«Tu deste o meu apartamento de presente? Então prepara-te para perder tudo o que é teu.»

A história da Galina, que achava que já nada a poderia surpreender… mas o marido conseguiu.

Galina bateu a porta atrás de si e tirou os sapatos com um gesto cansado — os pés latejavam depois do dia de trabalho, mas no peito vivia uma alegria leve: hoje ela tinha feito aquilo com que sonhara durante muitos anos.

Tinha acabado de pagar completamente o empréstimo do seu apartamento.

Pequeno, acolhedor, seu.

Aquele que comprara ainda antes do casamento, quando trabalhava doze horas por dia, não se permitia férias, nem restaurantes, nem sequer um casaco novo.

Na cozinha cheirava a batata frita.

A frigideira ainda chiava no fogão, na mesa estava um prato sujo.

Serguei estava em casa, em algum lugar.

— Serguei? — chamou ela, tirando o casaco.

Da sala ouviu-se um resmungar qualquer.

Galina entrou e viu o marido, que apressadamente bloqueou o telemóvel e levantou os olhos.

— Ah, chegaste.

— Sim, — ela sentou-se na cadeira. — Hoje paguei a última prestação.

Pronto.

O banco já não manda em mim.

Agora o apartamento é completamente meu.

Serguei desviou o olhar.

Galina ficou em alerta.

— Aconteceu alguma coisa?

Ele coçou a nuca, apertou os lábios.

— Na verdade… sim.

— O quê? Fala.

Ele suspirou, como se estivesse a reunir coragem.

— Eu… dei o teu apartamento à Lena.

O silêncio caiu pesado como uma placa de betão.

Galina pestanejou devagar.

— Como?

— Mas para a Lena é difícil… dois filhos… renda… E nós temos onde morar… — murmurou ele. — Somos família, não somos?

Está tudo em comum.

Galina levantou-se.

Nos olhos dela brilhavam faíscas de raiva.

— Tu… deste… o meu apartamento? — cada palavra era como uma pancada.

— E então, qual é o problema? — ele afastou a mão. — Tu não és forreta.

E a minha irmã precisa de ajuda.

Galina olhava para ele, e na cabeça dela só ecoava uma frase:

Como é que ele se atreveu?

— Quando? — sussurrou.

Serguei desviou os olhos.

— Há um mês… A Lena já se mudou.

Está lá há uma semana.

Galina sentiu como se um fogo se acendesse no peito.

Virou-se e foi para o quarto, ignorando os gritos dele:

— Vá lá, pára com isso! Vais fazer uma cena por causa de um apartamento?!

Galina agarrou no telemóvel.

As mãos tremiam-lhe.

Marcou o número da Marina — amiga advogada.

…Depois entrou o Serguei.

Sentou-se na beira da cama.

Ficou calado.

Galina levantou-se devagar, pegou na mala e começou a atirar coisas lá para dentro.

— Para onde é que vais?! — perguntou ele, assustado.

— Para o MEU apartamento, Serguei.

Ver como é que a tua irmã se instalou lá.

E saiu, batendo a porta com força.

CONTINUAÇÃO (≈3000 palavras)

1. No apartamento “oferecido”

Na rua estava húmido.

O alcatrão brilhava como um espelho.

Galina chamou um táxi — as mãos tremiam tanto que mal conseguia carregar no ecrã.

Enquanto o carro seguia, ela tentava respirar fundo.

Mas a cada curva em direção ao prédio que em tempos tinha sido o seu porto seguro, por dentro tudo ficava mais frio.

O táxi parou.

Galina saiu.

À frente da entrada — um carrinho de bebé colorido.

Botinhas de criança, pousadas à pressa junto da porta.

Sacolas de supermercado.

A casa dela.

O apartamento dela.

A vida dela.

Subiu ao seu andar.

Parou diante da própria porta.

O coração batia-lhe nas têmporas.

Campainha.

A porta abriu-se quase imediatamente.

No limiar — Lena.

De robe, com a toalha enrolada na cabeça, com um sorriso que irritava só pela autoconfiança.

