— O que quer dizer “vá embora”?!

Eu sou a mãe do seu marido!

Você é obrigada a me sustentar! — berrava a sogra.

Alina saiu do banho e ouviu o telefone tocar.

Na tela apareceu o nome de Stanislav.

Estranho, o marido normalmente não ligava naquele horário, ele provavelmente estava sentado diante do computador na sala.

Ela se secou com a toalha e atendeu.

— Alina, mamãe vai chegar daqui a uma hora.

Ela pediu que você preparasse o jantar, — a voz do marido soava de algum modo insegura.

Alina ficou paralisada com o telefone na mão.

Só no dia anterior ela tinha voltado de um plantão noturno, naquele dia tinha trabalhado o dia inteiro no escritório, e à noite ainda teria mais três horas diante do computador em um bico remoto.

E agora ainda teria de preparar o jantar para a sogra?

— Stas, eu estou muito cansada.

Que tal pedirmos delivery? — sugeriu com cautela.

— Você está falando sério?

Mamãe não come qualquer porcaria de restaurante.

Ela precisa de comida de verdade, — o marido falava como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.

Alina sentiu a tensão se espalhar pelos ombros.

Ela trabalhava doze horas por dia, seis dias por semana, para pagar o apartamento de dois quartos que alugavam, a comida, as contas de serviços e todas as outras despesas.

Stanislav não trabalhava havia dois anos.

— Está bem, — respondeu Alina secamente, e desligou.

Vestiu-se depressa e foi para a cozinha.

Na geladeira quase não havia nada, teria de correr ao mercado.

Alina pegou a jaqueta e saiu para a rua.

Na cabeça girava um único pensamento: quando é que tudo isso vai acabar?

Zoya Petrovna apareceu exatamente uma hora depois, como havia prometido.

Entrou no apartamento sem cumprimentar ninguém, lançou um olhar ao corredor de entrada e torceu o nariz.

— De novo está tudo desarrumado, — observou a sogra, tirando o casaco.

— Stanislav, como você consegue viver nessas condições?

Alina estava diante do fogão mexendo a sopa.

Mordeu o lábio para não responder.

No chão não havia um grão de poeira, simplesmente no dia anterior ela não tivera tempo de passar o aspirador no tapete do corredor.

— Mãe, está tudo bem, não pegue no pé, — murmurou Stanislav, sem desgrudar do monitor.

Zoya Petrovna foi até a cozinha e sentou-se à mesa.

Observava atentamente as panelas no fogão, como se estivesse verificando se tudo correspondia aos padrões dela.

— O que você está preparando? — perguntou a sogra.

— Sopa de frango e trigo-sarraceno com almôndegas, — respondeu Alina, pondo a mesa.

— E a salada? — Zoya Petrovna ergueu uma sobrancelha.

— Você por acaso não sabe que eu não como sem salada?

Alina soltou o ar e tirou da geladeira tomates e pepinos.

Cortou os legumes em silêncio, enquanto a sogra contava ao filho sobre as amigas e sobre mais um aumento de preços nos mercados.

O jantar transcorreu num silêncio tenso.

Zoya Petrovna comia devagar, examinando criticamente cada colherada de sopa.

Alina permanecia calada, pensando que ainda precisava trabalhar por mais três horas, e que já eram nove da noite.

— Stanislav, eu preciso de dinheiro, — disse de repente a sogra, pousando a colher.

— Meu telefone quebrou, e um novo custa vinte e cinco mil.

Stanislav lançou um olhar incerto para a esposa.

Alina sentiu o sangue subir ao rosto.

Dinheiro de novo.

Sempre dinheiro.

— Mãe, eu não tenho agora, — começou Stanislav, mas a sogra o interrompeu.

— Como não tem?

A Alina trabalha!

Ela com certeza tem dinheiro.

Alina pousou o garfo e levantou devagar o olhar para a sogra.

— Zoya Petrovna, eu já ajudei a senhora três vezes nos últimos dois meses.

