Mas tinha encontrado a pessoa errada!
— Lília, você não faz nada, fica o tempo todo em casa com a criança, — repetia sem parar a sogra, Anna Leonidovna.

— Será que para você, jovem e ágil, é tão difícil atender aos meus pedidos?
Eu não peço demais de você.
Agora somos uma só família e você, me desculpe, se comporta como uma estranha!
— Eu tenho montes de coisas minhas para fazer!
Com uma criança pequena não dá para ficar sentada quieta nem um minuto.
E a senhora sabe disso muito bem, mas mesmo assim vive me pedindo alguma coisa, — respondia com coragem a nora.
— Ah, deixe de conversa, isso é só falação, você faz e não vai morrer disso, — insistia a sogra.
— Eu não tenho tempo, — continuava a nora.
— Compra umas coisas pra mim no mercado, a lista eu te mandei por SMS, — ligava ela logo de manhã, ignorando as recusas de Lília.
— Não, agora eu vou levar o Nikita ao posto de saúde infantil, — respondia Lília, irritada.
— Pois então!
No caminho você passa no mercado.
Compra tudo o que eu preciso.
E à noite o Slavik traz para mim.
É tudo tão simples, e você vive complicando tudo, — retrucava a sogra.
— Com essa gripe que eu estou, justo agora é que vou ficar batendo perna em loja!
— Não vai acontecer nada com a senhora, é só dar uma voltinha.
Andar, pra senhora, ainda faz bem.
Já pra mim é muito incômodo.
E eu não vou ficar rodando em supermercado com uma criança pequena e ainda por cima não totalmente saudável.
— Por que você transforma isso num problema, Lília?
Você vai gastar, no total, uns dez minutos, não mais, — não desistia a sogra.
— E mesmo assim você arruma escândalo.
No fim das contas, a nora continuava recusando, e Anna Leonidovna ficava furiosa e vivia reclamando com o filho da sua nora sem coração.
— Lília, a mamãe pediu pra você ir lá hoje.
Ela precisa de ajuda — limpar as janelas antes da festa.
Você pode ir?
Eu fico com o Nikita, — surpreendeu certa vez a esposa, Vjatcheslav.
— Ah, qual é!
E quem vai limpar as minhas?
Sua mãe ou o Machado de Assis?
Eu ainda nem comecei a faxina aqui em casa — é um problema atrás do outro.
Você acha que eu tenho poucas preocupações minhas?
Por que a sua mãe vive pegando no meu pé?
Que chame uma firma de limpeza.
Ou que limpe ela mesma — não é nenhuma sinhazinha!
E também não é uma velhinha de cem anos.
— Poxa, Lília, vai lá, eu estou te pedindo!
Se não, depois ela vai ficar no meu ouvido sem parar, — insistia o marido.
— Não.
Já disse que não vou, — Lília continuou irredutível.
Da próxima vez, a sogra inventou outro serviço para a nora.
— Lilinha, no meu armário, sabe, o embutido, aquele bem grande, juntou muita roupa diferente.
E todas, veja bem, caras e de marca.
Em bom estado e de boa qualidade.
Muita coisa eu já nem uso mais.
Talvez você venha aqui e me ajude a separar tudo.
E o que você gostar, pode pegar pra você, usar, — decidiu atrair a nora com esperteza, Anna Leonidovna.
— Ah, imagina!
Eu não uso roupa dos outros, muito menos roupa de velha.
Da minha já basta.
— Quem você chamou de velha? — se ofendeu na mesma hora a sogra.
— Pra você saber, eu tenho só um pouco mais de cinquenta.
E ainda aparento ser bem jovem.
Absolutamente todo mundo me diz isso.
E eu me sinto como se tivesse trinta… e cinco, — acrescentou, depois de uma breve pausa.
Bom, no máximo quarenta.
E você se comporta de maneira desrespeitosa comigo.
E eu já disse isso mais de uma vez ao meu filho…
— Ah, tá bom! — cortou bruscamente a nora.
— Me conte outra!
Por que ter vergonha, diga a verdade — você se sente com dezoito!
Se fosse assim mesmo, você não ficaria em cima de mim com esse seu chororô eterno pedindo ajuda, sempre dizendo que está se sentindo mal.
Eu não vou aí, pode você mesma fuçar nas suas tralhas.
