A consogra milionária

Tudo começou três anos atrás, quando Artem trouxe a noiva e a consogra para conhecerem os pais dele.

Tamara Viktorovna, mãe de Artem, entendeu de imediato: a moça era boa.

Kátia era estudante de Pedagogia, discreta, educada, de família decente.

Só que, quando ficou claro que “família decente” significava uma mãe solteira da aldeia de Kozlovka, a meia hora de carro da cidade industrial deles, Tamara fez uma leve careta.

— E o pai, onde está? — perguntou com cuidado, servindo o chá em suas melhores xícaras com florzinhas.

— Morreu quando a Katinha tinha dez anos — respondeu Zinaida Ivanovna, partindo com delicadeza um pedaço de torta.

— Eu a criei sozinha.

Zina tinha uns cinquenta e cinco anos, usava um vestido simples de chita e um casaquinho de tricô.

Mãos de trabalhadora, ásperas, falava baixo, com sotaque do interior.

Na cabeça, um lenço que ela não tirou a noite inteira.

Tamara, pelo canto do olho, notou os sapatos baratos e a bolsa de couro sintético.

— Trabalho como ordenhadora no sovkhoz — continuou Zina.

— A minha Katinha é muito inteligente, sempre foi a melhor aluna.

— Vendi a vaca por ela, para conseguir entrar no instituto.

Artem olhava a noiva com adoração, e Kátia corava e sussurrava:

— Mãe, não precisa… desses detalhes.

Tamara Viktorovna assentia e sorria, mas por dentro pensava: “Meu Deus, uma ordenhadora… e se os vizinhos souberem? e os colegas do trabalho?”

Ela, vice-chefe de contabilidade da administração distrital, sempre se orgulhara da posição.

Apartamento com reforma moderna, marido mestre na fábrica, filho formado no instituto técnico, trabalhando na mesma empresa como engenheiro.

Tudo como deve ser, tudo respeitável.

E aqui, uma consogra-ordenhadora de lenço…

Prepararam o casamento com capricho.

O restaurante “Farol” era o melhor da cidade e, portanto, caro.

Tamara provou três vestidos e ficou com um conjunto bordô que comprara para o aniversário do chefe.

Fez penteado no salão e manicure.

— E a Zinaida Ivanovna vai dar o quê de presente? — perguntou ao filho uma semana antes da festa.

— Não sei, mãe.

A Kátia diz que ela está preparando algo especial.

“Algo especial” acabou sendo uma toalha de mesa feita por ela mesma — branquinha, com rosas bordadas — e um vidro de três litros de geleia de cereja.

— A toalha fui eu que teci — explicou Zina, orgulhosa, aos convidados.

— Nas noites de inverno.

E a geleia é do meu jardim, as cerejas são doces, doces demais.

Tamara viu os colegas trocando olhares.

Lídia Semionovna, chefe do setor de RH, dera um vaso de cristal de oito mil.

Os vizinhos Petrovy — um conjunto de panelas caras.

E aqui — uma toalha feita em casa e um vidro de geleia.

— Que… comovente — disse, entre dentes, Valentina Konstantinovna, chefe do departamento de assistência social.

Zina sorria com simplicidade, contava sobre a aldeia, as vacas, como a batata tinha dado bem naquele ano.

Os convidados ouviam com sorrisos educados, mas condescendentes.

Tamara sentia as bochechas queimarem.

— Em Kozlovka, na primavera, é uma bênção! — contava Zina.

— As macieiras florescem, as abelhas zumbem.

A Katinha, pequena, vivia sumindo no jardim.

— Mãe, para… — Kátia se envergonhava.

— Vergonha de quê? — Zina se espantava.

— Natureza é natureza.

Depois do casamento, a amiga de Tamara, Svetlana Borisovna, médica do posto, perguntou com delicadeza:

— E a sua consogra… como eu digo… é bem simplesinha.

— É uma boa mulher — respondeu Tamara, seca.

— Criou a filha sozinha.

Mas por dentro fervia de vergonha.

Depois do casamento, Tamara tentou evitar cruzar com Zina.

Quando Kátia teve o bebê, o aniversário da neta foi comemorado em casa, discretamente.

Os jovens moravam com a sogra, então era ela quem decidia quem chamar e quem não chamar.

Zina não era convidada.

O Ano-Novo foi do mesmo jeito — em casa.

— Artem, e a Tamara Viktorovna… não chamou a minha mãe? — perguntava Kátia, em voz baixa, quando todos já se sentavam à mesa.

— A mãe disse que já tem muita gente, não vai dar tempo de preparar tudo — respondia Artem, mas dava para ver que ele ficava constrangido.

