«“Entregamos a sua herança ao seu irmão, você não precisa!” — disse a mãe, mas o tabelião surpreendeu a todos com novos documentos.»

Anna subiu apressada as escadas do escritório do tabelião, com quase meia hora de atraso para a reunião.

Os engarrafamentos na cidade estavam terríveis, e o ônibus havia quebrado no meio do caminho.

Seu coração batia forte não só pela caminhada apressada, mas também pela ansiedade.

Hoje seria resolvido o processo de herança após a morte de sua avó.

Na sala de espera estavam sua mãe, Valentina Petrovna, e seu irmão, Mikhail.

A mãe estava vestida de maneira festiva, com um tailleur novo, e um sorriso satisfeito brincava em seus lábios.

Mikhail parecia calmo e confiante, folheando alguns documentos.

arrow_forward_iosLer mais.

Pausar.

00:00.

00:24.

01:31.

Sem som.

Oferecido por.

GliaStudios.

— Finalmente! — exclamou a mãe ao ver a filha.

— Esperamos por meia hora!

— Desculpa, o ônibus quebrou — respondeu Anna, sem fôlego.

— Você sempre tem algum problema — balançou a cabeça Valentina Petrovna.

— Ainda bem que não foi um atraso crítico.

Anna sentou-se em uma cadeira livre e olhou ao redor.

O escritório do tabelião parecia respeitável — móveis de carvalho, poltronas de couro, diplomas e certificados nas paredes.

Atrás de uma grande escrivaninha estava sentado o tabelião, um homem de cerca de cinquenta anos, de olhar atento.

— Então — começou ele quando todos se acomodaram — estamos reunidos para a leitura do testamento de Maria Ivanovna Sergeeva.

Antes de começarmos, preciso esclarecer: todos os herdeiros estão presentes?

— Sim — assentiu Valentina Petrovna.

— Sou a filha da falecida, e Mikhail e Anna são os netos.

O tabelião abriu uma pasta com documentos.

— Ótimo.

Mas devo dizer que a situação é um tanto incomum.

Temos dois testamentos.

— Dois? — perguntou Mikhail, surpreso.

— Um testamento é do ano passado, e o outro foi feito há apenas um mês.

Valentina Petrovna franziu a testa.

— Um mês atrás? Mas mamãe já estava doente, internada…

— Mesmo assim, o testamento foi redigido plenamente de acordo com a lei, na presença de testemunhas.

Sendo o documento posterior, é o válido.

Anna sentiu algo apertar em seu peito.

Sempre fora muito próxima da avó, mas nos últimos meses sua mãe proibira estritamente que ela visitasse a doente, alegando que a avó precisava de paz.

— E o que diz esse testamento? — perguntou Valentina Petrovna, nervosa.

O tabelião colocou os óculos e abriu o documento.

— De acordo com o testamento do ano passado, todos os bens — o apartamento, a casa de campo e o dinheiro — deveriam ser divididos igualmente entre a filha, Valentina Petrovna, e os netos, Mikhail e Anna.

— Muito bem — alegrou-se a mãe — é justo, dividido por igual.

— No entanto — continuou o tabelião — há mudanças significativas no testamento mais recente.

Mikhail inclinou-se para a frente.

— Que mudanças?

— Segundo o novo testamento, o apartamento e toda a quantia em dinheiro vão integralmente para a neta Anna Sergeevna.

Caiu um silêncio sepulcral.

Anna mal podia acreditar no que ouvia.

— Como isso é possível? — Valentina Petrovna levantou-se de um salto.

— Isso é impossível!

— Receio que seja possível.

O testamento foi assinado na presença de duas testemunhas, e um laudo médico confirma a capacidade da testadora no momento da assinatura.

— Mas por quê? — perguntou Mikhail, confuso.

— Por que a vovó mudou o testamento?

O tabelião folheou os papéis.

— Há uma nota explicativa escrita de próprio punho por Maria Ivanovna.

Posso lê-la em voz alta, se quiserem.

— Leia — disse Anna com firmeza.

— “A vida toda tentei ser justa com meus filhos e netos.

Mas nos últimos meses entendi quem realmente me ama.

