— Não tem onde cair morta — riam-se os familiares.
Eles não sabiam que ela já tinha comprado o próprio apartamento há muito tempo.

— Svetochka, como está o teu apartamento arrendado?
— A proprietária não voltou a aumentar o preço? — perguntou a mãe, num tom preocupado, quando a conversa à mesa abrandou por um instante.
A reunião familiar decorria ruidosamente na casa de campo da tia Rimma Arkadievna.
A carne para o churrasco acabava de assar na grelha, alguém cortava legumes e as crianças corriam pelo terreno.
Valentina Arkadievna já tivera tempo de se queixar aos familiares e de lamentar a situação do filho mais novo.
— Oleg está a passar por uma fase difícil — suspirava ela.
— Arrenda um apartamento, os preços estão a aumentar e os proprietários estão sempre a mudar as condições.
Depois, a conversa passou discretamente para Svetlana.
— A situação dela também não é melhor.
— Anda de apartamento arrendado em apartamento arrendado.
— A vida está difícil para os jovens de hoje.
Os familiares assentiram com compaixão.
Uns começaram a recordar as taxas dos créditos à habitação, enquanto outros falavam do preço das rendas.
Svetlana mexia o chá em silêncio com uma colher e ouvia pessoas alheias discutirem a sua vida.
Nenhum deles imaginava que, há três meses, ela já não regressava a um apartamento arrendado, mas ao seu próprio T1 num prédio novo.
Não sabiam que, à noite, ela própria escolhia onde colocar a estante de livros e poupava dinheiro para os móveis da cozinha.
Não sabiam que pagava pontualmente o crédito à habitação todos os meses e que, pela primeira vez na vida, sentia que tinha algo verdadeiramente seu debaixo dos pés.
Ela ergueu os olhos para a mãe, sorriu e não disse nada.
Que continuassem a pensar que ela ainda vivia de salário em salário.
Assim era mais tranquilo.
—
Svetlana cresceu numa família em que o irmão mais novo, Oleg, estava sempre em primeiro lugar.
Isso nunca era dito em voz alta.
Era simplesmente assim que as coisas funcionavam.
Quando aparecia algum dinheiro extra, era gasto com Oleg.
Quando surgia uma discussão, era Svetlana quem tinha de ceder.
Quando alguém precisava de ajuda, esperavam que ela fosse compreensiva.
Quando a avó Zinaida Ivanovna vinha visitá-los e dava dinheiro de bolso aos netos, Oleg podia gastar a sua quantia como quisesse.
A Svetlana, porém, lembravam quase imediatamente:
— Tu és uma menina sensata, não gastes tudo de uma vez.
E ela não gastava.
Certa vez, o padrinho ofereceu-lhe uma bicicleta de aniversário, azul-viva, com guarda-lamas brancos e uma campainha brilhante no guiador.
Para Svetlana, que tinha doze anos, aquilo foi uma verdadeira festa.
Mas, poucos dias depois, Oleg declarou que também queria andar nela.
— O que te custa emprestar-lhe? — insistia a mãe.
— De qualquer forma, não andas nela o dia inteiro.
Como resultado, a bicicleta passou gradualmente para o irmão.
Duas semanas depois, ele partiu o desviador das mudanças e, mais tarde, deixou a bicicleta à chuva junto ao barracão.
No final do verão, o presente estava coberto de ferrugem.
Foi nessa altura que Svetlana sentiu, pela primeira vez, uma mágoa que não conseguia explicar por palavras.
Com o passar dos anos, pouca coisa mudou.
Depois de terminar a escola, entrou numa universidade pedagógica pública numa cidade vizinha.
Vivia numa residência universitária, partilhava o quarto com três colegas, dava explicações a alunos ao fim do dia e, durante o verão, vendia gelados no parque da cidade.
Tinha pouco dinheiro, mas gostava daquela vida.
Pela primeira vez, sentia-se independente.
No segundo ano, Oleg começou a ter problemas.
Terminara a escola com notas muito piores do que as da irmã e não conseguira entrar numa vaga financiada pelo Estado.
Os pais decidiram pagar-lhe os estudos.
Informaram Svetlana de que essa decisão mudaria a vida dela como se fosse algo perfeitamente natural.
— Sveta, não fiques chateada — disse Valentina Arkadievna durante uma conversa telefónica.
— Neste momento, todo o nosso dinheiro está a ser gasto no curso do Oleg.