— Lília, você é grossa e sem tato.
Que tipo de educação você recebeu?
Nenhum respeito pela pessoa que deu a vida ao seu marido querido!
— Como não?
Respeito eu tenho, só estou acostumada a dizer a verdade na cara.
Toda briga desse tipo acabava do mesmo jeito: Anna Leonidovna ligava para o filho e ficava muito tempo se queixando da sua vida solitária e tão infeliz.
A sogra de Lília, na verdade, era mesmo sozinha.
Alguns anos antes, o marido a tinha deixado e ido embora com uma colega de trabalho.
E, ao contrário da opinião geral, não foi com uma loira jovem e atrevida.
O homem preferiu à esposa legítima, com quem tinha vivido vinte anos de casamento oficial, uma mulher um pouco mais velha do que ele, calma e acolhedora.
E totalmente sem graça, na opinião da ex-esposa.
Na época, por muito tempo ela não conseguiu entender o que tinha acontecido com o marido.
Anna Leonidovna chegou a ir ao escritório dele e encontrou a sua nova escolhida.
Queria entender o que havia de tão extraordinário numa mulher que era alguns anos mais velha que o marido e do que a própria Anna.
Mas a rival era normalíssima!
Uma ratinha cinzenta, apagada, que não se destacava em nada da multidão sem rosto.
Ela tinha até as mãos mal cuidadas.
Essa colega não fazia aquela manicure caprichada que transforma os dedos em mãos finas e delicadas de uma fada.
Surpresa e completamente abalada, Anna não conseguia entender nada, comparando a sua aparência bem cuidada e as suas mãos com o que via diante de si.
Não conseguia entender por que para a rival tanto fazia ter mãos como as de um homem.
E aquelas sobrancelhas grossas e irregulares, e o cabelo cortado de qualquer jeito e mal pintado, que há muito tempo já pediam uma ida ao salão de beleza.
Anna, que durante toda a sua vida consciente cuidara com tanto zelo da própria aparência, naquele momento estava claramente perturbada.
Ela saiu do escritório onde o marido trabalhava em completo estado de torpor.
Algo tinha quebrado na cabeça dela, o esquema de vida que tinha se formado se desfez.
A mulher não entendia como era possível o marido ter preferido AQUELE TIPO DE MULHER a ela!
Três anos depois da saída do marido de casa, o filho decidiu se casar.
Anna, que ainda não tinha se recuperado totalmente da traição da pessoa mais próxima, não estava nem um pouco preparada para a solidão total.
E no começo chegou até a tentar dissuadir o filho do casamento.
— Mãe, o que é isso?
Está decidido, eu e a Lília nos amamos.
A data do casamento já está marcada.
Até quando é que vamos adiar?
— Então, pelo menos, vocês podiam morar comigo, não é? — tentou convencer o filho.
— Ah, não.
Aí é difícil.
A Lília é contra.
Ela me disse logo de cara que a gente só vai morar separado dos pais, — respondeu Slava.
E agora, depois do nascimento do netinho, quando o filho tinha parado de dedicar tanta atenção à mãe, ela começou a apelar para a piedade, pedindo o tempo todo algum tipo de ajuda à família jovem.
E também sentia uma enorme falta de, como antes, se sentir o centro das atenções, de ser o timoneiro em todos os assuntos.
Como naquela vida antiga, quando o marido e o filho estavam ao seu lado, realizando qualquer desejo e capricho seu.
— Slavik, chama a Lília pra mim, tenho um assunto urgente com ela, — ligou a mãe, que dessa vez resolveu apelar para a esperteza.
— Oi, diga, — respondeu, contrariada, a nora, que naquele momento estava ocupada com o filhinho.
— Lília, venha aqui em casa hoje, depois que o Slava voltar do trabalho, — começou ela em voz baixa.
— Pra quê?! — perguntou a nora, irritada.
— Eu fiquei doente.
Estou me sentindo muito mal…
A cabeça gira e a pressão está lá em cima.
E também estou com problema no coração, está doendo.
— Chame um médico.
O que é que eu tenho a ver com isso?
— Já chamei.
Já chamei…
Ela me receitou uma pilha de remédios.
Vai ser preciso comprar e trazer, — continuou quase chorando Anna Leonidovna.
