Eu deixei vocês morarem na minha casa para que vocês…
— Ei, pare aí.

O que é isso fazendo barulho dentro da sacola?
A voz de Zinaida Petrovna não soou alta, mas tão nítida que cobriu até o barulho da água nos canos da velha khrushchovka.
Yulia congelou, sem conseguir dar o passo salvador para além da soleira do quarto que dividia com Maksim.
Ela só queria passar em silêncio, trocar de roupa e esconder a caixa no fundo do armário, debaixo de um monte de suéteres de inverno.
Não conseguiu.
A sogra se materializou vindo da cozinha, enxugando as mãos num pano de prato xadrez, no qual uma mancha marrom de beterraba se espalhava.
Na penumbra do corredor, ela lembrava um guarda que tinha apanhado um infrator do toque de recolher.
— Estou dizendo, mostre a sacola.
Zinaida Petrovna não pedia, exigia.
Na sua entonação não havia curiosidade, só o interesse frio e calculista de um agente alfandegário que suspeita de contrabando.
— O logotipo me parece familiar.
É de loja de sapatos, não é?
Yulia respirou fundo, sentindo por dentro a mola da irritação se retesar.
Ela tinha trabalhado nove horas em pé, depois passado meia hora sacolejando numa lotação abarrotada, e a última coisa que queria naquele momento era prestar contas sobre como tinha gasto o próprio dinheiro, ganho honestamente.
Mas as regras da convivência estabelecidas naquele apartamento três meses antes previam transparência total.
Ou, como a sogra chamava, “consolidação familiar do orçamento”.
— Botas, Zinaida Petrovna.
De inverno, — respondeu Yulia de forma breve, colocando a sacola sobre o puff.
Esconder era inútil: o recibo estava na caixa, e a sogra sabia avaliar preços de relance melhor do que qualquer especialista em mercadorias.
— Botas… — repetiu a mulher, aproximando-se devagar.
Enxugou de novo as mãos, cuidadosamente, dedo por dedo, antes de tocar na compra alheia.
— E o que as velhas tinham de errado?
Aquelas pretas, com sola tratorada?
Aquelas duram uma eternidade.
— A sola rachou ao meio.
Ontem cheguei em casa com as meias molhadas.
E além disso o apoio do arco soltou, dói andar.
— Rachou… — repetiu Zinaida Petrovna como um eco.
Sem cerimônia, enfiou a mão na sacola, tirou a caixa e abriu a tampa.
Espalhou-se o cheiro de couro novo e cola.
— Não te ocorreu levar para consertar?
Ali eram trezentos rublos no total: colar e fazer uma prevenção.
E em vez disso aqui…
Ela tirou uma bota, virou-a nas mãos, apertou o couro para verificar a qualidade e, com uma careta de desprezo, olhou por dentro procurando a etiqueta do preço.
— Couro legítimo? — perguntou como se estivesse acusando a nora de usar substâncias proibidas.
— E pelo que vejo o forro também não é sintético.
Quanto?
— Cinco mil e quinhentos.
Com desconto, — Yulia tentou pegar a bota de volta, mas a sogra agarrou o cano com força mortal.
— Cinco mil e quinhentos… — Zinaida Petrovna colocou a bota de volta na caixa lentamente, como se fosse um rato morto.
Ergueu os olhos para a nora, e neles se agitava uma raiva fria e racional.
— Você está em sã consciência, menina?
Na semana passada estávamos sentadas à mesa fazendo as contas.
Eu te expliquei em bom russo: o perfil Rehau vai encarecer a partir do primeiro dia do mês.
Cada copeque conta.
E você joga cinco mil e quinhentos rublos ao vento?
— Eu não posso andar descalça na neve, Zinaida Petrovna.
É uma necessidade, não um luxo.
— Necessidade são janelas quentes na cozinha, para eu não pegar corrente de ar enquanto faço borsch para vocês, parasitas! — a voz da sogra começou a subir, mas ela se interrompeu de imediato, passando a um sussurro sinistro.