Na última vez, a senhora disse que precisava de dinheiro para remédios, mas eu soube por uma vizinha que a senhora vai a um café caro com as suas amigas.

O rosto da sogra se deformou.

— Como você se atreve a me vigiar?!

O que eu faço com o meu dinheiro é problema meu!

E você é obrigada a ajudar a família do seu marido!

— Eu não sou obrigada, — disse Alina com calma.

— A senhora tem aposentadoria e apartamento próprio.

Eu trabalho em dois empregos para sustentar a mim mesma e o seu filho, que já não trabalha há dois anos.

Stanislav levantou-se abruptamente da mesa.

— Alina, não fale assim com a minha mãe!

Você está ofendendo ela!

— Eu estou dizendo a verdade, — Alina também se levantou.

— Zoya Petrovna, há seis meses a senhora vive pedindo dinheiro para nós.

Ou melhor, para mim, porque o Stanislav não tem.

Eu estou cansada.

A sogra ficou rubra de raiva.

Pegou a bolsa e foi em direção à porta, mas na soleira parou e se virou.

— Lembre-se das minhas palavras, — sibilou entre os dentes.

— Eu ainda volto.

E você vai se arrepender de ter falado assim comigo.

A porta bateu.

Stanislav se virou para a esposa com raiva nos olhos.

— Está satisfeita?

Você humilhou a minha mãe!

— Eu disse a verdade.

Stas, você não trabalha há dois anos.

Sou eu que carrego tudo nas costas.

E sua mãe ainda exige que eu sustente ela também.

Isso é absurdo.

— Absurdo?! — Stanislav elevou a voz.

— Ela me colocou no mundo e me criou!

Você tem que ajudá-la!

— Eu não tenho, — Alina balançou a cabeça.

— Pela lei, filhos adultos são obrigados a ajudar pais incapazes de trabalhar apenas se estes não puderem se sustentar sozinhos.

Sua mãe tem aposentadoria e moradia.

Ela gasta dinheiro com diversão e depois vem até nós pedir ajuda.

Stanislav ficou em silêncio.

Claramente não esperava que a esposa colocasse a questão de forma tão dura.

— Eu vou trabalhar, — disse Alina, e foi em direção ao quarto, onde estava seu notebook.

No dia seguinte Alina voltou do trabalho por volta das oito da noite.

Abriu a porta e congelou.

No corredor havia três malas grandes.

— O que é isso? — perguntou, entrando na sala.

Zoya Petrovna estava sentada no sofá com uma xícara de chá.

Stanislav estava ao lado com um ar culpado.

— Estou me mudando para cá, — informou calmamente a sogra.

— Sozinha está difícil para mim, e além disso o filho deve cuidar da mãe.

Alina sentiu o ar lhe faltar.

— Não, — disse com clareza.

— Isso é impossível.

— Como assim impossível? — Zoya Petrovna pousou a xícara na mesa.

— Stanislav já concordou.

Alina virou-se para o marido.

— Stas, você realmente concordou sem falar comigo?

— Bem… ela é minha mãe… — murmurou ele.

— Zoya Petrovna, sou eu quem paga este apartamento, — Alina se esforçava para falar com calma.

— Aqui só há dois quartos.

E eu não pretendo sustentar mais uma pessoa.

A sogra se levantou num salto do sofá.

— Sustentar?!

Mas fui eu que o pari e criei!

Você me deve isso!

— Eu não devo nada à senhora, — Alina balançou a cabeça.

— A senhora deu à luz Stanislav para si, não para mim.

A senhora tem seu próprio apartamento e sua aposentadoria.

— Meu apartamento é velho!

O banheiro está caindo aos pedaços!

Eu não posso viver lá! — gritava Zoya Petrovna.

— Então alugue-o e alugue um lugar melhor com esse dinheiro, — sugeriu Alina.

— Como você se atreve a me dizer o que fazer?! — a sogra mal conseguia respirar de indignação.

— Stanislav, você está ouvindo como sua esposa fala comigo?!

Stanislav permanecia calado, olhando para o chão.