— Mas eu também preciso de ajuda — lembrou Svetlana com cautela.
— Tu trabalhas um pouco.
— E também estudas bem.
— Temos a certeza de que vais conseguir.
À noite, o pai telefonou-lhe.
— Aguenta mais um pouco, filha.
— Sempre foste independente.
Para eles, aquilo soava como um elogio.
Para Svetlana, soava como uma sentença.
Alguns meses depois, teve de mudar para o regime de ensino à distância e começar a trabalhar a tempo inteiro.
Conseguiu emprego como administradora num ginásio, levantava-se antes do amanhecer e só regressava a casa tarde da noite.
Os estudos foram ficando gradualmente em segundo plano.
Em contrapartida, o dinheiro para pagar o curso de Oleg era enviado pontualmente todos os semestres.
Dois anos depois, o irmão abandonou inesperadamente a universidade.
— Aquilo não era para ele — explicou calmamente a mãe.
— Acontece.
— Ainda é jovem e está a tentar encontrar o seu caminho.
Svetlana limitou-se a acenar com a cabeça.
Ela compreendia demasiado bem o preço daquela procura.
—
Depois de terminar a universidade, Svetlana trabalhou praticamente sem dias de descanso.
No início, arrendava um quarto num velho apartamento comunitário perto da estação ferroviária.
Durante a noite, os comboios faziam barulho para lá da parede fina, os vizinhos discutiam constantemente na cozinha e, no inverno, o frio entrava pelas janelas.
Depois, conseguiu mudar-se para um pequeno estúdio nos arredores da cidade.
Para algumas pessoas, aquela casa pareceria apertada, mas, para Svetlana, representava um verdadeiro passo em frente.
Ali, ninguém ocupava a casa de banho de manhã nem mudava os produtos dela de lugar no frigorífico.
Ela vivia modestamente.
Numa gaveta da secretária, havia um caderno grosso quadriculado onde Svetlana anotava todas as despesas.
Contas da casa, transportes, alimentação, medicamentos e presentes para os feriados — cada quantia tinha o seu lugar nas páginas.
Às vezes, as amigas surpreendiam-se com a sua poupança.
— Pelo menos de vez em quando, permite-te comprar alguma coisa só por prazer — dizia Katia durante os raros encontros depois do trabalho.
Svetlana limitava-se a sorrir.
Há muito que se habituara a depender apenas de si própria.
O momento decisivo chegou inesperadamente.
Numa noite de fevereiro, a proprietária do apartamento telefonou e informou-a de que aumentaria a renda a partir do mês seguinte.
— Agora toda a gente está a aumentar os preços, tu própria compreendes — explicou a mulher.
— Caso não te convenha, avisa com antecedência, porque começarei a procurar novos inquilinos.
Depois da conversa, Svetlana ficou sentada durante muito tempo à mesa da cozinha.
Diante dela estavam faturas, extratos bancários e o velho caderno com as despesas de vários anos.
Pela primeira vez, decidiu calcular quanto dinheiro gastara durante todo aquele tempo em casas arrendadas.
O valor revelou-se impressionante.
Não era suficiente para comprar imediatamente um apartamento, mas bastava para a fazer pensar em quantos anos mais continuaria a pagar o imóvel de outra pessoa, em vez de investir no seu próprio.
Lá fora, a neve caía lentamente.
Svetlana fechou o caderno e olhou para a escuridão por detrás do vidro.
Nessa noite, abriu pela primeira vez, com verdadeira seriedade, o site de um banco e começou a estudar os programas de crédito à habitação.
Fê-lo sem sonhos nem ilusões.
Fê-lo simplesmente como alguém que estava cansada de viver com as malas sempre prontas e de esperar todos os anos por um novo aumento da renda.
A partir desse dia, passou a ter um objetivo.
Durante os anos seguintes, Svetlana viveu com ainda mais cuidado.
Aceitava turnos adicionais, dava explicações online à noite e transferia imediatamente parte dos prémios para uma conta poupança.
Por vezes, era difícil.
Quando os colegas iam de férias, ela ficava a trabalhar.
Quando os amigos falavam de viagens e entretenimento, ela calculava mentalmente quanto ainda precisava de poupar até alcançar a quantia desejada.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, compreendia por que motivo se esforçava.
Svetlana não contou os seus planos a ninguém.
Nem aos pais, nem ao irmão.