— Ai, Galya! Olá! — abriu os braços. — Então, vieste dar-nos os parabéns pela casa nova?

Escureceu à frente dos olhos de Galina.

— Dar os parabéns? — a voz falhou. — No MEU apartamento? Sem eu saber de nada?

Lena bufou.

— Vá lá… O Serguei disse-te. Vocês são família. E além disso, tu nem moravas aqui.

Galina deu um passo em frente.

— Sai da frente.

O tom foi tal que Lena recuou involuntariamente.

Galina entrou.

E foi invadida por uma sensação como se alguém tivesse pegado numa borracha e apagado todas as suas lembranças.

Nas paredes — desenhos de crianças estranhas.

No chão — montes de brinquedos.

Os armários dela — cheios de coisas de outros.

Até a lâmpada de secretária dela a Lena tinha posto no quarto das crianças.

Algo estalou por dentro.

Partiu-se de vez.

— Tu não tens direito de viver aqui, — disse Galina em voz baixa.

Lena levantou o queixo.

— Tenho, sim! A escritura de doação está feita! Está tudo dentro da lei!

Galina sorriu.

Devagar.

De um modo muito perigoso.

— Lena… tu achas mesmo que esta história vai acabar com uma escritura de doação?

Lena fez uma careta.

— Ai, não comeces.

— Já comecei.

Galina virou costas e saiu, batendo a porta — não como em casa.

De tal maneira que até caiu estuque.

Foi em direção à rua com uma determinação fria.

Agora era guerra.

2. A advogada, os documentos e o primeiro golpe

No dia seguinte, Galina estava sentada no gabinete da Marina.

Ela folheava com atenção a pasta de documentos.

— Má coisa, — disse finalmente.

— Assim tão má? — perguntou Galina em voz baixa.

— Há um pormenor.

Sim, ele tornou-se comproprietário.

Mas! — a Marina levantou o dedo. — A doação foi feita depois de ele saber que o apartamento tinha sido comprado antes do casamento, que eras só tu que pagavas o empréstimo.

Além disso — doação de bem ao familiar, se o outro cônjuge é contra.

Isso pode ser contestado.

Especialmente se provarmos que é bem pessoal.

Há hipóteses.

Galina soltou um suspiro de alívio.

Marina continuou:

— Mas é preciso tempo.

E dinheiro.

Perícia, advogado…

— Faço tudo, — disse Galina com firmeza.

Marina acenou com a cabeça.

— Então prepara-te.

Isto não vai ser uma batalha rápida.

Galina levantou-se.

Batalha é batalha.

3. Uma casa em que já não há nada para salvar

Quando Galina voltou para casa, o Serguei estava sentado na cozinha, a olhar para uma caneca de chá frio.

— Então, o que é que decidiste? — perguntou ele, sem levantar os olhos.

— Decidi, — Galina pousou os documentos na mesa. — Vou entrar com uma ação em tribunal.

Para anulação da doação, para partilha de bens e para divórcio.

Serguei ergueu-se de um salto.

— O QUÊ?!

— Ouviste bem.

Ele levantou-se e inclinou-se sobre ela.

— Então por causa de um cubículo vais destruir o casamento?!

Galina levantou os olhos para ele.

— O casamento foste tu que destruíste.

No momento em que, às escondidas, deste de presente aquilo que era meu.

Serguei começou a andar de um lado para o outro pela cozinha.

— Não te atrevas.

Isso é uma loucura!

É só um apartamento!

Ela levantou-se devagar.

— Se para ti o meu apartamento é “só um apartamento”… então prepara-te para descobrir que os teus bens são “só bens”.

Serguei empalideceu.

— O que é… o que é que tu andas a tramar?

Galina aproximou-se dele.

— Vais descobrir em tribunal.

4. Uma aliada inesperada

Passou uma semana.

Enquanto decorriam as primeiras consultas, Galina recolhia documentos, provas.

Passou a viver em casa da amiga.

Não queria voltar para casa — o ar lá era pesado como cinza.

E de repente — um telefonema.

Inesperado.

— Galina? É a Lena… — a voz era nervosa.