— Você já tem botas.
Velhas, mas firmes.
E daí, uma rachadura.
Colocava um saco no pé e ficava seco.
Eu andei assim cinco anos nos anos noventa, e não desmoronei por isso.
Mas pelo visto o seu status não permite?
Rainha do posto de gasolina?
Yulia pegou a caixa em silêncio.
Ela conhecia aquele tom.
Agora começariam as lembranças da juventude difícil, de como Maksim era enrolado em lençóis velhos quando bebê, e de como ela e o falecido marido levavam cada copeque à caixa de poupança.
— Eu comprei com o meu salário, — disse Yulia com firmeza, olhando para a ponte do nariz da sogra.
— Eu e Maksim estamos juntando dinheiro para as janelas.
Mas eu não vou sacrificar a minha saúde por uma moldura de plástico.
— O seu salário? — Zinaida Petrovna sorriu, e aquele sorriso era mais assustador do que um grito.
— Na minha casa não existe “seu” e “meu” salário, enquanto vocês vivem aqui com tudo pronto.
Vocês não pagam aluguel nem as contas integralmente, só os medidores.
Eu deixei vocês entrarem para poderem juntar para a hipoteca e para me ajudar a terminar a reforma.
E no fim das contas, parece que sou eu quem sustenta vocês enquanto vocês vivem no luxo?
A sogra girou bruscamente e foi para a cozinha, arrastando ruidosamente os chinelos.
— Vai, vai para o seu quarto, — atirou por cima do ombro, sem se virar.
— Experimente as novidades.
Alegre-se.
Só que quando Maksim chegar, nós vamos conversar.
Vamos conversar seriamente.
Eu não vou permitir que o desperdício prospere na minha casa.
Yulia entrou no quarto e encostou a porta.
Suas mãos tremiam levemente, mas não de medo, e sim da sensação humilhante de ter acabado de ser arrastada pela lama.
Ela olhou para as botas novas.
Bonitas, confortáveis, quentes.
Botas humanas absolutamente normais.
Mas naquele apartamento pareciam um tesouro roubado, um crime contra o objetivo sagrado de trocar a janela da cozinha, que na verdade estava perfeitamente normal, apenas era de madeira.
Ela ouvia Zinaida Petrovna bater panelas na cozinha, mas fazia isso com uma ferocidade demonstrativa especial.
A sogra não estava simplesmente preparando o jantar: estava se preparando para a guerra.
Na mesa da cozinha, Yulia sabia com certeza, já estava aberto o caderno quadriculado — o famoso “livro-caixa” — onde cada rublo gasto pela nora com absorventes ou desodorante era anotado na coluna “despesas não direcionadas”.
— Tudo bem, — sussurrou Yulia, enfiando a caixa debaixo da cama como se escondesse uma prova do crime.
— Maksim vai entender.
Ele viu minhas botas velhas.
Vai entender.
Mas no fundo ela sabia: naquela noite não haveria compreensão.
Haveria um julgamento.
E a sentença já tinha sido proferida, faltava apenas anunciá-la na presença do segundo réu.
O som da chave girando na fechadura soou como o sinal para o começo do segundo ato.
Maksim entrou em casa sacudindo a neve dos ombros e, por hábito, gritou: “Cheguei!”, mas em resposta foi recebido apenas por um silêncio surdo e antinatural.
Da cozinha não vinha nem o chiar da frigideira nem o tilintar da louça, embora fosse hora do jantar.
Só o cheiro pesado de valeriana se misturava ao aroma do borsch esfriando.
— Lava as mãos e vem direto para a cozinha, — a voz da mãe soou seca, sem cumprimento.
— Temos uma conversa.
E chame Yulia, que está ali barricada como uma guerrilheira.
Quando Maksim, trocando um olhar perplexo com a esposa no corredor, entrou na cozinha, a cena já estava montada.