— Zoya Petrovna, por favor, leve suas coisas embora, — disse Alina com firmeza.

A sogra ficou ainda mais rubra.

Pegou o controle remoto da televisão e o atirou contra a parede.

— O que quer dizer “vá embora”?!

Eu sou a mãe do seu marido!

Você é obrigada a me sustentar! — gritava tão alto que os vizinhos começaram a bater na parede.

— Eu não sou obrigada, — Alina se aproximou da porta e a abriu.

— Vá embora.

Agora.

— Stanislav! — a sogra virou-se para o filho.

— Você vai permitir que ela me trate assim?!

Stanislav olhou indeciso para a mãe, depois para a esposa.

— Mãe, talvez realmente não seja hora de se mudar agora.

Vamos conversar com calma mais tarde…

— Seu traidor! — Zoya Petrovna pegou a bolsa.

— Eu criei você, e você escolhe esta… esta sovina!

Ela saiu correndo do apartamento, batendo a porta.

As malas ficaram no corredor.

Alina fechou a porta e se virou para o marido.

— Stas, nós precisamos conversar seriamente.

— Sobre o quê? — ele ainda olhava para a porta.

— Sobre o nosso casamento.

Eu trabalho doze horas por dia.

Você não trabalha há dois anos e nem sequer tenta encontrar emprego.

Sua mãe vive exigindo dinheiro e agora quer se mudar para a nossa casa.

Eu não consigo mais viver assim.

Stanislav virou-se bruscamente.

— O quê, você quer se divorciar?

— Eu quero que você comece a trabalhar.

Que pare de permitir que sua mãe se aproveite de nós.

Que nós sejamos uma família, em vez de eu ser uma vaca leiteira para vocês dois.

— Eu estou procurando emprego!

É que agora há crise, é difícil encontrar alguma coisa!

— Dois anos não são crise, Stas.

É falta de vontade de trabalhar.

Eu vi como você passa os dias inteiros jogando.

Stanislav desviou o olhar.

— Você simplesmente não entende como é difícil encontrar um trabalho digno no mundo moderno.

— Digno? — Alina soltou um sorriso amargo.

— E eu, na sua opinião, trabalho em dois empregos porque tenho uma vida boa?

Eu também gostaria de ficar em casa jogando.

Mas nós temos despesas.

Aluguel.

Comida.

Contas.

— Mas você está dando conta!

Alina ficou imóvel.

Essa frase esclareceu tudo de uma vez por todas.

— Entendi, — disse em voz baixa.

— Então, enquanto eu dou conta, você não precisa fazer nada.

Agora está tudo claro.

Ela se virou e foi para o quarto.

Stanislav gritou algo atrás dela sobre como ela tinha entendido tudo errado, mas Alina já não estava mais ouvindo.

Nas duas semanas seguintes Zoya Petrovna telefonou todos os dias.

Primeiro chorava e se queixava de que Stanislav havia abandonado a própria mãe.

Depois começou a ameaçar que entraria na justiça para exigir pensão.

Alina consultou um advogado.

Descobriu-se que a sogra não tinha direito de exigir pensão da nora.

Mais do que isso, nem mesmo do filho ela poderia obter pensão, a não ser que fosse incapaz de trabalhar e não tivesse meios de subsistência.

E Zoya Petrovna tinha tanto aposentadoria quanto apartamento.

Quando Alina contou isso ao marido, ele apenas deu de ombros.

— E daí?

Ela continua sendo minha mãe.

Nós devemos ajudá-la por humanidade.

— Por humanidade é uma coisa.

Exigir que eu a sustente é outra, — rebateu Alina.

Numa noite Zoya Petrovna apareceu de novo.

Invadiu o apartamento sem esperar ser convidada.

— Stanislav, eu vendi o meu apartamento! — anunciou da porta.

— O quê?! — exclamaram marido e mulher ao mesmo tempo.

— Sim, vendi.

Por uma mixaria, claro, mas pelo menos alguma coisa.

Agora vou me mudar para cá de vez, — sorriu triunfante a sogra.

