Meu marido passou 3 anos comprando bifes para si mesmo, enquanto me dava 7 mil rublos para trigo-sarraceno.

No aniversário dele, apliquei as próprias regras que ele criou.

Gennádi colocou duas cartas bancárias sobre a mesa.

Uma era a dele.

A outra era a minha.

Então passou o dedo entre as duas, como se traçasse uma linha.

— A partir de hoje, cada um paga a própria comida.

Estou cansado de pagar por aquilo que não como.

As suas saladinhas, você mesma paga.

A minha carne, eu mesmo pago.

É justo.

Eu tinha quarenta e nove anos.

Vinte e dois anos de casamento.

Dois filhos adultos: um filho no exército, uma filha em São Petersburgo, no terceiro ano da faculdade.

E agora meu marido dividia a cozinha em “meu” e “seu”.

Naquele momento eu não respondi.

Apenas guardei meu cartão na carteira e saí da cozinha.

Isso foi há três anos.

Preciso explicar como chegamos a esse ponto.

Gennádi sempre se considerou o provedor da família.

Trabalhava como chefe de obra na construção civil e ganhava bem, cerca de cento e vinte mil rublos.

Eu era contadora numa empresa de administração imobiliária e ganhava quarenta e cinco mil.

A diferença era quase de três vezes.

Durante vinte anos, administrei o orçamento comum da casa.

Compras, contas, filhos, roupas, tudo saía do mesmo fundo.

E durante vinte anos isso funcionou.

Não perfeitamente, mas funcionou.

Depois os filhos foram embora.

E Gennádi decidiu que, sem filhos em casa, podíamos viver “de um jeito novo”.

— Nina, veja só, — disse ele, sentado à mesa da cozinha, girando o relógio no pulso.

Pesado, com pulseira larga.

Tinha comprado para si mesmo por cento e oitenta mil rublos meio ano antes.

— Você come seu peixe cozido, mingau, ricota.

Eu gosto de carne de verdade.

Bifes, costelas.

Por que eu deveria pagar pela sua dieta, e você pela minha?

“Carne de verdade.”

Como se por vinte anos eu tivesse alimentado ele com carne de mentira.

Eu poderia ter discutido.

Mas não discuti.

Eu queria ver como aquilo terminaria.

Terminou de forma simples.

Gennádi transferiu sete mil rublos para o meu cartão e disse:

— Aqui.

Para um mês.

Coma o que quiser.

Eu vou comprar as minhas coisas separadamente.

Sete mil rublos.

Para um mês.

No ano de dois mil e vinte e três.

Duzentos e trinta rublos por dia.

Eu não comecei a gritar.

Fui ao mercado e comprei trigo-sarraceno, leite, pão, um pacote de manteiga, uma dúzia de ovos e um repolho.

Por mil e duzentos rublos.

E naquela mesma noite Gennádi trouxe da “Miratorg” dois bifes ribeye de novecentos rublos cada, uma garrafa de vinho tinto e um pacote de rúcula.

Ele fritou a carne na nossa frigideira comum.

Eu me sentei à mesma mesa e comi trigo-sarraceno com manteiga.

O cheiro do bife encheu toda a cozinha: suculento, defumado, com pimenta.

— Está gostoso, — disse Gennádi, limpando a boca com um guardanapo.

Ele nem me ofereceu para provar.

Lavei meu prato e fui para o quarto.

Naquela noite, fiquei deitada fazendo contas.

Não por mágoa, mas por hábito.

Afinal, eu era contadora.

A “carne de verdade” dele custava entre vinte e cinco e trinta mil rublos por mês.

Bifes, embutidos defumados de lojas de produtores rurais, queijos da “Vkusvill”, conhaque às sextas-feiras.

E para mim, sete mil.

Trigo-sarraceno e repolho.

A diferença era de quatro vezes.

Sendo que o apartamento era nosso, o fogão era um só, a geladeira era uma só.

Só as prateleiras eram diferentes.

As dele eram as de cima, lotadas.

A minha era a de baixo, meio vazia.

Depois de um mês, criei uma planilha no Excel.

Eu anotava cada recibo dele que encontrava na lixeira ou sobre a mesa.

Não espionava de propósito, ele mesmo deixava jogado.

Para mim, era importante saber o valor.

O valor exato.

No primeiro mês de alimentação separada, Gennádi gastou trinta e um mil e quatrocentos rublos com comida.

Eu gastei seis mil e oitocentos.

Dos meus sete mil rublos, sobraram duzentos.

Eu não gastei.

Coloquei num envelope.

E no mês seguinte também.

E no outro também.