Zinaida Petrovna estava sentada na cabeceira da mesa, com o açucareiro e o porta-pão afastados para o lado.
Diante dela estava aberto um caderno quadriculado comum — justamente aquele livro contábil que todos na família chamavam de “livro-caixa”.
As páginas estavam cobertas de uma letra miúda e ordenada, com cada coluna sublinhada à régua com caneta vermelha.
— Sentem-se, — fez um gesto para os bancos.
— Vamos fechar as contas do mês.
Porque pelo que vejo, aqui em casa débito e crédito não batem, e o buraco no orçamento cresce como a camada de ozônio.
Yulia sentou-se na ponta da cadeira, sentindo-se como uma aluna diante de um conselho disciplinar.
Maksim, cansado depois do turno na fábrica, esfregou a ponte do nariz:
— Mãe, vamos comer primeiro?
Desde o almoço não coloquei nem uma migalha na boca.
— O saciado não entende o faminto, e o devedor menos ainda entende o credor, — cortou Zinaida Petrovna, colocando os óculos na ponta do nariz.
— Vocês vão comer quando entendermos quem aqui em casa anda tirando dinheiro do caldeirão comum.
Ela umedeceu teatralmente o dedo e virou a página.
— Então, vamos às contas.
Água quente — mais três metros cúbicos acima do normal.
Quem é que fica meia hora no chuveiro?
Maksim, você?
Não, você toma banho rápido.
Então é a nora.
Yulia, você acha que água é de graça?
O contador gira como louco.
Eu não recebo aposentadoria para patrocinar a companhia de água.
— Zinaida Petrovna, eu tomo banho por dez minutos, — retrucou Yulia em voz baixa.
— E, aliás, eu dou dinheiro para pagar as contas.
Metade do valor.
— Você dá dinheiro para comida e moradia! — a voz da sogra ficou mais dura.
— Mas o consumo excessivo de recursos já é sabotagem.
Ontem a luz do corredor ficou acesa vinte minutos enquanto você ficava tagarelando ao telefone.
A lâmpada, aliás, é de cem watts.
Já ouviu dizer que o centavo guarda o rublo?
Mas isso ainda são só flores.
Os frutos estão em outra coluna.
Zinaida Petrovna tirou os óculos e os colocou sobre o caderno, olhando para o filho com o olhar penetrante de uma promotora.
— Maksim, você está sabendo que a sua esposa fez hoje uma compra grande sem consultar o conselho de família?
Maksim olhou para Yulia, surpreso.
Ela estava sentada de olhos baixos, com as mãos apertadas uma na outra.
— Que compra?
Mãe, do que você está falando?
— Das botas, meu filho.
Botas luxuosas de couro por cinco mil e quinhentos rublos.
Cinco mil e quinhentos! — ela destacou a soma como se estivesse falando da compra de uma ilha particular.
— Ontem à noite eu e você estávamos sentados fazendo contas.
O medidor da empresa de janelas me ligou.
Disse que, se fizermos o adiantamento até sexta-feira, vão nos dar desconto no perfil e uma tela mosquiteira de presente.
Faltavam exatamente seis mil rublos.
E eu contava que, com o salário da Yulia, cobriríamos esse buraco.
— Mãe, espera, — Maksim franziu a testa.
— Mas a Yulia realmente estava com o calçado destruído.
Eu mesmo vi, a sola estava rachada ao meio, ela chegava com os pés molhados.
Ela vai adoecer.
Os remédios saem mais caros.
— Vai adoecer? — Zinaida Petrovna bufou.
— Eu passei a vida toda usando botas de feltro e veja só, sou forte como um touro.
E se a sola rachou — existe cola de sapato Moment, custa cem rublos.
Tem uma sapataria na esquina onde colocam salto e fazem manutenção preventiva.
Por que comprar novo quando se pode consertar o velho?