Alina sentiu o chão fugir sob os pés.

— Zoya Petrovna, a senhora vendeu o apartamento de propósito para ficar sem moradia e nos obrigar a acolhê-la?

— Eu não estou obrigando ninguém!

O filho é obrigado a dar moradia à mãe!

— Não, não é, — Alina pegou o telefone.

— Eu consultei um advogado.

Filhos adultos são obrigados a sustentar pais incapazes de trabalhar, mas isso não significa a obrigação de fornecer moradia.

Além disso, a senhora tem o dinheiro da venda do apartamento.

Pode alugar uma moradia para si.

— Esse dinheiro eu guardei para a velhice! — indignou-se a sogra.

— Então alugue um apartamento com ele, — disse Alina com dureza.

— A senhora não vai morar aqui.

Zoya Petrovna virou-se para o filho.

— Stanislav, é a sua esposa ou eu?

Stanislav ficou muito tempo em silêncio.

Depois disse baixinho:

— Mãe, Alina está certa.

A senhora não devia ter vendido o apartamento.

A sogra abriu a boca de espanto.

Depois pegou a bolsa e saiu correndo do apartamento, gritando maldições pelo caminho.

Mas para Alina aquilo já não era suficiente.

Ela entendia que, se tudo não mudasse agora, nunca mudaria.

— Stas, eu te dou um mês, — disse ao marido.

— Arrume um emprego.

Qualquer um.

Senão eu vou embora.

— Você está me chantageando?!

— Não.

Estou te dando uma chance de salvar o nosso casamento.

O mês passou.

Stanislav não encontrou trabalho.

Ou melhor, ele nem procurou.

Zoya Petrovna continuava ligando e exigindo que o filho expulsasse Alina e deixasse a mãe entrar.

Alina arrumou suas coisas em um dos dias em que Stanislav havia saído para a casa de um amigo.

Ligou para a proprietária do apartamento e avisou que estava saindo.

A mulher reagiu com compreensão e concordou em rescindir o contrato sem multa, ao ouvir o motivo.

Quando Stanislav voltou, o apartamento estava vazio.

Sobre a mesa havia um bilhete:

“Rescindi o contrato de aluguel.

Agora você vai ter de encontrar sozinho onde morar.

Talvez vá morar com a sua mãe — era isso que ela tanto queria.

Vou dar entrada no divórcio esta semana.

Alina”.

Stanislav discou o número dela, mas Alina não atendeu.

Ele ligou a noite toda, mandou mensagens, mas ela permaneceu em silêncio.

Depois Zoya Petrovna telefonou.

Ela soube pelo filho o que tinha acontecido e começou a gritar no telefone, acusando Alina de todos os pecados mortais.

Mas Alina simplesmente tirou o som e colocou o telefone sobre a mesa.

Ela estava sentada num pequeno estúdio alugado, pago com o seu dinheiro.

Ali era silencioso, limpo e tranquilo.

Ninguém exigia jantar, dinheiro ou sacrifícios.

Alina abriu o notebook e começou a trabalhar.

Pela primeira vez em muito tempo, sentia-se livre.

Uma semana depois, ela entrou com o pedido de divórcio no cartório.

Stanislav não compareceu ao registro da dissolução do casamento, por isso foi preciso entrar com uma ação judicial.

Não havia nada a dividir — todos os bens eram dela, comprados antes do casamento ou com o dinheiro dela.

O processo foi rápido.

Stanislav apareceu com a mãe.

Zoya Petrovna tentou se indignar e gritar alguma coisa, mas o juiz a repreendeu severamente.

Alina conseguiu o divórcio e saiu da sala de audiência com uma leveza no peito.

Stanislav e a mãe ficaram sem nada.

Sem moradia, sem dinheiro e sem perspectivas.

Zoya Petrovna gastara o dinheiro da venda do apartamento tentando “viver bem”, e agora eles tiveram de alugar um quartinho na periferia.

Stanislav finalmente arranjou trabalho como carregador, mas o salário mal dava para o aluguel do quarto e para uma comida modesta.