— Hoje em dia dá para pedir remédio em casa por entrega.
Use esse serviço e pronto, vai ser uma beleza.
— Lília, como é que você pode ser tão sem coração!
Eu estou te pedindo — vem até aqui.
Estou precisando tanto de um pouco de calor humano, de conversar com alguém.
Você fica comigo cinco ou dez minutinhos.
Já vou me sentir melhor na hora.
Hein?
— Que vá o seu filho, — insistia Lília.
— O Slavik não sabe aplicar injeção.
E eu vou precisar tomar uma.
Vem, estou te esperando!
A sogra desligou, e Lília disse ao marido tudo o que pensava da mãe dele.
Sem enfeitar as palavras e sem cerimônia.
Mas à noite, quando Vjatcheslav voltou do trabalho, ela acabou resolvendo dar uma caminhada até a casa da sogra.
Ainda mais porque o tempo estava maravilhoso.
E ela também queria se distrair um pouco das tarefas e preocupações de casa.
No caminho, passou na farmácia e comprou tudo o que a mãe do marido precisava.
Como sempre, a sogra tinha mandado a lista pelo celular.
Mas, quando Lília entrou no apartamento, a primeira reação foi querer reclamar em voz alta.
Dar vazão às emoções.
Depois, porém, mudou de ideia e resolveu ver como aquilo ia terminar.
A sogra estava sentada à mesa da sala, cercada de duas amigas de longa data, rindo alto e comentando alguma coisa com elas.
— Oh, Lilinha chegou.
Muito bem!
O que você trouxe aí na sacola?
Os remédios, comprou tudo o que estava na lista?
Ótimo, coloca ali, em cima da cômoda, — disse com voz viva a sogra “doente”.
— Pelo visto, a senhora já está melhor, não é?
E, pelo jeito, nem precisa mais da injeção, — disse surpresa a nora.
— Ah, o que é isso que você está dizendo?
Claro que não!
Nada de “já estou melhor”!
Só resolvi sentar um pouco com as amigas, que, pela primeira vez em muito tempo, conseguiram vir até aqui.
E a doença… ela não vai fugir, não é.
Dá pra tratá-la amanhã também.
— Que filosofia maravilhosa! — sorriu ironicamente Lília.
— Desejo a vocês uma noite bem divertida.
Eu estou indo embora.
— Ir embora pra onde? — gritou a sogra.
— Pra onde é que você pensa que vai?
E quem vai arrumar a mesa pra nós?
Quem vai picar as saladas, o queijinho, o embutido?
Anda, vai pra cozinha e põe a mão na massa.
Tosta o pão pros meus sanduíches preferidos.
Lava e pica as ervas.
Você está vendo que eu tenho visitas, eu mesma não tenho tempo, e ainda por cima estou me sentindo mal.
Não fica aí plantada, mexa-se, — ordenou a sogra num tom de comando.
— O quê!? — Lília ficou sem ar de tanta indignação.
— Ah, não!
Não foi isso que a gente combinou!
E pode parar de distribuir ordens.
Em mim elas não funcionam.
Eu vim aqui única e exclusivamente porque acreditei na sua doença.
Mas vejo que está tudo ótimo com a senhora e que a senhora voltou ao seu velho papel.
Então eu vou embora, divirtam-se.
Só não bebam demais, senão a pressão sobe de novo.
Sem ligar para a irritação da sogra, Lília saiu, batendo a porta com força.
— E então, Anja, vamos nós mesmas arrumar a mesa e cozinhar?
A tua nora te deixou na mão?
Ah, mas você é mesmo uma contadora de histórias!
E nós já estávamos quase acreditando que ela ia aparecer correndo e começar a te servir de quatro.
A Lilinha te deu um belo banho.
E bem feito — para de se exibir, querida!
— Ela mostrou de novo o gênio que tem, — respondeu, contrariada, Anna Leonidovna.
— Ela tem um temperamento difícil, complicado.
Mas eu ainda vou conversar com ela, vou ensinar como se deve respeitar a sogra.
— Vamos, levanta, chega de fingir que está morrendo.
Pra nós esse teatro não serve pra nada.
Nós mesmas vamos arrumar a mesa.
Não foi à toa que combinamos de vir, né? — disseram animadas as amigas.







