— Minha mãe, num asilo? Disso nem se fala. Também preparei uma surpresa pra você.

— Kolya, filhinho, vem rápido!

Eu te imploro, meu querido!

Larga todos os teus compromissos e vem.

Estou em apuros! — ligou para o filho Zoia Alekseevna.

A mãe chorava ao telefone, e o coração de Nikolai estremeceu.

Ele já estava pronto, como fazia há muitos anos, para recusar o pedido da mãe, inventando desculpas de trabalho e afazeres.

Recusar e não ir.

Ele não tinha tempo.

Mas veja só, sinceramente? Que viagens o quê!

Faltavam dois meses para as férias.

Então, iria nessa época.

Mas agora algo apertou em seu peito, tremeu, como na infância, quando ele reclamava à mãe dos valentões da vizinhança que o tinham batido.

Nikolai sentiu quase fisicamente a mão da mãe acariciando seus galos e arranhões, e a dor indo embora…

— O que aconteceu? Mãe, você está bem? — perguntou ele, assustado.

E se ela tivesse adoecido?

Nikolai nem pensava no fato de que a mãe poderia ficar gravemente doente, que um dia ela poderia não estar mais ali…

— Não, meu filho, não estou doente.

Aconteceu uma coisa pior aqui.

Eu te imploro, venha.

E traga também a Mashenka com você.

Tenho uma conversa muito séria pra ter com vocês.

— Está bem, mãe.

No fim de semana a gente vai junto com a Masha.

Pronto, se acalme, senão vai passar mal do coração.

Não se preocupe, vamos resolver tudo, não existem problemas que não possam ser resolvidos.

Nikolai realmente acreditava nisso.

Tendo alcançado um cargo importante, ele sabia a que preço o tinha conseguido, quanto tinha precisado trabalhar e se doar completamente.

E agora, sentado na cadeira de diretor-geral da empresa, tinha se acostumado ao fato de que todos os seus problemas e questões se resolviam.

Mesmo que nem sempre de imediato.

— Masha, você não tem planos para o fim de semana, né?

A gente precisa ir no sábado ver a mãe.

Aconteceu alguma coisa lá.

Talvez a Lyudka tenha aprontado alguma de novo.

Do jeito que era má quando jovem, assim ficou, nada muda numa pessoa.

— É, a sua irmãzinha é mesmo uma peça, pelo próprio interesse é capaz de qualquer coisa!

Nós vamos com certeza — respondeu a esposa.

No sábado, o casal foi ao vilarejo natal de Nikolai, que ficava em meio a belas florestas densas, a trezentos quilômetros da cidade deles.

Ao se aproximar de sua pequena pátria, Nikolai se comoveu de novo.

O coração apertou de um jeito gostoso.

Veio à mente a infância descalça, a juventude despreocupada e alegre.

— Kolenka, filhinho, Mashenka!

Chegaram, meus tesouros! — Zoia Alekseevna correu para abraçar os hóspedes tão esperados.

Nikolai viu como ela tinha envelhecido e emagrecido.

E o cabelo tinha ficado completamente branco.

Os anos não têm piedade de nós.

Principalmente dos idosos.

Neles isso se nota de forma especial.

— Mãe, como vocês estão aqui?

Não está doente, está tudo bem?

É que o Kolya me assustou, disse que alguém tinha magoado a senhora — começou a perguntar a nora, Masha.

— Ah, Mashenka, aconteceu uma coisa…

Nem sei por onde começar a contar…

Mas isso tudo depois, agora venham para a mesa.

Lavam o rosto da viagem e vamos almoçar.

A conversa fica para depois.

Depois de um almoço farto, Zoia Alekseevna contou ao filho e à nora a sua desgraça.

— A Lyudka enlouqueceu de vez.

Virou uma fera, sugerir uma coisa dessas para a própria mãe!

Como é que uma ideia dessas pôde passar pela cabeça dela?

Deve ser aquele Fedka dela que está virando a cabeça da coitada.

Um bêbado sem salvação.

Não quer trabalhar, mas para beber precisa de dinheiro.

Então ele a convenceu a entrar nessa sujeira.

— Mãe, o importante é a senhora não se exaltar.

Explica com calma o que a Liudmila quer de você — acalmava a mãe, Nikolai.