E Zina ligava, perguntava como estavam, como a neta crescia.

Tamara respondia com educação, mas fria:

— Está tudo bem, Zinaida Ivanovna.

Obrigada pela preocupação.

— Talvez vocês venham nos visitar? No verão é lindo aqui, as maçãs amadurecem.

— Vamos ver como fica. Temos muita coisa para fazer.

Zina não insistia, mas havia mágoa na voz.

Um dia ela apareceu sem avisar — no aniversário de um ano e meio da neta.

Trouxe um cavalinho de balanço de madeira, feito por um artesão local, e mais um vidro de geleia, agora de framboesa.

— Hoje em dia, os brinquedos são todos de plástico — explicava ela.

— Mas a madeira é viva, quente.

A pequena subiu no cavalinho, encantada.

Mas Tamara não estava de bom humor — a vizinha tia Sveta, fofoqueira, estava lá.

— Ai, que consogra… tão pitoresca — disse ela depois, no corredor.

— Parece coisa do século passado.

Tamara ficou calada, mas decidiu não permitir mais surpresas desse tipo.

Certa vez, Zina ligou, aflita:

— Tamara Viktorovna, aqui aconteceu uma coisa… vão derrubar a nossa aldeia.

— Derrubar como?

— Assim mesmo.

Vão construir um centro logístico.

Estão reassentando todo mundo, as casas vão ao chão.

A casa dá pena — era do meu avô, eu cresci nela…

Tamara pensou consigo: “Pronto, agora vai passar necessidade de vez. Quem vai dar apartamento para ela? velha, doente…”

— E para onde vocês vão se mudar?

— Ainda não sei.

Dizem que vai ter indenização, mas qual — ninguém sabe.

Talvez me deem um quartinho num alojamento.

— Não se preocupe, Zinaida Ivanovna.

Vamos dar um jeito.

Tamara disse isso automaticamente, por educação, mas por dentro já calculava: “Tomara que ela não venha se encostar aqui. O apartamento já é pequeno, e ainda por cima a consogra…”

Depois dessa conversa, Zina sumiu.

Parou de ligar, não dava parabéns nas festas.

Kátia se preocupava:

— Artem, vamos visitar a minha mãe. Vai que aconteceu alguma coisa?

— Ela disse que ia se mudar. Deve estar com muita coisa para resolver.

— E por que o telefone não atende?

— Talvez tenha trocado de número.

Tamara os tranquilizava:

— Não se preocupem.

Deve ter ido para a casa de parentes.

Ela tem uma irmã na região, não tem?

Na verdade, Tamara até ficou aliviada.

O assunto incômodo da consogra-ordenhadora desaparecia sozinho.

Enquanto isso, Artem e Kátia começaram a ter problemas.

Naquele período, moravam de aluguel num apartamento minúsculo de um cômodo na periferia e pagavam quinze mil por mês.

O salário de Kátia, médica, era de vinte e cinco mil, e o de Artem, engenheiro, trinta.

Com criança, fraldas e alimentação, mal conseguiam fechar as contas.

— Mãe, queríamos perguntar sobre financiamento — começou Artem, tímido.

— Será que vocês podem ajudar com a entrada?

Tamara suspirou.

Eles mesmos não estavam folgados — ainda tinham dois anos de prestações do carro e, além disso, ela sonhava em reformar a cozinha.

— Filho, a gente queria, mas também não estamos sobrando.

Que tal esperar um ano?

— Mãe, a gente não está pedindo de presente. Vamos devolver.

— Devolver com o quê, se vocês mesmos mal têm?

Depois de conversas assim, Kátia chorava.

A bebê crescia, e o espaço no apartamento de um cômodo era insuficiente demais.

E os preços dos imóveis subiam mais rápido do que os salários deles.

— Eu queria ir ver a minha mãe — dizia Kátia ao marido.

Talvez ela me aconselhasse.

Com Zina, eles não se viam havia mais de um ano.

Kátia ligava de vez em quando para a mãe, trocando frases de praxe, sem detalhes.

No sábado, Tamara e a amiga Galya foram ao novo shopping na Vostochnaya — uma das lojas estava em liquidação.

O centro tinha sido construído недавно, grande, moderno, com cinema e praça de alimentação.

Ao estacionar na entrada, Tamara viu de relance uma figura conhecida.

Uma mulher de meia-idade, com um bom casaco azul-escuro e botas da moda, subia as escadas em direção à ala de escritórios.

Havia algo familiar no jeito de andar, no movimento da cabeça…

— Espera — disse Tamara à amiga.

— Eu achei que…

A mulher se virou, e Tamara ficou boquiaberta.

Zina.

Mas que Zina!