Isso, meu filho, se chama desperdício.
Isso se chama viver acima das próprias possibilidades.
— Zinaida Petrovna, aquelas botas não têm conserto, — disse Yulia com firmeza, erguendo o olhar.
— O sapateiro disse que o apoio do arco está quebrado e o couro rachou na base.
É lixo.
Eu não posso ir trabalhar em farrapos.
Eu trabalho com pessoas.
— Trabalha com pessoas… — zombou a sogra, olhando para o teto.
— E eu então não sou gente?
Eu aqui na cozinha, com essas frestas nos caixilhos, congelando todos os dias enquanto preparo o jantar para vocês, senhores?
Levo vento!
Minhas costas doem!
Eu esperava que fôssemos uma família.
Que fôssemos um só time.
Que estivéssemos caminhando para o mesmo objetivo.
Mas no fim sou eu aqui economizando em tudo, sem comer nem um pedaço extra de queijo, enquanto a nora compra suas novidades?
Ela fechou o caderno com força.
O barulho na mesa fez as colheres no copo tilintarem.
— Você, Yulia, não comprou botas.
Você me roubou uma janela.
Foi isso que fez.
Você trocou o conforto da mãe do seu marido por um trapo.
— Não é um trapo, é uma necessidade! — a voz de Maksim também começou a subir.
— Mãe, para com isso.
Nós vamos dar o dinheiro das janelas no mês que vem.
Vou receber um bônus e completamos o resto.
— No mês que vem a promoção vai acabar! — gritou Zinaida Petrovna, perdendo pela primeira vez a máscara de calma fria.
— No mês que vem vai custar dez por cento a mais!
Você entende que, com a irresponsabilidade dela, ela está nos jogando em dívidas?
Hoje são botas, amanhã vai querer uma bolsinha, depois de amanhã um casaco de pele?
E a mãe que morra com a corrente de ar?
— Ninguém está morrendo! — Yulia se levantou da mesa.
— Eu comprei uma coisa com o dinheiro que eu ganhei.
Não peguei um copeque seu.
Por que eu tenho que prestar contas de cada rublo?
Nós combinamos que contribuiríamos com comida e contas, e guardaríamos dinheiro quando fosse possível.
Eu não assinei nada para entregar a você o meu salário inteiro até o último rublo!
Zinaida Petrovna levantou-se lentamente.
Ela era de baixa estatura, mas naquele momento parecia enorme, preenchendo todo o espaço da pequena cozinha.
— Ah, então é assim que agora falamos? — sibilou em tom gelado.
— “Quando for possível”?
Pois bem, as possibilidades acabaram.
A democracia nesta casa está abolida.
Já que vocês não sabem administrar dinheiro, já que têm vento na cabeça, então o controle agora fica comigo.
Controle total.
Ela apoiou as mãos na cintura, olhando para os jovens como uma vigilante severa olha para prisioneiros culpados.
No ar pairou uma tensão pesada e viscosa, na qual afundavam os últimos restos de calor familiar.
— A partir de hoje, — articulou Zinaida Petrovna, marcando cada palavra, — todo o salário — o seu, Maksim, e o seu, Yulia — será entregue nas minhas mãos no dia do pagamento.
Eu mesma vou decidir o que comprar, o que comer e como nos vestir.
Vou dar a vocês dinheiro para o transporte e para os almoços.
E nem um rublo a mais.
Chega.
Vocês já brincaram demais de independência.
Ou será assim, ou…
Ela fez uma pausa, deixando as palavras assentarem como poeira pesada sobre os ombros do filho e da nora.
— Ou o quê? — perguntou Maksim, olhando para a mãe como se a visse pela primeira vez.
— Isso é o que vamos discutir agora, — sorriu Zinaida Petrovna de maneira sinistra, abrindo novamente o caderno.
— Sentem-se.
A conversa está só começando.