Zoia Alekseevna começou a chorar.

— Que vergonha, meu filho!

E como é que ela não tem vergonha diante das pessoas?

Você entende que pecado é esse — mandar a própria mãe para um asilo?

— O que foi que você disse? — Nikolai ficou sem reação.

De sua irmã má ele poderia esperar qualquer coisa, menos isso.

— Sim, esses dias ela veio aqui e disse: “Se arrume, mãe, você vai para um asilo.

E nós vamos vender a sua casa.

Você faz a doação no meu nome e vai embora.

Ao Kolka a casa não serve pra nada mesmo.

Ele nada em dinheiro, não precisa da sua tapera caindo aos pedaços.

Ele já faz tempo renunciou à parte dele em meu favor.

Foi isso que ela me disse, a sem-vergonha, sem nem piscar.

Dizer uma coisa dessas para a mãe — pode isso?”

Zoia Alekseevna enxugava as lágrimas amargas, incapaz de lidar com a dor e a mágoa.

Masha abraçou a sogra, tentando acalmar aquela mulher tão abalada.

— Não chore, mãe.

Não precisa.

Vai dar tudo certo.

Não chore.

— Como é que eu não vou chorar, Mashenka?

Ela é minha filha de sangue!

Filha, você entende?

E se comporta como uma estranha, como uma inimiga!

— Mas o que foi que ela inventou, essa desgraçada!

Como é que teve cabeça pra pensar nisso? — Nikolai ficou abalado.

— Você sempre disse a ela que não ia querer a casa, Kolya.

Então ela pensou em jogar a mãe fora e vender a casa, sem esperar pela minha morte.

— Mas eu queria fazer o melhor! — exclamou o filho, indignado.

— Eu vivo com fartura, e a Lyudka vive se virando, sempre sem dinheiro com aquele bêbado dela.

Então decidi que assim seria certo, justo.

E olha o que ela inventou, a víbora escondida debaixo da pedra!

— Kolya, você devia conversar com ela.

Porque ela não vai abrir mão do que quer.

Vai ficar vindo aqui até eu concordar.

E ainda traz o Fedka junto.

E ele não vai ter cerimônia, pode até me bater.

Pra ele isso é a coisa mais fácil do mundo, vive meio bêbado o tempo todo.

— Mãe, vem pra nossa casa.

A casa lá é grande.

Tem espaço pra todo mundo — sugeriu Masha.

— A gente já chamou a senhora várias vezes, mas a senhora não quis.

Talvez agora seja justamente a hora de ir embora daqui?

— Obrigada, Mashenka, sua alma boa!

Mas eu não quero sair da minha casa pra lugar nenhum.

— Não, mãe, é sério!

Vem com a gente.

A Lyudka não vai deixar a senhora em paz — disse Nikolai.

— Não, meu filho.

Eu não vou.

Não fiquem chateados comigo, velha do jeito que sou.

Nós, velhos, temos nossas manias.

Quero morrer na minha própria casa.

Entre as paredes que conheço.

Você, meu filho, conversa com a Lyudka, coloca juízo nela.

E pronto.

Nikolai saiu de casa, sentou-se no banco em frente à entrada e ficou pensando.

Precisava bolar alguma coisa.

Fazer de um jeito que respeitasse o desejo da mãe de não sair de casa e, ao mesmo tempo, colocar a irmã descontrolada no seu devido lugar.

Ela, claro, precisava ser castigada por uma baixeza dessas.

Aos poucos, na cabeça de Nikolai foi surgindo um plano de ação aproximado.

— Mãe, vou até a Liudmila, vou conversar com ela e colocar o cérebro dela no lugar — disse Nikolai, entrando em casa.

Ele notou aliviado que a mãe tinha se acalmado um pouco.

Ela e Masha conversavam tranquilamente, e a nora mostrava para ela fotos no celular — dos netos e do bisneto, Matveyka, que a filha mais velha deles tinha dado à luz recentemente.

Pegando as chaves do carro, Nikolai saiu de sua casa e foi até a casa da irmã.

Ela o recebeu de mau jeito, como era de se esperar.

— E aí, a mamãezinha já veio se queixar?

Correu, filhinho, pra defendê-la!

— O que é que você está aprontando, sem-vergonha?