Valentina e Mikhail me visitavam apenas quando precisavam de algo.

Já Annushka vinha só para conversar, trazer mimos, ajudar em casa.

Quando adoeci, só ela quis cuidar de mim, mas Valentina não a deixava entrar.

Por isso, deixo tudo à neta mais carinhosa e dedicada.”

Valentina Petrovna empalideceu.

— Isso não é verdade! Proibi Anna de vir porque mamãe estava muito doente!

— E a senhora visitava sua mãe com frequência no hospital? — perguntou o tabelião.

— Eu… trabalhava muito… nem sempre conseguia…

— E o senhor, Mikhail Sergeevich?

Mikhail permaneceu em silêncio, olhando para o chão.

Anna sentiu-se constrangida.

Amava de fato a avó, mas nunca havia pensado na herança.

— Espere — disse ela.

— É possível que o testamento tenha sido falsificado?

Talvez alguém tenha se aproveitado da doença da vovó?

O tabelião balançou a cabeça.

— Impossível.

O testamento foi feito na minha presença.

Maria Ivanovna estava lúcida, respondeu a todas as perguntas e ditou a própria nota explicativa.

— Mas eu sou a filha! — protestou Valentina Petrovna.

— Uma mãe não pode deixar a filha sem herança!

— Juridicamente, pode, se houver outros herdeiros.

O testamento é a expressão de vontade do falecido.

De repente, Mikhail levantou-se.

— Anna, talvez possamos entrar em um acordo entre nós?

Dividimos tudo de forma justa, como no primeiro testamento?

— Misha tem razão — apoiou a mãe.

— Você não pode ficar com tudo para si!

Somos família!

Anna ficou confusa.

Por um lado, entendia que a mãe e o irmão contavam com a herança.

Por outro — essa era a vontade de sua avó.

— Não sei… preciso pensar.

— Pensar no quê? — saltou Valentina Petrovna.

— Nós entregamos a sua herança ao seu irmão; você não precisa dela!

— Como assim “entregaram”? — Anna ficou atônita.

— Assim!

Mikhail precisa mais!

Ele tem família e filhos!

E você vive sozinha; não precisa de muito!

— Mamãe, mas o testamento está em nome da Anna — interveio o tabelião.

— Ninguém pode obrigá-la a renunciar à herança.

— Não estou obrigando!

Só estou explicando que é preciso ser justa!

Anna olhou para a mãe e para o irmão.

Nos olhos deles, viu ganância e cálculo.

Lembrou-se de como a mãe realmente não a deixava visitar a avó doente, dizendo que Anna a perturbava com suas visitas.

— Não — disse baixinho.

— Não vou renunciar ao testamento.

— O que quer dizer com “não vai”? — indignou-se a mãe.

— É a vontade da vovó.

E ela sabia o que fazia.

— Anna, pensa bem — pediu Mikhail.

— Tenho um financiamento do apartamento, as crianças vão à creche…

— Eu também tenho um financiamento — respondeu Anna.

— E um salário baixo.

Também não vivo na abundância.

— Mas você é sozinha!

É mais fácil para você!

— Mais fácil por quê?

Porque não tenho família?

Valentina Petrovna levantou-se e lançou um olhar ameaçador à filha.

— Anna, se você não compartilhar a herança, não falo mais com você!

Nunca!

— Mãe, isso é chantagem.

— É justiça!

Uma filha tem direito de herdar da própria mãe!

— Tem, sim.

Mas a vovó decidiu de outra forma.

O tabelião aguardou pacientemente enquanto a família discutia.

— Então — disse por fim — Anna Sergeevna, você aceita a herança?

— Aceito — respondeu Anna com firmeza.

— Nesse caso, precisamos concluir toda a papelada.

Mas antes devo ler outra parte do testamento.

— Tem mais? — surpreendeu-se Mikhail.

— Sim.

Maria Ivanovna previu um possível conflito familiar por causa da herança.

O tabelião virou a página.

— “Se a minha família brigar por dinheiro, peço que se faça o seguinte.

Para Valentina, deixo minhas joias e os álbuns de fotografia.

