.

— Ai, que casaco de pele! — exclamou Lera, puxando um casaco de vison que Anna havia comprado três anos antes com o bônus recebido após a entrega bem-sucedida de uma grande obra.

— Tu já não usas, não é?

Ficou velha demais para pele?

Em mim vai ficar perfeito.

Lera jogou o casaco sobre os ombros e girou diante do espelho.

Anna ficou parada na porta, de braços cruzados, em silêncio.

A cunhada interpretava seu silêncio como submissão.

— Por que estás tão calada? — Lera virou-se e a olhou com os olhos semicerrados.

— Ficou ofendida, foi?

Ah, deixa disso.

Vitka fez certo.

Tu o exploraste por dez anos, já era hora de conhecer teu lugar.

Não conseguiste dar à luz, não construíste um lar, só contaste teus numerozinhos.

Eu sou sangue dele.

Ele me prometeu ainda quando éramos crianças que sempre me ajudaria.

E tu, quem és?

Material descartado.

Vais ver: ele ainda vai encontrar uma mulher normal, que lhe dará um herdeiro.

— Tira o casaco, — disse Anna calmamente.

— O quê?

— Tira o casaco, Lera.

Ele é meu.

Tu ainda não recebeste nada.

— Ah, por favor! — Lera jogou teatralmente o casaco sobre a cama e começou a revirar as gavetas de joias.

— Olha só, e o que temos aqui?

Ela tirou uma pequena caixinha de veludo.

Dentro havia um antigo pingente de ouro com pequenos diamantes, a única joia que a falecida mãe de Anna lhe havia deixado.

Lera abriu a caixinha, e seus olhos brilharam de forma predatória.

— Que coisa linda… São pedras de verdade?

Escuta, vou levar isso para mim, tá?

Por que estás sendo tão mesquinha, tens pena?

Agora somos uma família.

Vitka disse que tu entenderias tudo.

— Coloca no lugar, — a voz de Anna ficou mais baixa e firme.

— Ah, deixa disso, — Lera já prendia a corrente no pescoço.

— Diz ao Vitya que perdeste.

Ou que eu pedi.

Ele vai permitir, tu o conheces.

Ele me ama mais do que todos.

Anna deu um passo à frente.

Por um segundo, Lera achou que ela iria bater nela, e até recuou.

Mas Anna apenas estendeu a mão e arrancou o pingente do pescoço dela.

A correntinha tilintou finamente, quebrando-se.

Lera gritou.

— O que estás fazendo, sua louca?!

Vou contar ao Vitya como tu me tratas!

— Conta, — disse Anna, apertando o pingente no punho.

— E agora pega tuas coisas e vai embora.

Se esqueceste de algo, eu te lembro: agora tens teu próprio apartamento, pago do meu bolso.

Vai para lá.

— E vou mesmo! — guinchou Lera, agarrando o casaco sobre a cama.

— E vou levar tuas roupas, tu mesma disseste que posso pegar o que quiser!

— Leva.

Usa enquanto podes.

Até os oficiais de justiça confiscarem.

Lera parou já no corredor ao ouvir a última frase, mas não deu importância.

Apenas bufou e bateu a porta com tanta força que um pouco de reboco caiu do batente.

Anna ficou em pé no quarto, olhando para a correntinha partida.

Depois colocou cuidadosamente o pingente na caixinha, guardou-a no cofre e voltou ao notebook.

Seu rosto não expressava nada.

Ela esperava as dez horas.

No escritório da construtora “VitStroy”, no quarto andar do centro empresarial, o trabalho fervia naquele momento.

Os gerentes telefonavam para clientes, o mestre de obras relatava um atraso nas entregas e a secretária distribuía café.

Viktor Volkov estava sentado em seu amplo gabinete, com janelas panorâmicas e paredes revestidas de couro, sentindo-se um vencedor.

A noite anterior havia sido perfeita: a irmã estava feliz, a esposa fora colocada em seu devido lugar, e nenhuma histeria havia acontecido.

Anna havia engolido a ofensa, como sempre engolia.

Ele sabia que ela passaria um dia com cara amarrada, depois ligaria novamente sua máquina contábil e voltaria a ganhar dinheiro para ele.