Cabelo bem cortado e tingido, maquiagem leve, um casaco elegante claramente não comprado em feira.

No lugar da bolsa barata — uma bolsa de couro, de verdade.

— Zinaida Ivanovna! — chamou Tamara.

Zina se virou, e o rosto se iluminou com um sorriso alegre:

— Tamara Viktorovna!

Que encontro!

Como vocês estão, e como está a netinha?

— Bem, bem… e a senhora… mudou tanto!

— Pois é, a vida obrigou — riu Zina.

E o que vocês estão fazendo aqui?

— Viemos às lojas. E a senhora?

— Eu vim resolver coisas.

Aqui tem um escritório imobiliário, estou me informando.

Tamara sentiu a garganta secar.

Escritório imobiliário? Zina?

— Vamos tomar um café? — propôs a ex-ordenhadora.

Faz tempo que não nos vemos, queria conversar.

No café do terceiro andar, Zina pediu um cappuccino e um strudel, pagou no cartão sem olhar o valor.

Tamara ainda não conseguia se recompor.

— Zinaida Ivanovna, e onde a senhora mora agora? A gente ficou tão preocupado…

— Num prédio novo na Severnaya.

Dois quartos, bom, claro.

Comprei no ano passado.

— Comprou?

— E por que a surpresa? — Zina mexeu o café.

Quando derrubaram a casa, deram uma indenização boa.

Oito milhões.

Imagina?

Os olhos de Tamara quase saltaram.

— Oito… milhões?

— É.

O terreno era grande, além da casa e as construções auxiliares.

Calcularam pela nova lei de demolição.

No começo eu não acreditei, achei que fosse erro.

Mas era verdade.

Tamara ficou de boca aberta.

Oito milhões.

De uma simples ordenhadora.

— E o que… o que a senhora fez com o dinheiro?

— Fiz o quê?

Comprei um apartamento por quatro milhões.

O resto coloquei em negócio.

Abri três pontos — alimentos e utilidades.

As coisas estão indo bem.

Quero abrir mais um no centro.

Zina pegou o celular e mostrou fotos:

— Aqui estão minhas lojinhas.

Esta é na Zavodskaya, esta na Molodezhnaya.

Encontrei funcionários bons, da nossa aldeia.

Gente honesta.

Eu, claro, acompanho tudo, passo todos os dias.

Nas fotos apareciam lojas modernas e arrumadas, com placas coloridas: “Produtos da Zina”.

— Mas isso é… — Tamara travou.

— Como a senhora sabe tocar negócio?

— E o que tem para saber? — Zina sorriu, simples.

As pessoas precisam comer, então compram.

O principal é ter boa qualidade e preços justos.

E tem consultores, ajudam.

Ela tomou um gole do café e acrescentou:

— Eu sempre me perguntava por que vocês não me chamavam para visitar. Achei que eu incomodava. Ou que vocês tinham vergonha de uma velha boba.

— Que isso, Zinaida Ivanovna! — Tamara sentiu o rosto corar.

— É só que… tinha muita coisa.

— Entendo. Eu também agora tenho trabalho demais. Mas sinto falta das crianças. Como estão a Katinha e o Artem? E a minha netinha?

À noite, Tamara contou ao marido sobre o encontro.

Nikolai Petrovitch assobiou:

— Caramba! E a gente achava que ela era uma pobrezinha.

— Não uma pobrezinha — rebateu Tamara.

— Só… ela era tão simples.

— Simples continua, pelo que você disse. Só que agora com dinheiro.

No dia seguinte, Tamara ligou para Zina:

— Zinaida Ivanovna, a senhora não quer vir aqui em casa? Artem e Kátia vão estar, a neta está com saudade.

— Com prazer! — Zina ficou contente.

Vou comprar presentes.

Zina chegou num “Solaris” novinho, com sacolas enormes de presentes.

Para a neta trouxe uma boneca interativa caríssima, para Kátia — brincos de ouro, para Artem — um bom kit de ferramentas, para Tamara e Nikolai — um conhaque de cinco mil.

— Zinotchka, mas pra quê isso! — lamentava Tamara.

— Por que gastar tanto?

— E gastar com quê mais? — Zina se admirava.

Com meus filhos, com a neta amada.

No jantar, apareceram os problemas dos jovens com a moradia.

Zina ouviu e fez um gesto:

— Bobagem! Amanhã mesmo vão ao banco e façam o financiamento. Eu dou a entrada.

— Como assim? — Artem ficou pasmo.

— Eu dou. Não é empréstimo, é presente de avó. Em casa própria é que se vive.

Kátia chorou de felicidade, Artem não sabia o que dizer.

E Tamara ficou vermelha de vergonha.