Galina ficou em silêncio.

— Olha… aconteceu uma coisa… podemos encontrar-nos?

— Para quê? — perguntou Galina friamente.

— Eu… eu estava errada.

Posso explicar?

Era estranho.

Muito estranho.

Mas Galina aceitou.

Encontraram-se num café.

Lena apareceu pálida, agitada.

— Galya… o Serguei… — baixou a voz. — Ele deu a entender que, se eu não assinar uma coisinha… ele tira-nos o apartamento.

Galina levantou uma sobrancelha.

— Ele é “corajoso” só com o que é meu.

Com o que é dele não quer mexer.

Lena mordia os lábios.

— Ele disse… que tu entraste com uma ação… e que para mim vai ser pior se eu não jogar pelas regras dele.

Galina inspirou devagar.

— Então está a usar-te.

Como eu já imaginava.

Lena acenou, quase a chorar.

— Eu não quero problemas!

Esse apartamento nem é assim tão importante para mim…

Eu só pensei… somos família…

Galina olhou-a atentamente.

— Estás disposta a assinar a renúncia?

Lena acenou com a cabeça.

— Sim! Sim.

Não quero participar nisto.

Pela primeira vez em muito tempo, Galina sentiu uma certa leveza.

— Está bem.

Então ouve.

E começou a explicar o que era preciso fazer.

5. O contra-ataque

Na sessão seguinte, o Serguei apareceu confiante, como sempre.

Mas quando o juiz leu a declaração da Lena — renúncia à doação, reconhecimento do ato como nulo por pressão e engano — a cara de Serguei ficou completamente desfigurada.

— O QUÊ?! — saltou. — Tu… Lena, o que é que estás a dizer?!

Lena tremia, mas falava com clareza:

— Tu obrigaste-me.

Disseste que, caso contrário, seria pior para nós.

Eu não quero esse apartamento.

Não quero fazer parte dos teus joguinhos.

Serguei ficou vermelho como um tomate.

Galina estava sentada tranquila.

Como uma pedra.

Como uma parede de gelo.

— É mentira! — berrava o Serguei. — Vocês combinaram isto entre vocês!

O juiz levantou os olhos.

— Por favor, mantenha a calma.

Mas o Serguei já estava a perder o controlo.

Quando a sessão terminou, ele avançou para a Galina.

— Foste tu que a viraste contra mim! Estás a destruir a minha vida!

Galina respondeu calmamente:

— Não, Serguei.

Eu só recuperei a minha.

Ele cerrou os punhos.

— Eu nunca te vou perdoar isto.

Ela sorriu friamente:

— E eu já não quero nada de ti.

6. O final que ele não esperava

Dois meses depois, o tribunal proferiu a decisão:

🔹 a doação é considerada nula

🔹 o apartamento é devolvido à Galina

🔹 o Serguei é obrigado a pagar as custas judiciais

🔹 a pedido dela é iniciado o processo de divórcio

🔹 a questão da partilha dos bens dele — ainda está para vir

Quando Galina recebeu as chaves do seu apartamento, abriu a porta e inspirou o ar.

Lena já tinha tirado tudo.

No apartamento reinava o silêncio.

Galina entrou no quarto, passou a mão pela parede e disse:

— Voltei.

O telemóvel tocou.

Serguei.

Ela não atendeu.

Saiu para a varanda.

A cidade fazia barulho.

Lá em baixo as pessoas apressavam-se, os carros buzinavam, a vida corria.

Galina fechou os olhos.

Tudo estava apenas a começar.

Mas agora — era a vida dela.

Sem traidores.

Sem negócios escondidos.

Sem “está tudo em comum”.

Só dela.

E ela sabia —

mais ninguém ia decidir por ela.

O apartamento foi-se enchendo aos poucos de vida.

Galina foi devolvendo cada detalhe — comprava cortinas novas, pintava as paredes, deitava fora tudo o que a Lena tinha deixado.

Queria apagar até o cheiro de pessoas estranhas que tinha ficado no ar.

Na primeira noite dormiu num colchão que tinha mandado num táxi — mas pela primeira vez em muito tempo dormiu tranquila.