Sempre fora assim.

E assim continuaria sendo.

Ele se recostou na cadeira e ligou para Lera.

— Então, irmãzinha, como está a novidade?

— Vitya, por pouco eu não arranquei os olhos da tua idiota! — veio a voz indignada do outro lado da linha.

— Ela resolveu avançar em mim por causa de uma porcaria de bijuteria.

Diz a ela para saber qual é o lugar dela!

— Acalma-te, Lera, eu resolvo.

À noite passo aí.

Ela vai esfriar a cabeça.

Ela sempre esfria.

Ele desligou e se espreguiçou satisfeito.

Exatamente às dez, planejava começar uma reunião com o advogado sobre uma nova licitação.

Mas às nove e cinquenta e oito bateram à porta de seu gabinete de uma forma como nunca haviam batido nem funcionários nem entregadores.

A porta se abriu sem convite.

Seis homens à paisana entraram no gabinete.

Um deles, um homem alto de cabelos grisalhos usando um casaco cinza, mostrou silenciosamente uma credencial.

Departamento de Segurança Econômica e Combate à Corrupção.

Atrás dele, viam-se dois homens fortes de camuflado e máscara.

Comitê Investigativo.

— Volkov Viktor Viktorovich? — perguntou o homem grisalho, embora soubesse perfeitamente a resposta.

— Sou eu.

Do que se trata? — Viktor tentou parecer surpreso, mas um frio pegajoso já se mexia dentro de seu peito.

— Em relação à sua organização, está sendo realizada uma investigação por evasão fiscal em escala especialmente grande.

Aqui está o mandado de busca e apreensão de documentos.

Peço que todos os funcionários permaneçam em seus lugares e desliguem os telefones celulares.

— Que impostos?! — Viktor saltou da cadeira.

— Vocês ficaram loucos?

Vou ligar para meu advogado!

— Ligue, — permitiu calmamente o homem grisalho.

— Mas depois que terminarmos.

E vamos começar pelo seu cofre.

Faça a gentileza de abri-lo voluntariamente.

Ou nós mesmos o abriremos.

Viktor ficou parado, observando os agentes revirarem metodicamente seu gabinete: abriam gavetas, desmontavam o rack dos servidores, apreendiam pastas com contratos e discos rígidos.

A secretária, na recepção, chorava baixinho.

Os gerentes trocavam olhares e permaneciam calados.

E Viktor pensava freneticamente: quem?

Quem poderia tê-lo denunciado?

Concorrentes?

Um sócio ofendido?

O pensamento em Anna surgiu e desapareceu imediatamente.

Ele a considerava incapaz de tamanha traição.

Uma ratinha tola que tinha medo até de chiar.

— Onde está a contadora-chefe de vocês? — perguntou o homem grisalho, folheando os documentos societários encontrados no cofre.

— Ela… está doente, — conseguiu dizer Viktor.

— Curioso.

Nós acabamos de receber uma denúncia dela.

Com uma descrição detalhada de todos os esquemas e provas anexadas.

O senhor sabia que sua esposa mantinha uma contabilidade paralela?

Naquele momento, algo se quebrou na cabeça de Viktor.

Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas não conseguiu emitir som algum.

O homem grisalho assentiu satisfeito e continuou a inspeção.

A busca durou quatro horas.

Quando os agentes foram embora, levando consigo três caixas de documentos e dois servidores, Viktor sentou-se no chão, no meio do gabinete destruído, e ficou olhando para a parede.

Seu telefone não parava de tocar, mas ele não atendia.

Ele sabia que era Lera.

E, naquele momento, ainda não fazia ideia do que lhe diria.

Uma hora depois, acabou ligando para a irmã.

Sua voz tremia de raiva e medo.

— Lera, temos problemas sérios.

Houve uma busca no escritório.

Anna nos entregou à polícia.

— O quê?! — a voz gritou no telefone.

— Como assim nos entregou?

Tu disseste que tinhas tudo sob controle!

— Estava tudo sob controle enquanto ela ficava calada!

Ela conhecia cada operação, Lera!

Cada uma!

Tu entendes que tua empresa individual, pela qual passávamos parte do dinheiro vivo, também vai aparecer?