Conhecia-os demasiado bem: assim que os familiares soubessem das suas poupanças, surgiria inevitavelmente uma razão para explicar por que motivo outra pessoa precisava mais daquele dinheiro.
—
Aos trinta e dois anos, Svetlana comprou um apartamento T1 num prédio novo, no quinto andar.
Quando a agente imobiliária lhe entregou as chaves pela última vez, Svetlana limitou-se a acenar com a cabeça e saiu para a rua.
Ficou algum tempo diante da entrada do prédio, ergueu a cabeça e encontrou com o olhar a sua janela, uma janela retangular comum com uma moldura branca.
A sua janela.
Passou os primeiros dias rodeada de caixas de cartão com louça e outros pertences.
Não tinha sofá, mesa nem sequer uma chaleira à mão.
Comia bolachas diretamente do pacote, olhava para as paredes vazias e chorava em silêncio, não de tristeza, mas devido a um alívio enorme e avassalador.
Não telefonou a ninguém.
Não escreveu a ninguém.
Passaram alguns meses.
No aniversário da mãe, Svetlana chegou à varanda antes de repararem nela.
Valentina Arkadievna conversava com a vizinha da casa de campo, a tia Rimma, e falava em voz baixa, mas perfeitamente audível:
— Oleg já tem vinte e oito anos e ainda não tem um canto próprio.
— Seria bom se a Svetka o ajudasse com a entrada inicial.
— Ela vive sozinha e não tem filhos, para que precisa de poupar tanto dinheiro?
Svetlana regressou silenciosamente à casa.
Durante o chá, sorriu e permaneceu em silêncio.
A decisão de guardar o segredo deixou definitivamente de lhe parecer estranha.
Mas a tranquilidade não durou muito.
Pouco tempo antes, a mãe perguntara-lhe por telefone por que motivo Svetlana não atendia as chamadas à noite.
— Mudei-me — disse Svetlana.
— Arrendei outro lugar mais perto do trabalho.
— Ainda estou a instalar-me.
— Dá-me a morada — exigiu a mãe.
Svetlana ditou-lha.
Não mentiu, pois a morada era verdadeira.
Apenas não esclareceu que o apartamento lhe pertencia.
Alguns dias depois, Oleg apareceu alegadamente porque estava de passagem e disse que tinha ido àquela zona.
Svetlana abriu-lhe a porta, levou-o à cozinha e pôs a chaleira ao lume.
O telemóvel estava sobre a mesa, com o ecrã virado para cima.
Enquanto ela tirava as chávenas, o aparelho emitiu dois sons.
Oleg estava sentado diante dela e lançou um olhar rápido ao ecrã, como se tivesse sido por acaso.
Mas, de repente, ficou imóvel.
No visor, via-se uma notificação do banco: “Débito relativo ao crédito à habitação.
Montante: 28 400 rublos.”
— Espera — disse ele lentamente.
— Que crédito à habitação é este?
Svetlana retirou o telemóvel da mesa.
— São assuntos meus, Oleg.
— Não, espera lá — insistiu ele.
Oleg começou a observar a cozinha com um olhar diferente: as frentes novas dos armários, a bancada clara e o vaso com uma monstera no parapeito da janela.
— Este apartamento não é arrendado.
— Aqui está tudo novo.
— Compraste-o, não foi?
Seguiu-se uma longa pausa.
— Comprei — respondeu Svetlana calmamente.
— Há muito tempo?
— Há alguns meses.
Oleg ficou em silêncio e depois levantou-se.
— Entendido — disse ele brevemente.
Nem chegaram a beber o chá.
À noite, ele telefonou aos pais.
—
Os pais apareceram sem avisar no sábado de manhã.
Svetlana abriu a porta e viu a mãe no patamar, com o casaco aberto, e o pai com uma expressão sombria e tensa.
Oleg estava atrás deles.
— Vá, mostra-nos — disse Valentina Arkadievna, entrando sem esperar por um convite.
Ela inspecionou o corredor, espreitou para a cozinha e tocou no parapeito novo.
Depois, virou-se para a filha e abraçou-a inesperadamente com força.
— Svetochka, que inteligente.
— Muito bem, muito bem.
Svetlana ficou imóvel, sem saber o que fazer com as mãos.
A alegria durou cerca de dez minutos.
Depois, a mãe sentou-se à mesa, juntou as mãos e falou naquele tom especial que Svetlana recordava desde a infância:
— Agora já podemos pensar no Oleg.