O envelope ficava na gaveta da cômoda, debaixo da roupa de cama.

Depois de seis meses, aconteceu o que eu esperava.

Gennádi levou amigos para casa.

Sábado, seis da tarde.

Eu estava lavando o chão do corredor quando a porta de entrada bateu e três homens entraram: Gennádi, Oleg, o vizinho da garagem, e Stiópa, colega dele da obra.

— Nina! — gritou Gennádi da entrada.

— Prepare alguma coisa para a mesa!

Os homens vieram aqui!

Torci o pano.

Deixei o balde no chão.

Saí.

— De qual orçamento? — perguntei.

Gennádi congelou.

Oleg e Stiópa trocaram olhares.

— O quê? — Gennádi piscou.

— De qual orçamento sai essa mesa?

Do meu ou do seu?

O pescoço dele começou a ficar vermelho.

Ele sempre ficava vermelho de baixo para cima, da gola até as orelhas.

— O que você está falando?

Na frente dos outros?

— Foi você mesmo quem criou as regras, Gena.

Cada um paga a própria comida.

Meu orçamento é de sete mil rublos por mês.

Hoje é dia dezoito.

Tenho novecentos rublos até o fim do mês.

Não dá para três convidados.

Oleg tossiu.

Stiópa estudava o rodapé.

Gennádi tirou a carteira e jogou dois mil rublos sobre o aparador.

— Toma.

Compra frios e pão.

Peguei o dinheiro.

Fui ao mercado.

Comprei um pão, um pedaço de linguiça defumada, um pote de pepinos em conserva e uma caixa de chá.

Por mil e trezentos rublos.

O troco, setecentos rublos, deixei no mesmo aparador.

Quando arrumei tudo na mesa, Oleg olhou para a linguiça, para o pão, para o pote de pepinos.

Depois olhou para mim.

Depois para Gennádi.

— Gena, por que tão modesto? — perguntou.

— Você não ganha bem?

Gennádi se levantou em silêncio, abriu sua prateleira da geladeira, tirou queijo, presunto e azeitonas.

Colocou ao lado.

— Aqui, — disse.

— Isso é meu.

Oleg transferiu o olhar do “meu” para a mesa “comum”.

Do queijo camembert para o pão de trinta rublos.

E ficou em silêncio.

Os homens ficaram sentados por uma hora.

Falaram pouco.

Oleg foi o primeiro a sair, dizendo que a esposa o esperava.

Stiópa saiu logo atrás.

Quando a porta se fechou, Gennádi se virou para mim.

— Você fez isso de propósito, não foi?

Me envergonhou?

— Eu comprei com o dinheiro que você me deu.

Dois mil rublos para três pessoas dão um pão, linguiça e pepinos.

Matemática, Gena.

— Você podia ter completado com o seu dinheiro!

— Tenho novecentos rublos até o fim do mês.

Estou guardando para pão e leite.

Ele bateu a porta do quarto.

Não falou comigo por dois dias.

Depois esfriou.

Mas não mudou nada.

Nem o orçamento, nem as regras.

E eu anotei na planilha: “Dia 18. Convidados. Reação dele: raiva. Despesa: 1.300 rublos (dinheiro dele). Resultado: constrangimento diante dos amigos. Conclusão: ele não vai cancelar as regras, mas também não quer passar vergonha.”

Naquela época eu ainda não sabia que o principal estava por vir.

O jubileu.

Cinquenta e cinco anos.

Gennádi anunciou com um mês de antecedência.

Estava sentado na cozinha numa manhã de domingo, bebendo café numa caneca grande e mexendo no telefone.

— Nina, — disse ele sem erguer os olhos.

— Daqui a quatro semanas faço cinquenta e cinco anos.

Quero comemorar em casa.

Umas vinte pessoas.

Você vai preparar a mesa?

Coloquei a chaleira no fogo.

Peguei minha caneca, pequena, com a alça quebrada.

— De qual orçamento?

Ele levantou a cabeça.

— Como assim, de novo?

— Gena, não é “de novo”.

É a regra que você mesmo estabeleceu.

Cada um paga sua própria comida.

Um banquete para vinte pessoas não é a minha alimentação.

É a sua festa.

O pescoço dele ficou vermelho.

— Você está falando sério?

Estou te pedindo uma vez só!

É um jubileu!

Uma vez na vida!

— Você não está me pedindo.

Está dizendo: “você vai preparar a mesa”.

Como três anos atrás você disse: “se vire com a sua comida”.

— E daí?

Você não vai cozinhar?

Tomei um gole de chá.

Coloquei a caneca na mesa.

— Vou cozinhar.

Para mim.