E Alina começou uma nova vida.

Deixou o segundo emprego, porque agora precisava sustentar apenas a si mesma.

Passou a ter tempo para descansar, para hobbies, para os amigos.

Certa noite, sentada num café com uma amiga, Alina recebeu uma mensagem de Stanislav: “Me perdoa.

Eu estava errado.

Podemos começar tudo de novo?”

Alina leu a mensagem, suspirou e a apagou sem responder.

Algumas coisas não merecem uma segunda chance.

Especialmente quando por quatro anos você carregou nas costas dois adultos que consideravam tudo isso algo natural.

Alina pousou o telefone e sorriu para a amiga.

A vida seguia em frente.

Mas agora era a vida dela.

Passaram-se seis meses.

Alina já estava totalmente adaptada à nova vida.

Pediu demissão do bico e agora trabalhava apenas no emprego principal.

Depois do trabalho tinha tempo para a academia, para encontrar os amigos, para ler livros.

Um dia, no supermercado, ela esbarrou por acaso em Zoya Petrovna.

A ex-sogra parecia mais envelhecida e cansada.

Empurrava um carrinho com os produtos mais baratos.

— Alina? — disse Zoya Petrovna, sem muita certeza.

— Olá, — Alina assentiu educadamente e seguiu em frente.

— Espere! — a sogra a segurou pelo braço.

— Eu preciso falar com você.

Alina parou e olhou para ela em expectativa.

— Está satisfeita? — Zoya Petrovna falava baixo, mas com raiva contida.

— Você destruiu a nossa família!

— Eu não destruí a sua família, — respondeu Alina calmamente.

— Eu simplesmente deixei de ser fonte de renda para dois adultos.

— Agora Stanislav trabalha como carregador!

Meu filho, que poderia ter arranjado um trabalho prestigiado!

— Ele não procurou um trabalho prestigiado por dois anos, enquanto eu o sustentava, — lembrou Alina.

— E agora ao menos trabalha.

Isso já é progresso.

— E eu moro num quarto na periferia!

Não tenho meu próprio apartamento!

— A senhora mesma o vendeu, esperando que eu a recebesse, — Alina balançou a cabeça.

— Foi uma escolha sua.

Zoya Petrovna abriu a boca para retrucar, mas Alina não a deixou falar.

— Zoya Petrovna, a senhora achava que eu era obrigada a sustentá-la só porque me casei com seu filho.

A senhora exigia de mim dinheiro, comida, moradia.

Nem sequer me agradecia quando eu ajudava.

A senhora considerava isso como algo devido.

E, quando me recusei a ser uma vaca leiteira, me chamou de egoísta.

— Mas eu sou a mãe do seu marido! — soluçou a sogra.

— Ex-marido, — corrigiu Alina.

— E isso não me torna obrigada a sustentá-la.

A senhora tinha apartamento e aposentadoria.

A senhora mesma estragou tudo com a sua ganância e manipulações.

— Você é sem coração! — gritou Zoya Petrovna.

— Não, — Alina sorriu.

— Eu apenas aprendi a me valorizar.

Tudo de bom, Zoya Petrovna.

Ela se virou e foi embora sem olhar para trás.

Atrás de si ouvia os soluços da ex-sogra, mas Alina não sentia nem pena nem culpa.

Na saída do mercado encontrou um colega de trabalho — Dmitri.

Ele também estava fazendo compras.

— Oi, Alina! — sorriu ele.

— Você por acaso não quer tomar um café?

Abriu uma cafeteria ótima aqui perto.

Alina pensou por um segundo e depois assentiu.

— Com prazer.

Eles se sentaram numa cafeteria acolhedora e conversaram sobre trabalho, sobre a vida, sobre planos.

Dmitri contava histórias engraçadas, e Alina ria de verdade.

— Sabe, — disse ele, mexendo o café, — eu percebi que você mudou nos últimos seis meses.

Ficou mais… livre, acho.

Alina sorriu.

— Sim, eu me divorciei recentemente.