O telemóvel continuava a vibrar de duas em duas horas.

Serguei.

Primeiro ameaças.

Depois súplicas.

Depois lágrimas.

Ela não atendeu uma única vez.

Ao terceiro dia ele apareceu em pessoa.

1. A visita inesperada

A campainha tocou de forma insistente, quase agressiva.

Galina aproximou-se e olhou pelo óculo da porta.

Serguei.

Olhos vermelhos, lábios comprimidos, cabelo despenteado.

Parecia que não dormia há três dias.

— Galya, abre.

Temos de falar, — a voz falhava-lhe.

Galina afastou-se da porta.

Nem sequer lhe apetecia abrir.

Mas… era importante pôr um ponto final.

Fechou a corrente e abriu a porta apenas uma fresta.

— Fala.

Serguei levantou a cabeça.

O olhar era de raiva — não de dor, mas de orgulho ferido.

— Tu destruíste tudo, — sibilou.

— Não.

Eu salvei-me a mim, — respondeu Galina calmamente. — Tu é que andaste a destruir tudo, devagar e com paciência.

Ele cerrou os punhos.

— Sem ti eu… eu… — engasgou-se. — Eu pensei que tu me fosses perdoar.

Tu perdoaste-me sempre.

Galina sorriu de lado.

— Porque antes tu só passavas o limite, Serguei.

Agora tu queimaste-o.

Ele carregou contra a porta.

— Abre, temos de falar em condições!

— Chamas a isto “em condições”?

Quando entras à força na vida dos outros e decides que é tua?

Serguei rosnou, bateu com a palma na porta.

— Queres que eu me ponha de joelhos, é isso?!

Que me humilhe?!

Galina olhou friamente pelo óculo.

— Não.

Quero que te vás embora.

E fechou a porta na cara dele.

Serguei ainda bateu, gritou, ameaçou durante mais um minuto, mas de repente calou-se.

Galina ouviu os passos a descerem as escadas.

Voltou para o apartamento.

Sentou-se no peitoril da janela.

E pela primeira vez sentiu por dentro uma sensação estranha e pouco habitual:

liberdade.

2. A carta que muda tudo

Passaram duas semanas.

Galina ia, pouco a pouco, entrando no ritmo da nova vida: trabalho, advogados, preparação dos papéis para o divórcio.

Quando já começava a habituar-se ao silêncio, apareceu uma carta na caixa do correio.

Um envelope normal, sem remetente.

Ela abriu-o ali mesmo, no patamar.

E ficou paralisada.

Lá dentro havia:

1. uma cópia de um contrato de crédito

2. uma certidão da dívida do Serguei

3. uma carta de uma empresa de cobranças

E um bilhete manuscrito:

«Ele escondia-te isto.

Tu tens de saber.

— L.»

Lena.

Galina entrou em casa, fechou a porta à chave, sentou-se na cadeira e leu os papéis outra vez.

O Serguei tinha um crédito enorme.

Tinha-o pedido há dois anos.

Tinha falsificado a assinatura da Galina.

Se não se tivessem divorciado — ela seria responsável por metade da dívida.

As mãos tremeram-lhe.

— Que canalha… — sussurrou.

Agora tudo ficava claro:

Porque é que ele resistia tanto ao divórcio.

Porque gritava.

Porque tinha tanto medo de que ela fosse embora.

Ele não queria perdê-la.

Mas não porque a amasse.

Porque afundar-se-ia sozinho com as suas dívidas.

Galina levantou-se.

— Está bem, Serguei.

Então vamos jogar com os teus métodos.

Pegou no telemóvel e marcou o número da Marina.

— Olá, Marina.

Preciso de apresentar uma queixa… sim, por falsificação de assinatura.

Sim, é crime.

Não, não mudei de ideias.

E acrescentou:

— E sabes que mais, Marina… agora eu não quero só o divórcio.

Quero que ele perceba que comigo não se faz isto.

Marina sorriu do outro lado da linha:

— Então vamos tratar disto a sério.