Na cozinha caiu um silêncio espesso e vibrante, quebrado apenas pelo gotejar ritmado da torneira defeituosa.
Zinaida Petrovna estava sentada ereta como uma diretora de escola antes de expulsar um faltoso contumaz, tamborilando os dedos sobre a toalha plástica.
Aquele som — toc toc toc — marcava os segundos que restavam antes da explosão.
— O que quer dizer “vamos discutir”? — a voz de Maksim era surda, como se ele falasse através de algodão.
Ele olhava para a mãe e não a reconhecia.
No lugar da mulher de sempre, embora resmungona, estava sentada diante dele uma cobradora calculista, pronta para arrancar a dívida junto com a alma.
— Quer dizer exatamente isso, meu filho.
A democracia acabou, começa a ditadura do proletariado, — Zinaida Petrovna sorriu rigidamente e estendeu a mão com a palma para cima.
O gesto era exigente e não admitia objeções.
— Cartões na mesa.
Os dois.
O seu e o dela.
Escrevam os PINs num papel e coloquem dentro de um envelope.
Eu mesma vou dar a vocês o dinheiro do transporte e dos almoços no refeitório.
Duzentos rublos por dia.
Está mais do que suficiente.
Yulia, que até então estava sentada com os ombros caídos, de repente se endireitou.
Nos seus olhos, normalmente suaves e conciliadores, acendeu-se um brilho frio de entendimento.
Ela percebeu: não se tratava apenas de uma briga por causa de botas.
Era uma tentativa de colocar uma coleira neles.
— Eu não vou entregar meu cartão para a senhora, — disse ela em voz baixa, mas clara.
— É o meu salário.
Eu o ganho ficando doze horas em pé.
E não tenho a menor intenção de implorar à senhora o meu próprio dinheiro para comprar meia-calça ou protetor labial.
Zinaida Petrovna virou lentamente a cabeça para a nora.
O rosto dela se cobriu de manchas vermelhas, e os lábios se apertaram numa linha fina.
— Não vai entregar? — repetiu ela com falsa suavidade.
— Então morar na minha casa você quer, tomar banho com a minha água você quer, usar o meu gás você quer, mas contribuir com a família não?
Você acha que eu não vejo como desperdiça dinheiro?
Ora é café para viagem, ora revista de luxo, agora botas por milhares absurdos!
— O dinheiro é meu! — Yulia elevou a voz, pela primeira vez desde que vivia naquele apartamento.
— Nós pagamos as contas, nós compramos comida!
O que mais a senhora quer?
Que a gente rasteje de joelhos diante da senhora?
A sogra bateu a palma da mão na mesa com força.
A xícara com o chá inacabado pulou, derramando uma poça marrom sobre a toalha.
— Eu quero respeito! — rugiu ela tão alto que os vidros do armário tremeram.
— Eu acolhi vocês não para assistir a esse espetáculo de generosidade sem precedentes!
— Mãe…
— Essa atrevida ousou comprar botas novas para si, em vez de me dar o dinheiro para trocar as janelas!
Eu deixei vocês morarem comigo para que economizassem, não para viverem no luxo!
Meu filho, sua mulher é gastadora e egoísta, ela vai levar a gente à ruína!
Ou ela me entrega o salário inteiro para prestação de contas, ou que suma do meu apartamento!
Maksim saltou de pé, derrubando o banco.
O estrondo da queda abafou por um segundo o grito da mãe.
— Mãe, você está se ouvindo?! — gritou ele, levando as mãos à cabeça.
— Que janelas?
Que ruína?
Nós vivemos normalmente!
Não estamos passando fome!
Por que você precisa dos nossos cartões?
Isso é humilhante!
Você quer controlar cada passo nosso?
— Eu quero ordem! — Zinaida Petrovna levantou-se com as mãos na cintura.
Naquele momento ela parecia um monumento à própria razão.
— Você, Maksimka, é mole, um capacho.
Ela faz o que quer com você.