Para Mikhail, o relógio do avô e os livros.

Além disso, cada um deles receberá cem mil rublos das minhas economias.

Isso deve bastar para que entendam — eu também os amava, mas a justiça é mais importante.”

Valentina Petrovna e Mikhail trocaram olhares.

— Então ainda recebemos alguma coisa? — perguntou a mãe.

— Sim.

Maria Ivanovna não deixou ninguém completamente sem herança.

— Cem mil… — disse Mikhail, pensativo.

— Já é alguma coisa.

— E as joias da mamãe valem muito — acrescentou Valentina Petrovna.

— Há um anel de diamante.

Anna ouviu e entendeu que a avó realmente havia se preparado para tudo.

Conhecia a família e estava pronta para a reação deles.

— E a casa de campo? — perguntou Anna ao tabelião.

— A casa de campo fica com você.

Mas o testamento solicita que os parentes possam, às vezes, descansar lá.

— Claro — assentiu Anna.

— A casa é grande; há espaço para todos.

De repente, Mikhail sorriu.

— Sabe, Anya, talvez a vovó estivesse certa.

Foi você quem mais cuidou dela.

— Misha! — contestou a mãe.

— Mãe, ora — disse ele.

— Quase não visitávamos a vovó.

Mas a Anya estava lá todo fim de semana.

Valentina Petrovna ficou calada e depois suspirou.

— Talvez seja.

Mas ainda dói.

— Mãe — disse Anna suavemente — eu não sou mesquinha.

Se você precisar de algo, eu ajudo.

Afinal, somos família.

— Você vai vender o apartamento? — perguntou Mikhail.

— Não sei.

Talvez eu me mude para lá.

É mais “meu”, e o bairro é agradável.

— E o seu apartamento?

— Vou vender e quitar o financiamento.

O tabelião começou a preparar os documentos.

O procedimento levou mais de uma hora — era preciso assinar muitos papéis, colocar carimbos, pagar taxas.

— Parabéns pela herança — disse ao final.

— Os documentos estarão prontos em uma semana.

Ao sair do escritório, a família ficou em silêncio.

Do lado de fora, Valentina Petrovna parou.

— Anya, é claro que estou chateada.

Mas você tem razão — essa foi a vontade da sua avó.

— Mãe, eu entendo que você esperava mais.

— Nós esperávamos… — a mãe sorriu tristemente.

— Talvez todos devêssemos ter passado mais tempo com a vovó enquanto ela estava viva.

— Mãe, ela te amava.

Só queria que entendêssemos isso.

Mikhail abraçou a irmã.

— Anya, não vou ficar com raiva de você.

A vovó era sábia; sabia o que estava fazendo.

— Obrigada, Misha.

— E a gente pode mesmo usar a casa de campo?

— Claro.

Venham no verão com as crianças, como antes.

Eles chegaram ao ponto de ônibus e esperaram.

— Sabe — disse de repente Valentina Petrovna — lembrei de quando mamãe disse no hospital: “Só a Annushka me entende.”

E eu pensei que fosse apenas a doença falando.

— Não era a doença — respondeu Anna.

— Ela apenas sentia quem realmente precisava dela.

O ônibus chegou.

Sentada à janela, Anna pensou na avó.

A idosa conseguira ensinar uma lição à família mesmo depois da morte.

Uma lição de que amor e atenção não podem ser substituídos por dinheiro, e de que a justiça às vezes parece diferente do que parece à primeira vista.

À noite, Anna foi ao apartamento da avó.

Abriu a porta com a chave que tinha desde quando a dona ainda vivia.

O hall cheirava ao perfume da avó e a livros antigos.

Sobre a mesa havia um bilhete escrito com a caligrafia familiar: «Annushka, se você está lendo isto, significa que tudo correu como devia.

Não fique triste porque a família brigou.

Eles entenderão e perdoarão.

E você, viva aqui e seja feliz.

Eu te amo.

Vovó Masha.»

Anna apertou o bilhete contra o peito e chorou.

Mas não eram lágrimas de tristeza, e sim de gratidão pela sábia velhinha que continuava cuidando dela mesmo depois da morte.