Um mês depois, celebraram o novo lar num apartamento de três quartos no sétimo andar de um prédio novo.

Zina deu aos jovens um micro-ondas de trinta mil e uma lava-louças.

— Mãe, você gasta demais com a gente — disse Kátia, tímida.

— Bobagem! — Zina dispensou.

Quero ajudar enquanto posso.

E dinheiro é para isso: para alegrar os próximos.

Na festa vieram os mesmos parentes do lado do noivo que tinham ido ao casamento.

Agora olhavam Zina com outros olhos.

Lídia Semionovna, com jeito bajulador, perguntava:

— Zinaida Ivanovna, a senhora acha que vale a pena investir em imóveis agora?

Valentina Konstantinovna pedia conselho:

— O meu filho também quer abrir um negócio. A senhora pode compartilhar sua experiência?

A vizinha perguntava:

— E onde ficam as suas lojas? A gente iria comprar lá.

Tamara observava toda aquela agitação com um sorriso amargo.

As mesmas pessoas que, três anos antes, sorriam com condescendência quando Zina falava da aldeia, agora captavam cada palavra dela.

E Zina continuava a mesma: simples, bondosa, aberta.

Falava das lojas sem se gabar, dividia planos, perguntava as notícias.

— Lembram — ria ela — de como no casamento todo mundo ficou olhando a minha toalha? Agora compro pronta, não tenho tempo de tecer.

Os convidados riam junto, mas Zina via nos olhos deles o mesmo cálculo que antes via como desprezo.

Quando os convidados foram embora e os jovens colocaram a bebê para dormir, Zina ficou na cozinha com Tamara.

— Os meninos pegaram um bom apartamento — disse ela, olhando a cozinha.

Espaçoso, claro.

— Muito obrigada, Zinaida Ivanovna. Nem sabemos como agradecer.

— Que agradecer o quê. Somos família.

Zina ficou em silêncio e depois acrescentou, baixinho:

— Eu entendia que era desconfortável para vocês terem contato comigo. No casamento, nas festas.

Tamara sentiu as bochechas queimarem.

— Zinaida Ivanovna, a senhora…

— Ah, deixa. Não tenha vergonha. Eu realmente era… como dizer… fora do círculo de vocês. Uma ordenhadora de lenço, com um vidro de geleia. Entendo.

— A senhora… não ficou magoada?

— Magoada com quê? — Zina se espantou.

Gente é de todo tipo. Uns julgam pela roupa, outros pela cabeça. Eu só esperei vocês me conhecerem melhor.

Tamara ficou calada, sem saber o que dizer.

— Sabe — continuou Zina —, dinheiro muda muita coisa. Mas não tudo. Eu continuo amando a terra, acordando cedo, fazendo geleia. Só que agora faço na casa nova e numa panela cara.

Ela se levantou e abraçou Tamara.

— Fico tão feliz que a gente voltou a se falar. Eu achava que, com os seus amigos instruídos, eu não cabia mesmo.

Depois que Zina foi embora, Tamara ficou muito tempo na cozinha, pensando.

Como ela estava errada.

Julgou a pessoa pela aparência, pelo status social.

E Zina sempre fora inteligente, boa, decente.

E continuara assim, apesar da riqueza.

Mas os próprios amigos e colegas de Tamara não se mostraram do melhor lado.

As mesmas pessoas que faziam cara feia com histórias do interior, hoje bajulavam e pediam conselhos.

Passou mais um ano.

Zina realmente abriu a quarta loja — bem no centro da cidade.

Os negócios iam de vento em popa, e ela pensava em expandir para os distritos vizinhos.

A neta a chamava de “vovó rica” e adorava as visitas — Zina sempre trazia presentes interessantes e contava histórias engraçadas da nova vida de empresária.

— Imagina — contava ela no jantar em família —, chega um fornecedor, todo importante, de terno. E eu estou de avental, recebendo mercadoria. Ele me pergunta: “E o diretor, cadê?” Eu digo: “Sou eu.” Ele quase sentou de espanto!

Artem e Kátia estavam felizes no apartamento deles.

Artem foi promovido, Kátia entrou numa segunda graduação.

A vida se ajeitava.

E Tamara, toda vez que olhava para Zina, pensava sempre na mesma coisa.

Em como é importante não julgar as pessoas pela primeira impressão.

Em como o verdadeiro valor de alguém não está no brilho externo ou no status social, mas na alma, nas atitudes, na forma como trata os seus.

Zina continuou sendo uma mulher simples, de coração bom.

Só que agora ela tinha mais possibilidades de mostrar esse coração bom.

E o dinheiro…

O dinheiro apenas revelou quem era quem.

E nem todos passaram por essa prova com dignidade.