Hoje botas, amanhã vai querer um carro financiado, e você ainda vai ficar contente em agradá-la?
E a mãe vai passar o inverno com as esquadrias velhas?
Venta!
Venta de todas as frestas!
— Eu mesmo vou vedar essas janelas amanhã! — gritou Maksim em desespero.
— Vou comprar isolamento, encher tudo de espuma!
Vai ficar mais quente do que na África!
— Não se atreva! — guinchou a mãe.
— Nada de espuma!
Eu quero janelas de plástico de verdade, como gente decente tem!
Como a vizinha, Verka, do segundo andar!
Por que ela, aposentada, pode se permitir isso, enquanto eu, tendo um filho e uma nora que trabalham, tenho que viver como mendiga?
Ela lançou para Yulia um olhar capaz de queimar.
— Isso tudo é culpa sua.
Você entrou na nossa casa e trouxe o caos consigo.
Antes de você, entre mim e meu filho tudo era planejado.
Tudo em ordem.
E agora?
O dinheiro escorre pelos dedos.
Você está roubando o futuro da família!
Yulia levantou-se.
Seu rosto estava pálido como giz, mas suas mãos já não tremiam mais.
— Eu não estou roubando, Zinaida Petrovna.
Eu só quero viver, não existir em função das suas janelas, — disse ela em tom glacial.
— E eu não vou prestar contas à senhora por sapatos comprados.
Isso é absurdo.
Isso é delírio de uma pessoa fora de si.
— Delírio?! — a sogra ficou sem ar de indignação.
— Ah, sua cobra!
Na minha casa me insultar?
Rua!
Ela apontou o dedo para o corredor.
— Fora daqui!
Agora mesmo!
Junte as suas tralhas, leve as suas preciosíssimas botas e suma!
E você, Maksim, — voltou-se bruscamente para o filho, — escolha.
Ou fica com a mãe que dedicou a vida a você, ou vai atrás dessa… consumista.
Mas fique sabendo: se sair, não haverá caminho de volta.
Vou trocar as fechaduras.
Não deixo nem vocês chegarem à soleira.
Maksim olhava para a mãe e nos olhos dela não via amor nem cuidado, mas apenas o brilho frio e ganancioso de uma proprietária de quem estão arrancando o brinquedo favorito.
Então desviou o olhar para Yulia.
Ela estava de pé junto à porta, ereta, pronta para o golpe, e no seu olhar havia uma determinação cansada.
— Mãe, você está falando sério? — perguntou em voz baixa.
— Você está expulsando a gente por seis mil rublos?
Por um pedaço de plástico no vão da janela?
— Estou expulsando vocês por uma questão de princípio! — cortou Zinaida Petrovna.
— Nesta casa há um único dono: eu.
E aqui as regras são minhas.
Não gostam?
A estrada está aberta.
Vão procurar outros tolos que aguentem vocês de graça.
Vamos ver como vocês vão cantar em apartamento alugado quando tiverem que dar metade do salário no aluguel.
Voltarão rastejando, se curvando aos meus pés.
Ela voltou a se sentar à mesa de maneira demonstrativa, abriu o caderno e pegou a caneta, mostrando com todo o corpo que a audiência estava encerrada.
— O tempo está correndo, — atirou sem olhar para eles.
— Dou uma hora para arrumarem as coisas.
E que não reste nem o cheiro de vocês aqui dentro.
E deixem as chaves sobre o móvel.
Os dois jogos.
Maksim ainda ficou alguns segundos olhando para a figura curvada da mãe, escrevendo diligentemente alguma coisa na coluna das despesas.
Dentro dele, algo se rompeu.
O fio fino que o ligava àquela casa, à infância, ao cheiro de tortas, se rompeu com um estalo seco, parecido com o som de uma cédula sendo rasgada.
Em silêncio, aproximou-se de Yulia e segurou sua mão.
A palma dele estava fria, mas o aperto era firme.