O pai tossiu e começou a explicar.
Aparentemente, já tinham pensado em tudo.
Oleg ficaria temporariamente a viver com Svetlana, pois havia espaço no apartamento.
Pouparia algum dinheiro.
Depois, Svetlana seria co-mutária no crédito à habitação dele e ajudaria com o pagamento inicial.
— Tens de compreender que tu já estás estabelecida — acrescentou a mãe.
Svetlana permaneceu em silêncio.
Olhou para a mesa e para as chávenas que ela própria escolhera na loja.
Depois, levantou a cabeça.
— Lembro-me de ter mudado para o ensino à distância por causa da entrada dele na universidade.
— Lembro-me de abrir o ginásio às seis da manhã, enquanto vocês dormiam.
— Lembro-me de ter poupado este dinheiro sozinha, sem a ajuda de ninguém.
— Ninguém me ofereceu sequer um rublo.
A sua voz não tremia.
Isso era importante.
— Tudo o que existe aqui foi conquistado por mim.
— E não pretendo partilhar o meu apartamento com ninguém.
Um silêncio pesado pairou na sala.
—
Os pais ficaram verdadeiramente ofendidos.
Não telefonaram durante uma semana.
Depois, a mãe ligou, perguntou brevemente e com frieza pela saúde da filha e desligou.
O pai não telefonou de todo.
Através dos familiares, começaram a chegar rumores de que Valentina Arkadievna contava na casa de campo que tinha uma filha ingrata, que comprara um apartamento e nem sequer pensara na família.
— Nós criámo-la e fizemos tudo por ela — dizia ela à vizinha Tamara, com lágrimas na voz.
Svetlana soube disso pela tia Larissa Anatolievna, a irmã mais nova do pai, uma mulher de poucas palavras que sempre se mantivera afastada dos dramas familiares.
Mas, daquela vez, a tia Larissa telefonou por iniciativa própria.
— Soube da vossa conversa — disse ela, sem introduções.
— Fizeste muito bem.
— Oleg tem vinte e oito anos e já está na hora de começar a mexer-se sozinho.
Essa chamada mudou inesperadamente o ambiente na família.
A tia Larissa sabia falar de maneira a ser ouvida.
Aos poucos, os familiares começaram a recordar em voz alta que Svetlana pagara sozinha a residência universitária desde muito jovem, mudara sozinha para o ensino à distância e trabalhara sozinha.
Ninguém a apoiara e, mesmo assim, ela conseguira sobreviver.
Certa noite, o pai telefonou.
Ficou muito tempo em silêncio e depois disse, de forma constrangida:
— Tu és realmente muito competente.
— Conseguiste tudo sozinha.
Não acrescentou mais nada.
Mas Svetlana compreendeu que aquele era o pedido de desculpa dele.
Oleg ainda lhe escreveu algumas vezes.
Por vezes, insinuava que estava a passar por dificuldades.
Noutras ocasiões, enviava mensagens tristes sem qualquer explicação.
Svetlana respondia de forma breve e tranquila.
Gradualmente, ele deixou de escrever.
—
Passou um ano.
Svetlana terminou as obras em novembro.
Na varanda, os vasos de gerânios passavam o inverno.
Junto à janela da sala, havia uma estante alta de livros e, ao lado, uma poltrona com braços macios, perfeita para ler ao fim do dia.
Todas as manhãs, ela preparava café na própria cozinha, olhava pela própria janela e pagava o crédito à habitação rigorosamente a tempo, sem precisar de lembretes.
A relação com os pais tornou-se mais tranquila.
Já não havia a proximidade de antes, mas também não existia a antiga tensão.
Nas festas, ela visitava-os, levava um bolo e conversava sobre o tempo e a saúde.
Nunca mais falava sobre dinheiro ou planos.
Certa vez, em dezembro, enquanto arrumava o armário superior, Svetlana encontrou uma caixa de cartão da infância.
Lá dentro, havia postais com gatinhos, algumas moedas de outros países e um pequeno bloco de notas com autocolantes.
Ela escondera tudo aquilo de Oleg.
Não queria que ele pegasse nas coisas, as partisse ou as abandonasse no quintal.
Svetlana sorriu, fechou a caixa e voltou a colocá-la no lugar.
Na infância, escondia os brinquedos.
Agora, aprendera a proteger os próprios limites.
E, finalmente, compreendeu que aquilo não era avareza.
Era respeito por si própria.