Como sempre.

Gennádi se levantou.

A cadeira arranhou o chão.

O relógio em seu pulso brilhou.

— Você entende como isso vai parecer?

Vinte pessoas vão chegar e na mesa vai estar o seu trigo-sarraceno?!

— Na mesa vai estar aquilo que você pagar.

Você pode pedir um serviço de buffet.

Pode comprar os produtos você mesmo.

Pode pedir ajuda ao Oleg.

Mas eu não vou preparar um banquete com sete mil rublos, que é o meu orçamento mensal de comida.

Ele saiu.

Bateu a porta.

Os fusíveis no corredor até sacudiram na prateleira.

Eu fiquei sentada sozinha.

O chá esfriava.

Do lado de fora chuviscava, um dia cinzento de outubro.

Meus dedos apertavam a caneca de alça quebrada.

Quente, quase queimava.

Mas eu não soltava.

Três anos.

Mil e noventa e cinco dias de alimentação separada.

Trigo-sarraceno, repolho, ovos, de vez em quando sobrecoxas de frango em promoção.

E ele, bifes, queijos, vinho.

Na mesma cozinha.

Na mesma mesa.

E agora: “você vai preparar a mesa”.

Para vinte pessoas.

Para o aniversário dele.

Naquela noite liguei para Valentina.

Contei tudo.

— Nina, — disse ela depois de uma pausa.

— Você entende que, se não cozinhar, toda a família vai cair em cima de você?

— Entendo.

— E mesmo assim?

— Você tem outra opção?

Há três anos eu como com sete mil rublos.

Ele nunca me perguntou se isso era suficiente.

Nunca se ofereceu para acrescentar nada.

Mas relógio de cento e oitenta mil rublos, isso sim.

E eu ainda tenho que pagar o aniversário dele do meu bolso?

Valentina ficou em silêncio.

— Faça como achar melhor.

Mas no seu lugar eu pelo menos colocaria uma salada Olivier.

Só para manter as aparências.

Eu não discuti.

Mas não planejava fazer nem Olivier.

Nas duas semanas seguintes, Gennádi fingiu que não havia problema nenhum.

Enviou os convites.

Ligou para parentes, amigos, colegas.

“Venham, a Nina vai preparar tudo, ela é uma artista.”

Eu ouvia isso do corredor.

Uma artista.

Por vinte e dois anos eu fui uma artista.

Ano-novo para trinta pessoas? Claro.

Oito de março para os pais dele? Sem problema.

Aniversários, batizados, velórios, eu ficava no fogão enquanto os outros se sentavam à mesa.

E agora: “se vire com a sua comida”.

Eu não disse nada.

Não relembrei.

Não briguei.

Apenas vivi como sempre: trigo-sarraceno de manhã, sopa instantânea no almoço, ricota à noite.

Gennádi fritava seus bifes e tinha certeza de que eu iria ceder.

Não cedi.

O dia do jubileu.

Sábado, onze de outubro.

Gennádi acordou de bom humor.

Fez a barba.

Vestiu uma camisa.

O relógio em seu pulso brilhava como sempre.

— Nina, os convidados chegam às cinco, — disse ele ao passar pela cozinha.

— A mesa está pronta?

Eu estava diante do fogão.

Numa panelinha fervia peito de frango, cem gramas, em promoção.

— A minha, sim.

Ele não ouviu.

Ou não quis ouvir.

Foi para a sala e ligou a televisão.

Às quatro horas eu arrumei a mesa.

Na sala grande, na nossa mesa extensível, a mesma que tinha visto trinta festas de ano-novo.

Um prato.

Um copo.

Um garfo.

Um guardanapo.

No prato, peito de frango com trigo-sarraceno e salada de repolho fresco com cenoura.

Ao lado, um copo de compota de frutas secas.

Meu jantar.

Meu orçamento.

Minha porção.

O resto da mesa estava vazio.

Toalha limpa.

Nada mais.

Gennádi entrou na sala às quatro e quarenta e cinco.

Parou na porta.

Olhou para a mesa.

— O que é isso? — a voz dele estava baixa, abafada.

— Meu jantar.

— E o resto?

Onde está o resto?

— Que resto, Gena?

Você disse que cada um paga a própria comida.

Então eu estou pagando.

Sozinha.

Com os meus sete mil rublos.

O pescoço dele ficou coberto de manchas vermelhas.

Ele deu um passo em minha direção.

— Você entende que daqui a quinze minutos as pessoas vão chegar?

Vinte pessoas!

— Entendo.

Foi você quem as convidou.

Você é que deve alimentá-las.

— Eu não tenho nada preparado!