— Ah, entendi.

Então era um casamento difícil?

— Pode-se dizer que sim.

Por quatro anos eu sustentei um marido que não trabalhava e a mãe dele, que achava que eu lhe devia tudo.

Dmitri soltou um assobio baixo.

— E como você aguentou isso?

— Por muito tempo, — suspirou Alina.

— Tempo demais.

Mas, em certo momento, entendi que ou eu iria embora, ou me quebraria de vez.

— E você foi embora.

Muito bem.

— Sim.

A melhor decisão da minha vida.

Eles ficaram na cafeteria por mais uma hora e, quando se despediram, Dmitri pediu o número de telefone dela.

— Quem sabe um dia vamos ao cinema? — sugeriu ele.

Alina sorriu e lhe deu o número.

Um mês depois Stanislav voltou a escrever para ela.

Desta vez a mensagem era longa e cheia de arrependimento.

Ele dizia que havia percebido todos os seus erros, que estava pronto para mudar, que encontrara um bom trabalho num escritório.

Alina leu a mensagem e pensou por um instante.

Depois escreveu uma resposta curta:

— Stas, fico feliz que você tenha mudado.

Mas eu precisava daquela pessoa que mudaria naquela época, quatro anos atrás.

Ou pelo menos um ano atrás.

Agora já é tarde.

Eu comecei uma nova vida e não quero voltar para a antiga.

Desejo sorte a você.

Ela enviou a mensagem e bloqueou o número dele.

Já não fazia sentido manter aquele vínculo.

Os pais de Alina — Viktor Semionovich e Nadezhda Alexandrovna — apoiaram muito a decisão dela de se divorciar.

Eles nunca haviam gostado de Stanislav, considerando-o um parasita.

— Alinochka, estamos tão felizes que você finalmente o deixou, — disse a mãe quando se encontraram num jantar de família.

— Ficamos calados porque você o amava.

Mas ver como ele a explorava era insuportável.

— E a mãe dele é uma pessoa muito descarada, — acrescentou o pai.

— Lembro que uma vez ela veio até nossa casa e começou a exigir que déssemos dinheiro para a televisão nova dela.

Disse que, já que nossa filha era casada com o filho dela, então agora éramos uma família só e devíamos nos ajudar mutuamente.

— Sério? — espantou-se Alina.

— Vocês nunca me contaram isso.

— Não queríamos te entristecer, — a mãe acariciou-lhe a mão.

— Simplesmente recusamos e pedimos que ela não viesse mais.

Alina balançou a cabeça.

Então Zoya Petrovna já havia muito tempo considerava que todos ao seu redor eram obrigados a ajudá-la.

Passou-se mais um ano.

Alina estava saindo com Dmitri, e o relacionamento deles avançava devagar, mas com firmeza.

Ele era o completo oposto de Stanislav — trabalhador, responsável, atencioso.

Certa vez ele lhe disse:

— Sabe, eu admiro como você conseguiu sair daquela situação.

Muitas mulheres permanecem em relacionamentos assim durante anos, com medo de ficar sozinhas.

— A solidão é melhor do que viver com quem se aproveita de você, — respondeu Alina.

— Eu não entendi isso logo de cara.

Mas quando entendi, não havia mais volta.

— E você não teve medo de não dar conta sozinha?

— Tive.

Mas eu já dava conta quando sustentava dois adultos.

Sustentar só a mim mesma acabou sendo muito mais fácil.

Dmitri a abraçou.

— Você é forte.

Isso é uma qualidade rara.

Alina sorriu.

Sim, ela era forte.

Mas essa força não veio de imediato.

Ela nasceu de infinitas horas de trabalho, das humilhações, da compreensão de que, se não cuidasse de si mesma, ninguém cuidaria.

E em algum lugar na periferia da cidade, num quarto apertado, Stanislav e Zoya Petrovna continuavam a reclamar um para o outro da vida, da injustiça e da insensível Alina, que havia destruído a vida deles.

Mas Alina já não fazia mais parte do mundo deles.

E isso era o certo.