Onde é que está a sua cabeça — mandar a própria mãe para um asilo?

Não tem pena, não?

Ou você nunca soube o que são consciência e compaixão?

— Não grita aqui!

Fácil pra você ficar aí filosofando — com tanto dinheiro.

E a gente faz o quê?

Vivemos atolados em dívidas e prestações.

De algum lugar a gente tem que tirar pra pagar.

E pra mãe já tanto faz onde vai passar o resto da vida!

— E trabalhar, vocês nunca tentaram?

Barrigas crescendo, vocês ficam em casa, vagabundos!

Enchendo a cara de vodka.

“Dívidas”, né.

Vocês fizeram as dívidas — vocês mesmos pagam.

O que é que a mãe tem a ver com isso?

— Não venha mandar aqui.

Você manda nos seus subordinados, aqui não.

Você abriu mão da casa, esse não era o combinado?

Então, o que é agora?

A casa é minha, vou colocá-la no meu nome e vender.

Eu até poderia levar a mãe pra minha casa, mas o Fedka não quer — disse Lyudka despreocupada, como se falasse de uma estranha.

— Eu abri mão, é verdade.

Mas nunca imaginei que você perderia a vergonha a ponto de expulsar a nossa mãe da própria casa.

Por isso agora vou resolver tudo de outro jeito — disse Nikolai bruscamente.

— Então leva a mãe pra sua casa.

E todos os problemas ficam resolvidos — respondeu a irmã, atrevida.

— Eu a levaria com o maior prazer.

Mas a nossa mãe quer passar o fim da vida na casa dela.

E você não está nem aí para esse desejo da pessoa que deveria ser a mais querida pra você.

Pra você, um bêbado qualquer virou mais importante do que a própria mãe!

— Não mexe com o meu marido!

— Eu não tenho interesse nem em você nem nele, de mexer com vocês.

Vivam como quiserem.

Só que a minha decisão eu já tomei.

Eu vim só pra saber uma coisa de você.

E já soube.

— E qual é essa decisão?

Você não vai abrir mão da sua parte na casa da mãe?

— Não.

Eu vou fazer tudo de outro jeito.

Você não vai ficar com nada, absolutamente nada, dessa casa!

— Como assim?

O que é que você inventou agora? — gritou Liudmila, sentindo que a coisa ia ficar feia.

— Eu levei em conta o desejo da mãe de viver na própria casa até morrer.

Pra mim esse desejo é sagrado e intocável.

Mas também vou tentar protegê-la de vocês dois, preguiçosos.

— E como, por favor?

— Ela vai doar a casa pra mim.

Agora mesmo nós vamos até a cidade, ao cartório, e vamos fazer a escritura de doação no meu nome.

— O quê?

Como você teve coragem de pensar numa coisa dessas!

Não faz isso!

Os seus bens não são suficientes pra você?

— Antigamente eu achava que estava fazendo o certo, quando te prometi que não ia reivindicar a minha parte da casa dos nossos pais.

Queria fazer o melhor.

Mas gente tão mesquinha como você precisa aprender uma lição.

Então agora você vai receber exatamente o que merece.

— Você não vai ousar fazer isso!

Isso não é justo! — guinchava Lyudka.

— E colocar a mãe num asilo, isso é justo, na sua opinião?

Olha só a certinha aqui.

Ah, e mais uma coisa.

Se você ou o seu Fedka tentarem machucar a mãe, vocês vão ter que lidar com a polícia.

Eu vou avisar o policial da área.

E eu mesmo vou começar a aparecer aqui com mais frequência — pra ver como está a mãe e como está a minha casa.

Nikolai voltou para a casa da mãe.

— Se arruma, mãe.

Vamos ao cartório.

Vamos fazer a doação no meu nome, e a senhora vai continuar vivendo tranquila na sua casa.

Eu, com certeza, não vou mandar a senhora pra lugar nenhum e nem expulsar das suas paredes queridas.

— Que ideia boa você teve, meu filho.

E a Lyudka?

Não vai reclamar?

E se ela começar a me maltratar?

— Não vai.

E se acontecer, aqui está o telefone do policial.

Liga pra ele.

E pra mim também.

Eu venho e boto o juízo dela de volta no lugar rapidinho.

Assim se resolveu uma das muitas histórias ligadas à herança dos pais.