3. O dia de tribunal que pôs tudo no lugar

A sala do tribunal estava cheia.

Serguei estava sentado, encolhido, abatido, mas ainda a tentar manter a máscara de “marido ofendido”.

Quando o juiz leu os novos elementos — o crédito, a assinatura falsificada, o engano ao cônjuge — o Serguei tentou levantar-se de um salto.

— É mentira! Ela inventou isto tudo! — gritou, agitando os braços.

O juiz bateu com o martelo:

— Mais uma perturbação da ordem e o senhor será retirado da sala.

Serguei voltou a sentar-se, mas o rosto gritava ódio e desespero.

Galina estava sentada direita, tranquila, as mãos pousadas no colo.

Já não tinha medo dele.

Já nem sequer sentia raiva.

Só restava a sensação de estar diante de um estranho com quem a vida a tinha cruzado por acaso.

O juiz leu a decisão:

🔹 o divórcio é concedido

🔹 o apartamento fica para a Galina

🔹 o Serguei tem de pagar sozinho a dívida

🔹 os elementos sobre a falsificação de assinatura são enviados à polícia

🔹 a Galina não é responsável pelas obrigações de crédito dele

🔹 o Serguei tem de pagar uma indemnização por danos morais

Serguei tapou o rosto com as mãos.

Depois olhou para a Galina — o olhar cheio de ódio, de fúria, mas ao mesmo tempo… quebrado.

— Tu destruíste-me, — sussurrou.

Galina levantou-se, pegou na mala e respondeu em voz baixa:

— Não, Serguei.

Foste tu que te destruíste sozinho.

Eu só deixei de te salvar.

Ela saiu da sala sob uma tempestade de emoções, palavras e olhares alheios — mas por dentro havia silêncio.

Puro.

Quente.

Seu.

4. Um novo capítulo

Passaram três meses.

Galina vivia no seu apartamento renovado.

Fez obras, comprou móveis novos, enfeitava a casa com flores e quadros.

Trabalhava.

Mudou de penteado.

Inscreveu-se no ginásio.

Às vezes sentia uma leve inquietação ao lembrar-se do passado.

Às vezes acordava com um nó na garganta.

Mas isso passava.

Uma noite, a Lena ligou-lhe.

— Galya? — a voz era baixa. — Quero dizer obrigada.

Tu podias ter-nos afundado com ele.

Mas… não fizeste isso.

Galina sorriu.

— A tua única culpa foi teres acreditado nele.

Eu também acreditei, um dia.

Ficaram caladas por uns segundos.

E de repente a Lena acrescentou:

— Estás diferente.

Ficaste… mais forte.

Galina olhou pela janela.

A cidade brilhava de luzes.

— Não, Lena.

Eu só finalmente deixei de ser conveniente.

5. O ponto final (e um pequeno começo)

Nesse dia ela ficou até tarde no trabalho.

Os colegas festejavam o fim de um projeto, e a Galina, pela primeira vez em muitos anos, permitiu-se relaxar.

Na rua, foi abordada por um homem — um novo colega que se tinha mudado há pouco para a cidade.

Dmitri.

Alto, calmo, com um sorriso suave.

— Não se importa que eu a acompanhe? Já está escuro.

Galina surpreendeu-se a si mesma — aceitou.

Foram caminhando pelas ruas iluminadas, falaram de trabalho, de planos, de vida.

E pela primeira vez em muito tempo, Galina apercebeu-se de que lhe… sabia bem.

Ir ao lado de alguém.

Ouvir.

Rir.

Quando chegaram ao prédio dela, Dmitri, um pouco envergonhado, disse:

— Você é uma mulher extraordinária.

Não sei pelo que passou, mas… mantém-se como se o mundo não a pudesse quebrar.

Ela olhou-o nos olhos.

— Porque agora — não pode mesmo.

Ele sorriu.

Galina subiu, entrou no apartamento, fechou a porta e encostou as costas à parede.

Sentia-se bem.

Calma, tranquila, segura.

E pela primeira vez em muito tempo, não tinha medo do futuro.

Tinha apenas um pensamento:

«Eu estou a viver outra vez.»