— Vamos, — disse ele.
— Precisamos arrumar as coisas.
No quarto não se ouviam nem soluços nem suspiros dramáticos — só o som seco e áspero dos zíperes das malas e o farfalhar das roupas sendo enfiadas às pressas, emboladas, dentro das bolsas.
Maksim e Yulia agiam como uma equipe de emergência bem coordenada evacuando um navio que afunda.
Sem cuidado, sem nostalgia pelos objetos.
Só o necessário: roupa íntima, jeans, documentos, carregadores.
Zinaida Petrovna estava de pé no vão da porta, apoiada com o ombro no batente.
Ela não tentava impedi-los.
Ao contrário, cumpria o papel de vigilante, observando para que os prisioneiros, ao serem libertados, não levassem bens do Estado.
— Deixem os travesseiros, — atirou ela quando Maksim estendeu a mão para a prateleira mais alta do armário.
— São meus, de pena, consegui na fila ainda nos tempos da União.
Vocês, ricos, não precisam deles, comprem ortopédicos, já que o dinheiro queima a coxa de vocês.
Maksim jogou o travesseiro de volta na cama sem dizer palavra.
Ele caiu com um baque surdo, levantando uma nuvem de poeira.
— Deixem a manta também, — continuou comentando a sogra, passando os olhos pelo conteúdo da mala aberta.
— E as toalhas felpudas, as azuis.
Yulia, eu vi que você as guardou.
Tire-as daí.
Eu as comprei com o meu dinheiro quando vocês vieram morar aqui.
Não há necessidade de carregar os meus bens por apartamentos alugados.
Yulia, sem dizer nada, tirou as toalhas e as colocou cuidadosamente empilhadas no chão aos pés da sogra.
Havia tanto desprezo gelado naquele gesto que Zinaida Petrovna por um instante engasgou com o ar, mas logo se recompôs.
— Isso mesmo.
Não precisamos do que é dos outros, mas também não vou dar o que é meu.
Digam obrigado porque eu não estou descontando a depreciação do sofá.
Vocês afundaram as molas de tanto deitar de lado nele.
Maksim fechou a última mala.
Endireitou-se e olhou ao redor do quarto que uma hora antes ainda era o lar deles.
Agora eram apenas quatro paredes com papel de parede florido — paredes alheias, frias.
Sobre o criado-mudo restava uma fotografia emoldurada onde os três sorriam no sítio.
Maksim a pegou, tirou a foto, rasgou-a ao meio e jogou os pedaços na lixeira.
A moldura colocou de volta no lugar.
— A moldura vale dinheiro, certo, — assentiu Zinaida.
— Deixe-a.
Eles saíram para a entrada.
Yulia sentou-se no puff e começou a calçar exatamente aquelas botas.
Zinaida Petrovna olhava para a novidade com um ódio indisfarçável, como se os sapatos fossem feitos da pele do gato favorito dela.
— Então, admirou bastante? — perguntou a sogra em tom venenoso.
— São quentinhas?
Confortáveis?
Pois use, use.
Só cuidado para não gastá-las demais enquanto procuram apartamento.
Os corretores hoje arrancam três peles.
Caução, comissão, pagamento do primeiro e do último mês…
Vocês pelo menos fizeram as contas?
Ou de novo “a gente resolve no caminho”?
— Vamos resolver, mãe.
Não se preocupe, — Maksim vestiu a jaqueta.
Sua voz era uniforme, metálica.
— Melhor pagar a mais para um estranho do que pagar à própria mãe com nervos e humilhação.
— Humilhação?! — explodiu Zinaida, bloqueando a saída com o próprio corpo.
— Ah, seu ingrato!
Eu te criei, te alimentei, te dei educação!
Eu acolhi vocês para que virassem gente, para que se firmassem na vida!
E vocês?
Fogem diante da primeira dificuldade?
Fracos!