Tu constas como beneficiária.

Isso é participação no crime.

Tu podes pegar a mesma pena que eu.

— Que pena?! — a voz de Lera se transformou em um grito.

— Tu prometeste que eu não corria risco nenhum!

Tu disseste: “Assina os papéis, recebe o dinheiro e pronto.”

Vitya, eu tenho um filho pequeno!

— Eu também tenho problemas agora, Lera! — rugiu ele.

— O teu apartamento provavelmente será apreendido.

Ele foi comprado com dinheiro obtido ilegalmente.

O investigador já disse que vai pedir o bloqueio dos bens.

Tu precisas vendê-lo urgentemente e me entregar o dinheiro para o advogado.

— Vender? — Lera ficou sem fôlego de indignação.

— É o meu apartamento!

Tu me deste de presente!

Eu já levei minhas coisas para lá!

Não vou vender nada!

— Tu és burra ou finges ser?!

Se apreenderem o apartamento, tu o perderás de vez!

Assim pelo menos salvamos o dinheiro.

Vende nem que seja pela metade do preço, mas com urgência.

Preciso contratar o melhor advogado, senão nós dois vamos presos.

E acredita em mim, irmãzinha, uma colônia penal feminina não vai te agradar.

Lera desligou.

Viktor ouviu os sinais curtos e atirou o telefone contra a parede com toda a força.

O plástico rachou, a tela apagou.

No gabinete, havia um silêncio cortante.

Ele ficou sozinho.

Naquela mesma noite, Anna estava sentada em um pequeno café à beira do rio, bebendo chá verde e olhando para a água.

Ela sabia o que estava acontecendo no escritório.

Sabia que os investigadores já interrogavam os funcionários.

Sabia que as contas da empresa haviam sido bloqueadas.

Oleg Petrovich ligara para ela e dissera apenas: “Tudo está indo conforme o plano.

Tu foste brilhante.

Espera.”

Ela esperava.

E sabia que Viktor, mais cedo ou mais tarde, enviaria alguém para negociar com ela.

E foi exatamente o que aconteceu.

No café entrou uma mulher idosa, com um casaco severo e um penteado impecável.

Era a sogra de Anna, Margarita Sergeevna, diretora nominal da empresa e mãe de Viktor.

Ela parecia péssima: olheiras escuras, lábios trêmulos, mãos tremendo.

Aproximou-se da mesa e sentou-se diante de Anna sem convite.

— Anechka, — começou ela com a voz sufocada, — eu te peço… eu te imploro.

Retira a denúncia.

Diz a eles que te enganaste.

Que foi vingança pelo divórcio.

Diz qualquer coisa.

Tu entendes que vão me prender?

A mim, uma velha.

Tenho pressão alta, problemas no coração…

— Margarita Sergeevna, — interrompeu Anna com voz gelada, — a senhora entendia que eu estava sendo roubada quando seu filho presenteava sua filha com um apartamento comprado com o meu dinheiro?

Entendia que eu fui humilhada, expulsa de casa, chamada de ninguém?

A senhora veio pedir por si mesma.

Mas qual de vocês pediu perdão pelo que fizeram comigo?

— Anechka, não se pode ser tão cruel!

Nós somos uma família! — lágrimas brilharam nos olhos da sogra.

— Uma família? — Anna sorriu com amargura.

— Sua filha usa o pingente da minha mãe falecida.

Vocês me deram uma semana para sair do apartamento que meus pais me deixaram de herança.

Disseram que eu era um “elemento estranho”.

Então recebam o elemento estranho.

A escolha é simples.

Ou eu presto depoimento dizendo que todas as ordens eram dadas por Viktor, enquanto a senhora era uma diretora nominal e não sabia de nada, e então ele será condenado.

Ou eu digo que Viktor foi induzido ao erro e que quem comandava tudo era a senhora.

A escolha é sua.

A senhora tem até amanhã de manhã.

Margarita Sergeevna abriu a boca, mas não emitiu som algum.

Ela olhava para Anna com horror e não reconhecia nela aquela nora obediente que por dez anos havia suportado os abusos do filho e os caprichos da filha.

Anna levantou-se da mesa e deixou uma nota para pagar o chá.

