— Por que pagar garçons? Você mesma dá conta. Serão só quinze convidados, — declarou meu marido.

— Umas quinze pessoas, no mínimo! — Viktor dizia alto ao telefone, andando de um lado para o outro pela sala. — Vamos comemorar em casa, para que gastar dinheiro à toa?

Marina estava diante da pia, olhando para a montanha de pratos que havia sobrado do jantar da noite anterior.

Ela tinha cozinhado por umas três horas, no mínimo.

Viktor andava de um lado para o outro com o telefone, gesticulando com a mão livre.

Na beirada do sofá havia uma caneca de chá — já era a terceira do dia que ele largava em qualquer lugar.

— Aspic, dois tipos de salada, alguma coisa quente… A Marinka organiza tudo, ela tem mãos de ouro! — chegou até ela.

Marina fechou a torneira em silêncio.

Secou as mãos no avental — antes era colorido, agora estava completamente desbotado, ainda dos tempos do casamento.

Sentou-se no banquinho e fechou as mãos em punhos sobre os joelhos.

Havia quatro anos era sempre a mesma coisa.

Em cada comemoração — uma mesa para doze ou quinze pessoas.

E todas as vezes Viktor recebia os parabéns como se tivesse organizado tudo sozinho.

Ela continuou sentada à mesa da cozinha até Viktor terminar a ligação.

Lembrou-se do último Ano-Novo: dois dias diante do fogão, depois mais um dia inteiro limpando, e no fim as costas travaram tanto que ela mal conseguia se endireitar.

Viktor passara a noite inteira andando de um lado para o outro como o grande anfitrião — “Cara, que casa você tem, aqui a gente é sempre bem recebido”.

Dez anos juntos.

No começo alugavam um apartamento de dois quartos em Yaroslavl e economizavam para comprar o próprio imóvel.

No fim, compraram um apartamento financiado — dois quartos num prédio novo na periferia norte.

Marina cuidou pessoalmente da reforma: ia às lojas de materiais de construção, escolhia os azulejos, supervisionava os trabalhadores.

Quando finalmente se mudaram, ela teve a sensação de que dali em diante tudo seria diferente.

Mas não foi.

— Marin! — Viktor apareceu na porta da cozinha com um caderno. — Fiz as contas: se comemorarmos em casa, sai mais ou menos pela metade do preço de qualquer café ou restaurante.

Marina levantou os olhos para ele.

No dia anterior tinha ficado no trabalho até oito e meia — precisava entregar o relatório trimestral.

Naquele dia, depois do almoço, tinha ido visitar a mãe, Nina Alekseevna, que saíra recentemente do hospital e ainda não tinha se recuperado direito.

— Mais barato, — repetiu ela com voz neutra. — Porque o meu trabalho não entra na conta.

Viktor a olhou surpreso.

— Que conversa é essa? Você mesma gosta de cozinhar. Mamãe sempre dizia: é a dona de casa que sustenta o lar.

Marina se levantou e foi até a janela.

No peitoril, um ficus estava secando — ela nunca encontrava tempo para regá-lo.

Lá fora já começava a escurecer, embora ainda nem fossem seis horas.

Ela saiu para a varanda com uma xícara de chá.

A conversa a tinha abalado, e suas mãos ainda não paravam de tremer.

Sentou-se na poltrona dobrável — tinham comprado quando se mudaram, pensando em passar as noites ali juntos.

Do pátio vinham vozes — as crianças dos vizinhos jogavam bola.

A vizinha Olga tinha começado recentemente num emprego novo, e o marido levava o filho para a creche todas as manhãs.

Uma vida normal, no fim das contas.

Marina colocou a xícara sobre o parapeito.

Pensou nos filhos — ela e Viktor sempre adiavam: primeiro a hipoteca, depois a reforma, depois “não é a hora”.

Agora ela tinha trinta e oito anos.

De repente alguma coisa dentro dela deixou de estar tensa.

Simplesmente soltou — e de imediato ficou mais fácil respirar.

Terminou o chá, levantou-se e voltou para dentro do apartamento.

Viktor assistia a futebol com as pernas esticadas sobre a mesa de centro.

— Vit, — ela parou na porta. — Se quiser comemorar em casa, comemore. Eu não vou cozinhar. Absolutamente nada.

Ele a olhou de lado do sofá.

— Para com isso, Marin. Ficou chateada, acontece. Mas você não pode me deixar na mão. Você não é assim.

Ela permaneceu em silêncio.

Na televisão, os torcedores gritavam alguma coisa.

— Vai, para de fazer cara feia, — Viktor voltou a olhar para a TV. — Vai dar tudo certo.

Marina foi para o quarto.

Deitou-se ainda vestida e se cobriu com uma manta.

No escuro, nenhum pensamento — apenas leveza.

Ela tinha tomado uma decisão e sentia que não voltaria atrás.

Sábado de manhã.

Faltavam dois dias para o aniversário de Viktor.

Marina estava sentada à mesa da cozinha, mexendo no telefone.

Ao lado dela, o café esfriava.

Viktor entrou apressado na cozinha com o telefone e o caderno — já fazia uma hora que corria de um lado para o outro pelo apartamento.

— Marin, quanta maionese eu compro para a salada Olivier? Três potes dão para quinze pessoas?

— Não sei, — ela nem tirou os olhos do telefone. — Eu já disse que não vou participar.

— Você está falando sério?! — ele bateu o caderno na mesa. — Eu já combinei tudo! Kolka vem de São Petersburgo só para isso!

— Seus convidados, sua festa, — ela colocou a caneca na pia.