— Eu te avisei desde setembro: peça um buffet.

Compre comida pronta.

Você não quis ouvir.

A campainha tocou.

Gennádi ficou parado no meio da sala.

Camisa branca, relógio pesado, pescoço vermelho.

Olhando para um único prato de trigo-sarraceno numa mesa para vinte pessoas.

Fui abrir a porta.

Oleg com a esposa.

Atrás deles, o primo de Gennádi com a mulher.

Depois os colegas.

Depois os vizinhos.

Eles entravam, tiravam os casacos, passavam para a sala.

E congelavam.

A mesa.

A toalha branca.

Um único prato.

Peito de frango.

Trigo-sarraceno.

Um copo de compota.

Oleg olhou para mim.

Para Gennádi.

De novo para a mesa.

— Gena, — disse com cuidado, — chegamos cedo demais? Ou tarde demais?

— Vocês chegaram na hora, — Gennádi estava junto à janela, com os braços cruzados.

— A Nina resolveu fazer uma brincadeira.

— Isso não é brincadeira, — disse eu.

Todos se viraram.

— Há três anos meu marido instituiu alimentação separada.

Cada um paga a própria comida.

Para mim, sete mil rublos por mês.

Para ele, trinta.

Há três anos eu como trigo-sarraceno e frango cozido enquanto ele frita bifes ribeye.

Nunca pedi que acrescentasse nada.

Nunca fiz escândalo.

Simplesmente aceitei as regras dele.

Silêncio.

A esposa de Oleg apertou a bolsa contra a barriga.

— E agora ele me pediu para preparar a mesa de aniversário.

Para vinte pessoas.

Com os meus sete mil rublos.

Eu recusei.

Sugeri que ele encomendasse comida.

Ele não quis.

Decidiu que eu acabaria cedendo.

Olhei para Gennádi.

— Aqui está a minha mesa, Gena.

Peito de frango e trigo-sarraceno.

Exatamente como você quis.

Cada um por si.

Gennádi ficou em silêncio.

O pomo de adão dele subia e descia.

O relógio no pulso brilhava opaco sob a luz do lustre: cento e oitenta mil rublos na mão esquerda, e nem um centavo para a mesa do aniversário.

Oleg tossiu.

— Bem, talvez a gente… isso… possa ir a um café?

Aqui perto o “Beriózka” está aberto.

A gente divide a conta?

Metade dos convidados trocou olhares.

Alguns assentiram.

Alguns já tiravam o telefone para chamar táxi.

Gennádi pegou o casaco no cabide e saiu primeiro.

Não olhou para mim.

Não disse uma palavra.

Os convidados foram saindo atrás dele.

A esposa de Oleg demorou-se um instante na porta e olhou para mim.

Nem com reprovação, nem com pena.

Apenas olhou.

E saiu.

A porta se fechou.

Fiquei sozinha.

Na sala grande, diante da mesa com a toalha branca.

Um único prato.

O peito de frango já tinha esfriado.

O trigo-sarraceno tinha criado uma película seca.

Sentei-me.

Peguei o garfo.

Minhas mãos estavam completamente secas, nem uma gota de suor, nem tremor.

Só que, em algum lugar debaixo das costelas, havia um vazio, como naquela sala.

Comi tudo.

Até o último grão.

Bebi a compota.

Lavei o prato.

Um só.

Passaram-se três semanas.

Gennádi voltou naquela noite do aniversário à uma da manhã.

Cheirava a conhaque e cigarro.

Pelo visto, comemoraram no “Beriózka”.

Sem mim.

Desde então, ele cozinha para si mesmo.

Ovos mexidos pela manhã.

Pelmeni à noite.

Às vezes salsichas.

Parou de comprar bifes, ou porque perdeu o apetite, ou porque sente vergonha de fritá-los ao meu lado.

O orçamento separado continuou.

Sete mil rublos para mim, o resto para ele.

Mas ele não diz mais “se vire com a sua comida”.

E não convida mais ninguém.

Quando encontro Oleg, ele me cumprimenta de forma seca.

A esposa dele não fala comigo.

O primo de Gennádi escreveu no grupo da família que eu “montei um circo e envergonhei um homem diante do bairro inteiro”.

Valentina disse: “Você fez certo. Mas foi duro”.

E acrescentou: “Talvez duro demais”.

E eu não sei.

Realmente não sei.

Todas as noites lavo o meu prato, coloco no escorredor e olho para o prato ao lado, o dele.

Também um só.

Dois pratos no escorredor.

Duas pessoas no apartamento.

E um abismo entre elas com a largura de vinte e três mil rublos.