Vocês nunca sentiram o cheiro da vida!
— Nós não estamos fugindo, — Yulia levantou-se, fechando o zíper da jaqueta até o queixo.
— Nós estamos indo embora.
São coisas diferentes.
E, aliás, Zinaida Petrovna, este mês já acertamos a luz e a água.
O dinheiro está sobre o móvel.
Está exatamente o valor do medidor, até o último copeque.
Confira, para não pensar que a privamos de alguma coisa.
Ela apontou para uma pilha de notas presa pelas chaves do apartamento.
Zinaida lançou um olhar para o dinheiro, mas não o pegou.
Ela precisava manter a última palavra para si.
— Vão, vão! — acenou com a mão como se espantasse moscas incômodas.
— Rolem para longe!
Só que, quando não tiverem o que comer, quando o dono do apartamento alugado expulsar vocês por falta de pagamento, não rastejem até mim.
A porta estará fechada.
Vou trocar as fechaduras já amanhã.
O cilindro é caro, mas vou gastar.
Vou gastar pela minha paz.
— Não vamos rastejar, — respondeu Maksim de forma curta.
Ele segurou a alça da mala e com a outra mão abriu a porta de entrada.
Do corredor veio um cheiro de umidade e fumaça de tabaco.
Naquele momento, aquele cheiro pareceu a eles o aroma mais puro e fresco da liberdade.
— Coloque suas janelas, mãe, — disse ele, já na soleira.
— As mais caras.
Com três câmaras.
Para que nenhum som da rua entre.
Sente no silêncio e conte as suas economias.
Era isso que você queria, não era?
Controle total?
Parabéns.
Agora você controla tudo.
Absolutamente tudo.
— Sim!
E vou colocá-las! — gritou ela para as costas deles.
— E vou viver como gente!
E vocês vão ficar vagando pelos cantos dos outros, esfarrapados!
Porque ela, vejam só, precisava de botas!
Tsc!
Maksim saiu, Yulia foi atrás dele.
A porta atrás deles não bateu — Zinaida a mantinha aberta, observando-os descer as escadas.
Ela captava avidamente cada som dos passos deles, como se quisesse guardar na memória o momento do próprio triunfo.
— As chaves! — gritou ela para o vão da escada.
— As chaves vocês deixaram mesmo?
Os dois jogos?
— Os dois! — respondeu lá de baixo o eco da voz do filho.
O som da porta do prédio colocou um ponto final.
Zinaida Petrovna ainda ficou de pé por mais um minuto, escutando o zumbido do elevador, depois bateu com força a própria porta.
Uma fechadura estalou, depois a segunda, e a corrente tilintou.
Ela encostou o ouvido no metal frio, verificando a firmeza dos trincos.
Ninguém voltaria.
Ninguém atentaria contra o seu território.
Ela foi para a cozinha, onde sobre a mesa o “livro-caixa” continuava aberto.
No apartamento havia silêncio.
Um silêncio perfeito.
Ninguém deixava a água correr, ninguém apertava interruptores, ninguém arrastava os pés inutilmente pelo linóleo.
Zinaida Petrovna sentou-se à mesa, pegou a caneta e riscou com decisão duas colunas: “Despesas com alimentação — Maksim” e “Despesas com alimentação — Yulia”.
Depois pensou um pouco e escreveu em letras grandes na margem: “Economia de água — 60%”.
— Pronto, — disse em voz alta para a cozinha vazia.
— Agora sim vamos viver bem.
Agora com certeza vai dar para as janelas.
Até com laminação imitando carvalho.
Ela olhou para a velha moldura descascada, por cujas frestas o vento de inverno assobiava, e sorriu.
O sorriso saiu torto e assustador.
Ela estava completamente sozinha, murada dentro da própria razão e dos próprios cálculos, mas naquele momento se sentia uma vencedora.
Porque, finalmente, débito e crédito tinham fechado as contas…