— Mas você… — ele se calou e depois soltou: — Isso é normal? Abandonar uma pessoa desse jeito?

— Eu não estou te abandonando. Só não vou cozinhar.

— Aonde você vai? — ele percebeu que ela tinha pegado a bolsa.

— Para a casa da minha mãe. Volto depois da sua festa.

A porta se fechou.

O apartamento ficou em silêncio.

Domingo, onze e meia da noite.

Viktor estava parado no meio da cozinha — sobre a mesa havia sacolas do supermercado Pyaterochka, e no fogão alguma coisa chiava e cheirava a queimado.

Ele pegou o telefone.

— Mãe, me salva. Amanhã vêm os convidados, sozinho eu não vou dar conta.

Quarenta minutos depois, a campainha tocou.

A mãe, Lyudmila Fyodorovna, e a irmã Katya — as duas com roupas de ficar em casa, as duas carregando sacolas.

— Ela acabou mesmo com você, — resmungou a mãe, abrindo a geladeira. — Que dona de casa é essa que nem sabe cozinhar?

Katya picava a cenoura e xingava baixinho.

Viktor estava sentado à mesa com a cabeça apoiada nas mãos.

O dia do aniversário.

Os primeiros convidados já se amontoavam no corredor quando Lyudmila Fyodorovna, vermelha e ofegante, colocava os frios sobre a mesa.

A salada Olivier tinha ficado um pouco líquida — exageraram na maionese.

— Você mimou demais ela, Vitia, — sibilou Katya, tirando o frango do forno.

Em alguns pontos, estava queimado.

No fim, apareceram umas doze pessoas.

Kolka, de São Petersburgo, olhou ao redor e perguntou em voz baixa:

— E a Marina? Ficou doente?

— Foi para a casa da mãe, — resmungou Viktor, servindo vodca. — Bom, à nossa reunião.

O brinde ficou suspenso no ar.

Sveta, esposa de Kolka, provou o arenque sob o casaco de pele e discretamente deixou o garfo de lado — a beterraba crocava entre os dentes porque estava meio crua.

— O da Marina era mais gostoso, — cochichou para o marido.

Viktor sorria, bebia, enchia os copos.

Por volta das nove da noite, já tinha dificuldade até para acompanhar o assunto da conversa.

Os convidados trocavam olhares — antes ele não costumava beber daquele jeito.

Às dez, Lyudmila Fyodorovna desabou no sofá.

— Chega, eu não levanto mais. Vocês lavam a louça.

Viktor entrou na cozinha e parou.

Montanhas de pratos, molho na toalha de mesa, uma rolha de garrafa no chão.

Sentou-se no banquinho e se apoiou na mesa.

Da sala vinham risadas — os convidados, sem ele, lembravam histórias antigas.

Ele tirou o telefone do bolso.

Marina não tinha escrito.

Não tinha ligado.

Terça-feira.

Marina voltou para casa às dez e meia da manhã.

No corredor havia uma garrafa vazia perto da porta, e da sala vinha cheiro de cigarro velho e alguma coisa azeda.

Na sala: uma jaqueta de alguém no sofá, um cinzeiro cheio de bitucas, copos.

Na cozinha — destruição total.

Uma frigideira engordurada no fogão, louça misturada com restos de comida na pia, o chão pegajoso.

Viktor não estava em casa.

Não atendia ao telefone.

Marina ligou para a sogra.

— Ele está aqui, — Lyudmila Fyodorovna falou em voz baixa. — Já é o segundo dia que fica deitado. Diz que precisa pensar. Marin, façam as pazes logo, vai.

— Deixe ele pensar, — disse ela e guardou o telefone.

Deu uma volta pelo apartamento, abriu o notebook e encontrou uma empresa de limpeza com boas avaliações.

Ligou e combinou o serviço.

Uma hora depois, chegaram duas pessoas — uniformizadas e com equipamentos.

— Aqui tem pelo menos umas quatro horas de trabalho, — disse a mais velha depois de olhar a cozinha.

— Tudo bem. Aceitam cartão?

Enquanto elas trabalhavam, Marina ficou sentada na varanda.

No telefone haviam se acumulado várias chamadas perdidas de Viktor — ela viu, mas não retornou.

Duas semanas depois.

Marina estava sentada na cozinha com o notebook quando ouviu a chave girar na fechadura.

Viktor — sem fazer a barba, com uma jaqueta amassada e uma bolsa de viagem.

— Oi. Posso entrar?

Ela assentiu e colocou o notebook de lado.

Ele entrou na sala e se sentou no sofá.

— Eu pensei durante essas duas semanas, — começou.

Fez uma pausa.

— Você tinha razão. Eu me comportei como um idiota. Ficava contando dinheiro e não pensava no quanto isso custava para você.

Marina olhava para ele sem interromper.

— Agora vai ser tudo diferente, — ele esfregou a têmpora. — Mamãe disse que no “Yakor”, no cais, fazem boas comemorações. Vamos fazer seu aniversário lá?

— Vamos ver, — ela se levantou. — Quer chá?

— Quero.

Passou-se um ano.

O aniversário de Marina foi comemorado no “Yakor” — com garçons, música ao vivo e vista para o rio.

Viktor ergueu a taça.

— À Marina. Que me ensinou uma coisa muito simples — uma festa deve ser uma festa para todos. Inclusive para quem a organiza.

Os convidados aplaudiram.

Marina sorriu — sem esforço, simplesmente porque quis.

Daquele dia em diante, passaram a comemorar todas as festas em restaurantes.

Mais caro, sim.

Mas sem fins de semana arruinados.