Ao sair, virou-se e acrescentou em voz baixa:

— Mande lembranças minhas a Viktor.

E diga a ele que eu ainda vou ganhar dinheiro.

Mas não para ele.

Passou-se um mês.

Do lado de fora da janela, caía uma garoa fria, batendo no beiral da velha casa de madeira à margem do lago.

Anna estava sentada em uma poltrona com uma manta sobre os joelhos e relia a notícia na tela do notebook.

Uma agência de notícias havia publicado uma nota curta: “O ex-diretor-geral da sociedade de responsabilidade limitada ‘VitStroy’, Viktor Volkov, foi condenado pelo tribunal a três anos de prisão com pena suspensa e a uma multa de cinco milhões de rublos por evasão fiscal.

Sua mãe, que constava como diretora nominal, recebeu adiamento da execução da pena por motivos de saúde.

O apartamento adquirido com recursos obtidos ilegalmente foi confiscado em favor do Estado.”

Anna recostou-se na poltrona e fechou os olhos.

Diante dela passaram as imagens do mês anterior: os longos interrogatórios nos quais ela prestou depoimentos claros e bem pensados, as acareações em que Viktor não conseguia olhá-la nos olhos, e a audiência no tribunal, onde ela testemunhou pela acusação.

O advogado, pago com o dinheiro da venda de seu carro antigo, construiu para ela uma linha de defesa impecável.

O tribunal reconheceu seu arrependimento ativo e a isentou de responsabilidade devido à colaboração efetiva para a descoberta do crime.

Ela saiu da sala do tribunal livre.

Lera não chegou a ir a julgamento.

No último momento, Anna mudou seu depoimento e informou ao investigador que a irmã do marido não conhecia a origem do dinheiro e agia por ordem do irmão.

Tiveram pena dela, limitando-se a impor uma proibição de deixar a cidade e ao confisco do apartamento.

Anna sabia o que estava fazendo.

A prisão privaria Lera do filho, e o menino não tinha culpa de nada.

Mas uma vida sem o novo apartamento, sem o status de irmã amada e sem o apoio financeiro do irmão tornou-se para Lera uma punição muito mais dura do que qualquer sentença.

Uma mulher orgulhosa, acostumada a dinheiro fácil, ficou sozinha com o bebê nos braços e com a reputação de cúmplice de um crime.

O pingente com diamantes voltou para Anna uma semana depois da busca.

Ele foi encontrado entre os objetos apreendidos de Lera e reconhecido como propriedade de Anna por meio de uma fotografia antiga, em que sua mãe o usava na formatura da filha.

O investigador entregou-lhe pessoalmente a caixinha de veludo.

Anna colocou o pingente no pescoço e nunca mais o tirou.

Seu telefone tocou.

O número era desconhecido, mas ela sabia quem poderia ser.

Levou o telefone ao ouvido e ouviu a voz abafada e estranha de Viktor.

— Obrigado por não ter mandado prender Lera.

— Eu não queria privar uma criança da mãe.

Ao contrário de ti, — respondeu Anna com voz firme.

— Tu destruíste tudo, — disse ele com amargura.

— O negócio, a família, a minha vida.

— A tua vida acabou naquela noite em que decidiste que eu era um nada, — disse Anna.

— Eu não destruí nada.

Apenas parei de construir para ti.

Adeus, Vitya.

Na tua nova vida, tenta não roubar.

Ela encerrou a chamada e bloqueou o número.

Do lado de fora da janela, o vento formava pequenas ondulações no lago.

Anna terminou o chá, levantou-se da poltrona e aproximou-se da mesa, onde o notebook estava ligado.

Na tela, estava aberta a página do serviço fiscal.

Ela havia registrado uma nova empresa: pequena, honesta, sua.

Por enquanto, havia apenas uma pessoa no quadro de funcionários, mas ela sabia que, com o tempo, contrataria jovens mulheres que precisavam de uma chance e faria crescer um negócio que não precisaria ser escondido em planilhas negras.

Ela sorriu, ajeitou o pingente no pescoço e abriu uma conta corrente limpa.

Do zero.

De uma página em branco.

E com a certeza absoluta de que essa página permaneceria apenas branca.